
HistóriaTeólogos arminianos9 de 176
Ernest S. Williams: o veterano da Rua Azusa que conduziu as Assembleias de Deus por vinte anos
Neste texto
- Vida
- Uma família de santidade
- A Rua Azusa
- Evangelista sem preparo
- Newark e Filadélfia
- Vinte anos à frente das Assembleias de Deus
- Professor e conselheiro
- Pensamento
- Uma teologia montada com a Bíblia aberta
- Pecado, graça e fé
- Eleição e perseverança
- A cruz
- Santificação e batismo no Espírito
- As últimas coisas
- Espiritualidade antes de método
- Obras principais
- Para aprofundar
Num domingo de setembro, um rapaz recém-chegado do Colorado assistiu ao culto da manhã numa antiga igreja de santidade na esquina das ruas Eighth e Maple, em Los Angeles. Dali caminhou até a missão da Rua Azusa e chegou no auge do apelo: gente ajoelhada, gente prostrada no chão, gente falando em outras línguas. Sessenta anos depois, ele resumiu o instante: “Eu simplesmente fiquei parado olhando, porque nunca tinha visto nada igual”. O rapaz era Ernest Swing Williams. Ele seria o único participante do avivamento da Rua Azusa a chegar a superintendente geral das Assembleias de Deus, cargo que ocupou de 1929 a 1949, e autor de uma das primeiras teologias sistemáticas pentecostais.
Vida
Uma família de santidade
Ernest S. Williams nasceu em janeiro de 1885, em San Bernardino, na Califórnia, numa família ligada a uma igreja do movimento de santidade, a corrente herdeira do metodismo que pregava a santificação como segunda experiência da graça. Em 1904, aos 19 anos, no sul da Califórnia, foi “salvo e santificado”, como ele mesmo dizia.
No verão de 1906, trabalhando no Colorado, longe de qualquer comunhão cristã, recebeu cartas da mãe sobre uma bênção que caía numa missão simples da Rua Azusa, com exemplares de The Apostolic Faith, o jornal da missão. O pai, homem de santidade desde antes do nascimento do filho, tinha recebido a nova experiência e mudado visivelmente. Convencido de que aquilo era obra de Deus, Williams voltou para Los Angeles.
A Rua Azusa
Na missão de William J. Seymour, os excessos de alguns frequentadores quase o afastaram; ele contou que estava “à beira de desistir” quando sentiu um freio no espírito e começou a buscar a Deus a sério. Antes, estudou a Bíblia à procura de textos que ensinassem uma experiência posterior à santificação, porque não queria ser levado a nada que não fosse bíblico. “Não me apressei”, escreveu. Na primeira ida ao altar pediu a Deus que sondasse o seu coração, e só depois de ter a certeza de que estava tudo em ordem começou a pedir que fosse cheio do Espírito. No dia 2 de outubro foi batizado no Espírito Santo.
Da missão ele lembrava a pobreza: nenhum púlpito elevado, nenhum instrumento, bancos poucos e ruins, uma pregação tão simples que mal merecia o nome. A cura divina era ensinada com fervor, mas não vinha em primeiro lugar, porque “a adoração era o principal”.
Evangelista sem preparo
Logo começou a pregar, “sem preparo como eu era”. Em 1907 recebeu a ordenação da Missão da Fé Apostólica, sob o ministério de Seymour, e em agosto do mesmo ano dirigia uma missão pentecostal em São Francisco. Depois foi evangelista em Colorado Springs, em Portland e no Noroeste americano. Em Portland conheceu Laura Jacobsen, com quem se casou em 1911, e o casal passou a trabalhar junto, em pequenas igrejas no Kentucky, em Conneaut, no Ohio, e em Seattle.
Uma família de Cincinnati guardou uma história desses anos. Em 1912, a pequena Ruthie Knell morreu de meningite no dia em que fazia dois anos. Na véspera do enterro, o pastor de uma missão pentecostal e um jovem evangelista, que tinham orado pela menina, foram à casa oferecer ajuda e encontraram a família passando a ferro os ternos dos homens. O evangelista disse que ali estava uma coisa que ele sabia fazer, e passou os ternos. O pai da menina concluiu que o mínimo que podiam fazer por alguém que se importava tanto com eles era ir ouvi-lo pregar. A família foi à missão e permaneceu nas Assembleias de Deus pelo resto da vida. O evangelista era Ernest Williams.
