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HistóriaTeólogos arminianos19 de 176

Donald W. Dayton: o historiador que devolveu aos evangélicos a herança da santidade

Diego Gonçalves14 min de leitura2.848 palavras

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Neste texto

Em 1964, um jovem recém-formado no Houghton College, escola da Igreja Metodista Wesleyana no interior do estado de Nova York, foi trabalhar no Mississippi com o Partido Democrático da Liberdade do Mississippi e com o Comitê Coordenador Estudantil Não Violento, dois braços do movimento pelos direitos civis dos negros. Donald Dayton voltou de lá comprometido com a justiça social para o resto da vida. Alguns anos depois, estudando a história da própria igreja, ele descobriu que ela tinha nascido em 1843 de uma ruptura com o metodismo por causa da escravidão, e que a convenção de Seneca Falls, marco do movimento pelos direitos das mulheres, se reuniu numa capela metodista wesleyana. A descoberta definiu o seu trabalho. Dayton passou a vida mostrando que o evangelicalismo norte-americano tinha raízes no pietismo, em Wesley e no movimento de santidade, e que essas raízes eram abolicionistas, abertas ao ministério feminino e voltadas para os pobres. Ele mesmo admitia que foi essa pesquisa que o manteve na igreja.

Vida

Uma família da Igreja Metodista Wesleyana

Donald Wilber Dayton nasceu em Chicago, em 1942, quando o pai, Wilber Thomas Dayton, estudava no Northern Baptist Theological Seminary, a mesma escola em que o filho ensinaria décadas depois. Wilber foi um dos pioneiros da formação teológica na Igreja Metodista Wesleyana: ensinou teologia e grego no Marion College, em Indiana, foi professor de Novo Testamento no Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, de 1957 a 1970, presidiu o Houghton College de 1972 a 1976 e ajudou a fundar o Wesley Biblical Seminary, no Mississippi. Donald cresceu entre seminários de santidade. Acompanhava o pai nas viagens de palestras, e os dois discutiam pelo caminho sobre o evangelicalismo e a inerrância da Bíblia.

A Igreja Metodista Wesleyana foi fundada por metodistas que deixaram a Igreja Metodista Episcopal porque ela tolerava a escravidão. Em 1968 ela se uniu à Igreja da Santidade Peregrina e formou a Igreja Wesleyana, da qual Dayton era membro leigo.

Formação

Dayton se formou no Houghton em 1963, em matemática e filosofia. Como bolsista da fundação Woodrow Wilson, estudou na Universidade Columbia e na Yale Divinity School, onde concluiu o bacharelado em teologia em 1969. Nesses anos passou também alguns meses num kibutz em Israel, depois da Guerra dos Seis Dias. Em Yale conheceu Lucille Sider, irmã do teólogo Ron Sider, com quem se casou em 1969. Fez ainda o curso de biblioteconomia da Universidade do Kentucky.

O doutorado veio na Universidade de Chicago, em 1983. Ali estudou com Martin Marty e teve aulas com Paul Ricoeur e David Tracy. A tese deu origem ao seu livro mais conhecido, Theological Roots of Pentecostalism (Raízes teológicas do pentecostalismo, 1987).

Bibliotecário, editor e polemista

O primeiro posto de Dayton foi no próprio Asbury, como bibliotecário de aquisições e professor assistente de bibliografia e pesquisa. Em 1971 o seminário publicou o seu guia The American Holiness Movement: A Bibliographic Introduction (O movimento de santidade norte-americano: uma introdução bibliográfica). Colecionador de livros a vida inteira, Dayton vendeu em 1991 ao Fuller Theological Seminary a sua biblioteca de cerca de 22 mil volumes, forte nos movimentos de santidade e pentecostal, no evangelicalismo norte-americano, no abolicionismo e em Karl Barth.

No começo dos anos 1970, Dayton escreveu uma série de artigos para a revista Post American, depois chamada Sojourners, e em 1975 foi o primeiro editor de livros dela. Os artigos viraram o livro Discovering an Evangelical Heritage (Descobrindo uma herança evangélica, 1976). Em 1974, ele e Lucille apresentaram à Associação Cristã de Santidade o estudo “Women in the Holiness Tradition” (As mulheres na tradição de santidade); Jo Anne Lyon, que anos depois seria superintendente geral da Igreja Wesleyana, disse que aquele texto foi uma virada na sua vida. Em 1975, Dayton publicou cinco sermões e um folheto de Luther Lee, o pregador metodista wesleyano que em 1853 pregou “O direito da mulher de pregar o evangelho” na ordenação de Antoinette Brown, uma das primeiras mulheres ordenadas nos Estados Unidos. Em 1979, organizou uma coletânea de artigos de Charles Finney sobre o avivamento.

Dayton também entrou no debate sobre a Bíblia que dividia os evangélicos. Em 1976, Harold Lindsell publicou The Battle for the Bible (A batalha pela Bíblia), em que fazia da inerrância a prova da fé verdadeira. Na Christian Century, Dayton respondeu que a posição de Lindsell vinha da teologia de Princeton, de Charles Hodge e B. B. Warfield, e se apoiava num raciocínio pouco dito: Deus é perfeito, a Bíblia é a Palavra de Deus, logo a Bíblia é perfeita em tudo. Para ele, essa premissa vinha mais de uma metafísica racionalista do que da exegese.

