AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaTeólogos arminianos14 de 176

E. E. Shelhamer: O evangelista metodista livre que pregava uma santidade radical

Diego Gonçalves13 min de leitura2.598 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Num inverno de muito frio no oeste da Pensilvânia, um rapaz de dezesseis anos, recém-convertido, escondia-se atrás dos feixes de milho do celeiro da família para orar. Mais de uma vez saltava sobre um caixote e pregava às toras e aos pés de milho, mandando-os fugir da ira vindoura. Anos depois, Elmer Ellsworth Shelhamer escreveu que Deus o estava treinando para pregar a pessoas quase tão duras quanto as toras de nogueira e tão secas quanto os pés de milho. Ele pregou por mais de cinquenta anos, em vários continentes, publicou dezenas de livros e milhões de folhetos, e assinava os livros e as fotografias com uma frase: “Seu, por uma obra limpa, e não por uma obra grande”.

Retrato de E. E. Shelhamer, com a dedicatória manuscrita
E. E. Shelhamer, frontispício de Heart Searching Sermons and Sayings (Atlanta, Repairer Publishing Company, 1917), com a dedicatória "Yours for a clean, rather than a big work". Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

“Ragged Elzie”

Shelhamer nasceu em 16 de dezembro de 1869, perto de Vandergrift, na Pensilvânia, sétimo filho de Josiah e Susan Shelhamer. A família morava numa casa de toras, e na escola o chamavam de “Ragged Elzie”, o Elzie esfarrapado. Os pais eram pobres e piedosos, mas antes dos quinze anos o filho se tornou um rapaz violento, e o pai chegou a dizer que não se surpreenderia se o visse um dia na forca. Num dia de inverno, voltando da cidade meio embriagado de sidra, ele anunciou que ia buscar a religião. Foi ao banco dos penitentes numa série de reuniões de avivamento, outros dez rapazes e homens o seguiram, e depois de três dias de busca ele foi, nas suas palavras, “solidamente convertido”.

Sentiu logo o chamado para pregar. Para pagar os estudos, trabalhou no turno da noite na galvanização de uma usina de ferro e depois foi para Wheaton, em Illinois, onde estudou três anos na academia. No segundo ano percebeu que o ambiente o tinha amolecido. Num domingo entrou numa pequena igreja à beira da ferrovia, onde se fazia uma reunião de classe com perguntas diretas sobre a vida espiritual, e foi ao altar confessar que tinha descido ao nível dos que o cercavam. A igreja era metodista livre, e os colegas zombaram dele, dizendo que passaria a vida pregando para bancos vazios. Foi assim que ele entrou para a Igreja Metodista Livre, em parte pela influência de Harriet Arvilla Coon, a “Auntie Coon”, cuja vida ele escreveria em 1905.

Os Pentecostal Bands

Aos dezenove anos saiu de Wheaton para se juntar a três rapazes numa campanha em Atwood, Illinois. A oposição atirou pedras, ovos e balas e destruiu a tenda com dinamite, e as reuniões continuaram na rua. Shelhamer passou a trabalhar com os Pentecostal Bands, grupos de jovens evangelistas, muitos deles liderados por mulheres, organizados pelo metodista livre Vivian A. Dake, sob cujo ministério ele recebeu a experiência da santificação. Com os Bands ajudou a fundar várias igrejas metodistas livres, sobretudo na Pensilvânia e em Illinois. Numa campanha de vários meses em Stewardson, Illinois, caiu de cama com hemorragias nos pulmões, a doença que já tinha matado dois irmãos e três irmãs dele. Um pregador da cidade vizinha veio ungi-lo segundo Tiago 5:14, orou por doze horas, e Shelhamer se levantou curado. Daí em diante ensinou a cura divina ao lado da conversão e da santificação.

Alto, decidido e de presença marcante, era visto por muitos como o sucessor natural de Dake, que morreu em 1892, mas a liderança ficou com Thomas Nelson. Em 1894 Shelhamer foi recebido em plena conexão na Conferência de Pittsburgh e ordenado diácono, e quando os Bands se separaram da denominação, em 1895, ele ficou na igreja. Era casado com Minnie Baldwin, também evangelista dos Bands, pregadora de rua e conhecida pelo trabalho nas prisões.

Esgotado pelas campanhas, dirigiu por um tempo um orfanato na Virgínia. Pregava a inteira santificação havia anos, mas desconfiava da própria experiência: quando recém-convertidos agradeciam a ele, sentia prazer; quando agradeciam ao colega, sentia desconforto. Ele foi ler os antigos e encontrou em John Fletcher e em Adam Clarke a ideia de que o pecado interior precisa ser sentido e confessado para ser purificado. Entregou-se a um longo exame em que o Espírito lhe mostrava “uma fase da carnalidade, depois outra”, até que não lhe restou nada a confessar e ele pôde crer “agora” na purificação do coração.

