
HistóriaTeólogos arminianos8 de 176
Étienne de Courcelles: o pastor francês que deixou a pátria pelos remonstrantes
Numa disputa teológica em Amsterdã, presidida por Simão Episcópio, alguém perguntou como se cumpre a promessa de Mateus 19:29, sobre quem deixa casa, irmãos e irmãs por causa do nome de Cristo e recebe cem vezes mais. Episcópio respondeu que o cumprimento completo fica para o mundo futuro, mas que Deus às vezes dá sinais dele ainda nesta vida. Então apontou para o colega sentado ali: “Vede a mim e a este nosso Courcelles”. Episcópio tinha sido exilado da Holanda para a França; o outro tinha fugido da França para a Holanda por vontade própria, e Deus não abandonara nenhum dos dois. O colega era Étienne de Courcelles, pastor reformado francês que trocou a pátria e a carreira pela comunhão com os arminianos e, depois da morte de Episcópio, dirigiu sozinho por anos a escola dos remonstrantes.
Vida
Genebra e o sonho de ouvir Armínio
Étienne de Courcelles, em latim Stephanus Curcellaeus, nasceu em Genebra em 2 de maio de 1586. A família vinha de uma linhagem antiga da Picardia. O pai, Firmin de Courcelles, tinha fugido de Amiens por causa da perseguição aos protestantes e morreu quando o filho mal tinha nascido. O menino foi criado por um parente próximo, Charles Perrot, pastor e professor de teologia em Genebra. Teodoro de Beza foi um dos seus mestres e lhe ensinou grego em particular.
Perrot marcou o rapaz mais do que Beza. Era um teólogo conhecido pela moderação; tinha sido professor de Johannes Wtenbogaert e, quando este voltou para a Holanda, aconselhou-o a nunca condenar os outros por diferenças de opinião. O jovem Courcelles admirava Beza acima de todos, e um dia ouviu Perrot criticar com dureza os doutores que condenam e oprimem quem pensa diferente. Dali em diante decidiu aceitar as suas convicções religiosas pela força da verdade, e não pela autoridade de algum homem. A predestinação absoluta ensinada por Beza nunca o convenceu.
Em 1609 percorreu as academias de Zurique, Basileia e Heidelberg, onde também estudou direito com Denis Godefroy. O plano era seguir para Leiden e ouvir Jacó Armínio, cuja fama de moderação tinha chegado a Genebra. Em Heidelberg recebeu a notícia da morte de Armínio e voltou para casa.
Pastor na França
Em 1614 Courcelles foi ordenado pastor da pequena igreja reformada de Fontainebleau. Ali assistiu Louise de Coligny, viúva de Guilherme de Orange, na doença que a levou à morte em 1620. Depois do Sínodo de Dort, conviveu na França com os líderes remonstrantes exilados, como Wtenbogaert, Episcópio, Daniel Tilenus e Johannes Corvinus, e dizia que aquelas conversas o tinham feito crescer no conhecimento da verdade e no amor à concórdia.
Em 1620 o sínodo nacional das igrejas reformadas francesas, reunido em Alès, adotou os cânones de Dort, e os pastores passaram a ser obrigados a subscrevê-los. Courcelles, então pastor em Amiens, a cidade da família, recusou-se a assinar um texto que condenava homens cuja doutrina e conduta ele não ousava condenar, e foi afastado do ministério. Mais tarde cedeu, assinou e voltou ao púlpito, primeiro em Heiltz-le-Maurupt (1625) e depois em Vitry, na Champanha (1626), onde pregou cerca de dez anos. Aquela assinatura lhe pesou pelo resto da vida como uma submissão a autoridade humana em matéria de fé.
Casou-se com Jeanne de Beaulieu Le Blanc, que morreu na França e lhe deixou dois filhos, Gédéon e Marie. Mais tarde casou-se com Susanne Fleurigeon, sem filhos.
Amsterdã
Em 1634 Courcelles deixou a França, a igreja de Vitry e os amigos, e foi para Amsterdã unir-se à Fraternidade Remonstrante. Episcópio o recebeu como amigo, mas parte dos remonstrantes não lhe perdoava ter assinado os cânones de Dort, e por vários anos ele ficou sem cargo. Sustentou a família como revisor de provas na tipografia dos Blaeu e com traduções de obras matemáticas.
Nesses anos ficou amigo de René Descartes e traduziu para o latim o Discurso do método, a Dióptrica e os Meteoros. O volume saiu em Amsterdã em 1644, com o título Specimina philosophiae e o nome de Descartes na folha de rosto, como quem tinha revisto a tradução. Em 1638 Courcelles tentou mediar, num escrito em francês, a controvérsia sobre a predestinação entre Moïse Amyraut e Pierre du Moulin, e saiu dela com inimigos dos dois lados.
