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David Wilkerson: O pastor do interior que levou o evangelho às gangues de Nova York

Diego Gonçalves14 min de leitura2.823 palavras

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Neste texto

Em fevereiro de 1958, o jovem pastor de uma pequena igreja das Assembleias de Deus em Philipsburg, na Pensilvânia, decidiu vender a televisão. Ele mesmo contou a pergunta que fez a Deus: “E se eu vendesse a televisão, Senhor, e passasse esse tempo orando?” (A Cruz e o Punhal, 1963). Passou a orar duas horas por noite. Pouco tempo depois, folheando a revista Life, viu a imagem de sete adolescentes de Nova York acusados de assassinato e sentiu que devia ir ajudá-los. David Wilkerson tinha 26 anos e pouco dinheiro, e foi. Daquela viagem nasceram o Desafio Jovem, um dos maiores ministérios de recuperação de dependentes químicos do mundo, e um livro lido por milhões de pessoas.

David Wilkerson durante uma conferência no Chile, em 2008
David Wilkerson durante uma conferência no Chile, 2008. Foto de Goose friend. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Uma família de pregadores pentecostais

David Wilkerson nasceu em 19 de maio de 1931, em Hammond, no estado de Indiana. Foi o segundo filho de uma família de pregadores pentecostais: o pai, Kenneth, era pastor, e o avô paterno tinha sido um evangelista de estilo exuberante. Cresceu em Barnesboro, na Pensilvânia, numa casa cheia de Bíblias. Contava que recebeu o batismo no Espírito Santo ainda menino e que começou a pregar aos 14 anos. A biografia escrita pelo filho Gary fala das inseguranças espirituais do pai e das fases em que ele resvalou para um legalismo excessivo.

Depois do ensino médio, estudou no Central Bible Institute (depois Central Bible College), a escola das Assembleias de Deus americanas em Springfield, no Missouri. Foi ordenado ministro da denominação em 1952. No ano seguinte casou com Gwendolyn Rose Carosso, a Gwen, com quem teve quatro filhos: Gary, Debbie, Bonnie e Evan. Pastoreou pequenas igrejas em Scottdale e em Philipsburg, no interior da Pensilvânia.

As gangues de Nova York

A imagem da Life mostrava os réus de um processo por assassinato que agitava Nova York. Wilkerson pegou dinheiro emprestado para a gasolina e os pedágios e dirigiu cerca de oito horas até a cidade. Em 28 de fevereiro de 1958 entrou no tribunal e pediu ao juiz para falar com os rapazes. O juiz mandou retirá-lo da sala. Uma foto da cena saiu nos jornais, e ele ficou conhecido como o pregador do interior que interrompeu o julgamento das gangues.

Nos meses seguintes, no dia de folga, ele percorria cerca de 560 quilômetros até Nova York, pregava nas esquinas, dormia no carro e voltava para a igreja. Ele lembrava que, nessas noites, ficava parado na calçada chorando. Em julho de 1958 alugou a St. Nicholas Arena, um ginásio de boxe, para uma reunião evangelística com os jovens. Nicky Cruz, líder da gangue dos Mau Maus, estava lá e se converteu, junto com boa parte do grupo. Cruz se tornou evangelista.

O Desafio Jovem

Wilkerson deixou o pastorado em Philipsburg em 1959 para se dedicar aos jovens da cidade. O trabalho, que começou com o nome de Teen-Age Evangelism, passou a se chamar Teen Challenge, o Desafio Jovem. Em 1960 abriu o primeiro centro, uma casa no Brooklyn onde dependentes de drogas e membros de gangues viviam juntos, estudavam a Bíblia e oravam. O irmão mais novo, Don Wilkerson, ajudou desde o começo e dirigiu o centro do Brooklyn por 26 anos. Vieram depois um programa em Chicago (1961) e uma fazenda de treinamento na Pensilvânia (1962). O ministério passou para o departamento de missões nacionais das Assembleias de Deus americanas e se espalhou pelo mundo. Na época da morte de Wilkerson, eram centenas de centros em dezenas de países. O Brasil entrou nessa história em 1973, quando o missionário Bernhard Johnson Jr. trouxe Wilkerson para uma série de cruzadas e, em seguida, ajudou a fundar o Desafio Jovem do Brasil.

O método do Desafio Jovem era a conversão a Cristo, a oração, o estudo da Bíblia e a vida em comunidade, muitas vezes com o batismo no Espírito Santo. Um interno resumiu a rotina a um psiquiatra desconfiado: “Deus de manhã, Jesus à tarde e o Espírito Santo à noite”. O ministério divulgou durante anos um índice de recuperação de 86%, tirado de uma pesquisa de 1975, e críticos apontaram em 2001 que o número deixava de fora os cerca de 30% que não terminavam o programa.

