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HistóriaTeólogos arminianos18 de 176

Douglas Stuart: O professor do Gordon-Conwell que ensinou gerações a ler a Bíblia

Diego Gonçalves13 min de leitura2.611 palavras

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Neste texto

Em 1982, a editora Zondervan lançou um manual escrito por dois professores do mesmo seminário de Massachusetts. Gordon Fee, especialista em Novo Testamento, escreveu a introdução, o capítulo sobre as traduções e os capítulos sobre as epístolas, os evangelhos, as parábolas, Atos e o Apocalipse. Douglas Stuart, especialista em Antigo Testamento, escreveu os capítulos sobre as narrativas, a Lei, os Profetas, os Salmos e a literatura de sabedoria. O livro se chamava How to Read the Bible for All Its Worth e chegou ao Brasil pela Vida Nova com o título Entendes o que lês?. Quatro edições depois, está traduzido para mais de vinte línguas e é um dos manuais de interpretação bíblica mais usados em seminários e escolas bíblicas. Por trás da metade veterotestamentária do livro está um assiriólogo formado em Harvard, pastor de igrejas congregacionais da Nova Inglaterra e professor a quem um de seus alunos mais conhecidos atribuiu parte das próprias convicções arminianas.

Vida

Harvard, Yale e a métrica hebraica

Douglas K. Stuart nasceu em 1943, nos Estados Unidos. Bacharelou-se no Harvard College em 1964, com distinção (magna cum laude), e passou dois anos na Yale Divinity School antes de voltar a Harvard para o doutorado em Línguas e Literaturas do Oriente Próximo, concluído em 1971.

A tese tratou da métrica da poesia hebraica antiga e saiu em livro em 1976, como o volume 13 da coleção Harvard Semitic Monographs, dirigida por Frank Moore Cross: Studies in Early Hebrew Meter (“Estudos sobre a métrica hebraica antiga”). Stuart trabalhou com a contagem de sílabas desenvolvida por Cross e por David Noel Freedman e a aplicou aos poemas mais antigos da Bíblia e à poesia de Ugarit, a antiga cidade da costa síria cuja literatura é aparentada com a hebraica. Uma das constatações é que as duas metades de um verso hebraico antigo tendem a ter o mesmo número de sílabas.

Dessa formação veio a especialidade que o acompanhou a vida toda: as línguas e as literaturas da Assíria e da Babilônia e as culturas do antigo Oriente Próximo. Além do hebraico e do grego, Stuart lê aramaico, siríaco, ugarítico, acadiano, egípcio, árabe e latim, e fala romeno.

Cinco décadas no Gordon-Conwell

Em 1971, Stuart começou a ensinar Antigo Testamento no Gordon-Conwell Theological Seminary, em South Hamilton, Massachusetts, seminário evangélico interdenominacional formado dois anos antes pela fusão da Gordon Divinity School com a Conwell School of Theology. A tradição reformada tem ali forte presença. Ali Stuart ensinou panorama do Antigo Testamento, exegese de textos legais, livros históricos, proféticos e poéticos e línguas bíblicas e do Oriente antigo. Em 1990 era chefe da divisão de estudos bíblicos do seminário. Hoje é professor sênior.

Fora da sala de aula, foi copresidente do colóquio de Antigo Testamento do Boston Theological Institute e conselheiro, hoje emérito, da Sociedade Bíblica de Massachusetts. É membro da Evangelical Theological Society, da Society of Biblical Literature e da Organização Internacional de Estudos da Septuaginta e Cognatos. Escreveu para o Journal of Biblical Literature e para revistas populares como Christianity Today e Decision. Apareceu nas séries de televisão Mysteries of the Bible e Christianity: The First Thousand Years.

Foi no Gordon-Conwell que nasceu a parceria com Gordon Fee (1934-2022), pentecostal das Assembleias de Deus. Os dois escreveram juntos How to Read the Bible for All Its Worth (1982) e, vinte anos depois, How to Read the Bible Book by Book (2002). Cada um também escreveu um manual de exegese para estudantes e pastores, Stuart para o Antigo Testamento e Fee para o Novo, e as duas obras foram reunidas em português num único volume.

O pastor

Stuart é ministro ordenado e foi pastor de várias igrejas em Massachusetts e em New Hampshire. Em Massachusetts, serviu em igrejas congregacionais, a tradição herdeira dos puritanos da Nova Inglaterra. Em 2008 era pastor titular da First Church Congregational de Boxford. Depois assumiu a Linebrook Church, em Ipswich, uma igreja congregacional independente formada em 2006, que se reúne num templo de 1848 erguido pela paróquia de Linebrook, criada em 1746. As pregações expositivas dele ali ficaram gravadas e disponíveis na internet.

