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Dennis F. Kinlaw: o hebraísta de Asbury que pregou a santidade como amor

Diego Gonçalves13 min de leitura2.579 palavras

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Neste texto

No verão de 1935, no acampamento de santidade de Indian Springs, em Flovilla, na Geórgia, um menino de treze anos ouviu Henry Clay Morrison, presidente do Asbury College, pregar sobre a santidade de coração e de vida. Até aquela semana, ele contava, a sua reação diante de Cristo era fugir. Naquela noite foi ao altar para se entregar inteiro a Deus: “parecia tão natural agora correr para Ele quanto, na semana anterior, teria sido evitá-lo”. A mãe o deixou no altar. Ele passou a madrugada orando e acabou dormindo no banco durante a reunião de oração das seis e meia. Dennis Franklin Kinlaw chamaria aquela noite de “a pedra fundamental” da sua existência pessoal.

Retrato de Dennis F. Kinlaw
Retrato de Dennis F. Kinlaw. Foto de WilmorePublicLibrary, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Lumberton e Indian Springs

Kinlaw nasceu em 26 de junho de 1922, em Lumberton, na Carolina do Norte, o caçula dos cinco filhos de Wade e Sally Kinlaw. O pai era advogado; a mãe tinha sido professora. Foram os pais que o levaram a Indian Springs, onde a líder conhecida como Mother Clark o conduziu ao compromisso com Jesus. Anos depois ele diria que ouvir Morrison sobre a inteira santificação foi “a experiência espiritual mais significativa” da sua vida.

O testemunho que deixou fala de uma alegria “de outra natureza” e da certeza de que Deus o tinha acolhido em si mesmo: ele estava em Deus, e Deus nele. Só mais tarde aprendeu o vocabulário trinitário para isso, que chamou de “vida trocada” e de “co-inerência”, palavra do escritor inglês Charles Williams. A experiência veio antes da teologia, e a teologia de Kinlaw seria, em boa parte, a explicação do que tinha acontecido no altar.

Asbury, Elsie e os estudos

Atraído por Morrison, chegou ao Asbury College, em Wilmore, no Kentucky, em 1939. Foi presidente do diretório dos estudantes e da sua turma e líder da equipe de debates. Formou-se em 1943 e casou-se com uma colega de turma, Elsie Blake, de Schenectady, Nova York, com quem viveu 59 anos e teve cinco filhos. Concluiu o Asbury Theological Seminary em 1946, fez estudos de pós-graduação no Princeton Theological Seminary e no New College de Edimburgo e foi ordenado ministro metodista.

Pastor em Loudonville e doutor em Brandeis

De 1952 a 1963 foi o primeiro pastor da Loudonville Community Church, no estado de Nova York. Ao mesmo tempo estudava na Universidade Brandeis, onde fez o mestrado e, em 1967, o doutorado em estudos mediterrâneos, com uma tese sobre os nomes de pessoas nos textos acadianos de Ugarit, a cidade da costa da Síria antiga cujas tábuas de argila iluminam o mundo do Antigo Testamento.

Na carta de renúncia aos presbíteros, de 5 de janeiro de 1963, ele atribuiu o que deu certo à dependência de Deus, à oração contínua e ao amor entre os irmãos, e lembrou que aquela igreja “não tem razão de existir senão dar ao Espírito Santo uma oportunidade de agir” na comunidade. Lecionou também como professor visitante no Seminário Teológico de Seul, na Coreia do Sul, escola fundada pela sociedade missionária OMS.

Professor e presidente

Em 1963 voltou ao Asbury Theological Seminary como professor de história, teologia e línguas do Antigo Testamento, e vários alunos daquelas classes se tornaram especialistas conhecidos na área. Em 1968 o Asbury College o chamou para ser o seu décimo primeiro presidente, cargo que ocupou até 1981 e de novo de 1986 a 1991. No primeiro mandato abriu cursos como serviço social e ciência da computação e quase dobrou o corpo docente, de 50 para 96 professores. No segundo construiu a residência feminina Kresge, levou a escola ao esporte universitário e chegou a uma matrícula recorde. Num relatório ao conselho, em 1978, explicou o que entendia por excelência: nunca a excelência por ela mesma, mas por Cristo e pelo seu Reino, formando jovens com “corações limpos” e vidas cheias do poder do Espírito.

O avivamento de 1970

Na manhã de 3 de fevereiro de 1970, o culto de capela do Asbury College não terminou. Cerca de mil estudantes e professores estavam no Hughes Auditorium, e a reunião continuou por 185 horas sem interrupção. As aulas foram suspensas por uma semana, e até 600 alunos e professores saíram em equipes para contar o que tinha acontecido em igrejas e escolas de todo o país.