Newark e Filadélfia
Em 1914 Williams leu no jornal Word and Witness a notícia da formação das Assembleias de Deus, organizadas naquele ano em Hot Springs, no Arkansas, e logo se filiou a elas. Em 1916 pastoreava em Bradford, na Pensilvânia; em 1917 foi para Newark, em Nova Jersey, como pastor da igreja Bethel e professor do Bethel Bible Training School.
No fim de 1919 a Highway Mission Tabernacle, de Filadélfia, antiga missão de leigos que entrara no pentecostalismo com o seu líder Frederick Reel, chamou-o para pastor, e ele assumiu em 1920. Sob o seu pastorado a igreja comprou um templo maior e, em 1922, revisou o seu manual para incluir o batismo no Espírito Santo com a evidência das línguas. A igreja se tornou uma das maiores das Assembleias de Deus no Nordeste americano. A historiadora Edith Blumhofer resume a espiritualidade que Williams e os seus sucessores deixaram ali: a experiência pentecostal tinha tanto a ver com ser quanto com fazer, e Deus se importava mais com o que realizava no crente do que com o que fazia por meio dele. Daí o lugar da “vida mais profunda” e da espera em Deus, ao lado do carro de evangelização, do trabalho com a juventude e do envio de missionários.
Vinte anos à frente das Assembleias de Deus
Em 1929 o Concílio Geral elegeu Williams superintendente geral. Ele aceitou com relutância e tentou, durante quase um ano, conciliar o cargo com o pastorado. Só em outubro de 1930, por insistência da sede, deixou Filadélfia e mudou-se para Springfield, no Missouri. Reeleito dez vezes, ficou no cargo durante a Grande Depressão, a Segunda Guerra Mundial e o pós-guerra. Em 1929 as Assembleias de Deus somavam 1.612 igrejas e 91.981 membros; em 1937, 3.473 igrejas e 175.362 membros. No seu tempo foram abertas várias escolas bíblicas e organizados os departamentos de Escola Dominical, de educação, de missões nacionais, de capelania e de juventude, além do programa missionário Speed the Light.
Williams governava pela palavra escrita. Em 1934, diante de crentes perturbados por “doutrinas novas e estranhas”, escreveu no Pentecostal Evangel que não precisavam de evangelho novo e que, sem desprezar as profecias, deviam pôr as Escrituras acima de tudo. Em 1937 advertiu que o crescimento trazia a tentação de confiar em “ideias e métodos humanos”. No Concílio Geral de Memphis, naquele ano, definiu a denominação: “Somos uma comunhão cooperativa”, que nunca devia degenerar em mera organização, e quem ocupava cargos devia evitar dominar sobre a herança de Deus (1 Pedro 5:3).
Professor e conselheiro
Em 1949 Williams decidiu deixar o cargo e foi sucedido por Wesley R. Steelberg, também ex-pastor da Highway Tabernacle. Entrou então para o corpo docente do Central Bible Institute, depois Central Bible College, em Springfield, onde ensinou teologia durante vários anos. Das apostilas de aula nasceu a Systematic Theology, em três volumes, publicada pela Gospel Publishing House em 1953. Por anos manteve uma coluna de perguntas e respostas no Pentecostal Evangel.
Em 1974 ele e a esposa foram morar no Maranatha Manor, casa de repouso de Springfield, onde se tornou capelão informal dos moradores. Em 1979, aos 94 anos, gravou uma entrevista sobre os primeiros pentecostais com o historiador Wayne Warner. Morreu num domingo, 25 de outubro de 1981, pouco antes de completar 97 anos. A nova capela do Central Bible College recebeu o seu nome.