Atlanta e The Repairer

Em novembro de 1895 o casal começou reuniões numa missão de Atlanta, na Geórgia, e abriu outra em Jacksonville, na Flórida. Em 1899 mudou-se de vez para o Sul, para plantar ali uma santidade radical. Numa ocasião venderam o último selo de dois centavos para comprar um osso de sopa, que ferveram por três dias. Em Atlanta foram tratados como “ianques”, e dezesseis deles foram presos por fazer culto na rua. O evangelista Sam P. Jones denunciou a prisão, e o juiz os absolveu dizendo que faziam “uma obra grande e boa”. O casal abriu um lar de treinamento de missionários, uma hospedaria para homens pobres, dois lares de resgate e uma gráfica. Em 1900 a Conferência de Pittsburgh organizou o Distrito de Atlanta e o nomeou presbítero distrital.

A gráfica nasceu de um conflito. Um líder da santidade lhe deu um livro muito lido sobre o “velho homem” e pediu que anotasse as discordâncias. Na margem de uma página Shelhamer escreveu que o padrão era baixo demais: o homem do exemplo, cujo cachorro e cujos filhos já não fugiam dele depois da “segunda bênção”, tinha recebido a primeira bênção, a conversão. O autor soube e o atacou num jornal da santidade, e por três anos ou mais os convites para pregar foram cancelados. Sem púlpitos, Shelhamer passou a publicar folhetos e um jornal mensal, The Repairer (“O Reparador”). Em 1926 calculava ter posto em circulação mais de 200 milhões de páginas. A reabilitação veio numa convenção em Louisville: Henry Clay Morrison o chamou para pregar, foi ao altar no fim do sermão com uma dúzia de pregadores e depois o convidou a pregar no Asbury College.

Minnie morreu em 1902, aos trinta e quatro anos, depois de um parto em que o filho nasceu morto. Em 1903 Shelhamer casou-se com Julia Arnold, de Illinois, que pregava e escrevia e se tornou sua parceira no ministério e nos livros. Em 1909 os dois deram a volta ao mundo visitando missões, e Shelhamer pregou na América do Sul, na África, na Ásia, na Austrália e na Europa. Em novembro de 1913 o bispo William Pearce organizou em Atlanta a Conferência da Geórgia e da Flórida, nascida em grande parte do trabalho dele, com sete circuitos na Geórgia, cinco na Flórida e dois no Alabama, e da qual saiu também a Missão Espanhola da Flórida. Em Lakeland, na Flórida, foi preso de novo por pregar ao ar livre e recusou-se a pagar a multa.

Os últimos anos

Durante alguns anos o casal teve como base a God’s Bible School, em Cincinnati. Perto dos sessenta anos reescreveu as memórias de 1915, The Ups and Downs of a Pioneer Preacher, como Sixty Years of Thorns and Roses (“Sessenta anos de espinhos e rosas”). Antes da impressão morreu a filha, Evangeline, que começava a pregar, e ele acrescentou capítulos sobre ela. Shelhamer morreu em 1947. A autobiografia saiu outra vez, em 1951, como A Spartan Evangel.

Pensamento

Shelhamer pertence à tradição wesleyana de santidade, na ala que ele mesmo chamava de santidade radical. Era presbítero da Igreja Metodista Livre, que confessa a graça para todos, a perseverança condicional e a inteira santificação, e citava sem parar John Wesley, Fletcher e Clarke.

A graça que vem antes

Para Shelhamer, a salvação começa em Deus. No sermão “Passos na busca da santidade” (Sermons That Search the Soul, 1926), ele escreve que o Espírito “dá o primeiro passo e nos atrai com cordas de amor”. No sermão sobre resistir ao Espírito, explica que a obra própria do Espírito Santo é “lutar com os homens e produzir convicção”, trabalhando “para o bem de toda alma”, mas que ele é cortês: bate à porta e não a arromba (Apocalipse 3:20). É a graça preveniente do arminianismo, dada a todos, que convence e chama antes de qualquer resposta e pode ser recusada (ver Arminianismo: É Tudo Sobre a Graça).

Sobre a eleição, Shelhamer afirmava que prever não é determinar: o profeta previu os crimes de Hazael, e Hazael continuou responsável por eles. Com Adam Clarke, lia as predições que envolvem a ação humana como condicionais, como a de Davi em Queila (1 Samuel 23:1-13). “Deus elege o caráter, não indivíduos”, escreveu. A frase o afasta da formulação de Armínio, para quem Deus elege pessoas determinadas, prevendo quem creria e perseveraria, e o aproxima da leitura que põe a eleição numa classe de pessoas, os que estão em Cristo. Em How We Escaped (1943) ele recusa a eleição incondicional. Contra a “segurança eterna” foi direto: uma doutrina que se aproveita da bondade de Deus e afrouxa a vigilância “vem de baixo”. Quem se mantém em comunhão com Deus está tão seguro do céu “como se já estivesse lá”, mas pode abandonar o caminho.