Episcópio morreu em 4 de abril de 1643, e em 6 de maio os dirigentes da Fraternidade escolheram Courcelles para sucedê-lo no seminário, com três pastores para dividir o ensino: Carolus Niellius, Bartholomaeus Praevostius e Albertus Huttenus. A cegueira de um, a aposentadoria de outro e a mudança do terceiro para Nijmegen o deixaram sozinho a partir de 1649. Ensinava grego, ética, ciências naturais e teologia, e dirigia os exercícios semanais de pregação. Ditou aos alunos um comentário da Epístola de Judas e uma exposição de toda a teologia, a Institutio religionis christianae, que nunca terminou. Em 1650 publicou as obras de Episcópio, com um prefácio seu. Em 1653 a cidade lhe concedeu a cidadania de graça, honra rara para um estrangeiro.
A perseguição aos remonstrantes ainda não tinha acabado: Gédéon, o filho, foi preso em 1648 em Kampen, onde servia a congregação remonstrante, e só saiu depois de pagar multa e aceitar o banimento. Depois foi pastor em Noordwijk e na Haia.
Por volta de 1649 uma úlcera na bexiga levou os médicos a dar Courcelles como perdido. Na França, um poeta que o julgou morto escreveu um epitáfio zombeteiro, mandando-o para o inferno por causa do que tinha escrito sobre o direito de Deus sobre as criaturas. Courcelles sarou e respondeu com um poema que começava com Ecce redivivum, “eis o ressuscitado”.
Os últimos anos
Defendeu o amigo David Blondel, que tinha demonstrado ser lenda a história da papisa Joana, contra os ataques do teólogo reformado Samuel Maresius (1657). Em 1658 publicou uma edição do Novo Testamento grego com as variantes dos manuscritos e das edições impressas, reimpressa muitas vezes e a mais conhecida das suas obras. No mesmo período escreveu um tratado sustentando que os cristãos ainda devem abster-se de comer sangue, pelo mandamento dado a Noé e pelo decreto dos apóstolos em Atos 15. Contra Maresius escreveu também a Quaternio dissertationum (1659), quatro dissertações sobre as palavras usadas para expor a Trindade, o pecado original, a necessidade de conhecer Cristo para ser salvo e a justificação.
Com mais de setenta anos, as forças diminuíram e as pedras voltaram. Um ano antes de morrer, pediu ao sínodo remonstrante que lhe desse um sucessor, e foi escolhido Arnold Poelenburg. Passou os últimos meses de cama, com dores fortes, pedindo que lhe lessem os Salmos e orando com os colegas. Morreu em Amsterdã em 20 de maio de 1659. Poelenburg pronunciou a oração fúnebre, e em 1675 Philipp van Limborch publicou as suas Opera theologica.
Pensamento
Courcelles é um remonstrante da segunda geração, herdeiro direto de Episcópio: rejeitou a eleição incondicional e a graça irresistível, como Armínio e a Remonstrância. A sua obra, porém, mostra um desvio em relação a Armínio. O metodista Benjamin Field o pôs, com Limborch e Jean Le Clerc, entre os remonstrantes que se inclinaram para o pelagianismo, e Roger Olson fala de arminianos “de cabeça”, que conservaram o nome e enfraqueceram a substância (ver A tradição arminiana: de Armínio a Wesley).
Cristo morreu por todos
Na Institutio, Courcelles defende a expiação universal com textos como 1 João 2:2 e 1 Timóteo 2:6. Quando Jesus fala das suas “ovelhas”, dos seus “amigos” e da sua igreja, ele não fala de pessoas eleitas de modo absoluto, sem relação com a fé, mas dos verdadeiros crentes, que se tornaram crentes ao receber Cristo. Se Cristo tivesse morrido só por eleitos que Deus já amava com amor imutável, eles nem precisariam ser reconciliados, e a morte de Cristo seria supérflua. No livro VI ele responde aos argumentos a favor da graça irresistível. A Escritura, diz, não ensina em nós uma incapacidade de crer tão grande que a eficácia do evangelho e a força do Espírito, que sempre o acompanha, não possam vencer.
No escrito de 1638 sobre Amyraut e du Moulin, o seu juízo resume a posição remonstrante. Amyraut “fala bem, mas pensa mal”: afirma que Deus quer salvar todos e que Cristo morreu por todos, mas mantém um número fixo de eleitos e de rejeitados por decreto absoluto. Du Moulin erra nas palavras e no sentido, porque nega que Deus queira salvar todos, quando a Escritura o afirma e o próprio Deus convida os rejeitados para as bodas (Mateus 22).
O pecado original
Aqui Courcelles se afasta de Armínio. Na Institutio, admite que nascemos com certa inclinação para o mal, mas nega que essa corrupção seja pecado propriamente dito, digno da morte eterna. A razão é que “todo pecado verdadeiro e propriamente dito” deve ser voluntário, cometido por quem sabe e quer. O Salmo 51:5 seria uma hipérbole, como as passagens em que Jó e Davi dizem ter confiado em Deus desde o ventre. Quando Paulo chama os gentios de “servos do pecado” (Romanos 6:20) e diz que estavam “mortos em ofensas e pecados” (Efésios 2:1), estaria usando figuras para o costume inveterado de pecar, que é difícil de abandonar, mas tem cura.
Contra Amyraut, sustentou que Deus não pode, com justiça, atormentar no inferno crianças inocentes, e que o próprio Armínio pensava assim.
