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Frank Baker: O pastor de Hull que devolveu a Wesley o texto exato
Em meados dos anos 1930, um jovem pregador metodista de Hull, no norte da Inglaterra, ganhou um prêmio de ensaio com um estudo sobre a biblioteca de John Wesley. Com o prêmio começou também uma coleção de livros metodistas antigos. Sessenta anos depois, a coleção de Frank Baker passava de 15 mil itens e pesava cerca de quatro toneladas. Doada aos poucos às bibliotecas da Universidade Duke, nos Estados Unidos, ela guarda o segundo maior conjunto de publicações de Wesley do mundo, com mais de cinquenta títulos dos quais só se conhece o exemplar de Duke. O homem que juntou esses papéis passou a vida respondendo a duas perguntas: o que John Wesley escreveu de fato, e o que ele quis dizer.
Vida
Hull e o metodismo primitivo
Frank Baker nasceu em 15 de abril de 1910, em Kingston upon Hull, porto do Yorkshire, na costa leste da Inglaterra. Cresceu no metodismo primitivo, o ramo popular do metodismo inglês, nascido das reuniões ao ar livre do começo do século XIX. A igreja da família ficava no circuito de St. George’s Road, em Hull. Converteu-se ainda adolescente, durante a Cruzada de Humberside, em 1924, e pouco depois foi aceito como candidato ao ministério da Igreja Metodista Primitiva.
Estudou no Hartley College, em Manchester, o seminário dos metodistas primitivos. Enquanto cursava o seminário, tirou o bacharelado em artes pela Universidade de Londres, em 1931, e o bacharelado em teologia pela Universidade de Manchester, em 1934. John Bowmer, que chegou ao seminário no ano letivo de 1933-1934, contou que os calouros olhavam para Baker “com certo temor”, porque um aluno já graduado era coisa rara naquele tempo.
Em 1932 os metodistas primitivos se uniram aos wesleyanos e aos metodistas unidos, e daí nasceu a Igreja Metodista da Grã-Bretanha. Foi nessa igreja unida que Baker começou o ministério, em 1934. Foi ordenado em 1937. Casou-se com Nellie, sua companheira por 63 anos, e tiveram três filhos, Margaret, Enid e Peter.
Pastor de circuito e historiador
De 1934 a 1959 Baker serviu em circuitos do centro e do norte da Inglaterra. Circuito, no metodismo inglês, é um grupo de igrejas atendidas pela mesma equipe de pastores. Por onde passou, escreveu a história local: a da igreja de West Lane, em Keighley (1940), a do metodismo em Cleethorpes (1953) e a da igreja de Newland, em Hull (1958).
Ao mesmo tempo escrevia para o Methodist Recorder, onde também respondia às perguntas dos leitores sobre a história do movimento. Ganhou quatro vezes, entre 1936 e 1948, o Prêmio Eayrs de ensaios sobre estudos wesleyanos. Em 1952 doutorou-se pela Universidade de Nottingham com uma tese sobre William Grimshaw (1708-1763), o pároco anglicano de Haworth, no Yorkshire, que apoiou Wesley e cuidou das sociedades metodistas da sua região. A tese virou livro em 1963.
A Sociedade Histórica Wesleyana foi a outra casa dele. Desde 1938 quase nenhum volume dos Proceedings da sociedade saiu sem um artigo seu. Foi o registrador da sociedade de 1943 a 1949 e o secretário-geral de 1949 a 1960. Com Wesley Swift, instalou a biblioteca da sociedade na cripta da Capela de Wesley, em Londres, aberta em 1959.
Nesses anos catalogou os manuscritos da editora metodista de Londres, em fichas que sustentariam toda a sua pesquisa, e publicou A Charge to Keep (1947), uma introdução ao povo chamado metodista; Charles Wesley as Revealed by His Letters (1948), a conferência anual da sociedade; e Methodism and the Love-Feast (1957), sobre a festa do amor, a refeição fraterna com testemunhos que Wesley adotou dos morávios. Antes de partir para os Estados Unidos, lecionou estudos religiosos no Hull Training College.
Duke e as obras de Wesley
Em 1960 Baker aceitou o convite da Escola de Teologia da Universidade Duke, em Durham, na Carolina do Norte, para ser professor de história da Igreja inglesa. No mesmo ano assumiu a direção do Projeto Editorial das Obras de Wesley, um consórcio internacional e interdenominacional de estudiosos que se propôs a fazer a primeira edição crítica completa de Wesley. A conversa tinha começado com Albert Outler; Baker foi o primeiro editor-chefe.
O trabalho começou pelo exame de mais de 450 publicações de John e Charles Wesley. Para isso Baker preparou A Union Catalogue of the Publications of John and Charles Wesley (1966), o catálogo das edições conhecidas e das bibliotecas que as guardavam. A série começou a sair pela Oxford University Press. Em 1982, por razões econômicas, a Oxford desistiu do projeto, e a Abingdon Press o assumiu com o nome de Edição do Bicentenário. A tarefa de Baker era fixar o texto autêntico de cada obra de Wesley e registrar as variantes das cerca de 2 mil edições publicadas enquanto Wesley vivia.
