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Ergun Caner: O ex-muçulmano que dirigiu o seminário da Liberty e pregou que Deus ama a todos
Neste texto
- Vida
- De Estocolmo a Ohio
- Formação e pastorado
- Depois de 11 de setembro
- O seminário da Liberty
- A revisão de 2010
- Arlington e Brewton-Parker
- Pensamento
- Nem calvinista, nem arminiano
- O amor de Deus por todos
- Graça, e não balança
- Onde ele se afasta do arminianismo clássico
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 15 de abril de 2005, no teatro da Estação Aérea dos Fuzileiros Navais de New River, na Carolina do Norte, um homem de cabeça raspada e cavanhaque explicou a um esquadrão prestes a partir em missão o que se entende mal sobre a jihad. Era Ergun Caner, nomeado dois meses antes diretor do Liberty Baptist Theological Seminary, na Virgínia, e apresentado como o primeiro ex-muçulmano a dirigir um seminário evangélico. Nos anos seguintes ele seria um dos críticos mais barulhentos do calvinismo entre os batistas americanos, e a sua própria história passaria por uma revisão pública.
Vida
De Estocolmo a Ohio
Ergun Michael Caner nasceu em Estocolmo, na Suécia, em 3 de novembro de 1966, o mais velho dos três filhos de Acar Mehmet Caner, um turco muçulmano, e de Monica, uma sueca luterana. Em 1969 a família se mudou para Ohio, nos Estados Unidos, onde o pai se naturalizou americano em 1976. O caçula, Emir, nasceu já em Ohio.
No prefácio de Unveiling Islam, os irmãos lembram o pai jogando futebol em Galion e cantando canções turcas no carro. Os pais se divorciaram em 1978, e a guarda dos filhos ficou com a mãe. Em 1982 um colega de escola convidou Ergun para uma série de reuniões de avivamento na Stelzer Road Baptist Church, em Columbus, e ali ele se converteu a Cristo. Os irmãos se converteram e foram batizados nos meses seguintes, e o pai deserdou os três. Eles o viram pela última vez em agosto de 1999, quando morria de câncer. Quatro dias antes da morte, Acar Caner deu a cada filho um exemplar do Alcorão e disse: “Lembre-se de que eu fui um homem bom”.
Formação e pastorado
Caner se formou no Cumberland College, no Kentucky (1989), fez mestrado em história no Criswell College, em Dallas (1992), mestrados em Divindade (1994) e em Teologia (1995) no Southeastern Baptist Theological Seminary e o doutorado em teologia na Universidade da África do Sul.
No começo dos anos 1990 foi pastor na Carolina do Norte e escreveu para a Baptist Press, a agência de notícias da Convenção Batista do Sul, com a assinatura E. Michael Caner. Depois pastoreou em Aurora, no Colorado, e esteve entre os ministros que atenderam os alunos da Columbine High School depois do massacre de 20 de abril de 1999. Voltou então ao Criswell College como professor de teologia e história da igreja. Ao sair, em 2003, resumiu o seu ensino: “Não se pode ter boa doxologia sem boa teologia”.
Depois de 11 de setembro
Depois dos ataques de 11 de setembro de 2001, os irmãos passaram a ser chamados para falar sobre o islã e escreveram Unveiling Islam (Kregel, 2002), lançado no Brasil pela Editora Vida como Islã sem véu (2004). O livro recebeu o prêmio Gold Medallion dos editores cristãos, passou de cem mil exemplares em pouco mais de um ano e ganhou uma edição revista em 2009. Vieram depois More Than a Prophet (2003), sobre as objeções muçulmanas ao cristianismo, e Christian Jihad (2004), em que os dois examinam as Cruzadas e pedem que os cristãos encarem as atrocidades cometidas em nome de Cristo. Ergun pregou duas vezes na Conferência de Pastores da convenção, e uma frase de 2004 ficou associada a ele: “Jesus amarrou uma cruz nas costas para que eu não precisasse amarrar uma bomba nas minhas”.
