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Elmer L. Towns: O cofundador da Liberty que ensinou as igrejas a crescer
Neste texto
Num sábado à noite de novembro de 1952, um estudante de dezenove anos dirigia os cânticos num encontro da Mocidade para Cristo em Savannah, na Geórgia, agitando os braços como um moinho. No fim do culto, uma senhora chamada Silla Hair perguntou se ele pregaria no dia seguinte na igreja dela, a Westminster Presbyterian Church, uma congregação pequena que o presbitério já tinha dado por encerrada. O convite só foi possível, contaria ele, porque cinco senhoras tinham a chave do prédio. O rapaz foi, ficou ano e meio, e a congregação passou de cem pessoas. Elmer Towns contou essa história mais de quarenta anos depois, quando já tinha fundado uma universidade com Jerry Falwell e escrito dezenas de livros sobre como as igrejas crescem.
Vida
Savannah e Columbia
Elmer Leon Towns Jr. nasceu em Savannah em 21 de outubro de 1932, o mais velho dos três filhos de Elmer Leon Towns e Erin McFaddin Towns. O pai, balconista de loja de ferragens, era alcoólatra, e a bebida consumiu a renda da família e acabou por matá-lo. Na primeira série, um vendedor de porta em porta levou o menino à escola dominical, e ele ganhou distintivos de frequência perfeita por catorze anos seguidos. Cresceu em igrejas presbiterianas do Sul e foi batizado por aspersão aos doze anos. A conversão veio no verão de 1950, depois do fim do ensino médio, numa série de reuniões evangelísticas.
Sem dinheiro para estudar arquitetura, entrou aos dezessete anos no Columbia Bible College, na Carolina do Sul, onde ficou de 1950 a 1953 e onde conheceu Ruth Jean Forbes, com quem se casou em 21 de agosto de 1953. O pastorado em Savannah começou no terceiro ano. Em Stories About My First Church (1997), cada capítulo tira uma lição de ministério de um tropeço de pastor novato.
De presbiteriano a batista
Towns foi recusado pelo seminário Fuller porque o Columbia Bible College não era credenciado. Transferiu-se então para o Northwestern College, em Minneapolis, presidido por Billy Graham, e formou-se em 1954. Ali deixou o calvinismo da aliança, herdado do presbiterianismo sulista, e adotou o dispensacionalismo, a leitura da Bíblia que divide a história em administrações sucessivas de Deus e espera a volta de Cristo antes do milênio.
Em Dallas, onde fez o mestrado em teologia no Dallas Theological Seminary, com dissertação orientada por John F. Walvoord, o casal não achou uma igreja presbiteriana com o ardor evangelístico de Savannah. Visitou a Primeira Igreja Batista, de W. A. Criswell, e na mesma madrugada Ruth precisou de uma cirurgia de urgência. A igreja ofereceu ajuda com a conta, e a classe de casais passou a levar o jantar à casa deles. Decidiram frequentar a igreja, e Towns avisou à esposa: “Não vamos virar batistas”. Meses depois, Criswell pregou sobre Romanos 6 e perguntou por que quem foi sepultado e ressuscitado com Cristo não o diria ao mundo pelo símbolo da água. Towns, que defendia a aspersão, mudou de opinião ali mesmo. “Naquele culto da noite, Elmer Towns, o presbiteriano, morreu”, escreveu. Foi batizado por imersão, com a ressalva de que a sua lealdade maior era ao corpo de Cristo. Em 1958 concluiu o mestrado em Dallas e outro em educação na Southern Methodist University.
Professor, reitor e editor
Ensinou educação cristã no Midwest Bible College, em St. Louis (1958-1961), onde nasceu, como apostila mimeografada, o primeiro livro, Teaching Teens (1963). Presidiu o Winnipeg Bible Institute and College of Theology, no Canadá (1961-1965), que conduziu ao credenciamento e livrou das dívidas, e em 1965 foi para a Trinity Evangelical Divinity School, em Illinois.
A partir de 1966, como editor de escola dominical da revista Christian Life, passou a medir as maiores escolas dominicais dos Estados Unidos. O artigo de 1968 virou o livro The Ten Largest Sunday Schools and What Makes Them Grow (1969), que pôs a Akron Baptist Temple em primeiro lugar, com 5.762 alunos por domingo, e a Thomas Road Baptist Church, de Lynchburg, na Virgínia, em nono, com 2.640. No prefácio, Towns diz que a pesquisa o deixou mais convencido do que nunca da evangelização centrada na igreja local.
A Liberty
O pastor da Thomas Road era Jerry Falwell, que, ao decidir abrir uma faculdade, chamou Towns. Em 1971 os dois fundaram o Lynchburg Baptist College, com A. Pierre Guillermin. Towns organizou o currículo e foi o único professor de tempo integral. No primeiro culto da escola, em setembro de 1971, pregou no lugar de Falwell a 154 alunos que moravam numa ilha do rio James e estudavam nas salas da escola dominical da igreja: “Não temos dormitórios, não temos salas de aula, não temos biblioteca”. Como superintendente da escola dominical da Thomas Road, viu as matrículas passarem de 4 mil para mais de 7 mil entre 1971 e 1973. A escola virou Liberty Baptist College em 1977 e Liberty University em 1985.
