
HistóriaTeólogos arminianos15 de 176
E. Y. Mullins: O teólogo batista que quis deixar para trás os rótulos de calvinista e arminiano
Neste texto
- Vida
- Mississippi e Texas
- Louisville, Harrodsburg e Baltimore
- O seminário
- Escritor e líder da denominação
- Pensamento
- Classe: simpatizante
- Uma eleição que não é por mérito nem por fé prevista
- Uma graça que persuade
- A perseverança
- Onde ele fica em relação ao arminianismo clássico
- A competência da alma
- Experiência, método e herança
- Obras principais
- Para aprofundar
Em 1880, numa série de reuniões de avivamento em Dallas, no Texas, o evangelista William E. Penn levou à fé um rapaz de vinte anos, ex-telegrafista, que se preparava para ser advogado. Batizado pelo próprio pai, pastor batista, ele trocou o direito pelo púlpito. Chamava-se Edgar Young Mullins. Quatro décadas depois, presidia ao mesmo tempo o maior seminário da Convenção Batista do Sul e a Aliança Batista Mundial, e a sua teologia tinha tirado boa parte dos batistas do Sul do calvinismo estrito sem fazer deles arminianos.
Vida
Mississippi e Texas
Mullins nasceu em 5 de janeiro de 1860 no condado de Franklin, no Mississippi. O pai, Seth Mullins, era professor, agricultor e pastor batista. Depois da Guerra Civil a família se mudou para Corsicana, no Texas, onde o menino aprendeu telegrafia e, aos quinze anos, já cuidava da estação da cidade. Em 1876 entrou na primeira turma da Faculdade Agrícola e Mecânica do Texas, a atual Texas A&M, e concluiu o curso em 1879.
Louisville, Harrodsburg e Baltimore
Depois da conversão, Mullins entrou em 1881 no Seminário Teológico Batista do Sul, em Louisville, no Kentucky, e se formou em 1885 entre os melhores alunos da turma. O plano era ir como missionário ao Brasil, mas a viagem não aconteceu, e ele assumiu a igreja batista de Harrodsburg, no Kentucky. Em 2 de junho de 1886 casou-se com Isla May Hawley. O casal teve dois filhos, e os dois morreram ainda pequenos.
De 1888 a 1895 pastoreou a Igreja Batista da Rua Lee, em Baltimore. Passou depois alguns meses em Richmond como secretário associado da Junta de Missões Estrangeiras, desentendeu-se com o secretário R. H. Willingham e aceitou o chamado da igreja batista de Newton Centre, perto de Boston, onde ficou quatro anos, longe das brigas do Sul.
O seminário
A briga mais séria era no seminário de Louisville. O presidente, William Heth Whitsitt, tinha publicado estudos que negavam o sucessionismo, a crença dos landmarkistas numa linha ininterrupta de igrejas batistas desde os apóstolos. Em 1898 a crise ameaçava a escola, e os curadores aceitaram a renúncia de Whitsitt. Procuraram alguém que tivesse ficado de fora da disputa e escolheram por unanimidade o pastor de Newton Centre. Mullins concordava com a leitura histórica de Whitsitt, mas tratou o tema com diplomacia, e chegou a deixar fora da sua teologia sistemática um capítulo sobre a igreja, o terreno mais sensível para os landmarkistas.
No discurso de posse, em 1899, disse que o seminário devia ficar ancorado na verdade doutrinária e comprometido com a melhor erudição cristã. Presidiu a escola até a morte e ensinou teologia sistemática durante todo esse tempo. Dobrou o corpo docente, criou cursos de educação religiosa e de missões mundiais, e o seminário se tornou o maior do mundo. Em 1926 a escola se mudou para um terreno de cerca de 23 hectares na Lexington Road, chamado The Beeches, em prédios erguidos em grande parte com dinheiro emprestado, dívida que pesaria nos anos da Grande Depressão.
Escritor e líder da denominação
Os livros nasceram da sala de aula. Em Why Is Christianity True? (1905) Mullins defendeu a fé a partir de Cristo e da experiência da regeneração. The Axioms of Religion (1908) se tornou a explicação mais lida do que significa ser batista, e Freedom and Authority in Religion (1913) mostrou Cristo como a autoridade que dá liberdade ao crente. Em 1910 assinou um dos ensaios de The Fundamentals, a coleção em defesa da fé evangélica que deu nome ao fundamentalismo. A obra maior saiu em 1917: The Christian Religion in Its Doctrinal Expression, a teologia sistemática de gerações de seminaristas batistas.
De 1921 a 1924 Mullins presidiu a Convenção Batista do Sul, em anos de discussão dura sobre a evolução. Em 1922 tinha visto os batistas do Norte rejeitarem a Confissão de New Hampshire como padrão doutrinário. No Sul, em 1925, foi ele quem apresentou o relatório que recomendava essa confissão, revisada e ampliada. O texto aprovado, The Baptist Faith and Message, respondia ao avanço do naturalismo afirmando que o cristianismo é sobrenatural na origem e na história. Ao mesmo tempo, Mullins resistia a quem queria prender os irmãos a fórmulas fixas. Em 1926, cobrado por um fundamentalista sobre a criação direta de Adão, respondeu por carta que quem tenta amarrar os irmãos a declarações estereotipadas “perdeu o espírito batista”.
