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Earl C. Wolf: O pastor nazareno que ensinou a igreja a ler a Bíblia e a dar com alegria
Neste texto
Quando Earl C. Wolf era adolescente, o pai dele já tinha largado um bom emprego numa usina de aço para pastorear uma congregação nova, de missão, e a família tinha vendido a casa da Park Avenue para acompanhá-lo. Vieram anos de aperto, e o filho não entendia a alegria do pai. Mais de uma vez perguntou se não teria sido melhor continuar na usina e usar o salário para comprar terrenos para igrejas novas, sustentar missionários e ajudar a obra de Cristo de muitas outras maneiras. O pai respondeu: “Nunca conheci uma felicidade como a que encontrei em fazer a vontade de Deus”. Wolf contou essa conversa num artigo de 1977, e quase tudo o que ele escreveu em quarenta anos sobre dinheiro, família, Bíblia e santidade cabe naquela resposta.
Vida
Uma casa de pastor
Earl Clifford Wolf nasceu em 1914, filho do reverendo L. D. Wolf e da esposa dele. Foi a eles que dedicou o primeiro livro, como aos pais “que me apontaram Cristo pelo preceito e pela prática”.
O pai sentiu cedo o chamado ao ministério, mas, nas palavras do filho, “pegou um desvio” e passou os anos mais vigorosos da vida num papel secundário, como operário da indústria do aço. Perto dos cinquenta anos, entrou em contato com a Igreja do Nazareno, foi restaurado na fé e santificado, isto é, recebeu a inteira santificação, a segunda obra da graça que purifica o coração. Desde 1928 a família seguia o ensino da Igreja do Nazareno sobre a mordomia. De dia, L. D. Wolf cumpria o turno na usina; à noite, estudava o Curso de Estudos para Ministros. Quando surgiu uma igreja de missão, foi nomeado pastor, deixou o salário, vendeu a casa e mudou-se com a família.
A mãe criou oito filhos. Num intervalo de seis meses, perdeu uma filha de 12 anos, vítima de doença do coração, deu à luz um menino e viu morrer de pneumonia outra filha, de 3 anos. Wolf lembrava que naqueles meses ela não deixou de cantar. Os dois hinos dela eram “Is Your All on the Altar?” e “Sweet Will of God”, e ela os cantava na cozinha e na igreja. Foi também em casa que o menino aprendeu a dar: os pais adotaram o dízimo depois que um pastor novo desafiou a congregação, e o praticaram por trinta e cinco anos.
Do pai, Wolf guardou quatro lições: a felicidade está em fazer a vontade de Deus; quem crê de verdade na sua religião aceita qualquer sacrifício por ela; o corpo também é assunto de mordomia (o pai chamava os cigarros de “pregos de caixão”); e o valor de uma pessoa não se mede pelo que ela possui. Quando não tinha moedas no bolso, o velho pregador punha ali alguns pregos para fazê-los tilintar. “Uma religião que não custa nada não vale nada”, escreveu o filho.
Pastor na Pensilvânia
Earl Wolf foi ordenado presbítero da Igreja do Nazareno e pastoreou igrejas na Pensilvânia. Em 15 de novembro de 1946, em Norristown, assinou o prefácio de My Gold and God (“Meu ouro e Deus”), publicado pela Beacon Hill Press, de Kansas City, em 1947, como livro-texto do curso de Treinamento para o Serviço Cristão (Christian Service Training, o programa de cursos da denominação para leigos). No prefácio, Wolf conta que a convicção nasceu no pastorado: observando a congregação, viu que os membros fiéis na mordomia cresciam em caráter e em vida cristã.
