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HistóriaTeólogos arminianos16 de 176

E. P. Sanders: O metodista do Texas que mudou a leitura de Paulo

Diego Gonçalves13 min de leitura2.620 palavras

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Neste texto

Em 1962, um rapaz de 25 anos que acabava de se formar na Perkins School of Theology, em Dallas, precisava de dinheiro para passar um ano fora dos Estados Unidos. Ed Parish Sanders queria aprender alemão na Alemanha, ler a Mixná em hebraico em Oxford e estudar hebraico em Jerusalém. O professor William R. Farmer e Samuel Crossley, da Igreja Metodista University Park, de Fort Worth, saíram atrás dos recursos. Juntaram 10 mil dólares. Uma parte grande veio de um membro da Primeira Igreja Metodista de Fort Worth, e a maior doação veio de um membro do Templo Emanuel, a congregação judaica de Dallas. Metodistas e judeus apostaram juntos no rapaz de Grand Prairie. Quinze anos depois, ele publicaria o livro que mudou o modo como os estudiosos leem o apóstolo Paulo e o judaísmo do seu tempo.

Vida

Infância metodista no Texas

Ed Parish Sanders nasceu em 18 de abril de 1937, em Grand Prairie, cidade pequena do Texas entre Dallas e Fort Worth. Era o segundo filho de Eula Thomas Sanders, dono de uma tinturaria, e de Mildred Parish Sanders, costureira em casa e, mais tarde, professora. A família estava, nas palavras dele, “na parte de baixo da escala econômica”. O irmão mais velho, Jack Thomas Sanders (1935-2016), também se tornou estudioso do Novo Testamento.

A infância tinha três ocupações: ler os livros de faculdade da mãe, sobretudo literatura inglesa e história universal, e jogar beisebol e futebol americano, em que era um destaque. Dos sete aos quinze anos decorava os trechos de que mais gostava. Foi criado na Igreja Metodista. Anos depois contou que um colega de brincadeira, membro da Igreja de Cristo, lhe confessou que ele iria para o inferno, porque todos os metodistas iriam. O menino tremeu um pouco e perguntou se os dois podiam continuar amigos. Podiam.

Formação

Com uma bolsa, entrou no Texas Wesleyan College, faculdade metodista de Fort Worth, onde se formou em 1959, summa cum laude, em literatura inglesa e francesa. Já ali sabia que queria estudar história antiga e religião. De 1959 a 1962 fez o bacharelado em Divindade na Perkins School of Theology, da Southern Methodist University, e ali estudou grego, hebraico, aramaico e siríaco, com cursos de verão de alemão. Farmer, o professor de Novo Testamento, o convenceu de que quem estuda o Novo Testamento precisa estudar o judaísmo. Em Perkins ouviu também dois visitantes que o marcariam: o jurista David Daube e o historiador Morton Smith. Ajudou em várias congregações, muitas vezes com os jovens, e foi ordenado ministro metodista, embora o seu alvo fosse a carreira acadêmica e não o pastorado.

O ano no exterior (1962-1963) começou com alemão em Göttingen. Em Oxford, perto de Daube, leu o tratado Sanhedrin da Mixná nas aulas de David Patterson. Em Jerusalém estudou hebraico rabínico e moderno com Mordechai Kamrat. Em 1963 entrou no Union Theological Seminary, em Nova York, para o doutorado com W. D. Davies, o principal estudioso do Novo Testamento que escrevia sobre os rabinos. Sanders diria depois que Davies o ajudou a se libertar das “falsas dicotomias” entre graça e lei e entre fé e obras, que tinham estragado a interpretação de Paulo. A tese, defendida em 1966 e publicada em 1969 como The Tendencies of the Synoptic Tradition, mostrou que a tradição sobre Jesus não seguia leis fixas de desenvolvimento: podia ficar mais longa ou mais curta.

McMaster e o livro sobre Paulo

Em 1966 Sanders foi para o Canadá, como professor assistente do recém-criado Departamento de Estudos Religiosos da Universidade McMaster, em Hamilton, Ontário, onde ficou até 1984. Em 1968-1969 voltou a Jerusalém e leu com Kamrat a maior parte dos midrashim tanaíticos, os comentários rabínicos mais antigos sobre a Lei. “Eu me apaixonei”, escreveu sobre os rabinos, pela humanidade, pela tolerância, pelo bom humor e pelo amor à precisão que encontrou neles.