De 1923 até a morte presidiu a Aliança Batista Mundial. Adoeceu em 1927, numa viagem à Polônia, e morreu em casa, em Louisville, em 23 de novembro de 1928, duas semanas depois de um derrame. A viúva publicou a biografia dele em 1929. O colega W. O. Carver o chamou de “o batista mais conhecido do mundo”.
Pensamento
Classe: simpatizante
Mullins é um simpatizante do arminianismo: rejeitou pontos centrais do calvinismo sem se dizer arminiano. No prefácio de The Christian Religion (1917) ele explica por quê. O arminianismo, escreve, “deixou de ver certas verdades essenciais sobre Deus” na defesa da liberdade humana, e o calvinismo “foi a extremos” no desejo de proteger a soberania divina. A conclusão é um programa: “estamos aprendendo a descartar os dois nomes”, para ficar mais perto das Escrituras e guardar o que há de verdadeiro em cada sistema. A Sociedade dos Arminianos Evangélicos o põe na sua cronologia com essa ressalva: ele não se chamava arminiano, mas teve papel decisivo no declínio do calvinismo na Convenção Batista do Sul.
Uma eleição que não é por mérito nem por fé prevista
O capítulo sobre a eleição em The Christian Religion se chama “Eleição: a iniciativa de Deus na salvação”. Mullins rejeita, em primeiro lugar, a ideia de uma soberania feita de “mera vontade”, separada do amor e da justiça de Deus. Foi esse método abstrato, diz ele, que levou formas da antiga teologia calvinista à dupla predestinação e à expiação limitada. Contra elas, afirma que Deus não criou ninguém para condenar, que a expiação de Cristo foi universal e que Deus não age como um déspota. A eleição de Abraão e de Israel serve de chave: Deus escolhe alguns para alcançar todos, e a eleição sempre foi “um princípio que alarga, e nunca que estreita”.
Mas ele não adota a eleição condicional de Armínio, aquela em que Deus elege os que ele sabe de antemão que vão crer. Mullins faz a pergunta de frente: Deus escolhe porque prevê a fé? Responde que Deus sem dúvida prevê a fé e que a fé é condição da salvação, mas que ela não é o fundamento da escolha. O evangelho é eficaz em uns e não em outros porque, nos primeiros, a graça de Deus age além do grau em que age nos outros. Com João 6:44, Atos 13:48 e Efésios 2:8-9, insiste que a fé, o arrependimento e as boas obras são dons de Deus.
Uma graça que persuade
O que o separa do calvinismo é o modo como essa graça age. A eleição, escreve, não coage a vontade: quando a pessoa aceita Cristo, o ato é dela, embora ela nunca o fizesse sem a ajuda da graça. A graça não é “irresistível” como uma força física, porque é um poder moral, espiritual e pessoal. Deus fala à inteligência, à consciência, às emoções e à vontade, pela pregação e pelo testemunho dos crentes, e o Espírito Santo convence do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8-11). Mullins afirma que a graça “não se torna eficaz até que os homens respondam livremente a ela”.
Ele também não atenua o pecado. A vontade humana tem uma inclinação que leva à rejeição do evangelho “inevitavelmente”, a não ser que a graça de Deus em Cristo a ajude. Vem daí o argumento que sustenta o capítulo: se o homem é livre e, deixado a si, sempre rejeita o evangelho, ninguém seria salvo sem uma intervenção de Deus, e essa intervenção, para respeitar a pessoa, tem de ser gradual, por meios morais e por agentes humanos. Deus elege pessoas para responder livremente e para alcançar outras, e o critério, para Mullins, lembra o boliche: Deus mira o pino que, atingido, derruba os outros. Paulo, o principal dos pecadores, seria um desses “homens estratégicos”.
Mullins admite que não sabe conciliar a soberania de Deus com a liberdade humana, e se recusa a sacrificar uma à outra. Na prática, o resultado é firme: ninguém é impedido de ser salvo a não ser pela própria vontade, Cristo morreu por todos, e a igreja tem ordem de pregar a todos.
A perseverança
Sobre a perseverança, Mullins critica de novo os dois lados: o calvinismo extremo, que deduz a salvação final de um plano lógico e ignora a resposta humana, e o arminianismo extremo, que deixa o destino do crente em suas próprias mãos. Para ele, as advertências de Hebreus 6:4-6 apontam um perigo real, e Filipenses 2:12-13 mostra as duas faces juntas. Mesmo assim, conclui que o fator decisivo é a graça e que “o resultado não é incerto”. Deus preserva o crente por uma graça que conquista a vontade, e não por uma graça que a atropela: “ele não constrói tanto muros quanto vontades”. A confissão de 1925 diz o mesmo de modo mais seco: “todos os verdadeiros crentes perseveram até o fim”.