Em 1950 ele começou a escrever com regularidade para o Herald of Holiness, a revista oficial da Igreja do Nazareno, assinando como pastor em Norristown e, a partir de 1951, como pastor em Oxford, também na Pensilvânia. Em 1953 saiu o segundo livro, The Living Word (“A Palavra viva”), um guia de leitura e de memorização da Bíblia escrito por incentivo de Lauriston J. Du Bois, líder da juventude nazarena. Nele Wolf lembra um leigo que ele pastoreou por quase seis anos e que lia a Bíblia e orava de madrugada, antes de enfrentar o trabalho pesado numa usina de aço.
Kansas City e a escola dominical
Em 15 de fevereiro de 1955, Wolf deixou Oxford e entrou para o Departamento de Escolas Dominicais da sede da denominação, em Kansas City, como diretor nacional da Divisão de Vida Familiar Cristã. Poucos meses depois já assinava também como diretor do trabalho com adultos. Promoveu a Semana Nacional da Família e defendeu o culto doméstico: num artigo de 1960, enumerou doze frutos do altar da família, entre eles unir a casa, ajudar os filhos a se tornarem cristãos e servir de testemunho às visitas.
Na primeira metade da década de 1960 foi editor do Bible School Journal, e em 1962 o Herald of Holiness o apresentava como diretor do trabalho com adultos e editor dos materiais do currículo de adultos do departamento. Era casado com Mildred e tinha três filhos. No mesmo ano publicou Better Adult Teaching, sobre o ensino de adultos. Em 1960 era também secretário da Comissão de Moral Pública da denominação. Escreveu contra o jogo, as loterias e o fumo, por exemplo em “Seven Counts Against Gambling” (1968), que chama a aposta de negação da mordomia da vida.
Em 1967 a Beacon Hill Press publicou o terceiro volume do Beacon Bible Commentary, o comentário wesleyano da Igreja do Nazareno, com os livros de Jó a Cântico dos Cânticos. O comentário de Provérbios é de Wolf, que divide o volume com Milo L. Chapman, W. T. Purkiser e A. F. Harper.
O treinamento de leigos
Na década de 1970 Wolf chegou à direção do programa em que tinha começado como autor. Em 1973 assinava como diretor executivo do Treinamento para o Serviço Cristão e, ao mesmo tempo, diretor de mordomia. Num artigo daquele ano, partindo de 2 Timóteo 2:2, explicou o propósito do programa: formar líderes leigos competentes e tornar os cristãos mais firmes na fé, porque cada geração precisa passar adiante a mensagem que recebeu. No mesmo número, Wolf atribuiu o crescimento da Igreja do Nazareno, além do poder do Espírito Santo e da mensagem da santidade, a líderes de alto nível, à ênfase na educação ao lado da evangelização e à editora da denominação. Em 1981 ele era diretor do Treinamento para o Serviço Cristão e dos Serviços de Capelania na sede internacional.
Os anos de escritor
Em 1982 o Herald of Holiness o apresentava como escritor e presbítero nazareno em Kansas City; em 1984, como presbítero aposentado; em 1987, como morador de St. Louis, no Missouri. Metade dos livros dele saiu na década de 1980: Tithing Is for Today (1980), sobre o dízimo; os estudos das cartas de João (1982) e do Êxodo para a série de estudos bíblicos para pequenos grupos da Beacon Hill Press; e Making the Bible Yours (1984), nova edição de The Living Word. Os artigos continuaram até 1987, e um deles saiu em português, em O Arauto da Santidade de novembro de 1982.
Pensamento
Earl C. Wolf pertence à tradição wesleyana de santidade. Era presbítero da Igreja do Nazareno, que ensina a graça para todos, a perseverança condicional e a inteira santificação, e resumiu a missão dela em 1954: “a nossa primeira tarefa é ajudar as pessoas a serem santas de coração”. Ao contrário de H. Orton Wiley, ele não escreveu um sistema de teologia; como pastor e editor, levou a teologia wesleyana para a escola dominical, para o orçamento da família e para o culto doméstico.