Há também o trabalho missionário: Stuart fez viagens de missão e se dedicou ao ministério entre os ciganos do Leste Europeu. O manual Old Testament Exegesis ganhou tradução romena, Exegeza Vechiului Testament. Ele e a esposa, Gayle, têm oito filhos, quatro deles adotados, e vivem em Bradford, Massachusetts.

Conferências e “traduções favoritas”

Em abril de 2008, Stuart deu as conferências bíblicas anuais da Beeson Divinity School, da Samford University, no Alabama, sobre “As leis do Antigo Testamento e o ensino de Jesus”. Em fevereiro de 2013, deu as conferências W. H. Griffith Thomas no Dallas Theological Seminary, com o título “Minhas traduções erradas favoritas”: quatro capelas sobre 1 Reis 19:12, Oseias 1:2 e 3:1, Provérbios 22:6 e Jonas 1:2. Em 2014, a revista do seminário, Bibliotheca Sacra, publicou a série em artigos, que incluíram também Gênesis 3:8.

Em Gênesis 3:8, as versões dizem que Deus andava no jardim “pela viração do dia”, como se escolhesse uma hora agradável para passear. Stuart, seguindo Jeffrey Niehaus, lê no hebraico a chegada de Deus no vento da tempestade, com o estrondo do trovão. Por isso Adão e Eva se escondem: aquela era, nas palavras dele, “uma visita de julgamento, um inquérito legal”. Em Provérbios 22:6, o hebraico diz literalmente “instrui a criança segundo o caminho dela”. Stuart traduz como um aviso: quem deixa o adolescente seguir o caminho que ele mesmo quer verá esse caminho mantido até a velhice.

Pensamento

Um arminiano na sala de aula

Classe: arminiano clássico. A Sociedade dos Arminianos Evangélicos apresenta Stuart como “estudioso arminiano” e divulga as suas pregações. O testemunho mais forte vem de um aluno. Na tese de doutorado defendida em Aberdeen em 2004, sobre o uso do Antigo Testamento em Romanos 9, Brian Abasciano agradece aos professores de exegese do Gordon-Conwell. Depois de dizer que dois deles não respondem pelas suas convicções arminianas, ressalva que Douglas Stuart “tem alguma responsabilidade” por elas. Abasciano se tornaria presidente dessa sociedade e defensor da eleição condicional em Cristo lida como eleição de um povo.

A obra publicada de Stuart é de exegese, e não de teologia sistemática. O arminianismo dele aparece na leitura dos textos e na formação de pastores, dentro de uma tradição de origem reformada, a congregacional. Foi também dentro da tradição reformada que viveu Jacó Armínio, e por isso o classificamos como arminiano clássico, e não como wesleyano (ver o arminianismo é reformado?).

Alguns textos mostram o rumo dessa leitura. No comentário a Êxodo (2006), Stuart identifica o livro de que Moisés pede para ser riscado em Êxodo 32:32 com o livro da vida que, em outras passagens da Bíblia, reúne os que terão a vida eterna. Lido assim, o versículo seguinte, “Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim” (Êxodo 32:33), põe diante do povo de Deus uma advertência séria, que conversa com a perseverança condicional da tradição arminiana. É exatamente esse texto de Êxodo que Paulo ecoa em Romanos 9:3 e que Abasciano estudou no primeiro capítulo exegético da sua tese.

No mesmo comentário, Stuart trata do endurecimento do coração de Faraó num excurso próprio. A Bíblia diz que Faraó endureceu o coração, que o coração de Faraó se endureceu e que Deus endureceu o coração de Faraó. Para Stuart, as três formas são praticamente equivalentes, e a diferença de vocabulário pesa pouco no debate entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana.

O mesmo cuidado aparece num comentário popular de 1985, Favorite Old Testament Passages. Ao tratar de Jeremias 1:5, “Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci”, Stuart observa que ali Deus fala de ter destinado Jeremias ao ministério de profeta, e que o versículo nada diz sobre a predestinação em geral nem sobre uma predestinação de Jeremias para o céu ou para o inferno. É a distinção que os arminianos fazem entre a escolha de alguém para uma missão e a eleição para a salvação, que é em Cristo e condicionada à fé.

Os Profetas e a aliança

A ideia mais conhecida de Stuart é a leitura dos profetas a partir da aliança do Sinai. A Lei de Moisés termina com bênçãos para a obediência e maldições para a desobediência (Levítico 26, Deuteronômio 4 e Deuteronômio 28 a 32). Em Entendes o que lês?, Stuart agrupa as maldições em dez categorias: morte, doença, seca, fome, perigo, destruição, derrota, deportação, miséria e desonra. As bênçãos, em seis: vida, saúde, prosperidade, fartura nas colheitas, respeito e segurança. Os profetas, mostra ele, anunciam quase sempre essas mesmas categorias, como a destruição em Oseias 8:14 ou a deportação em Oseias 9:3. Não criam ameaças novas: lembram a Israel o que Deus já tinha prometido no pacto. O comentário a Oseias, Joel, Amós, Obadias e Jonas da Word Biblical Commentary (1987) aplica esse quadro versículo por versículo.