Depois de três anos como vice-presidente acadêmico da Baptist University of America, na região de Atlanta (1974-1977), voltou a Lynchburg como editor-chefe das publicações de Falwell. Dirigiu o Liberty Baptist Theological Seminary de 1979 a 1992 e depois a Escola de Religião, e foi vice-presidente da universidade. Em 1983 concluiu o doutorado em ministério em Fuller, a escola que o recusara, com uma pesquisa que ligava o crescimento rápido de igrejas novas ao dom da fé no pastor.
Com Larry Gilbert fundou o Church Growth Institute, que publicou o programa de evangelização Friend Day e levou a pastores o seminário How to Reach the Baby Boomer. The Names of the Holy Spirit recebeu em 1995 o Gold Medallion dos livreiros cristãos, e Fasting for Spiritual Breakthrough (1996) vendeu mais de 100 mil exemplares. Foi professor visitante em seminários de várias tradições, entre eles o Asbury Theological Seminary, de raiz wesleyana. Ruth, coautora de Women Gifted for Ministry (2002) e professora da Escola de Religião, morreu em dezembro de 2013. Naquele ano, aos oitenta anos e com mais de 170 livros publicados, Towns deixou a sala de aula num período sabático. No cinquentenário da Liberty, em 2021, voltou à capela com a Bíblia e as anotações de 1971 e disse aos alunos que tinham começado sem nada além de uma visão.
Pensamento
Onde ele fica
Classe: simpatizante. Towns rejeita o calvinismo de cinco pontos e também o nome de arminiano. Dizia que não queria ser conhecido como calvinista, arminiano, luterano ou wesleyano, e sim como dispensacionalista. No artigo “What Should Southern Baptists Do with Calvinists?” (Theology for Ministry, 2008), distinguiu o calvinista de cinco pontos do calvinista “genérico”, que crê na soberania de Deus, na salvação pela graça e na segurança eterna, e concluiu que é legítimo ser calvinista e também não ser. Na eleição, na extensão da cruz e na resistência à graça, ficou do lado arminiano; na segurança do crente e na escatologia, com a tradição batista dispensacionalista. É a posição de Adrian Rogers e de Dave Hunt.
A graça e a liberdade
No manual de doutrina What the Faith Is All About (1983), Towns afirma a depravação total: o pecado atinge todas as partes do ser humano, e “não há nada que a pessoa possa fazer para salvar a si mesma ou obter mérito diante de Deus”. A regeneração é obra de Deus, e a resposta humana não é autossalvação (Efésios 2:8-9). Mas ele escreve também que “depravação total não significa incapacidade total”: toda pessoa a quem o Espírito Santo ilumina fica livre para receber a Cristo, e Deus julgará quem não atender a esse chamado.
A fórmula tem um lado próximo e outro distante do arminianismo clássico. O próximo é a iluminação do Espírito que vem antes da fé e torna a pessoa capaz de responder, o que os arminianos chamam de graça preveniente. O distante é a frase sobre a incapacidade. Jacó Armínio ensinou que a vontade caída, por si, está presa e perdida para o bem, e que só a graça a liberta. Em Towns a liberdade de crer também depende da ação prévia do Espírito, mas a linguagem dele põe mais peso no que o homem ainda pode fazer. No livro sobre jejum, comentando a pergunta de Jesus ao enfermo de Betesda, “Queres ficar são?” (João 5:6), ele escreve que Deus não quer robôs, e sim pessoas que o amem e deixem o pecado voluntariamente.
Eleição e expiação
Em 1983 Towns ainda segurava duas ênfases: uns dizem que Deus escolheu certos indivíduos, outros que oferece a salvação a todos, e “a Bíblia parece ensinar que as duas coisas são verdadeiras” (2 Tessalonicenses 2:13-14). Mas já lia a predestinação a partir da resposta humana: Deus traçou um plano e o ofereceu a todos os que respondessem com fé, e “predestinar” trata “principalmente dos que respondem ao seu plano” (Romanos 8:28-29). Na teologia sistemática Theology for Today (2001; nova edição em 2008), argumenta contra a eleição incondicional a partir da unidade de Deus: dizer que Deus escolheu uns e passou por cima de outros “rompe a natureza de Deus”, porque tornaria desigual um amor e uma justiça que são constantes para com todos. O argumento lembra o ponto de partida de Armínio, que recusou a predestinação de Beza para proteger a justiça e a bondade divinas (ver Por que Armínio rejeitou o calvinismo).
Sobre a cruz, Towns é claro desde o começo. A expiação é substitutiva: Deus pôs o pecado sobre Cristo e o aceitou no nosso lugar (2 Coríntios 5:21). E vale para todos, porque Cristo provou a morte “por todos” (Hebreus 2:9) e “não há homem que tenha vivido na face da terra que estivesse além da esperança de salvação”. O sangue que bastava para comprar todos os “vendidos ao pecado” se torna eficaz para salvar os que creem, a fórmula do arminianismo clássico.
