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Frank S. Page: O pastor batista que contestou a TULIP e presidiu a Convenção Batista do Sul
Neste texto
- Vida
- Da Carolina do Norte a Fort Worth
- Trinta anos de pastorado
- Presidente da convenção
- Missões e Nashville
- Melissa
- Comitê Executivo
- A renúncia e os últimos anos
- Pensamento
- Um batista que não é calvinista
- O argumento de Trouble with the TULIP
- Perto e longe do arminianismo clássico
- Unidade, inerrância e igrejas que encolhem
- Obras principais
- Para aprofundar
Em 13 de junho de 2006, em Greensboro, na Carolina do Norte, os mensageiros da Convenção Batista do Sul elegeram presidente um pastor que quase ninguém dava como favorito. Frank Page, de 53 anos, pastor da Primeira Igreja Batista de Taylors, na Carolina do Sul, teve 4.546 votos, 50,48% do total, apenas 65 a mais do que precisava para vencer no primeiro turno. Os adversários eram Ronnie Floyd, que tinha o apoio de três presidentes de seminário, e Jerry Sutton. Seis anos antes, Page tinha publicado um livro de oitenta páginas contra os cinco pontos do calvinismo, e por isso a imprensa perguntou se a eleição era um golpe nos calvinistas. Ele respondeu que não, e resumiu o próprio perfil numa frase que ficou: “Sou inerrantista, creio na Palavra de Deus, só não estou bravo com isso.”
Vida
Da Carolina do Norte a Fort Worth
Franklin S. Page nasceu em 23 de agosto de 1952, em Robbins, na Carolina do Norte, e cresceu em Greensboro. Ali professou a fé aos nove anos, na Southside Baptist Church. Formou-se com distinção no Gardner-Webb, colégio batista da Carolina do Norte, em 1973, e foi ordenado ao ministério em 1974, na Immanuel Baptist Church de Greensboro. No Southwestern Baptist Theological Seminary, em Fort Worth, no Texas, concluiu o mestrado em Divindade em 1976 e o doutorado em ética cristã em 1980. Casou-se com Dayle Gibson, e o casal teve três filhas: Melissa, Laura e Allison.
Trinta anos de pastorado
Page passou mais de três décadas no púlpito de igrejas locais. Foi pastor da Live Oak Baptist Church, em Gatesville, no Texas (1979-1981); da LaFayette Baptist Church, em Fayetteville, na Carolina do Norte (1981-1987); da Gambrell Street Baptist Church, em Fort Worth (1987-1991); da Warren Baptist Church, em Augusta, na Geórgia (1991-2001); e da Primeira Igreja Batista de Taylors, na Carolina do Sul (2001-2009). As duas últimas mais do que dobraram de tamanho enquanto ele as pastoreou, e a de Taylors chegou a cerca de quatro mil membros.
Em 1995 assinou com Billy K. Smith o volume da série New American Commentary sobre Amós, Obadias e Jonas. Em 2000 publicou Trouble with the TULIP (“O problema da TULIP”), um exame curto e popular dos cinco pontos do calvinismo.
Presidente da convenção
Page explicou a vitória de 2006 pela preocupação com o Programa Cooperativo, o fundo comum com que as igrejas batistas do Sul sustentam missões e seminários, por um voto de protesto contra a cúpula da convenção e pela reunião no seu estado natal. A igreja de Taylors entregava a esse fundo mais de 12% das suas ofertas.
Prometeu nomear para os conselhos pessoas que cressem na inerrância da Bíblia e tivessem “um espírito afável”. Disse que não queria alargar a tenda “teologicamente, só numericamente”, e que o calvinismo não era motivo para romper a comunhão com alguém nem para impedi-lo de ocupar cargos.
Foi reeleito sem adversário em 12 de junho de 2007, em San Antonio, no Texas. No discurso presidencial, a partir do Salmo 51, disse que os batistas tinham construído a sua própria Linha Maginot e travavam as suas batalhas contra a carne e o sangue. Pediu o fim do faccionalismo, advertiu contra a verdade dita sem amor, que produz um “legalismo de coração frio”, e disse aos mensageiros: “Vocês podem estar doutrinariamente certos, mas com certeza não parecem muito felizes com isso.”