De volta a McMaster, começou o projeto que se tornaria Paul and Palestinian Judaism. Nas primeiras aulas sobre Paulo seguia Rudolf Bultmann, mas logo abandonou esse caminho: releu as cartas e voltou a Albert Schweitzer. Em outubro de 1975 entregou à editora SCM um original de cerca de 1.100 páginas. Os pareceres na Inglaterra e nos Estados Unidos foram muito negativos, e o livro só saiu, em 1977, porque o diretor editorial, John Bowden, leu o texto ele mesmo e decidiu publicá-lo. A dedicatória lembra Susan Phillips (1947-1975), que morreu em setembro de 1975, quando os dois esperavam uma vida longa juntos. Em McMaster, Sanders orientou treze doutorados e seis mestrados.

Oxford e Duke

Em 1984 sucedeu George Caird como Dean Ireland’s Professor de Exegese da Sagrada Escritura em Oxford, onde também foi membro do Queen’s College. Ali criou, com Geza Vermes, um mestrado sobre judaísmo e cristianismo no mundo greco-romano. Jesus and Judaism saiu em 1985 e ganhou em 1990 o prêmio Grawemeyer de religião. Foi membro da Academia Britânica e da Academia Americana de Artes e Ciências e recebeu o doutorado em Letras de Oxford e doutorados honorários de Helsinque e da Southern Methodist University.

Em 1990 voltou aos Estados Unidos como professor de Religião da Universidade Duke, em Durham, na Carolina do Norte, onde ficou até se aposentar em 2005. Entre 1989 e 1993 publicou um livro por ano. Depois de The Historical Figure of Jesus (1993), confessou que estava “completamente esgotado”. Em 1996 casou-se com Rebecca Gray, cuja tese em Oxford ele havia orientado.

A aposentadoria trouxe um período de desânimo e, a partir de 2008, problemas de saúde. Em 2013 recuperou a energia e terminou o livro sobre Paulo que planejava desde o começo dos anos 1990: Paul: The Apostle’s Life, Letters, and Thought (2015), com mais de 800 páginas. Em 2016 reuniu os ensaios em Comparing Judaism and Christianity e recebeu do Conselho de Centros de Relações Judaico-Cristãs o prêmio Shevet Achim, pela contribuição ao entendimento entre judeus e cristãos. Nos últimos anos cuidava com paixão das suas roseiras. Morreu em 21 de novembro de 2022, aos 85 anos.

Pensamento

Onde ele fica em relação ao arminianismo

Sanders é um simpatizante do arminianismo, de formação wesleyana. Foi criado na Igreja Metodista, estudou em duas escolas metodistas e foi ordenado ministro metodista. Numa nota de um ensaio de 2007 sobre a providência divina em Paulo e em Josefo, comentou que, tendo sido criado na Igreja Metodista, era grato à providência divina por ter levado John Wesley a aceitar o ensino de Armínio. O ensino em questão é o de que Cristo morreu por todos e a graça é oferecida a todos.

A distância em relação ao arminianismo clássico é grande. Em Jesus and Judaism (1985, p. 334) ele se definiu como “um protestante liberal, moderno e secularizado”, criado numa igreja “dominada pela cristologia baixa e pelo evangelho social”, e disse ter orgulho daquilo que essa tradição defende. Cristologia baixa é a que destaca o Jesus humano e deixa em segundo plano a sua divindade. Sanders escrevia como historiador da religião e queria, nas palavras dele, “libertar a história e a exegese do controle da teologia”. Tratava a própria fé como assunto privado. Também dava muito valor às passagens em que Paulo deixa entrever uma misericórdia final sobre todos (Romanos 5:18; Romanos 11:32). Em todos esses pontos ele se afasta da declaração de fé deste site, que afirma a divindade plena de Cristo nas duas naturezas, a autoridade das Escrituras e o castigo eterno dos que rejeitam a graça. A afinidade com a tradição arminiana está na raiz metodista e na rejeição de uma graça limitada a alguns.