Pensamento
Classe: pentecostal arminiano. Na Systematic Theology, Williams dedica um capítulo à responsabilidade humana em que expõe a teoria arminiana e a wesleyana, transcreve a crítica calvinista ao arminianismo e ao metodismo e responde a ela. Nega a regeneração antes da fé, afirma a graça resistível e ensina que o crente pode cair.
Uma teologia montada com a Bíblia aberta
No prefácio, Williams conta que o livro nasceu do trabalho de organizar as Escrituras para a sala de aula. O teólogo Christopher Stephenson põe a obra, ao lado da de Myer Pearlman, no tipo que chama de “doutrinas bíblicas”: a teologia sistemática como arranjo dos textos bíblicos por assunto. Mas o autor que mais aparece nas suas páginas sobre o homem e a salvação é o metodista John Miley, de quem tira a defesa da liberdade moral do homem e a doutrina da graça preveniente.
Pecado, graça e fé
Williams começa a doutrina da salvação pelo pecado original, e para isso transcreve o próprio Armínio: o primeiro pecado atraiu sobre os culpados o desagrado de Deus, e as suas consequências pesam sobre toda a descendência de Adão, a menos que seja libertada por Jesus Cristo. Sob o título “ajuda graciosa para o homem caído”, cita Miley e distingue a graça comum, a bondade de Deus com todas as criaturas, da graça preveniente, a graça que vem antes da resposta humana. No esquema de Miley, que Williams segue, é essa graça que torna possíveis o arrependimento e a fé, e o vocabulário do livre-arbítrio que ele herda de Miley deve ser lido assim: a vontade que responde a Deus é a vontade alcançada pela graça. Armínio diz isso com mais força na Declaração de Sentimentos, ao afirmar que o homem caído não pode, por si mesmo, querer o bem (veja a graça preveniente em Armínio).
Contra o calvinismo, Williams é direto: “É contrário à Bíblia ensinar que uma pessoa precisa ser regenerada antes de ter fé.” E a graça pode ser recusada, porque a salvação é para “quem quiser”: “Se o homem não pode resistir à graça divina quando ela lhe é oferecida para salvá-lo, a vontade do homem não é livre”. A fé, por sua vez, não é mérito: com Louis Berkhof, Williams a descreve como entrega radical da pessoa a Deus, a mesma nos dois Testamentos, pela qual Deus nos considera justos (Romanos 4:1-8).
Eleição e perseverança
“As Escrituras favorecem a eleição”, escreve, e cita João 6:37, João 6:44, Atos 13:48 e Efésios 1:4, mas acrescenta que a eleição de Deus “reconhece também a liberdade da vontade humana”. No Novo Testamento, o chamado é universal: todos são “primeiro chamados e depois eleitos”. A eleição de Israel foi uma escolha para servir, e Romanos 9 a 11 explica a rejeição de Israel e adverte os gentios que creram.
Sobre a perseverança, começa pela confiança: não é da vontade do Pai que alguém, uma vez salvo, se perca. “Mas precisamos das advertências da Escritura”, para não negligenciarmos tão grande salvação (Hebreus 2:3), e a advertência de Hebreus 6:4-6 continua de pé. Por isso considera perigoso ensinar que, uma vez salvo, o crente está seguro viva ele em virtude ou não. É a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé. Tratamos do tema em arminianismo e a segurança da salvação e em apostasia na Bíblia.
A cruz
Na expiação, Williams passa pelas teorias da história da igreja. Da teoria governamental, que boa parte dos metodistas americanos adotou no século 19, ele diz que “falha em parte”, porque se contenta em exigir respeito pela lei divina. A cruz, para ele, é substituição: Cristo se humilha e toma o lugar do pecador. O tema está desenvolvido em a expiação e em expiação para todos.
Santificação e batismo no Espírito
Williams veio do movimento de santidade, para o qual a inteira santificação era a segunda bênção; na Rua Azusa, o batismo no Espírito foi para ele uma terceira experiência. Na Systematic Theology, ensina a santificação em duas faces: todo crente é santificado “posicionalmente” quando aceita a Cristo, separado para Deus, e depois cresce em santidade, mortificando os feitos do corpo (Romanos 8:13). Expõe a doutrina de John Wesley e a de Miley, mas fica com a santificação posicional e progressiva das Assembleias de Deus, que não adotaram a inteira santificação como segunda obra da graça, recebida pela fé, que a declaração de fé do site afirma (veja a santificação).