Algumas fórmulas dele são menos cuidadosas. Numa das suas máximas, depois de dizer que “Deus dá o passo inicial na nossa salvação”, ele calcula que a salvação é “dois terços divindade e um terço humanidade”. A primeira parte da frase é a doutrina da graça preveniente; a conta de porcentagens não é a do arminianismo clássico nem a da declaração de fé deste site, para a qual a fé, tornada possível pela graça, recebe a salvação e não acrescenta nada a ela.

Santidade pelo caminho da morte

O centro do pensamento de Shelhamer é a inteira santificação, a segunda obra da graça em que Deus purifica o coração do pecado interior e o enche de amor (ver Santificação: a reforma interior que dura a vida inteira). A marca dele está no método. Achava superficial a instrução corrente nos acampamentos, de “pôr tudo no altar, fazer uma consagração completa e tomar a bênção pela fé”: o crente recebia assim uma grande bênção, mas não a pureza. No sermão de 1926 ele descreve quatro passos, os mesmos na busca do perdão e da pureza: convicção, confissão, crucificação e “fé cooperante”. Na busca do perdão a pessoa trata dos pecados cometidos; na busca da pureza, do “princípio oculto do pecado”. O Espírito mostra ao crente, como dizia Wesley, “o fundo do coração”, com as suas profundezas de orgulho e vontade própria; a confissão arrasta esses males para a luz de Cristo, e a fé recebe a purificação. Ele chamava isso de “a rota da morte”, porque Romanos 6:6 diz que o velho homem foi crucificado, e não “consagrado”. Daí o juízo duro sobre os pregadores que apressavam os que buscavam com cânticos e gritos.

A santidade, para ele, se media no temperamento. “Nenhuma quantidade de boas obras pode expiar um espírito mau”, diz uma das máximas de Sixty Years of Thorns and Roses; e a santidade faz que a pessoa não se incline para a frente quando é elogiada nem para trás quando é contradita. Ele aplicava a medida a si mesmo e dedicou uma parte da autobiografia aos próprios erros.

Contra o espírito de seita

Radical na vida pessoal, Shelhamer foi largo nas relações entre igrejas, pregou em acampamentos nazarenos apesar dos protestos de colegas metodistas livres e copiava longos trechos do sermão de Wesley “Advertência contra o fanatismo” (sermão 38): se alguém expulsa demônios em nome de Jesus, não se deve proibi-lo porque “não nos segue” (Marcos 9:38-39). “Há uma grande diferença entre seguir o caminho estreito para o céu e ter um espírito estreito e fanático”, escreveu. Quando surgiu o movimento pentecostal, foi a Los Angeles observá-lo, recusou-se a publicar ataques e pregou para pentecostais em Chicago e em Joanesburgo; mas concluiu que o movimento precisava de equilíbrio e escreveu o folheto Five Reasons Why I Do Not Seek the Gift of Tongues (“Cinco razões por que não busco o dom de línguas”), um dos seus textos mais difundidos. O remédio contra o formalismo e o fanatismo, dizia, é a crucificação do velho homem e o enchimento constante do amor santo.

Com a declaração de fé deste site, ele afirma a graça preveniente, a perseverança condicional e a inteira santificação recebida pela fé; as diferenças são as já apontadas e a ênfase na cura divina, que a declaração não trata.

Obras principais

  • Life and Labors of Auntie Coon (1905), biografia de Harriet A. Coon.
  • Popular and Radical Holiness Contrasted (Atlanta, The Repairer, 1906).
  • Heart Searching Talks to Ministers (Louisville, Pentecostal Publishing Company, 1914), coletânea organizada por ele, com textos dele, de Wesley, de H. C. Morrison e de Richard Baxter.
  • The Ups and Downs of a Pioneer Preacher (1915), primeira versão da autobiografia.
  • Heart Searching Sermons and Sayings (Atlanta, Repairer Publishing Company, 1917).
  • Sermons That Search the Soul (Kansas City, Nazarene Publishing House, 1926).
  • Sixty Years of Thorns and Roses (Cincinnati, God’s Bible School, c. 1930).
  • How We Escaped, com Julia A. Shelhamer (c. 1943).
  • Bible Holiness: How Obtained and How Retained (Chicago, Free Methodist Publishing House, s.d.).
  • Five Reasons Why I Do Not Seek the Gift of Tongues (folheto, s.d.).
  • A Spartan Evangel: Life Story of E. E. Shelhamer (1951, póstumo).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

140pal/min