A distância em relação a Armínio é grande. Para Armínio, o livre-arbítrio do homem caído para o verdadeiro bem está “aprisionado, destruído e perdido” (Disputas públicas, XI), e só a graça preveniente, que vem antes de qualquer querer humano, o liberta. Na leitura de Courcelles, a incapacidade fica reduzida a um mau hábito. A declaração de fé deste site segue Armínio e Wesley: todos nascemos pecadores, sob a justa condenação de Deus e incapazes de qualquer coisa para nos salvar (ver O pecado original e a depravação total).
A morte de Cristo
Courcelles também explica a cruz de modo próprio. Deus, diz, poderia perdoar sem satisfação nenhuma, como um credor pode perdoar uma dívida, porque nada fora dele o obriga a punir. Escolheu livremente a morte do Filho e quis “comutar a pena em sacrifício expiatório”, para mostrar quanto o pecado lhe é odioso e para que Cristo, como guia fiel, abrisse o caminho da glória pelo sofrimento. Ele se distancia assim da teoria governamental de Hugo Grócio, que fala de Deus como governante que mantém a autoridade da lei, e também da satisfação penal substitutiva, em que Cristo leva a pena que a justiça de Deus exige, que é a posição de Armínio, de Wesley e deste site (ver A expiação).
A Escritura, a Trindade e a paz da igreja
O centro do seu projeto era a paz entre os cristãos. Courcelles quis mostrar que nem todos os dogmas usados como pretexto para cismas são necessários à salvação, e que o que não é necessário não basta para dividir a igreja de Cristo. A base era a clareza da Escritura: ela contém tudo o que é preciso crer para ser salvo e o explica de modo que qualquer um que a leia com atenção e reverência possa entendê-la.
Ele aplicou essa regra à Trindade. Num capítulo da Institutio defende que, nas disputas sobre se há três pessoas coessenciais e iguais numa só essência e se o Espírito procede do Pai e do Filho, é melhor dizer non liquet, “não está claro”, do que pronunciar algo temerariamente, e que palavras como Trindade, pessoa e hipóstase, por não estarem na Bíblia, não devem ser impostas a ninguém sob pena de perder a salvação. Maresius o chamou de antitrinitário e de sociniano; Courcelles respondeu, na Quaternio, que não era antitrinitário. A declaração de fé deste site confessa sem reservas um só Deus em três pessoas coeternas e coiguais, de uma única essência, e nisso se afasta da suspensão de juízo de Courcelles.
O legado
Courcelles formou sozinho uma geração de pastores remonstrantes e deixou a Limborch um sistema que este expôs na Theologia christiana (1686). O seu Novo Testamento grego circulou por décadas. Para quem estuda o arminianismo, a sua vida mostra a coragem de um pastor que deixou tudo por liberdade de consciência, e a sua obra mostra como uma tradição pode guardar o nome de Armínio e perder a força da sua doutrina da graça.
Obras principais
- Advis d’un personnage désintéressé (1638), sobre a controvérsia entre Amyraut e du Moulin.
- Specimina philosophiae (1644), tradução latina do Discurso do método, da Dióptrica e dos Meteoros de Descartes.
- Vindiciae (1645), em defesa da sua posição e da de Armínio sobre o direito de Deus sobre as criaturas inocentes, contra Amyraut.
- Edição das obras de Simão Episcópio, com prefácio (1650).
- Defesa de David Blondel contra Maresius, como prefácio à dissertação de Blondel sobre a papisa Joana (1657).
- Novum Testamentum grego, com variantes de manuscritos e edições (1658).
- Quaternio dissertationum theologicarum adversus Samuelem Maresium (1659).
- Diatriba de esu sanguinis inter Christianos, sobre a abstenção de sangue (c. 1659).
- Opera theologica (1675), edição de Philipp van Limborch, com a Institutio religionis christianae em sete livros.
Para aprofundar
- Étienne de Courcelles, Opera theologica, quorum pars praecipua Institutio religionis christianae (Amsterdã: Daniel Elzevier, 1675), com o prefácio de Philipp van Limborch e a oração fúnebre de Arnold Poelenburg, Internet Archive.
- Curcellaeus (Stephanus), Biographisch woordenboek van protestantsche godgeleerden in Nederland, vol. 2, DBNL.
- Curcellaeus (Gideon), Biographisch woordenboek van protestantsche godgeleerden in Nederland, vol. 2, DBNL.
- A. J. van der Aa, Curcellaeus (Stephanus), Biographisch woordenboek der Nederlanden, vol. 3 (1858), DBNL.
- Heinrich Heppe, Curcelläus, Stephan, Allgemeine Deutsche Biographie, vol. 4 (1876), Wikisource.
- S. Curcellaeus, 1586-1659, Album Academicum da Universidade de Amsterdã.
- The Rise and Fall of Biblical Perspicuity: Remonstrants and the Transition toward Modern Exegesis, Church History (Cambridge University Press, 2014).
- Corinna L. Vermeulen, René Descartes, Specimina philosophiae: introduction and critical edition (tese, Universidade de Utrecht, 2007).
- Étienne de Courcelles, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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