Santidade de coração
Em “Freedom Is Not Free” (“A liberdade não é de graça”, 1952), Wolf explica em que sentido a salvação é gratuita: ela “não pode ser merecida, não pode ser ganha” nem comprada com prata ou ouro, porque foi paga pelo sangue de Cristo (1 Pedro 1:18-19). E pergunta: “Não é um coração puro a mais custosa de todas as criações?”. No mesmo artigo aparece a fórmula wesleyana da santificação: “há uma morte em crise e há um morrer diário”. A crise é o momento em que o crente se consagra inteiramente a Deus e, pela fé, recebe a purificação do coração; o morrer diário é a vida inteira que se segue, de crescimento e de entrega. A força para isso vem do Deus “que tomou a iniciativa da nossa redenção”. É a ordem que o arminianismo wesleyano defende, em que a graça vem antes e sustenta cada resposta (ver Arminianismo: É Tudo Sobre a Graça).
Trinta anos depois, em “‘Me-ism’ Must Go” (1982), ele voltou ao tema contra o individualismo da década de 1970. A mensagem de “morrer para o eu”, que os antigos pregadores da santidade repetiam, soava estranha aos ouvidos modernos, mas era, para ele, “psicológica e biblicamente correta”. A crucificação do velho eu pecador não destrói a pessoa; dá a ela uma consciência nova de si como filho redimido de Deus, renovado à imagem de Deus. Em 1984, nos 75 anos da Igreja do Nazareno, insistiu que cada geração precisa experimentar a santidade de coração e de vida, sem viver da herança dos pais (ver Santificação: a reforma interior que dura a vida inteira).
A mordomia como fruto da graça
O tema mais constante de Wolf foi a mordomia, e ele a tratava como assunto espiritual, não como técnica de arrecadação. No prefácio de My Gold and God escreveu que a mordomia “não é um interesse de fronteira”, mas tem importância básica para a vida de todo filho de Deus. Entre o espírito de ganhar e o de dar, o cristão é “mordomo da graça e do ouro”. Wolf lembra o epitáfio de Adam Clarke, “ao dar luz aos outros, eu mesmo fui consumido”, e apresenta John Wesley como “grande mordomo”, com as três regras do sermão “O uso do dinheiro”: ganhe, economize e dê tudo o que puder. O último capítulo liga a generosidade, a regularidade e o sacrifício à vida espiritual.
Em “This Grace Also” (“Também nesta graça”, 1954), o argumento vem de 2 Coríntios 8:7: “sede também abundantes nesta graça”. Para Wolf, a liberalidade é fruto do Espírito. “Podemos dar sem graça, mas não podemos ter a liberalidade de uma igreja do Novo Testamento sem a graça de Deus.” Por isso atribuía o recorde de ofertas de 1953 à evangelização da santidade: pessoas santas de coração dão fruto. O dízimo, ensinou em 1955, não é uma barganha matemática com Deus, mas um princípio bíblico e um mínimo, e o amor é o que tira a má vontade da oferta (ver Deuteronômio 26:12: Dando o dízimo).
A Bíblia nas mãos de todos
The Living Word parte de uma convicção do prefácio: “muitos cristãos vivem no raso da vida quando poderiam estar desfrutando as coisas profundas do Espírito”. O livro pede que cada cristão tenha a sua própria Bíblia, marque nela o que lhe falou ao coração, mantenha um encontro diário com a Palavra num horário fixo e leia em oração, porque o Espírito Santo é o intérprete (João 16:13). “É melhor ler e entender dois versículos do que passar às pressas por dois capítulos.” A segunda parte traz um plano de memorização. Wolf cita o texto em que Wesley se chama “homem de um só livro”.