A Cruz e o Punhal

Em 1963 saiu The Cross and the Switchblade (A Cruz e o Punhal), escrito com John e Elizabeth Sherrill. O livro narra os primeiros anos em Nova York e vendeu milhões de exemplares em mais de trinta línguas. A revista Christianity Today o pôs entre os cinquenta livros que mais moldaram os evangélicos. Em 1970 virou filme, com Pat Boone no papel de Wilkerson e Erik Estrada no de Nicky Cruz.

Em fevereiro de 1967, professores e estudantes católicos da Universidade Duquesne, em Pittsburgh, impressionados com a leitura de A Cruz e o Punhal, fizeram um retiro para buscar a experiência descrita ali. Aquele fim de semana é contado como o início da renovação carismática católica.

Lindale e o pregador das advertências

Em 1967 Wilkerson lançou as Youth Crusades, cruzadas para os adolescentes de classe média, os “bonzinhos” que ainda não tinham caído nas drogas. Em 1971 mudou a sede do ministério para Lindale, no Texas, e fundou a World Challenge, que reuniu cruzadas, editora, centros de recuperação e obras de assistência.

Em abril de 1973 teve uma visão que registrou no livro The Vision (1974): confusão econômica mundial, desastres naturais, rebeldia da juventude e perseguição contra os cristãos cheios do Espírito. Dizia, com o profeta Amós, que não era profeta nem filho de profeta, mas as advertências o tornaram admirado por uns e criticado por outros, e parte das previsões não se cumpriu. Em 1986, num sermão sobre a apostasia, contou que pastores da sua própria denominação lhe escreviam cartas de censura, acusando-o de espalhar confusão e pessimismo no corpo de Cristo.

A Times Square Church

Em 1986 Wilkerson voltou a Nova York e andou pela rua 42, então tomada por cinemas pornográficos, prostituição e drogas. Viu crianças fumando crack e orou chorando para que Deus levantasse um testemunho naquele lugar. Em outubro de 1987 abriu a Times Square Church, que se reuniu primeiro no Town Hall e depois no Nederlander Theater. Em 1989 a igreja passou para o antigo Mark Hellinger Theatre, na Broadway, que depois comprou. A congregação chegou a cerca de 8 mil membros, com executivos de Manhattan sentados ao lado de dependentes químicos e moradores de rua.

Pouco depois da fundação da igreja, Wilkerson deixou as Assembleias de Deus. Ele queria ordenar rapazes saídos das drogas que não tinham a formação exigida pela denominação. Declarou que não tinha nenhuma divergência doutrinária com as Assembleias de Deus e que a igreja seria “transdenominacional”.

Os últimos anos

Entre 1999 e 2008, Wilkerson viajou pelo mundo com conferências para pastores e suas famílias, e fundou um instituto de formação de ministros. Recusou todos os convites de presidentes americanos para visitar a Casa Branca. O filho Gary assumiu a direção da World Challenge.

Em 27 de abril de 2011, perto de Cuney, no leste do Texas, o carro de Wilkerson invadiu a pista contrária da rodovia US 175 e bateu de frente com uma carreta. Ele morreu no local, aos 79 anos. Gwen sobreviveu e morreu de câncer em 5 de julho de 2012. No mesmo dia saiu no blog dele um texto sobre a fé que continua de pé quando a oração parece não ter resposta, que terminava assim: “Quando todos os meios falham, o amor dele prevalece” (“When All Means Fail”, 27 de abril de 2011). O ex-repórter do New York Times John McCandlish Phillips o chamou de “figura monumental” entre os evangélicos e pentecostais do século XX.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

David Wilkerson foi um pentecostal arminiano. Pregador, e não teólogo de sistema, foi ministro por mais de 35 anos nas Assembleias de Deus, cuja doutrina da salvação vem da tradição de Jacó Armínio e de John Wesley: Cristo morreu por todos, a graça de Deus pode ser recusada e o crente pode abandonar a fé. O documento da denominação sobre a segurança do crente (The Security of the Believer, 1978) afirma essa possibilidade de apostasia. Os sermões dele mostram a mesma teologia.

O primeiro ponto é a primazia da graça. Num sermão de 1992, ele pergunta se alguém foi salvo porque Deus viu algo de bom nele, e responde: “Ninguém jamais é salvo pelas próprias obras ou pelo próprio mérito” (“The Gospel of Grace!”, 1992). A justificação, ser absolvido e declarado justo diante de Deus, vem só pela fé no sangue de Cristo. Em outro sermão do mesmo ano, lembra ao crente que ele foi liberto do pecado, no começo, só por causa da misericórdia e do amor de Cristo (1 João 4:19). É o que a teologia arminiana chama de graça preveniente: a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança o pecador e o torna capaz de crer (veja a graça que vem antes). A fé, nessa pregação, recebe; ela não acrescenta mérito.

