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HistóriaTeólogos arminianos21 de 176

Donald G. Bloesch: o pietista de Dubuque que pediu uma ortodoxia viva

Diego Gonçalves13 min de leitura2.610 palavras

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Neste texto

No outono de 1957, o seminário teológico da Universidade de Dubuque, em Iowa, contratou um jovem doutor da Universidade de Chicago para ensinar teologia. A direção esperava que o novo professor, formado no ambiente liberal de Chicago, fizesse contrapeso ao barthiano Arthur Cochrane, que já ensinava na casa. O plano deu errado. Donald Bloesch tinha descoberto Karl Barth ainda no seminário e, nos 35 anos em que ensinou em Dubuque, tornou-se um dos leitores evangélicos mais atentos de Barth nos Estados Unidos e um dos seus críticos mais respeitosos. Quando ele morreu, em 2010, o colega Gabriel Fackre o chamou de principal teólogo evangélico do século 20, atrás apenas de Carl Henry.

Vida

Uma família de pastores pietistas

Donald George Bloesch nasceu em 3 de maio de 1928, em Bremen, no estado de Indiana. O pai era pastor da igreja evangélica alemã da cidade, do Sínodo Evangélico da América do Norte, uma denominação de imigrantes com raízes no pietismo luterano e reformado. Os dois avôs também foram pastores desse sínodo e tinham vindo da Suíça como missionários entre os imigrantes de língua alemã. O pietismo, movimento alemão do século 17 que pôs a oração e a santidade de vida ao lado da doutrina, foi o ar que Bloesch respirou em casa.

Em 1934 o sínodo uniu-se à Igreja Reformada nos Estados Unidos, e a nova Igreja Evangélica e Reformada entrou em 1957 na United Church of Christ (Igreja Unida de Cristo). Bloesch ficou nela a vida toda, como ministro ordenado e, muitas vezes, como crítico das suas tendências liberais.

Chicago: o choque com o liberalismo

Em 1946 entrou no Elmhurst College, em Illinois, a escola que preparava os futuros pastores da denominação, e formou-se em filosofia. Em vez do seminário da igreja, escolheu o Chicago Theological Seminary, porque se interessava pela sociologia da religião e porque dali podia passar direto ao doutorado.

Ele mesmo contou que não estava preparado para a “teologia liberal extrema” que encontrou lá: a maioria dos professores seguia a filosofia de Alfred North Whitehead. No seminário leu Kierkegaard, Brunner, Barth, Tillich e Bultmann, e foi se aproximando de Emil Brunner e, sobretudo, de Karl Barth. A neo-ortodoxia, que voltou a pôr a revelação de Deus no centro da teologia, foi a saída que encontrou, porque o racionalismo das teologias evangélicas americanas da época não respondia às perguntas que a filosofia moderna fazia à fé.

Concluiu o bacharelado em divindade em 1953, ano em que foi ordenado, e o doutorado na Universidade de Chicago em 1956, com uma tese sobre a apologética de Reinhold Niebuhr. Fez estudos de pós-doutorado em Oxford, Tübingen e Basileia.

Dubuque

O seminário de Dubuque, ligado à Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, foi a casa dele de 1957 até a aposentadoria. Ali a teologia de Bloesch passou de uma neo-ortodoxia de tom existencialista para o que o colega Elmer Colyer chamou de evangelicalismo católico e reformado. Numa temporada de estudos em Genebra ele conheceu a inglesa Brenda Mary Jackson, com quem se casou depois de alguns anos em Dubuque. Brenda revisou e editou toda a obra do marido e foi sua assistente de pesquisa.

Os primeiros livros de Bloesch tratam da renovação da igreja e da vida cristã, como The Crisis of Piety (1968) e The Reform of the Church (1970). Em 1977 ele esteve no grupo de teólogos reunido por Robert Webber para redigir o Chamado de Chicago, um apelo aos evangélicos para recuperarem as raízes históricas da fé, os credos, os sacramentos e a unidade da igreja.

O livro que o tornou conhecido foi Essentials of Evangelical Theology, em dois volumes (1978 e 1979). O primeiro defende a soberania de Deus, a primazia da Escritura, a depravação total, a divindade de Cristo, a expiação substitutiva, a salvação pela graça e a justificação somente pela fé. Mesmo assim, Bloesch nunca se sentiu inteiramente em casa entre os evangélicos americanos. Foi editor consultivo da Christianity Today, mas Carl Henry, numa carta a Roger Olson, chamou-o de “teólogo mediador”, o que para Henry queria dizer que ele não era um evangélico autêntico. Bloesch já tinha deixado claro que não aceitava a inerrância bíblica na forma da Declaração de Chicago (1978).