O seminário da Liberty
Em 2003 Caner foi para Lynchburg como professor associado de teologia e história da igreja na Liberty University, onde trabalhou ao lado do cofundador Elmer Towns. Em fevereiro de 2005, aos 38 anos, Jerry Falwell o nomeou diretor do Liberty Baptist Theological Seminary. Prometeu restabelecer as línguas bíblicas, criar centros de apologética global e de estudos pré-milenistas e formar “generais” que entendessem a mente do adversário. Sob a sua direção o número de alunos triplicou. Organizou com Ed Hindson The Popular Encyclopedia of Apologetics (2008) e escreveu Holier Than Thou: When Faith Becomes Toxic (2009), sobre a religiosidade que adoece a fé.
Em fevereiro de 2006, numa discussão no blog dos Founders Ministries, grupo calvinista da Convenção Batista do Sul, Caner escreveu que os calvinistas tinham matado as suas igrejas com “sermões expondo a Confissão de Westminster”. Em 9 de abril pregou na Thomas Road Baptist Church, a igreja de Falwell, o sermão “Por que estou predestinado a nunca ser calvinista (ou hipercalvinista)”. Um debate dos irmãos Caner com o pastor Tom Ascol e o apologista James White, marcado para 16 de outubro na mesma igreja, foi cancelado uma semana antes por desacordos sobre as regras. O tema que os Caner tinham proposto dizia muito: Deus é benevolente para com toda a humanidade, na salvação e na oportunidade.
A revisão de 2010
A partir de 2009, blogueiros compararam gravações das palestras de Caner, em que ele dizia ter crescido na Turquia, ter chegado aos Estados Unidos em 1978 e ter sido treinado para a jihad, enquanto os documentos mostravam a família em Ohio desde 1969, como o próprio Unveiling Islam contava. Em fevereiro de 2010 ele admitiu “erros de púlpito” e disse nunca ter tido a intenção de enganar ninguém. A Liberty abriu uma revisão formal em maio, e em 25 de junho os curadores concluíram que ele tinha feito “afirmações factuais que se contradizem” sobre datas, nomes e lugares de residência, mas aceitaram o essencial do seu testemunho: cresceu numa família muçulmana e se converteu na adolescência. Caner pediu desculpas, deixou a direção do seminário em 30 de junho e ficou mais um ano como professor. Towns atribuiu parte da campanha contra ele à sua posição anticalvinista.
Arlington e Brewton-Parker
Em 2011 assumiu a vice-presidência acadêmica do Arlington Baptist College, no Texas. Em 2 de dezembro de 2013 foi eleito por unanimidade o 16º presidente do Brewton-Parker College, em Mount Vernon, na Geórgia, escola batista que estava sob advertência da agência de credenciamento. Um curador disse que o escolheram por causa dos ataques que ele sofrera, e não apesar deles. Em dezembro de 2014 a agência retirou a advertência.
Em 29 de julho de 2014 o filho mais velho, Braxton, morreu aos quinze anos, no Texas. Doze dias depois, Caner voltou ao púlpito na Northside Baptist Church, em Tifton, na Geórgia, e pregou sobre Habacuque, o profeta que pergunta onde está Deus na hora mais escura e ouve que o justo viverá pela fé (Habacuque 2:4). Pediu que os ouvintes levassem as suas perguntas a Deus em vez de fugir dele e disse que Deus não deve ser culpado pela tolice dos homens nem pelo mal. Em 20 de janeiro de 2015 deixou a presidência, dizendo que a faculdade não poderia crescer “sob a liderança de um homem que está quebrado”. Desde então prega como convidado em igrejas batistas.