Kinlaw estava numa conferência no oeste do Canadá quando o deão Custer Reynolds lhe telefonou. Voltou dois dias depois e, passadas as duas da manhã, sentou-se no último banco do auditório. “Eu estava com medo”, contou. A um repórter respondeu que “o Senhor Jesus entrou no Hughes Auditorium”. Vinte anos depois admitia fatores psicológicos no que aconteceu, mas insistia que havia “algo além disso”. Em 1971, como administrador, apontou como fruto mais importante a limpeza das “pequenas coisas” que matam a eficiência acadêmica, espiritual e administrativa de uma escola.

A Francis Asbury Society e as outras frentes

Em 1983 Kinlaw fundou em Wilmore a Francis Asbury Society, com o nome do bispo pioneiro do metodismo americano, para publicar literatura wesleyana de santidade e sustentar evangelistas desse movimento.

Por trinta anos presidiu o conselho da OMS International, a sociedade missionária em que serviu Wesley Duewel, cujo livro God’s Great Salvation (1991) saiu com prefácio de Kinlaw. Foi membro do conselho da Christianity Today, Inc., e editor sênior da revista Christianity Today; numa carta a um amigo da revista, chamou a atenção para um jovem estudioso inglês chamado N. T. Wright. Em 1982, colegas lhe dedicaram o volume A Spectrum of Thought: Essays in Honor of Dennis Kinlaw, organizado por Michael L. Peterson.

Os últimos anos

Em 1992 tornou-se chanceler do Asbury College, e em 2001 a biblioteca do campus recebeu o nome dele e de Elsie, que morreu em 2003. Na velhice reuniu um grupo de teólogos para escrever, juntos, uma teologia sistemática wesleyana. O trabalho durou quase um quarto de século e começou a sair em 2024, sob a direção de John Oswalt, com o título Holy Love: A Wesleyan Systematic Theology e o primeiro volume dedicado a Cristo, seguindo a convicção dele de que a teologia deve começar por Jesus.

Morreu em casa, em Wilmore, em 10 de abril de 2017, aos 94 anos, deixando cinco filhos, dezesseis netos e 35 bisnetos. O culto fúnebre foi no mesmo Hughes Auditorium de 1970. Em 2019 a universidade abriu o Dennis F. Kinlaw Study Center, que guarda mais de 7 mil volumes da biblioteca dele e 66 mil páginas de cartas e escritos. Na cerimônia, o teólogo Chris Bounds contou que o pai se converteu ouvindo Kinlaw pregar nos anos 1980.

Pensamento

Kinlaw é um wesleyano do movimento de santidade: buscou a purificação do coração num acampamento de santidade, formou-se nas escolas de Asbury, foi ordenado na Igreja Metodista e fundou uma sociedade para promover a “santidade bíblica”. Jerry Walls o chamou de ícone do movimento wesleyano de santidade e de um dos pregadores de acampamento mais procurados dos Estados Unidos.

A salvação do começo ao fim

Os sermões de Kinlaw seguem o caminho da salvação de John Wesley. A salvação não se conquista por obras; recebe-se pela fé, como ele pregou a partir de Habacuque 2:4. O novo nascimento põe diante do crente um padrão de santidade que ele não cumpre sozinho, e por isso o crente depende de Deus a vida inteira. Num sermão de 1973 resumiu a ordem: a justificação diz respeito a quem ainda não foi salvo, e a santificação, a quem já foi. Entre as duas não há mérito humano, mas uma graça que perdoa e depois transforma.

Começar por Jesus

Let’s Start with Jesus (2005) parte de uma pergunta de método. Muitas teologias começam com argumentos filosóficos sobre a existência de Deus e só depois chegam a Jesus. Kinlaw propõe o caminho inverso: começar pelo Filho encarnado, a revelação mais clara do Pai, e deixar que ele explique quem Deus é, o que é uma pessoa, o que é o pecado e o que é a salvação.

A palavra central dessa teologia é “pessoa”. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, três pessoas que vivem uma para a outra em amor que se doa, e o ser humano, feito à imagem desse Deus, só existe de verdade em relação. Por isso o pecado é uma volta para dentro: a criatura feita para viver voltada a Deus e ao outro se fecha em si mesma. Para descrever a relação que Deus quer conosco, Kinlaw usa três imagens bíblicas que sobem em intimidade: a do rei e do súdito, a do pai e do filho e a do noivo e da noiva. A santificação é o Espírito levando o crente da primeira imagem até a última.