Em novembro de 2007, uma pesquisa da LifeWay mostrou que cerca de 30% dos pastores recém-formados nos seminários da convenção se diziam calvinistas. Em dezembro, Page respondeu numa coluna: “Quase todo mundo que me conhece sabe que eu não sou calvinista.” Lembrou que tinha prometido ser justo com os calvinistas nas nomeações e defendeu um diálogo “honesto e aberto” sobre o tema dentro da família batista. Johnny Hunt o sucedeu na presidência, em 2008.
Missões e Nashville
Em fevereiro de 2009, Page entrou no conselho consultivo de parcerias religiosas do presidente Barack Obama, como voz conservadora. Em outubro deixou o pastorado para ser vice-presidente de evangelização da Junta de Missões Norte-Americana. O seu trabalho principal foi lançar o GPS (God’s Plan for Sharing, “o plano de Deus para compartilhar”), uma campanha de evangelização de dez anos que, no primeiro ano, envolveu mais de quinze mil igrejas.
Em 14 de junho de 2010, em Orlando, o Comitê Executivo o elegeu, em sessão fechada, presidente e diretor executivo, no lugar de Morris Chapman. Page assumiu em 1º de outubro de 2010.
Melissa
No dia seguinte ao Dia de Ação de Graças de 2009, em novembro, Melissa, a filha mais velha, tirou a própria vida, aos 32 anos. Lutara a vida inteira, com sofrimentos que não escolheu, como um câncer, e com hábitos destrutivos. A família combinou desde o começo que ninguém culparia ninguém.
Em 2013 publicou pela B&H, com Lawrence Kimbrough, Melissa: A Father’s Lessons from a Daughter’s Suicide. No livro e nas entrevistas, recusa as frases feitas, como a de que basta “sair dessa”, e insiste no “ministério da presença”, a companhia demorada de quem fica ao lado do enlutado. Naquele ano a convenção aprovou uma resolução sobre a doença mental, e em 2014 Page criou um conselho consultivo sobre saúde mental.
Comitê Executivo
Durante oito anos Page coordenou as entidades nacionais da convenção, com um orçamento do Programa Cooperativo de quase 200 milhões de dólares por ano e cerca de 47 mil igrejas. Em junho de 2011, em Phoenix, os dirigentes das entidades e das convenções estaduais assinaram com ele a “Afirmação de Unidade e Cooperação”, com cinco compromissos, entre eles a confiança mútua e a acolhida dos crentes de toda etnia e língua como parceiros iguais. Para cumprir este último, criou conselhos consultivos hispânico, afro-americano, asiático e multiétnico.
Em 2012 Page não assinou a Declaração Tradicional, o texto não calvinista redigido por Eric Hankins e assinado por Jerry Vines e outros, porque preferia assinar documentos de consenso, escritos em conjunto por pessoas de posições diferentes sobre a salvação, e lembrou que a Fé e Mensagem Batista era um deles. Na convenção daquele ano, disse temer que alguns não calvinistas estivessem mais preocupados em caçar calvinistas do que em ganhar os perdidos para Cristo.
Em agosto de 2012 reuniu um grupo consultivo de dezenove pessoas, entre elas Albert Mohler, Paige Patterson, Mark Dever, Daniel Akin, Steve Lemke, Tom Ascol, Hankins e David L. Allen, para encontrar uma forma de pessoas de convicções diferentes trabalharem juntas em missões e evangelização. Disse que não tinha interesse em mudar a Fé e Mensagem Batista, que permite “uma variedade de interpretações” sobre o propósito da graça de Deus, e que “a nossa unidade, ou a falta dela, afeta a nossa evangelização”. O relatório unânime, “Verdade, confiança e testemunho num tempo de tensão”, saiu em maio de 2013 e foi apresentado em Houston, em junho. Pedia aos batistas que concedessem uns aos outros liberdade nesse ponto e permanecessem juntos pela Grande Comissão.