Ele mesmo editou os dois primeiros volumes de cartas, que saíram em 1980 e 1982. No segundo, que cobre os anos de 1740 a 1755, mais de um quinto das 270 cartas de Wesley não aparecia na edição anterior, de John Telford. Baker incluiu também 146 cartas recebidas por Wesley. A bibliografia completa das publicações de Wesley, a que ele dedicou décadas, ainda estava em preparo quando ele morreu.
Duke virou, por causa dele, um centro dos estudos wesleyanos. Em 1968 Baker sugeriu a um jovem estudante, Richard Heitzenrater, que tentasse decifrar os diários de Wesley, escritos em código. Heitzenrater passou as décadas seguintes nessa tarefa. Baker também reuniu em From Wesley to Asbury (1976) os seus estudos sobre o metodismo americano antigo e escreveu os verbetes sobre Francis Asbury e Thomas Coke na Encyclopedia of Religion (1987).
Aposentou-se em dezembro de 1979 como professor emérito, e Duke criou então o Centro de Estudos na Tradição Wesleyana para continuar o trabalho que ele tinha iniciado. A aposentadoria não interrompeu a edição, e os dois volumes de cartas saíram depois dela. Com o amigo Franz Hildebrandt, passou longas sessões marcando as alusões bíblicas do hinário de 1780, publicado na série em 1983. Em 1990, pelos seus 80 anos, a Sociedade Histórica Wesleyana preparou um número especial dos Proceedings. Na homenagem, Bowmer escreveu que Baker sabia mais sobre John Wesley do que o próprio Wesley sabia de si mesmo.
Recebeu a Medalha de Ouro de São Jorge, por serviços ao metodismo, e em 1994 o prêmio de serviço distinto da Comissão Geral de Arquivos e História da Igreja Metodista Unida. Em setembro de 1998 Duke criou o Centro Baker de Pesquisa Metodista. Frank Baker morreu dormindo, em 11 de outubro de 1999, numa casa de repouso de Durham, aos 89 anos. Richard Heitzenrater o chamou de “o historiador de Wesley por excelência”. Deixou cerca de 30 livros e mais de 200 artigos. Quarenta anos depois da aposentadoria dele, o centro de Duke pôs quase todos esses textos na internet, de graça.
Pensamento
Um wesleyano
Baker é wesleyano. Foi formado no metodismo primitivo, serviu a vida inteira como ministro metodista e explicou a teologia de Wesley em termos claramente arminianos. Já em 1940 publicou nos Proceedings uma nota sobre Wesley e Armínio. Em John Wesley and the Church of England (1970), mostrou que dois traços separaram os seguidores de Wesley dos outros grupos do avivamento: o ensino arminiano e a decisão firme de ficar dentro da Igreja da Inglaterra. Também registrou o esforço de Wesley pela cooperação com a ala calvinista, até a ruptura de 1770 (veja por que John Wesley rejeitou o calvinismo).
A divindade prática
O texto em que Baker expõe melhor a teologia de Wesley é “Practical Divinity: John Wesley’s Doctrinal Agenda for Methodism” (Wesleyan Theological Journal, 1987). “Divindade” era a palavra inglesa antiga para teologia, e “divindade prática” foi o nome que Wesley deu ao seu trabalho: o estudo do caminho da salvação, isto é, de como Deus alcança, perdoa e transforma uma pessoa.
Para Baker, esse caminho começa e termina em Deus. Ele escreve que Wesley “veio a ver que tudo isso começava com Deus”, com o seu amor imerecido, “a começar pela graça preveniente” dada a todos os seres humanos, e culminava na graça santificadora dada aos que respondem ao amor de Deus. Graça preveniente quer dizer a graça que vem antes: Deus age primeiro em todas as pessoas, e só por essa ação alguém pode crer. Baker acrescenta que, depois de 1738, ficou claro para Wesley que a iniciativa de Deus era necessária do começo ao fim da vida cristã. É a mesma convicção do arminianismo clássico: a salvação é obra de Deus do começo ao fim, e a pessoa, liberta pela graça, apenas recebe.
O artigo segue Wesley pelo caminho. Depois de Aldersgate, em 24 de maio de 1738, o peso da pregação passou da obediência para a fé, entendida, nas palavras das Homilias anglicanas que Wesley reeditou, como “uma confiança e segurança certa” em Deus. Daí veio a doutrina da certeza da salvação, o testemunho do Espírito de Romanos 8:16. Baker mostra que a pauta da primeira conferência metodista, em 1744, era toda feita de perguntas práticas: se somos justificados só pela fé, o que vem antes e depois, se o crente pode cair de vez, se o pecado interior é tirado nesta vida. Nisso aparecem a perseverança condicional, a ideia de que o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a perfeição cristã, a santidade de coração que Wesley chamou de “grande depósito” confiado aos metodistas.