A renovação da United Church of Christ

Em 1978 pastores e leigos da United Church of Christ fundaram o movimento que em 1984 passou a se chamar Biblical Witness Fellowship, e Bloesch foi o principal autor da sua confissão, a Declaração de Dubuque. David Runnion-Bareford, diretor do grupo, disse que ele foi “a principal força teológica” da visão de renovação da igreja nas décadas de 1970 e 1980, e achava irônico que um evangélico fosse o teólogo da denominação mais lido e mais respeitado da sua geração.

Christian Foundations e os últimos anos

Bloesch deixou a sala de aula no começo da década de 1990 para escrever a sua teologia sistemática, Christian Foundations, em sete volumes publicados pela InterVarsity Press de 1992 a 2004. A Christianity Today escolheu God the Almighty entre os livros do ano de 1996. Em 1999 Elmer Colyer organizou Evangelical Theology in Transition, em que vários teólogos discutem a obra de Bloesch e ele responde a cada um.

Quem o conheceu fala de um homem tímido e humilde, que atendia o telefone com um seco “Yes”. Presidiu a divisão do Meio-Oeste da Sociedade Teológica Americana. Escreveu hinos e textos devocionais, tinha amigos entre católicos, inclusive monges, e sustentou com orações e com dinheiro o ministério de John Armstrong, a quem dedicou, sem avisar, o último volume de Christian Foundations.

Donald Bloesch morreu em 24 de agosto de 2010, em Dubuque, aos 82 anos. Entre os que ele formou pelos livros está Roger Olson, que o descobriu na revista Eternity nos anos 1970 e escreveu: “Nenhum teólogo me influenciou mais do que Bloesch”.

Pensamento

Palavra e Espírito

A expressão que organiza toda a obra de Bloesch é “Palavra e Espírito”. A autoridade da teologia não está num livro que recebe do Espírito um selo de aprovação, nem na experiência religiosa de quem lê, mas na Palavra viva, Jesus Cristo, que o Espírito torna presente quando a Escritura é lida e pregada e desperta a fé. “A Escritura é a Palavra de Deus para os que têm olhos para ver e ouvidos para ouvir” (A Theology of Word and Spirit, 1992). No volume sobre a Escritura ele comparou a Bíblia ao vidro e ao filamento de uma lâmpada, e o Espírito Santo à eletricidade que produz a luz: sem lâmpada não há luz, mas a lâmpada não é a luz.

Daí a recusa de dois extremos. Contra o liberalismo, Bloesch afirmava que Deus fala de verdade e comunica conteúdo. Contra o racionalismo evangélico, afirmava que a razão sozinha não prova a fé: não cremos com base na razão, mas também não cremos sem ela. Num capítulo de 1985 sobre a interpretação da Bíblia, escreveu que a Palavra de Deus “não é evidente por si mesma na Escritura; ela precisa ser buscada, mas buscada na Escritura, e não além dela”. Dizia também que nenhuma formulação doutrinária é, em si mesma, infalível, “mas ela pode, mesmo assim, carregar e comunicar a verdade infalível” (A Theology of Word and Spirit, 121). Aqui está uma diferença com a declaração de fé deste site, que afirma que os escritos originais da Bíblia foram preservados de erro.

Salvação por nós e em nós

Bloesch insistia que a salvação tem dois polos que não se separam. Ela é objetiva, porque aconteceu na cruz e na ressurreição de Cristo, e é subjetiva, porque o Espírito a aplica em nós pela fé. “A verdadeira salvação aconteceu em Jesus Cristo por nós e acontece em nós pela fé” (Jesus Christ: Savior & Lord, 1997, p. 163).

Por isso criticou o próprio Barth. Em Jesus Is Victor! (1976), sobre a doutrina da salvação do teólogo suíço, apontou o seu “objetivismo”: a salvação aparece tão concluída em Cristo que a decisão pessoal de fé fica sem lugar. “É no seu objetivismo que a soteriologia de Barth está em tensão mais evidente com a da ortodoxia evangélica histórica” (p. 32).

O mesmo cuidado aparece na relação entre graça e obras. Em 1999, respondendo aos críticos, Bloesch admitiu que nos primeiros livros às vezes deu a impressão de que a vida cristã contribuía para efetuar a salvação. Corrigiu-se: as nossas obras de obediência espelham e anunciam a obediência de Cristo até a morte, “mas não tornam eficazes a sua morte e ressurreição”. A salvação é obra de Deus, e a vida cristã é o fruto e o testemunho dela.