A vontade de Deus
Um artigo de 1987, “The Nevertheless of Gethsemane”, junta as lições da casa paterna. A partir da oração de Jesus em Mateus 26:39, “não seja como eu quero, mas sim como tu queres”, Wolf diz que Deus governa o mundo, mas deu às pessoas “uma medida de autonomia e liberdade”; o crente pede com ousadia, mas sem tentar arrancar de Deus a aprovação dos próprios planos. A submissão de Jesus no Getsêmani “não foi uma submissão fatalista”, mas a decisão firme de se identificar com a vontade e os propósitos redentores de Deus. Diante das crises, escreveu, só há dois caminhos de saída, “a amargura ou o enriquecimento”. É a teologia do hino da mãe e da resposta do pai: a soberania de Deus não anula a liberdade humana, e a felicidade está em querer o que Deus quer.
Nada disso se afasta da declaração de fé deste site, que também afirma a inteira santificação como obra da graça recebida pela fé.
Obras principais
- My Gold and God (Beacon Hill Press, 1947; novas tiragens em 1949 e 1951).
- The Living Word (Beacon Hill Press, 1953), reeditado como Making the Bible Yours (1984).
- Better Adult Teaching (Beacon Hill Press, 1962).
- Comentário de Provérbios em Beacon Bible Commentary, vol. 3: Job through Song of Solomon (Beacon Hill Press, 1967).
- Tithing Is for Today (Beacon Hill Press, 1980).
- I, II and III John, Beacon Small-Group Bible Studies (Beacon Hill Press, 1982).
- Exodus (Set Free), Beacon Small-Group Bible Studies (Beacon Hill Press, c. 1987).
- Artigos no Herald of Holiness (1950-1987).
Livros em português
- Comentário Bíblico Beacon, volume 3: Jó a Cantares de Salomão (CPAD), com o comentário de Provérbios escrito por Wolf. Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Earl C. Wolf, My Gold and God (1947), Wesleyan-Holiness Digital Library.
- Earl C. Wolf, The Living Word (1953), Wesleyan-Holiness Digital Library (edição digital da Holiness Data Ministry).
- Earl C. Wolf, “Lessons My Father Taught Me”, Herald of Holiness, 15 de junho de 1977.
- Earl C. Wolf, “Songs Mother Loved”, Herald of Holiness, 1º de maio de 1986.
- Earl C. Wolf, “Taking the Grudge Out of Giving”, Herald of Holiness, 17 de agosto de 1955.
- Earl C. Wolf, “Freedom Is Not Free”, Herald of Holiness, 5 de novembro de 1952.
- Earl C. Wolf, “This Grace Also”, Herald of Holiness, 24 de março de 1954.
- Departamento de Escolas Dominicais, nota sobre a chegada de Wolf à Divisão de Vida Familiar Cristã, Herald of Holiness, 27 de abril de 1955.
- Perfil da família Wolf e do diretor do trabalho com adultos, Herald of Holiness, 5 de setembro de 1962.
- Earl C. Wolf, “Your Family Altar Is Important”, Herald of Holiness, 14 de setembro de 1960.
- Earl C. Wolf, “Seven Counts Against Gambling”, Herald of Holiness, 14 de agosto de 1968.
- Earl C. Wolf, “Pass It On to Others”, e reportagem sobre a editora nazarena, Herald of Holiness, 5 de dezembro de 1973.
- Earl C. Wolf, “God Is Worth a Song”, Herald of Holiness, 1º de junho de 1981.
- Earl C. Wolf, “‘Me-ism’ Must Go”, Herald of Holiness, 1º de junho de 1982.
- Evelyn Stenbock, resenha de Making the Bible Yours, Herald of Holiness, 15 de julho de 1984.
- Earl C. Wolf, “Living Up to Our Heritage”, Herald of Holiness, 15 de setembro de 1984.
- Earl C. Wolf, “The Nevertheless of Gethsemane”, Herald of Holiness, 1º de abril de 1987.
- Earl C. Wolf, página do autor na Wesleyan-Holiness Digital Library, com os artigos de 1950 a 1987.
- Registros catalográficos de Tithing Is for Today, Making the Bible Yours e Better Adult Teaching, Internet Archive.
- Proverbs (Beacon Bible Commentary), Best Commentaries.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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