No ensaio “Sacred Pedagogy” (2003) ele observa que, antes de ser chamado Senhor, Deus foi chamado Pai pelo Filho, e que a primeira palavra sobre Deus vem “não da corte, mas do lar”. A paternidade não começou com Adão: “o fato da paternidade é eterno”, porque o primeiro pai é a primeira pessoa da Trindade. A família humana é imagem de algo que já existia em Deus antes da criação.

A mente de Cristo

Em The Mind of Christ (1998), Kinlaw liga a inteira santificação a dois textos. Em Marcos 8:33, Jesus repreende Pedro porque ele pensa as coisas dos homens, e não as de Deus. Em Filipenses 2:5, Paulo pede: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (ARA). O verbo é o mesmo nos dois textos, e Kinlaw notava que Paulo o usa dez vezes só em Filipenses. Ter a mente de Cristo não é aderir a um sistema de ideias, mas ter a perspectiva, as atitudes, os afetos e as prioridades de Cristo, e essa mudança é obra do Espírito Santo, possível a todo crente.

Num sermão sobre Filipenses 2, ele explicava que o hino dos versículos 5 a 11 é a ilustração, e que o sermão de Paulo está no que vem antes e depois: não fazer nada por ambição egoísta, considerar os outros superiores a si mesmo, fazer tudo sem murmurar. Cristo se importou mais com o nosso bem do que com o seu, e o santificado passa a pensar assim. No livro, Kinlaw escreveu que Cristo veio nos livrar da “tirania destrutiva do interesse próprio”. A inteira santificação é o amor de Cristo ocupando o lugar que o eu ocupava. Walls lembrava que Wesley nunca separou santidade de felicidade, e que Kinlaw era a prova viva de que a santidade não é coisa sem graça.

Pregação e mãos abertas

Em Preaching in the Spirit (1985), Kinlaw tratou da obra do Espírito em quem prega. Num texto sobre o ministério, chamou de “relação essencial” a intimidade com Jesus sem a qual o pregador fala na carne. Contava a conversa com o missionário Bruce Olson, que aos dezenove anos, no meio da faculdade, foi para a Venezuela porque tinha encontrado uma intimidade com Cristo que não queria perder. Era isso, dizia Kinlaw, o que ele buscava no próprio ministério.

A consagração ele explicava com uma imagem do pastor batista romeno Vasily Talos, que resistiu à ditadura de Ceaușescu. Os crentes perseguidos aprenderam a viver de “mãos abertas”, prontos para perder tudo menos Cristo, e nesse ponto o regime perdeu o poder de intimidá-los. Com a mão aberta, acrescentou Talos, a pessoa pode perder tudo, mas também recebe o que Deus põe nela. Kinlaw ouviu a história cantarolando por dentro um verso de Charles Wesley: “Tu, ó Cristo, és tudo o que quero”.

Onde ele difere da declaração de fé do site

Há pouca distância entre Kinlaw e a declaração de fé deste site, que também afirma a inteira santificação como obra da graça recebida pela fé. A diferença está no vocabulário: como boa parte do movimento de santidade americano, Kinlaw falava dessa obra com a linguagem do batismo com o Espírito Santo, enquanto a declaração a descreve como purificação do coração pelo Espírito, sem essa expressão.

Obras principais

  • “Old Testament Roots of the Wesleyan Message”, em Further Insights into Holiness (Beacon Hill Press, 1963)
  • A Study of the Personal Names in the Akkadian Texts from Ugarit (tese de doutorado, Brandeis University, 1967)
  • “Charles Williams’ Concept of Imaging Applied to the Song of Songs”, Wesleyan Theological Journal 16, n. 1 (1981)
  • Preaching in the Spirit (Francis Asbury Press, 1985; em espanhol, Predicando en el Espíritu, 2007)
  • “Song of Songs”, em The Expositor’s Bible Commentary, vol. 5 (Zondervan, 1991)
  • The Mind of Christ (Francis Asbury Press, 1998; em espanhol, La mente de Cristo, 2006)
  • We Live as Christ (Francis Asbury Press, 2001)
  • This Day with the Master: 365 Daily Meditations (Francis Asbury Press, 2002; Zondervan, 2004)
  • “Sacred Pedagogy: How & What We Learn About God from the Family”, Touchstone 16, n. 5 (2003)
  • Let’s Start with Jesus: A New Way of Doing Theology (Zondervan, 2005; em espanhol, Todo comienza con Jesús, 2009)
  • Prayer: Bearing the World as Jesus Did (Francis Asbury Press, 2012)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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