Eleição e graça: um não calvinista

Bloesch vinha da tradição reformada, mas não era calvinista. Roger Olson, que o conheceu de perto, resumiu assim: ele era um não calvinista que evitava ser rotulado de “arminiano” ou de “sinergista”. Por isso o colocamos entre os simpatizantes do arminianismo: ele rejeitou o centro do calvinismo sem adotar o nome.

As provas estão em God the Almighty (1995). Bloesch rejeitou a dupla predestinação, a ideia de que Deus decretou desde a eternidade quem será salvo e quem será condenado, e chamou a doutrina da ortodoxia reformada de “determinismo causal” (p. 58). Para ele, a predestinação de Deus “não é um decreto irreversível feito e concluído fora do tempo, mas uma graça eletiva que se realiza no tempo” (p. 72). Ao mesmo tempo, ele manteve com firmeza a depravação total e a salvação somente pela graça, as mesmas convicções que Jacó Armínio afirmou na sua Declaração de Sentimentos.

A distância em relação ao arminianismo clássico também é real. Bloesch preferia deixar a soberania de Deus e a liberdade humana em tensão, como um paradoxo, a explicá-las pela graça preveniente resistível e pela eleição condicional, que são as respostas de Armínio e de John Wesley. Sobre o conhecimento que Deus tem do futuro, foi além do que os arminianos clássicos admitem. Em The Evangelical Renaissance (1973) escreveu que Deus conhece o rumo e o desfecho da história e todas as alternativas, mas não cada acontecimento antes que aconteça: “O plano de Deus é predeterminado, mas o modo como ele o realiza depende em parte da livre cooperação dos seus súditos” (p. 53). Armínio afirmava que Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres, e a declaração de fé deste site segue Armínio nesse ponto. A eleição em Barth, com quem Bloesch dialogou a vida inteira, é o tema de Querido Karl Barth, o que significa eleição para os indivíduos?.

Pietismo com ortodoxia

O traço mais pessoal da teologia de Bloesch é o casamento entre doutrina e piedade. Em The Christian Life and Salvation (1967) escreveu que “separar a vida do cristão da salvação de Deus é divorciar a ética da religião” (p. 14), e observou que os reformadores “fizeram soar o chamado ao arrependimento, mas negligenciaram o chamado à perfeição” (p. 16). Citava Wesley ao lado de Edwards, Pascal e dos místicos católicos, e o volume sobre o Espírito Santo em Christian Foundations tem um capítulo chamado “A estrada da santidade”. Num artigo de 1992 escreveu que a santidade “não é a inteireza como o mundo a entende, mas fidelidade, perseverança na obediência”.

Mesmo assim, ele não se dizia simplesmente pietista. Com Barth, via como o pietismo escorrega para o liberalismo quando a experiência vira a fonte da teologia. Na reedição de The Crisis of Piety (1988) resumiu o que buscava: a piedade sem doutrina acaba no liberalismo, e a ortodoxia sem piedade fica estéril. A igreja precisa de “uma ortodoxia viva”, que é “um pietismo biblicamente fundamentado e teologicamente robusto”.

A oração ocupa o centro dessa piedade. Em The Struggle of Prayer (1980), Bloesch distingue a oração bíblica, em que um Deus pessoal se aproxima e pede uma resposta de obediência, do ideal místico de subir até Deus e dissolver-se nele. Orar é derramar a alma diante de um Deus que ouve e age.

As últimas coisas

Em The Last Things (2004), Bloesch rejeitou o universalismo, mas descreveu o inferno como um “sanatório para almas doentes e incuráveis”. Admitia também a possibilidade de salvação depois da morte para quem nunca ouviu o evangelho. Neste ponto ele se afasta da declaração de fé deste site, que afirma o castigo eterno dos ímpios.

Obras principais

  • The Christian Life and Salvation (1967)
  • The Crisis of Piety (1968)
  • The Reform of the Church (1970)
  • The Ground of Certainty (1971)
  • The Evangelical Renaissance (1973)
  • Jesus Is Victor! Karl Barth’s Doctrine of Salvation (1976)
  • Essentials of Evangelical Theology, 2 volumes (1978-1979)
  • The Struggle of Prayer (1980)
  • The Battle for the Trinity (1985)
  • Freedom for Obedience (1987)
  • Theological Notebook, 3 volumes (1989, 1991 e 2005)
  • Christian Foundations, 7 volumes: A Theology of Word & Spirit (1992), Holy Scripture (1994), God the Almighty (1995), Jesus Christ: Savior & Lord (1997), The Holy Spirit: Works & Gifts (2000), The Church (2002) e The Last Things (2004)
  • Spirituality Old & New (2007)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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