O nomismo da aliança

A grande contribuição de Sanders foi descrever o judaísmo da Palestina entre o século II a.C. e o século II d.C. Muitos estudiosos cristãos, de Ferdinand Weber a Wilhelm Bousset e Bultmann, tinham pintado esse judaísmo como uma religião de legalismo, em que o fiel juntava méritos para pesar na balança do juízo. Lendo a literatura rabínica, os manuscritos do mar Morto e os apócrifos, Sanders mostrou que a imagem era falsa e projetava no judaísmo antigo a disputa entre protestantes e católicos, com o judaísmo no papel do catolicismo.

Para o que encontrou nos textos, cunhou a expressão “nomismo da aliança” (de nomos, “lei” em grego). Deus escolheu Israel por graça e lhe deu a Lei. A obediência é a resposta a essa eleição e não o preço da entrada. Quem transgride tem os meios de expiação e o arrependimento, que o restauram à aliança. Sanders resumiu assim: “entra-se” pela graça da eleição e “permanece-se” pela obediência. Ou, na fórmula dele, “a salvação é pela graça, mas o juízo é segundo as obras; as obras são a condição para permanecer ‘dentro’, mas não merecem a salvação” (Paul and Palestinian Judaism, 1977, p. 543).

O leitor arminiano reconhece aqui algo familiar: a graça vem primeiro, e a permanência na aliança tem condição. A diferença está no que mantém o crente dentro. Para Armínio e Wesley, o crente permanece em Cristo pela fé, e as obras são fruto dessa fé, nunca condição de mérito.

Paulo: da solução para o problema

Comparando o judaísmo com Paulo, Sanders concluiu que o apóstolo tinha outro padrão de religião. O centro do pensamento de Paulo é a participação em Cristo: estar “em Cristo”, ser um só corpo com ele e um só espírito, à espera do fim que se aproxima. Sanders chamou esse padrão de “escatologia participacionista”. A justificação pela fé, que Lutero e Bultmann puseram no centro, seria um modo jurídico e mais restrito de dizer o que a linguagem da participação diz por inteiro. Por isso escreveu que, no judaísmo, “justiça” indica a manutenção do lugar entre os eleitos, e em Paulo é um termo de transferência, a passagem de um domínio para outro (p. 544).

A tese mais conhecida do livro é que Paulo raciocinou da solução para o problema. Ele não partiu de uma angústia com a Lei, mas da convicção de que Deus enviou Cristo para salvar judeus e gentios e daí concluiu que todos precisavam dessa salvação. A crítica de Paulo à Lei, portanto, não acusa o judaísmo de legalismo: diz que seguir a Lei não leva a estar em Cristo. Sanders resumiu o argumento numa frase que ficou famosa: o que Paulo acha de errado no judaísmo é que ele “não é cristianismo” (p. 552).

A leitura abriu o que James D. G. Dunn, em 1983, chamou de “Nova Perspectiva sobre Paulo”, que Dunn e N. T. Wright desenvolveram cada um a seu modo. Os críticos foram muitos. Martin Hengel, Simon Gathercole e Friedhelm Avemarie mostraram que, nos textos judaicos, a ênfase na graça vinha junto com uma ênfase forte na obediência e na recompensa, e John Barclay, em Paul and the Gift (2015), mostrou que cada autor judeu entendia a graça de um jeito e que Paulo insistia numa graça dada a quem não a merecia. Entre os arminianos, Chad Thornhill lê a eleição em Paulo a partir do judaísmo do Segundo Templo, como escolha de um povo em Cristo, e escreveu o verbete sobre a Nova Perspectiva do Global Dictionary of Arminian Theology.

A teologia arminiana, de Armínio a Wesley, mantém a justificação pela fé, com a imputação da justiça de Cristo, no centro da salvação (ver a justificação pela fé na teologia arminiana). A ênfase de Sanders na união com Cristo pode ser aproveitada nessa tradição sem tirar a justificação do lugar que ela ocupa em Romanos 3:21-28.