A renúncia e os últimos anos
Em 26 de março de 2018, Page anunciou aos dirigentes do Comitê Executivo que se aposentaria. No dia seguinte, o presidente do comitê, Stephen Rummage, informou que a aposentadoria tinha sido motivada por um “relacionamento moralmente impróprio” num passado recente, e Page transformou o anúncio em renúncia imediata. Na sua declaração escreveu: “Em consequência de uma falha pessoal, envergonhei a minha família, o meu Senhor, a mim mesmo e o Reino.”
Em junho de 2019 Page voltou ao púlpito, na Pebble Creek Baptist Church, também em Taylors. Em fevereiro de 2024 a igreja anunciou que ele deixava o ministério público, inclusive o pastorado.
Pensamento
Um batista que não é calvinista
Classe: simpatizante. Page rejeita os pontos centrais do calvinismo, mas não se apresenta como arminiano: descreve-se como batista do Sul que não é calvinista, como outros dois ex-presidentes da convenção, Adrian Rogers e Jerry Vines. O resumo da sua posição está no acróstico que ele propôs no lugar da TULIP, a sigla inglesa dos cinco pontos calvinistas (depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos). Page escreveu GRACE (“graça”): a salvação é dada por meio de Cristo (Given), rejeitada pela rebeldia (Rejected), aceita pela fé (Accepted); Cristo morreu por todos (Christ); e a vida é eterna (Everlasting), o que para ele significa a segurança eterna do crente. Os quatro primeiros pontos coincidem com a teologia arminiana; o quinto é a doutrina que a maioria dos batistas do Sul guarda do calvinismo.
O argumento de Trouble with the TULIP
O livro de 2000 parte de uma pergunta: “No centro deste argumento está a pergunta: que tipo de Deus nós servimos?” (p. 40). Para Page, a ênfase calvinista na soberania deixou de lado o amor de Deus por todas as pessoas, e ele escreve: “Deus nunca predestinou uma pessoa para o inferno e deseja salvar cada pessoa” (p. 55). Ele lê a predestinação a partir de Efésios 1 e entende a eleição como eleição em Cristo: apoiado no batista Herschel Hobbs, explica o verbo grego proorizō como “marcar o limite de antemão” e conclui que Deus “predestinou o como da redenção, e não o quem” (p. 45). A predestinação, define, é o ato pelo qual Deus torna certa a redenção, ou a adoção, do crente (p. 56). A eleição é antes coletiva do que individual, e em Romanos 9 Jacó e Esaú representam as nações que deles saíram (pp. 66-67). Deus conhece todo o futuro, mas o seu conhecimento prévio não determina o que vai acontecer (p. 68).
Page não tira de Deus a iniciativa. Escreve que “a salvação é ato de um Deus soberano” e que a conversão é “uma mudança de coração começada pelo Espírito Santo por meio da convicção do pecado” (p. 48), e lê Tito 2:11 como uma “graça capacitadora” oferecida a todos (p. 28). O último argumento é missionário: levado às últimas consequências, o calvinismo de cinco pontos teria afrouxado o “pulso evangelístico e missionário” das igrejas (p. 75). Daí o desafio aos calvinistas da convenção para que deixassem de ser “calvinistas de armário” e dissessem às igrejas o que de fato criam (p. 42).
Perto e longe do arminianismo clássico
Nos pontos centrais, Page está ao lado de Armínio: Cristo morreu por todos, a graça pode ser resistida, a eleição acontece em Cristo e inclui os que creem, como na leitura coletiva de Brian Abasciano, e Deus conhece o futuro sem causá-lo. A “graça capacitadora” de Tito 2:11 se aproxima da graça preveniente, e o versículo é o mesmo que a nossa declaração de fé cita para ela.
As diferenças são duas. A primeira é o centro do sistema. Page escreve que “a questão do livre-arbítrio está no próprio coração do assunto” (p. 43), e o livro opõe o livre-arbítrio à depravação total. Para Armínio, o centro é a graça. Na Declaração de Sentimentos (1608), o homem caído não é capaz, por si mesmo, de pensar, querer ou fazer o bem, e a vontade só é livre para crer porque a graça preveniente, obra do Espírito que vem antes de qualquer resposta, a liberta. O arminiano clássico começa pelo pecado original e pela depravação total, e o livre-arbítrio é fruto da graça.