Baker insiste também que a santidade de Wesley era social. Cita o prefácio dos Hinos e poemas sacros de 1739: o evangelho de Cristo não conhece religião que não seja social, nem santidade que não seja santidade social. E fecha o artigo com o resumo do próprio Wesley em 1746: o arrependimento é o pórtico da religião, a fé é a porta, e a santidade é a própria religião, que não é outra coisa senão amor a Deus e ao próximo.
Wesley, a Igreja e a providência
John Wesley and the Church of England (1970) é a obra mais importante de Baker e ainda é o estudo de referência sobre o assunto. No prefácio, ele avisa que não escreveu para provar uma tese, a não ser talvez que “a verdade é mais importante que a propaganda”. O livro mostra um homem inteiramente ligado à Igreja da Inglaterra e, ao mesmo tempo, disposto a romper as regras dela quando a pregação do evangelho o exigia: pregação ao ar livre, pregadores leigos, sociedades próprias e, em 1784, as ordenações para a América.
Baker descreve Wesley como um pragmático religioso: ele usava o remédio que funcionava, como recomendava aos leitores do seu manual de medicina caseira. Para Baker, a separação entre metodistas e anglicanos nasceu da frustração constante de esperanças, e não de um plano ambicioso. Por trás das mudanças de posição havia, porém, uma coerência maior, que o próprio Wesley resumia como seguir a providência à medida que ela se abria. Wesley disse que viveu e morreria membro da Igreja da Inglaterra, e ainda assim fundou, sabendo disso no fim da vida, uma grande igreja filha.
Charles Wesley, teólogo em versos
Baker também foi um dos grandes estudiosos de Charles Wesley. Em Representative Verse of Charles Wesley (1962) reuniu mais de trezentos poemas com as fontes manuscritas Calculou que Charles escreveu, em média, dez versos por dia durante cinquenta anos e listou cerca de cem metros poéticos diferentes nos seus hinos. Comparou a poesia de Charles a uma esponja encharcada de palavras, imagens, histórias e temas da Bíblia.
Em diálogo com a nossa declaração de fé
Baker e a nossa declaração de fé têm em comum a graça preveniente dada a todos, a justificação somente pela fé, o testemunho do Espírito, a perseverança condicional e a inteira santificação recebida pela fé. Há duas diferenças de ênfase na sua leitura de Wesley. Baker achava que a preocupação de Wesley com o sofrimento humano o levou, às vezes, a deixar de lado ensinos da Bíblia que lhe pareciam menos inspirados. Nós cremos que toda a Escritura é inspirada e é a autoridade final em matéria de fé e prática, e lemos a “analogia da fé” de Wesley como regra para interpretar a Bíblia pelo conjunto dela, e não como filtro da inspiração. Baker também destacou que Wesley não quis prender a fé a uma teoria da expiação; nós afirmamos, com Armínio e Wesley, a satisfação penal substitutiva: na cruz, Cristo levou sobre si a pena do nosso pecado.
Obras principais
- A Charge to Keep (1947).
- The Methodist Pilgrim in England (1951; 3.ª ed. revista, 1976).
- Methodism and the Love-Feast (1957).
- Representative Verse of Charles Wesley (organização e introdução, 1962).
- William Grimshaw, 1708-1763 (1963).
- Charles Wesley’s Verse: An Introduction (1964; 2.ª ed., 1988).
- A Union Catalogue of the Publications of John and Charles Wesley (1966; ed. revista com George Zimmermann, 1991).
- John Wesley and the Church of England (1970).
- From Wesley to Asbury: Studies in Early American Methodism (1976).
- The Works of John Wesley, vols. 25 e 26: Letters I-II (1980 e 1982), e editor-chefe da série.
- “Practical Divinity: John Wesley’s Doctrinal Agenda for Methodism”, Wesleyan Theological Journal 22.1 (1987).
Para aprofundar
- Frank Baker, Practical Divinity: John Wesley’s Doctrinal Agenda for Methodism, Wesleyan Theological Journal 22.1 (1987), p. 7-16.
- Frank Baker, John Wesley and the Church of England, Londres, Epworth Press; Nashville, Abingdon Press, 1970.
- Frank Baker, A Memorial Statement for Franz Hildebrandt, Methodist History 24.4 (julho de 1986), p. 238-240.
- John A. Vickers, Baker, Dr Frank (1910-1999), A Dictionary of Methodism in Britain and Ireland.
- John C. Bowmer, “Frank Baker: An Appreciation”, e “Bibliography of the Published Writings of Frank Baker”, Proceedings of the Wesley Historical Society 47 (maio de 1990), p. 153-155 e 232-239.
- Frank Baker, Wesley scholar, dies at 89, United Methodist News Service, 12 de outubro de 1999.
- The Rev. Dr. Frank Baker, Center for Studies in the Wesleyan Tradition, Duke Divinity School.
- David Reid, Duke professor in demand for celebrating John Wesley, United Methodist News Service, 30 de abril de 2003.
- Paul Chilcote, Stalking the New Mister Wesley, Good News.
- Warren Thomas Smith, resenha de From Wesley to Asbury, The Journal of the Interdenominational Theological Center 6.2 (1979).
- Timothy Dudley-Smith, Why Wesley Still Dominates Our Hymnbook, Christian History 31 (1991).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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