Jesus e o judaísmo

Em Jesus and Judaism Sanders tomou outra decisão de método, que ele considerou a mais importante da sua carreira: deslocar a discussão dos ditos de Jesus, sempre disputados, para os fatos quase indiscutíveis da sua vida e do que veio depois. Entre eles estão a escolha dos Doze, que representavam as tribos de Israel; o gesto contra o templo de Jerusalém; a crucificação pelos romanos; e a perseguição de seus seguidores por alguns judeus. Juntos, esses fatos mostram Jesus como profeta da restauração de Israel, que esperava a intervenção de Deus para renovar o povo e o templo. O gesto no templo, para Sanders, anunciava a destruição e a reconstrução e foi a causa imediata da execução. Jesus não entrou em conflito com os judeus por causa da Lei. O livro ajudou a abrir a chamada “terceira busca” do Jesus histórico.

O judaísmo comum

O livro preferido de Sanders foi Judaism: Practice and Belief, 63 BCE-66 CE (1992). Nele descreveu o “judaísmo comum”, a religião das pessoas comuns da Judeia: o templo e os sacerdotes, as festas, a pureza, a oração em casa e na sinagoga. Fariseus, saduceus e essênios aparecem como grupos dentro desse chão compartilhado e não como seitas isoladas. O livro termina com uma série de juízos pessoais. Ele diz gostar dos sacerdotes, achar até em Herodes algo de que gostar e gostar dos fariseus, e conclui: “Sobretudo, gosto das pessoas comuns” (p. 493-494). A frase resume o que moveu toda a obra dele: tratar o judaísmo antigo com justiça, de dentro, como uma religião viva. O colega D. Moody Smith ligou esse instinto à formação metodista de Sanders, num movimento que nasceu da renovação da piedade e não de guerras de confissão.

Obras principais

  • The Tendencies of the Synoptic Tradition (1969)
  • Paul and Palestinian Judaism: A Comparison of Patterns of Religion (1977; edição de 40 anos, 2017)
  • Jewish and Christian Self-Definition, 3 volumes (organizador, 1980-1982)
  • Paul, the Law, and the Jewish People (1983)
  • Jesus and Judaism (1985)
  • Jesus, the Gospels, and the Church: Essays in Honor of William R. Farmer (organizador, 1987)
  • Studying the Synoptic Gospels, com Margaret Davies (1989)
  • Jewish Law from Jesus to the Mishnah: Five Studies (1990)
  • Paul (1991; reeditado como Paul: A Very Short Introduction, 2001)
  • Judaism: Practice and Belief, 63 BCE-66 CE (1992)
  • The Historical Figure of Jesus (1993)
  • Paul: The Apostle’s Life, Letters, and Thought (2015)
  • Comparing Judaism and Christianity: Common Judaism, Paul, and the Inner and the Outer in Ancient Religion (2016)

Livros em português

Para aprofundar

  • William Horbury, “Ed Parish Sanders, 18 April 1937 - 21 November 2022”, Biographical Memoirs of Fellows of the British Academy 23 (2026), p. 393-431. Academia Britânica
  • Departamento de Estudos Religiosos da Universidade McMaster, nota de falecimento de Ed Parish Sanders (dezembro de 2022). McMaster University
  • Adele Reinhartz, “E.P. Sanders In Memoriam”, Ancient Jew Review (2024). Ancient Jew Review
  • Adele Reinhartz, “Paul and Palestinian Judaism in 20th Century Context”, Journal of the Jesus Movement in Its Jewish Setting 5 (2018). JJMJS
  • Matthew Thiessen, “Conjuring Paul and Judaism Forty Years After Paul and Palestinian Judaism”, Journal of the Jesus Movement in Its Jewish Setting 5 (2018). JJMJS
  • Bart D. Ehrman, “A Truly Great New Testament Scholar: E. P. Sanders In Memoriam”. The Bart Ehrman Blog
  • Michael F. Bird, “Remembering E.P. Sanders” (2022). Substack
  • James Tabor, “Remembering E. P. Sanders (1937-2022)”. jamestabor.com
  • Council of Centers on Jewish-Christian Relations, prêmio Shevet Achim de 2016. CCJR
  • E. P. Sanders, “Comparing Judaism and Christianity: An Academic Autobiography”, em Fabian E. Udoh e outros (orgs.), Redefining First-Century Jewish and Christian Identities (University of Notre Dame Press, 2008), p. 11-41. RelBib

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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