Onde ele fica em relação ao arminianismo clássico
Diante do arminianismo clássico, Mullins concorda com Jacó Armínio e com John Wesley na expiação universal, na rejeição da reprovação incondicional, na graça que pode ser resistida e na incapacidade da vontade caída sem a graça. A iniciativa, nele, é sempre de Deus. Ele se afasta em dois pontos. A eleição não se apoia na fé prevista, e Deus dá a uns uma graça que não dá a outros, o que o põe mais perto dos “calvinistas moderados” do que da Declaração de Sentimentos de Armínio, cuja eleição é em Cristo e condicional. E a perseverança final é certa, ao passo que a declaração de fé deste site, com a Remonstrância e Wesley, ensina a perseverança condicional, em que o abandono da fé é possível. Mullins também não fala em graça preveniente dada a todas as pessoas: a graça que vem antes da fé aparece nele como a ação do Espírito pela palavra e pelos meios, e o que vence de fato a recusa humana é a “graça especial” com que Deus leva alguns a crer.
Entre os batistas do Sul, alguns foram adiante. Dale Moody, professor do mesmo seminário décadas depois, e Robert Shank negaram a perseverança incondicional. Outros, como Adrian Rogers e Adam Harwood, seguiram pelo caminho que hoje se chama provisionismo.
A competência da alma
A ideia mais lembrada de Mullins está em The Axioms of Religion. Para ele, o sentido histórico dos batistas cabe numa expressão: “a competência da alma em religião”. E explica: competência “sob Deus”, e não no sentido de autossuficiência humana, e sem nenhuma referência à questão do pecado e da capacidade humana. A ideia é que a religião é um assunto pessoal entre a alma e Deus, sem intermediários. Daí ele tira a recusa do batismo infantil, do governo episcopal e da religião “por procuração”, a separação entre Igreja e Estado, a membresia regenerada e o governo congregacional, que ele descreve como Cristo animando o próprio corpo pelo Espírito.
Dos seis axiomas do livro, o primeiro diz que o Deus santo e amoroso tem direito de ser soberano, e o quarto, que para ser responsável o homem tem de ser livre. Os dois convivem no livro, como conviviam na teologia dele.
Experiência, método e herança
Mullins leu Schleiermacher, William James e o personalismo de Borden Parker Bowne, e deu à experiência cristã um lugar central no método. Em 1918 o teólogo de Princeton Caspar Wistar Hodge reclamou, numa resenha, que não ficava claro se a experiência era só a condição para entender a revelação ou uma segunda fonte de conhecimento ao lado dela.
Por isso a herança dele é disputada. Os batistas moderados, na briga sobre a inerrância das décadas de 1970 e 1980, chegaram a criar uma “E. Y. Mullins Fellowship” e fizeram da competência da alma uma bandeira de liberdade individual. Os conservadores lembram que foi ele quem apresentou a confissão de 1925, e Albert Mohler, um dos seus sucessores no seminário, critica o peso que ele deu à experiência. O historiador Tom Nettles vê nele a origem de uma doutrina da salvação mais centrada no homem, que, popularizada por pregadores como Herschel Hobbs, levou a uma “arminianização” decisiva da teologia batista do Sul. Quem lê The Christian Religion encontra algo mais simples: um teólogo que queria que a doutrina da eleição servisse à pregação do evangelho a toda criatura.
Obras principais
- Why Is Christianity True? Christian Evidences (1905)
- The Axioms of Religion: A New Interpretation of the Baptist Faith (1908)
- “The Testimony of Christian Experience”, em The Fundamentals, vol. 3 (1910)
- Baptist Beliefs (1912)
- Freedom and Authority in Religion (1913)
- Commentary on Ephesians and Colossians (1913)
- The Life in Christ (1917), sermões
- The Christian Religion in Its Doctrinal Expression (1917)
- Talks on Soul Winning (1920)
- Spiritualism, a Delusion (1920)
- Christianity at the Cross Roads (1924)
Para aprofundar
- E. Y. Mullins, The Christian Religion in Its Doctrinal Expression (1917), especialmente o prefácio e os capítulos XIV (“Election: God’s Initiative in Salvation”) e XVI (“The Continuance of the Christian Life”), no Internet Archive.
- E. Y. Mullins, The Axioms of Religion (1908), no Internet Archive.
- E. Y. Mullins, Baptist Beliefs (1912), no Internet Archive.
- Steve Weaver, “Ten Baptists Everyone Should Know: Edgar Young Mullins”, Credo Magazine, 2020.
- R. Albert Mohler Jr., “E. Y. Mullins: The Axioms of Religion”, AlbertMohler.com, 2009.
- Russell D. Moore e Gregory A. Thornbury, “The Mystery of Mullins in Contemporary Southern Baptist Historiography”, The Southern Baptist Journal of Theology 3/4 (1999).
- Convenção Batista do Sul, The Baptist Faith and Message, quadro comparativo de 1925, 1963 e 2000.
- Society of Evangelical Arminians, “Arminian Timeline”.
- University of Alabama Libraries, “Mullins, Isla May, 1859-1936”, Alabama Authors.
- “Edgar Young Mullins”, Memória dos Batistas.
- “Edgar Young Mullins”, Wikipédia (em inglês).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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