Segurança, santificação e últimas coisas
As diferenças com a declaração de fé deste site estão em três pontos. O primeiro é a segurança. Towns ensina que a vida eterna, recebida quando a pessoa aceita a Cristo, dura para sempre, e que ninguém arrebata o crente da mão do Pai (João 10:29). O arminianismo clássico, com Wesley e os remonstrantes posteriores, ensina a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14). Entre os batistas, Robert Shank e F. Leroy Forlines chegaram a essa conclusão.
O segundo é a santificação. Para Towns, a semelhança de caráter com Deus perdida na queda é recuperada num processo contínuo, e não numa experiência instantânea. Em “The Believer’s Position in Christ”, adaptado de Understanding the Deeper Life (1988), ele diz que o crente é posto “em Cristo” na conversão e apresenta como visão de outro grupo a do movimento de santidade, que recebe a santificação numa segunda obra da graça. A declaração deste site, wesleyana, crê na inteira santificação como obra posterior à regeneração, recebida pela fé. O terceiro é a escatologia: Towns é pré-milenista, e a declaração deste site é amilenista.
Princípios eternos, métodos mutáveis
Towns ficou conhecido por um modo de olhar para as igrejas. Leu os sociólogos Ernst Troeltsch, H. Richard Niebuhr e David Moberg, que os fundamentalistas costumavam ignorar, e aplicou o ciclo de vida das instituições às congregações sem abrir mão de uma teologia conservadora. A distinção que guiou a obra dele cabe numa frase: os princípios “são eternos e estão na Escritura”, e o método é a adaptação de um princípio eterno a uma cultura. O lema dos seus seminários dizia o mesmo: “guiado por dados, baseado na Bíblia”.
No jejum, tirou de Isaías 58:6-8 nove jejuns, cada um com um propósito: o dos discípulos, para romper o domínio de um pecado; o de Esdras, para resolver problemas; o de Samuel, para avivamento; o de Elias, para vencer hábitos; o da viúva, para socorrer os necessitados; o de Paulo, para tomar decisões; o de Daniel, para a saúde; o de João Batista, para o testemunho; e o de Ester, para proteção. No jejum dos discípulos, escreve, o crente domina o apetite do corpo para fortalecer o apetite espiritual.
Obras principais
- The Ten Largest Sunday Schools and What Makes Them Grow (Baker, 1969).
- Church Aflame (1971), com Jerry Falwell.
- Capturing a Town for Christ (1973), com Jerry Falwell.
- What the Faith Is All About (1983).
- The Names of Jesus (1987).
- Understanding the Deeper Life (Revell, 1988).
- The Names of the Holy Spirit (1994), Gold Medallion de 1995.
- Fasting for Spiritual Breakthrough (Regal, 1996).
- Stories About My First Church (1997).
- Theology for Today (2001; nova edição, Cengage, 2008).
- Women Gifted for Ministry (2002), com Ruth Towns.
- Walking with Giants: An Ordinary Man with Extraordinary Experiences (Regal, 2012), memórias.
Livros em português
- Os nomes do Espírito Santo (1996). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- O que todo professor de escola dominical deve saber (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Orando segundo as cartas de Paulo (BV Books, 2016). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Jejuar: uma revolução na vida espiritual (Atos, 2022). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Mark H. Senter III e Timothy Paul Jones, “Elmer Leon Towns”, Christian Educators of the 20th Century, Talbot School of Theology, Biola University.
- Gabriel B. Etzel, A Chronological Presentation of the Writings of Elmer L. Towns from 1999-2005 (tese de doutorado em ministério, Liberty Baptist Theological Seminary, 2005).
- Elmer L. Towns, What the Faith Is All About (1983), edição digital do autor.
- Elmer L. Towns, Stories About My First Church (1997), edição digital do autor.
- Elmer L. Towns, The Ten Largest Sunday Schools and What Makes Them Grow (1969), edição digital do autor.
- Elmer L. Towns, Fasting for Spiritual Breakthrough, amostra publicada pelo autor.
- Elmer L. Towns, “The Believer’s Position in Christ”, adaptado de Understanding the Deeper Life (1988).
- Elmer L. Towns, currículo no portfólio docente da Liberty University (2003).
- Tom Ascol, “What Should Southern Baptists Do with Calvinists?”, Founders Ministries, resenha do artigo de Towns em Theology for Ministry (2008).
- Lorien Johnson, “Quote: Towns on Divine Predestination” (2010), com o trecho de Theology for Today (2008) sobre a eleição.
- Kacey Martin, “Co-Founder Reflects on 50 Years of God’s Providence at Liberty”, Liberty Champion (2021).
- “Co-founder Dr. Elmer Towns shares memories of first chapel message delivered to Liberty students in 1971”, Liberty News (2021).
- “Towns departs”, Liberty Champion (2013), e “Liberty mourns loss of former teacher Ruth Towns”, Liberty News (2013).
- “Elmer L. Towns”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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