Professor em cinco seminários

Dayton ensinou durante 35 anos e passou por cinco seminários. Além do Asbury e do Greenville College, deu aulas no North Park Theological Seminary, em Chicago, no Northern Baptist Theological Seminary, em Lombard, Illinois, onde foi professor de teologia histórica, na Drew University, em Nova Jersey, e na Azusa Pacific University, na Califórnia. Falou em mais de 35 instituições de seis continentes, entre elas o Instituto Superior Evangélico de Estudos Teológicos (ISEDET), em Buenos Aires.

Na Drew, foi orientador de doutorado de Scott Kisker e professor de Christian Collins Winn, entre outros. Quase toda tarde ficava na lanchonete da universidade, discutindo com os alunos. Os ex-alunos lembram a generosidade dele e o apoio que deu a mulheres que se tornaram professoras e líderes nas igrejas wesleyanas e de santidade.

Dayton presidiu a Sociedade Teológica Wesleyana e, em 1989, a Society for Pentecostal Studies, e foi vice-presidente da Sociedade Karl Barth da América do Norte. Nas faculdades pentecostais onde falava sobre as raízes do movimento, o público muitas vezes se surpreendia ao saber que ele não era pentecostal.

O trabalho ecumênico

Por mais de vinte anos Dayton integrou a Comissão de Fé e Ordem do Conselho Nacional de Igrejas dos Estados Unidos, e esteve na Oitava Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas, em Harare, no Zimbábue, em 1998. Com o historiador pentecostal Cecil M. Robeck, abriu um diálogo que mudou a relação do Conselho Mundial com as igrejas de santidade e pentecostais. Num ensaio de 1987, resumiu a proposta no título: abrir a porta ecumênica “para deixar entrar a ralé”, as igrejas que as denominações históricas olhavam de cima e entre as quais ele se contava. Cada tradição, dizia, tem um dom a oferecer e precisa ser compreendida pelo que é.

Os últimos anos

Em 2007, os ex-alunos publicaram em sua homenagem o livro From the Margins (Das margens), organizado por Christian Collins Winn, com uma resposta autobiográfica dele. Em 2014 saiu a segunda edição do seu primeiro livro, Rediscovering an Evangelical Heritage (Redescobrindo uma herança evangélica), atualizada pelo historiador Douglas M. Strong. A relação com a Igreja Wesleyana, que teve tensões, se reconciliou no fim: convidado por Jo Anne Lyon para a Conferência Geral de 2016, Dayton disse que finalmente se sentia em casa. Morreu em 2 de maio de 2020, na Califórnia, aos 77 anos.

Pensamento

Um wesleyano que leu a história a partir das margens

Dayton foi wesleyano. Leigo da Igreja Wesleyana, filho de um teólogo da santidade e presidente da Sociedade Teológica Wesleyana, dedicou a obra a defender a herança de John Wesley e do movimento de santidade diante do predomínio da historiografia reformada. Roger Olson o chamou de “historiador e teólogo evangélico arminiano” num ensaio de 2005. Dayton foi antes de tudo historiador da teologia, e não um sistemático da doutrina da salvação. Leitor de Karl Barth, ensinava Calvino com regularidade. O que ele combatia era a ideia de que a tradição reformada é a medida de todo o evangelicalismo.

O evangelicalismo que foi esquecido

Discovering an Evangelical Heritage começa com Jonathan Blanchard, o primeiro presidente do Wheaton College, militante contra a escravidão. Os capítulos seguintes tratam de Finney e do seu círculo: o Oberlin College, que recebia alunos negros e mulheres e apoiou a desobediência às leis que mandavam devolver escravos fugidos; Theodore Weld, convertido por Finney, que levou os métodos do avivamento para a campanha abolicionista; e os irmãos Tappan, comerciantes de Nova York que financiaram essa obra. Esses evangélicos foram também pioneiros dos direitos da mulher. A pergunta do livro é por que essa herança desapareceu depois da Guerra Civil, quando o evangelicalismo se fechou na moral individual e, mais tarde, no fundamentalismo.

Num artigo de 1975 na Christian Century, Dayton resumiu a tese: “A primeira bandeira do movimento de santidade foi o abolicionismo”. Para ele, as igrejas de santidade “tenderam a elevar a ética à posição que os fundamentalistas deram à doutrina”. Ele lembra ali que os metodistas livres, de B. T. Roberts, recusavam o aluguel de bancos nas igrejas porque ele afastava os pobres, e que Catherine Booth exigia igualdade entre homens e mulheres no Exército de Salvação.