A segunda é a perseverança. Page afirma a segurança eterna sem condição. Numa entrevista sobre o livro da filha, resumiu: “Se você de fato entregou o coração a Cristo, pertence a ele eternamente. É um relacionamento que não pode ser desfeito.” Desde a Remonstrância, os arminianos ensinam a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada. O relatório de 2013, que Page encomendou e apresentou, rejeitou o hipercalvinismo que nega a oferta do evangelho a todos e também o arminianismo que põe a vontade humana acima da divina ou nega que Deus guarda os crentes. O primeiro traço é uma caricatura que o próprio Armínio recusaria; o segundo marca a diferença real.
Unidade, inerrância e igrejas que encolhem
O restante do pensamento de Page é o de um pastor de convenção: inerrância com mansidão, e a unidade como condição da evangelização. Em The Incredible Shrinking Church diz que as igrejas encolhem por perda de vida espiritual mais do que por causa da cultura, e pede aos pastores que fiquem no posto nos tempos difíceis (p. 58) e esperem no Senhor quanto ao resto (p. 140).
Obras principais
- Amos, Obadiah, Jonah, New American Commentary 19B (Broadman & Holman, 1995), com Billy K. Smith.
- Trouble with the TULIP: A Closer Examination of the Five Points of Calvinism (Riverstone Group Publishing, 2000; reimpresso em 2006).
- The Nehemiah Factor: 16 Characteristics of a Missional Leader (New Hope, 2008).
- The Incredible Shrinking Church (B&H, 2008), com John Perry.
- Melissa: A Father’s Lessons from a Daughter’s Suicide (B&H, 2013), com Lawrence Kimbrough.
- Looking for a New Pastor: 10 Questions Every Church Should Ask (B&H, 2017).
Para aprofundar
- Comitê Executivo da Convenção Batista do Sul, “Frank S. Page, Ph.D.”, biografia oficial (2015).
- Associated Baptist Press, “Frank Page wins SBC presidency in upset over powerbrokers” (2006) e “New SBC president upsets powerbrokers in razor-thin victory” (2006).
- Associated Baptist Press, “Analysis: Will election of president deal blow to neo-Calvinism?” (2006).
- Christianity Today, reportagem sobre a eleição de Page (2006).
- Associated Baptist Press, “SBC messengers re-elect Page, hear motions on agency policies, clergy sex abuse” (2007).
- The Christian Post, “Honest Calvinism talks urged among Southern Baptists” (2007).
- Word&Way, “Obama rounds out appointments to faith council” (2009).
- Associated Baptist Press, “Executive Committee elects Frank Page president in closed session” (2010).
- Mark Kelly, “Unity, cooperation pledge tops EC agenda”, Baptist Press, no Biblical Recorder (2011).
- Baptist Press, reportagem sobre o segundo encontro do grupo consultivo sobre o calvinismo, no Biblical Recorder (2012), e Michael Foust, “Calvinism committee urges SBC to ‘stand together’” (2013).
- Baptist Press, “Statement on Calvinism draws approval, criticism” (2012).
- Christianity Today, “Frank Page: Mourning a daughter’s suicide” (2013), e The Christian Post, “Interview: Frank Page speaks candidly about suicide, loss of his daughter” (2013).
- The Alabama Baptist, sobre Looking for a New Pastor (2017).
- Baptist Standard, “Frank Page resigns SBC post over personal failing” (2018).
- Baptist Press, “Former EC president Page out as pastor of South Carolina church”, no Baptist Courier (2024).
- Jeffrey Riddle, “Book review: The Trouble with TULIP”, Triablogue (2006), e Shawn Thomas, “Trouble with the Tulip” (2011), resenhas críticas do livro.
- Owen Strachan, resenha de The Incredible Shrinking Church, 9Marks (2010).
- Wikipedia, “Frank Page (Southern Baptist)”.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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