O ponto em que Williams insiste é o batismo no Espírito. Em 1957 escreveu: “O batismo com o Espírito Santo é uma experiência definida”, a “promessa do Pai” de Lucas 24:49. Na teologia sistemática ele distingue o falar em línguas que acompanha o batismo, sinal inicial dado a todos que o recebem (Atos 2:4; Atos 10:46; Atos 19:6), do dom de línguas, que nem todos têm (1 Coríntios 12:28-30). Essa é a doutrina da evidência inicial, que separa as Assembleias de Deus dos metodistas (veja metodistas e pentecostais).
As últimas coisas
Williams é pré-milenista: Cristo virá arrebatar a igreja e reinará mil anos num reino literal, e ele rejeita o pós-milenismo e o amilenismo. Aqui está a diferença mais clara com a declaração de fé do Diego, que é amilenista.
Espiritualidade antes de método
O pastor, o administrador e o professor tinham a mesma convicção, formada no altar da Rua Azusa: a obra de Deus não se sustenta por inteligência, eloquência ou poder humano. Em 1966, aos 81 anos, Williams ainda pedia que Deus humilhasse os corações e os tornasse famintos “como no princípio”.
Obras principais
- “Inspiration and Revelation”, artigo no Pentecostal Evangel (1931).
- “Looking Toward the New Year”, Pentecostal Evangel (1934).
- “The Task That Is Before Us”, Pentecostal Evangel (1937).
- “Fellowship with God and with One Another”, discurso no Concílio Geral de Memphis, Pentecostal Evangel (1937).
- Systematic Theology, 3 volumes (Gospel Publishing House, 1953).
- “Baptized With the Holy Spirit”, Pentecostal Evangel (1957).
- Testemunho sobre a Rua Azusa, Pentecostal Evangel (1966).
- My Sermon Notes: the Gospels and Acts (Gospel Publishing House, 1967).
- Your Questions… Answered (Gospel Publishing House, 1968).
Para aprofundar
- Glenn W. Gohr, “E. S. Williams: The Azusa Street Veteran Who Led the Assemblies of God for 20 Years”, Flower Pentecostal Heritage Center, 2017: ifphc.wordpress.com
- “E. S. Williams (1929-49)”, série sobre os superintendentes gerais, Assemblies of God Heritage, inverno de 1981-82: PDF no ifphc.org
- Continuação da série sobre os superintendentes gerais, Assemblies of God Heritage, primavera de 1982: PDF no ifphc.org
- Edith Blumhofer, “The Evolution of Philadelphia’s Highway Tabernacle”, Assemblies of God Heritage, outono de 1989: PDF no ifphc.org
- June Knell, “An Act of Humility Changes Knell Family”, Assemblies of God Heritage, verão de 1989: PDF no ifphc.org
- Darrin J. Rodgers, “This Week in AG History — Jan. 16, 1937”, AG News, 2021: news.ag.org
- William Molenaar, “This Week in AG History — Dec. 29, 1934”, AG News, 2018: news.ag.org
- Ernest S. Williams, testemunho sobre a Rua Azusa (Pentecostal Evangel, 4 abr. 1966), reproduzido em azusastreet.org
- Ernest S. Williams, “Fellowship with God and with One Another” (1937), Enrichment Journal: cópia no Internet Archive
- Ernest S. Williams, Systematic Theology (1953), volume 2, no Internet Archive
- “American Pentecost”, Christian History, edição “The Rise of Pentecostalism”: christianhistoryinstitute.org
- Christopher A. Stephenson, Types of Pentecostal Theology: Method, System, Spirit (Oxford University Press, 2013): oup.com
- “Ernest S. Williams (minister)”, Wikipédia em inglês: en.wikipedia.org
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Pentecostalismo