Pensamento
Nem calvinista, nem arminiano
Classe: simpatizante. Caner rejeita os pontos centrais do calvinismo, a expiação limitada e a ideia de que Deus ame para salvar só alguns, mas não se apresenta como arminiano. Em 2006 ele e o irmão se disseram herdeiros da tradição batista “de expiação geral, de Sandy Creek, aparentada com os anabatistas”. Sandy Creek é a igreja fundada em 1755 por Shubal Stearns na Carolina do Norte, berço dos batistas avivalistas que faziam o convite do evangelho a todos; os anabatistas lembrados são Balthasar Hubmaier e Menno Simons. Emir resumiu a posição dos dois: a Escritura não cabe numa caixa, “seja o calvinismo, o arminianismo ou outra”. É a corrente que hoje se chama de batista “tradicional”, a de Jerry Vines, David L. Allen, Adam Harwood e Adrian Rogers.
O amor de Deus por todos
O sermão de 2006 partia de 1 Timóteo 2:1-8, onde Deus deseja que todos sejam salvos e Cristo se dá em resgate por todos. Dali Caner tirou quatro razões contra o que chamava de hipercalvinismo: a espiritual (quem nega o amor de Deus por todos não consegue descansar nele), a evangelística (não pode crer que Deus queira salvar todos), a teológica (não crê que Cristo morreu pelo mundo inteiro) e a missionária (não faz das missões uma obsessão). Ascol respondeu que o sermão atacava caricaturas, e o próprio Caner deu motivo à crítica quando escreveu, na edição de 2009 de Unveiling Islam, que alguns calvinistas agiam “pior que os muçulmanos”.
O que o distingue é o uso apologético dessa doutrina: o amor universal de Deus é o que separa o Deus da Bíblia do deus do islã. Comentando os versos do Alcorão em que Alá promete guiar, escreve que “a bondade de Alá é seletiva, e não universal como se vê no cristianismo”, e cita João 3:16. Aos críticos responde: “Mantemos a nossa visão de que Deus ‘amou o mundo’”, porque Deus não quer que ninguém pereça (2 Pedro 3:9), e recusa a ideia de um Deus que pudesse odiar alguém ou receber glória da sua condenação. Cristo morreu para que todo aquele que quiser possa vir, conclui, “e isso inclui os muçulmanos”.
Graça, e não balança
O segundo eixo é o contraste entre a graça e as obras. O pai cria, como o islã ensina, que todos nascem sem pecado e que no juízo as boas obras serão pesadas contra as más. Caner responde que todos nascem pecadores e precisam de um Salvador, que todo pecado é uma ofensa infinita contra um Deus santo e que um gesto de bondade não tira a culpa de um assassino. “No islã o pecado não é pago, é pesado numa balança.” No evangelho a pena foi cumprida: “Jesus Cristo pagou a pena infinita pelo pecado” (Unveiling Islam, 2009). É a doutrina da substituição penal, a mesma de Armínio e de Wesley, e a afirmação de que nascemos pecadores o põe, nesse ponto, ao lado do arminianismo clássico. A fé bíblica, escrevem os irmãos, é “sempre gratuita, mas nunca barata”, porque a salvação é dom e o senhorio de Cristo tem exigências.
Caner liga a idade da responsabilidade a Romanos 2:15: a criança ainda não responde diante de Deus como quem já entende que algo é errado em si mesmo. E o seu pré-milenismo, defendido também no volume coletivo The Return of Christ (2011), sustenta a defesa de Israel: se Deus pudesse romper a aliança incondicional com Abraão (Gênesis 12:1-3), argumenta, poderia romper a aliança da salvação prometida aos que creem (Jeremias 31:31-34).
Onde ele se afasta do arminianismo clássico
A primeira diferença aparece aí: Caner ensina a segurança eterna incondicional. O arminianismo, desde a Remonstrância, afirma a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada, como diz também a nossa declaração de fé.
A segunda diferença é a ausência de uma doutrina da graça preveniente. Caner afirma que o convite do evangelho é sincero para todos, mas não explica como uma vontade caída pode responder. Para Armínio, na Declaração de Sentimentos (1608), o homem caído não pode, por si mesmo, pensar, querer ou fazer o bem, e a fé só é possível porque a graça preveniente, uma obra do Espírito que vem antes de qualquer resposta, liberta a vontade. É essa graça que impede que a fé vire o primeiro passo do homem.