O segundo ponto é a graça resistível. Comentando o jovem rico que se afastou triste de Jesus (Marcos 10:21-22), Wilkerson escreveu: “Jesus pode amar você com tudo o que há no seu ser eterno, e mesmo assim você pode dar as costas e ir embora” (“Sin Shall Not Have Dominion Over You!”, 1992). O amor de Deus é real e sincero para com quem o rejeita, e a rejeição é possível.

O terceiro ponto é a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece unido a Cristo pela fé, e pode abandonar a fé. Wilkerson pregava a fidelidade de Deus e o perigo da deserção. Disse que era salvo pela fé, feito justo pela fé “e guardado pela fé no sangue de Cristo” (“The Gospel of Grace!”, 1992), e insistia que Deus persegue com amor o filho que se desviou, como perseguiu Jonas. Mas lia 2 Pedro 2:20-22 como uma advertência a cristãos verdadeiros, porque “os não salvos não têm fé da qual cair” (“Falling Away to the Antichrist!”, 1995). A leitura é a mesma de perseverança e apostasia na teologia arminiana, e a advertência, nele, vem sempre junto do convite: “Voltai, ó filhos rebeldes, eu curarei as vossas rebeliões” (Jeremias 3:22), citado no sermão sobre as consequências do desvio (1996).

Graça sem licença e santidade sem legalismo

Wilkerson lutou em duas frentes. Contra o legalismo, dizia que o seu fundo é o orgulho: o desejo de parecer santo diante das pessoas, e não diante de Deus. Contra a graça barata, que chamava de “evangelho de liquidação”, dizia que a fé que justifica é mais do que concordar com fatos sobre Deus, porque produz obediência e fidelidade. A ordem importava: a obediência vem como fruto de quem está firme na justificação pela fé, nunca como preço da salvação.

Daí a pregação insistente sobre a santidade. Em “Sin Shall Not Have Dominion Over You!” (1992), a partir de Romanos 6:14, ele afirma que a vitória sobre o pecado dominante é promessa de Deus para o crente, e o caminho começa na certeza de que Deus continua amando quem caiu e passa pelo arrependimento que encara o pecado em vez de escondê-lo. Na linha das Assembleias de Deus, tratava a santificação como luta e vitória diária pela fé, e não como uma segunda obra da graça, à maneira do movimento wesleyano de santidade.

O Espírito Santo e os desesperados

Para Wilkerson, o batismo no Espírito Santo era poder para servir aos sem esperança, e não uma emoção para ser guardada na igreja. No Desafio Jovem, o novo nascimento trazia o amor de Deus ao dependente, e a libertação vinha com a oração, a Palavra e o revestimento do Espírito. Ele dizia que o programa só prosperaria enquanto o Espírito Santo estivesse no comando.

O pregador do arrependimento

A partir dos anos 1970, Wilkerson se viu como um atalaia que chamava a igreja ao arrependimento antes do juízo. Criticou duramente a teologia da prosperidade, que, segundo ele, cabia bem no estilo de vida confortável de quem não queria ouvir falar de cruz nem de renúncia (“The Great Apostasy!”, 1986). O centro da mensagem era antigo: o juízo de Deus é real, e o caminho de volta está sempre aberto a quem se arrepende. O último texto que escreveu fecha com o mesmo tom pastoral: “Apegue-se à sua fé. Permaneça firme na Palavra dele.”

Onde ele difere da nossa declaração de fé

Na doutrina da salvação, a convergência com a declaração de fé do site é grande: a salvação só pela graça, mediante a fé, a expiação por todos, a graça resistível e a perseverança condicional. As diferenças estão onde o pentecostalismo se separa do metodismo. Wilkerson ensinava o batismo no Espírito Santo como experiência posterior à conversão, e a sua denominação de origem o liga à evidência inicial das línguas. Entendia a santificação como obra progressiva e não pregava a inteira santificação como segunda obra da graça recebida pela fé, como faz a declaração. E a sua leitura dos últimos tempos segue o pré-milenismo das Assembleias de Deus, enquanto a declaração do site é amilenista. É a mesma distância que costuma separar metodistas e pentecostais.

Obras principais

  • The Cross and the Switchblade (1963), com John e Elizabeth Sherrill.
  • Twelve Angels from Hell (1965).
  • The Little People (1966).
  • I’m Not Mad at God (1967).
  • Hey, Preach, You’re Comin’ Through! (1968).
  • Man, Have I Got Problems (1969).
  • The Untapped Generation (1971).
  • Beyond the Cross and the Switchblade (1974).
  • The Vision (1974).
  • Racing Toward Judgment (1976).
  • Sipping Saints (1978).
  • Hungry for More of Jesus (1992).
  • Revival on Broadway (1996).
  • God Is Faithful: A Daily Invitation into the Father Heart of God (2012, póstumo).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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