As raízes metodistas do pentecostalismo

Theological Roots of Pentecostalism parte de uma fórmula dos primeiros pentecostais, o “evangelho quádruplo”: Cristo salva, batiza com o Espírito Santo, cura e voltará como Rei. Dayton mostrou que os quatro temas são anteriores ao avivamento da Rua Azusa, de 1906, e vêm principalmente do metodismo e do movimento de santidade. Wesley ensinou a perfeição cristã, mas resistiu a chamá-la de batismo do Espírito Santo; foi John Fletcher, o seu colaborador, quem ligou a santificação ao Pentecostes. No século 19, o avivamento de Phoebe Palmer e o perfeccionismo de Oberlin, de Asa Mahan e Finney, espalharam essa linguagem para descrever a segunda bênção. Para uns, ela significava a purificação do pecado; revivalistas como D. L. Moody e R. A. Torrey a entenderam como revestimento de poder para o serviço, e essa leitura prevaleceu. A cura divina, que veio em boa parte do pietismo, se espalhou pelos mesmos círculos; o pré-milenismo, Dayton reconhece, veio de outra fonte, John Nelson Darby e os Irmãos de Plymouth. No fim do século 19, escreve ele, “só faltava a faísca que acenderia a lenha seca”.

Roger Olson, ao resenhar o livro em 1988, viu nele o mérito de pôr o pentecostalismo dentro da família evangélica, embora achasse que Dayton subestimava a novidade das línguas. A obra se tornou um clássico dos estudos pentecostais. As diferenças entre as duas tradições estão resumidas em Metodistas e pentecostais: 8 diferenças entre as tradições.

O debate com Marsden

O historiador reformado George Marsden contou a história do evangelicalismo norte-americano a partir de Jonathan Edwards, de Princeton e da luta contra o modernismo. Dayton chamou esse modelo de paradigma puritano ou presbiteriano e propôs ao lado dele um paradigma pentecostal, que lê o evangelicalismo a partir do pietismo, de Wesley, dos avivamentos e do movimento de santidade. Olson explica que o termo aponta para as raízes avivalistas e em grande parte arminianas do movimento. O confronto mais conhecido saiu em 1993, na Christian Scholar’s Review, num artigo de Dayton sobre a história do Fuller Seminary escrita por Marsden. Dayton lembrava que escolas como Asbury, Wheaton e Gordon nasceram de tradições de santidade e de avivamento. Chegou a pedir uma moratória no uso da palavra “evangélico”, que para ele carregava um sentido reformado alheio à história; em The Variety of American Evangelicalism (1991), que organizou com Robert K. Johnston, propôs abandonar de vez a categoria. O tema da memória histórica aparece também em Amnésia evangélica: por que a história da Igreja importa.

A Bíblia na tradição wesleyana

Num ensaio de 1984 sobre o uso da Escritura na tradição wesleyana, Dayton descreve um Wesley que pensa por conjunções, a fé com a razão, a lei com o evangelho, a fé com as obras, e que faz do amor o centro da teologia. Wesley tinha a Escritura em alta conta, mas “não poupava os pregadores que liam só a Bíblia”, porque o Livro só se entende com o estudo de outros livros. Dayton expõe ali o Quadrilátero Wesleyano, nome dado por Albert Outler ao método em que a Escritura é a norma suprema e a tradição, a razão e a experiência ajudam a interpretá-la, e conclui que a tradição wesleyana fica mais naturalmente na linha do pietismo do que na da ortodoxia protestante.

Há aqui duas diferenças com a declaração de fé do site. Dayton sustentava que é possível uma doutrina forte da autoridade da Escritura sem a inerrância, que ele via como herança da escolástica de Princeton; a declaração afirma que os escritos originais foram preservados de erro. Dayton também julgava fraca a base bíblica da linguagem que identificava a inteira santificação com o batismo do Espírito no Pentecostes; a declaração afirma a inteira santificação como obra da graça, posterior à regeneração e recebida pela fé, sem depender dessa linguagem. Na defesa da santidade social e das obras de misericórdia, os dois caminham juntos.

A justiça e os pobres

Dayton não se convencia de que a piedade produz justiça automaticamente. Para ele, praticar a justiça vem primeiro ou, pelo menos, não se separa da fé, e ele dizia ter lutado para pôr a sua erudição a serviço dos pobres. O velho lema pietista atribuído a August Neander, que Collins Winn escolheu para resumir a vida do mestre, “o coração faz o teólogo”, diz bem o que Dayton buscava: uma teologia que se reconhece na vida da igreja e no cuidado com os pequenos.

Obras principais

  • The American Holiness Movement: A Bibliographic Introduction (1971).
  • Five Sermons and a Tract by Luther Lee, organizador (1975).
  • Discovering an Evangelical Heritage (1976; reedição em 1988; 2ª ed., Rediscovering an Evangelical Heritage, com Douglas M. Strong, 2014).
  • Contemporary Perspectives on Pietism, organizador (1976).
  • Charles G. Finney, Reflections on Revival, organizador (1979).
  • The Higher Christian Life: Sources for the Study of the Holiness, Pentecostal, and Keswick Movements, série de reedições de fontes, organizador (1985).
  • Theological Roots of Pentecostalism (1987).
  • The Variety of American Evangelicalism, organizado com Robert K. Johnston (1991).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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