A terceira diferença é a escatologia: a nossa declaração de fé é amilenista e lê os mil anos de Apocalipse 20 como o período atual, e não como um reino terreno depois da volta de Cristo.
Em comum ficam o amor de Deus por todos, a expiação universal, a substituição penal, a salvação pela graça mediante a fé e a urgência missionária. No livro e no púlpito, a mensagem de Caner foi a mesma: o Deus que se revelou em Cristo não pesa as obras numa balança, mas paga a dívida, e oferece isso a todos.
Obras principais
- Unveiling Islam: An Insider’s Look at Muslim Life and Beliefs (Kregel, 2002; edição revista e ampliada, 2009), com Emir Caner.
- More Than a Prophet (Kregel, 2003), com Emir Caner.
- The Sacred Trust: Sketches of the Southern Baptist Convention Presidents (B&H, 2003), com Emir Caner.
- The Sacred Desk: Sermons of the Southern Baptist Convention Presidents (B&H, 2004), organizado com Emir Caner.
- Voices Behind the Veil: The World of Islam Through the Eyes of Women (Kregel, 2004), organizador.
- Christian Jihad: Two Former Muslims Look at the Crusades and Killing in the Name of Christ (Kregel, 2004), com Emir Caner.
- Why Churches Die: Diagnosing Lethal Poisons in the Body of Christ (B&H, 2005), com Mac Brunson.
- “Why I Am No Longer a Muslim”, em Norman L. Geisler e Paul K. Hoffman (orgs.), Why I Am a Christian (Baker, ed. revista, 2006).
- The Popular Encyclopedia of Apologetics (Harvest House, 2008), organizada com Ed Hindson.
- Holier Than Thou: When Faith Becomes Toxic (Abingdon, 2009).
- Capítulo em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), The Return of Christ: A Premillennial Perspective (B&H Academic, 2011).
Livros em português
- Islã sem véu (Vida, 2004), com Emir Caner. Ver na Amazon
Para aprofundar
- Ergun Caner e Emir Caner, Unveiling Islam, edição revista e ampliada (Kregel, 2009): prefácio, capítulo 9 (“Salvation: Mathematical Righteousness”), capítulo 17 e apêndice B.
- Tammi Reed Ledbetter, “Criswell College’s Ergun Caner moving to Liberty University”, Baptist Press (5 de maio de 2003).
- Baptist Press, “Ergun Caner named dean of Liberty Baptist Seminary” (17 de fevereiro de 2005).
- Tammi Reed Ledbetter, “Calvinism debate cancelled, but serious discussion still resulted”, Baptist Press (17 de outubro de 2006).
- Tom Ascol, “Why Dr. Caner thinks he is predestined never to be a Calvinist”, Founders Ministries (abril de 2006).
- John W. Kennedy, “Bloggers Target Seminary President”, Christianity Today (3 de maio de 2010).
- Bob Allen, “After investigation into claims, Liberty University demotes Ergun Caner”, Associated Baptist Press (28 de junho de 2010).
- Kate Tracy, “Christian College Picks Ex-Muslim as President Because of Controversy”, Christianity Today (5 de dezembro de 2013).
- Bob Allen, “New job reopens ex-Muslim controversy”, Baptist News Global (17 de dezembro de 2013).
- Bob Allen, “Preacher returns to pulpit after son’s suicide”, Baptist News Global (18 de agosto de 2014).
- Bob Allen, “Ergun Caner steps down as president of Brewton-Parker”, Baptist News Global (20 de janeiro de 2015).
- Flat Creek Baptist Church, sermão de Ergun Caner como pregador convidado (9 de fevereiro de 2025).
- Wikipédia, Ergun Caner.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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