No mesmo livro, a tese aparece numa frase curta: “Os Profetas eram mediadores da aplicação da aliança” (How to Read the Bible for All Its Worth, 1982). Daí vem uma correção ao leitor que procura nos profetas o futuro distante: menos de 2% da profecia do Antigo Testamento é messiânica, menos de 5% descreve a era da nova aliança e menos de 1% trata de acontecimentos que ainda estão por vir. A maior parte fala do futuro próximo de Israel, de Judá e das nações vizinhas. É a leitura que ajuda a entender livros como Oseias e Jonas.

A Lei, as narrativas e a sabedoria

Sobre a Lei, Stuart parte de uma frase direta: “O Antigo Testamento não é o nosso Testamento” (How to Read the Bible for All Its Worth, 1982). Testamento é outra palavra para aliança. A Lei foi um pacto entre Deus e Israel, e o cristão vive sob a nova aliança. Isso não torna a Lei inútil: as leis em forma de mandamento direto, “farás” e “não farás”, que ele chama de apodíticas, funcionam como paradigmas, exemplos do comportamento que agrada a Deus, e não como listas completas.

Sobre as narrativas, que ocupam mais de 40% do Antigo Testamento, Stuart ensina a lê-las em três níveis: o plano de Deus para toda a criação, a história do povo de Israel e cada episódio individual. As narrativas não são alegorias nem histórias cheias de sentidos escondidos. Sobre a sabedoria, insiste que os provérbios não são garantias legais de Deus, mas orientações poéticas para uma vida boa. A leitura que propôs para Provérbios 22:6, como aviso e não como promessa, segue a mesma linha.

Exegese a serviço da igreja

O manual Old Testament Exegesis (1980), que chegou à quinta edição em 2022, organiza o trabalho exegético em doze passos, do estabelecimento do texto e da tradução até a aplicação, com um roteiro mais curto para quem prepara sermões. Stuart define exegese como o estudo cuidadoso de uma passagem bíblica “para chegar a uma interpretação útil”, e acrescenta que ela é “uma tarefa teológica, mas não mística”. O fim da exegese, diz ele, é a pregação e o ensino na igreja.

No Guide to Selecting and Using Bible Commentaries (1990), Stuart classifica os comentários pelo alcance, pelo grau de detalhe, pelo nível técnico e pela posição teológica. São princípios de interpretação da Escritura postos em forma de ferramenta.

Convergências com a nossa declaração de fé

Stuart defende que Moisés escreveu o Pentateuco, data o êxodo no século XV antes de Cristo, com base em 1 Reis 6:1, e considera bem preservado o texto hebraico de Êxodo, em sintonia com a nossa declaração de fé sobre a Escritura. A leitura do livro da vida em Êxodo 32 combina com o nosso artigo sobre a perseverança condicional.

Obras principais

  • Studies in Early Hebrew Meter, Harvard Semitic Monographs 13 (Scholars Press, 1976).
  • Old Testament Exegesis: A Primer for Students and Pastors (Westminster, 1980; 5.ª ed., Westminster John Knox, 2022).
  • How to Read the Bible for All Its Worth, com Gordon D. Fee (Zondervan, 1982; 4.ª ed., 2014).
  • Favorite Old Testament Passages: A Popular Commentary for Today (Westminster, 1985).
  • Hosea-Jonah, Word Biblical Commentary 31 (Word, 1987).
  • Ezekiel, The Communicator’s Commentary (Word, 1989), reeditado em Mastering the Old Testament e em The Preacher’s Commentary.
  • A Guide to Selecting and Using Bible Commentaries (Word, 1990).
  • “Malachi”, em Thomas E. McComiskey (org.), The Minor Prophets: An Exegetical and Expository Commentary, vol. 3 (Baker, 1998).
  • How to Read the Bible Book by Book, com Gordon D. Fee (Zondervan, 2002).
  • Exodus, New American Commentary 2 (B&H, 2006).

Livros em português

  • Entendes o que lês? Um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica, com Gordon D. Fee (Vida Nova, 1984; nova edição revista e ampliada). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Manual de exegese bíblica: Antigo e Novo Testamentos, com Gordon D. Fee (Vida Nova, 2008). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Como ler a Bíblia livro por livro: um guia de estudo panorâmico da Bíblia, com Gordon D. Fee (Thomas Nelson Brasil, 2019). Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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