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HistóriaTeólogos arminianos24 de 176

Derek Prince: o filósofo de Cambridge que se tornou professor da Bíblia

Diego Gonçalves13 min de leitura2.651 palavras

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Neste texto

Em 1940, ao entrar no exército britânico, um jovem professor de filosofia de Cambridge precisou escolher que livro levaria na mochila. Raciocinou como filósofo e escolheu o livro mais influente da história, sobre o qual quase nada sabia. Comprou uma Bíblia preta e, na primeira noite no quartel, sentou-se na cama diante de 24 recrutas e começou a ler por Gênesis 1:1. Ao mesmo tempo, bebia uísque e não controlava a língua. Nove meses depois estava no meio do livro de Jó e, pouco depois, num quarto vazio de Scarborough, teve o encontro que fez de Peter Derek Vaughan Prince um dos professores da Bíblia mais lidos do século XX.

Vida

Bangalore, Eton e Cambridge

Derek Prince nasceu em 14 de agosto de 1915, em Bangalore, na Índia britânica, filho único de uma família de militares ingleses, e foi batizado na igreja anglicana de São João da cidade. Aos 14 anos ganhou uma bolsa para o Eton College, onde estudou grego e latim e recebeu a medalha de ouro pelo estudo de Shakespeare. Aos 18 entrou como bolsista no King’s College, em Cambridge.

Em Cambridge deixou a igreja. Concluiu, como contaria depois, que o cristianismo era uma ocupação inofensiva para senhoras idosas, e foi procurar o sentido da vida na filosofia, sobretudo a grega. Estudou também a filosofia da linguagem com Ludwig Wittgenstein, entrou em 1938 para a sociedade secreta dos Apóstolos de Cambridge e em março de 1940 tornou-se fellow do King’s com uma dissertação sobre o método filosófico de Platão. Envolveu-se ainda com a ioga. Olhando para trás, disse que naqueles anos estava “confuso e frustrado, decepcionado e desiludido”. Pacifista, quando veio a guerra se alistou no Real Corpo Médico do Exército como não combatente.

O quartel de Scarborough

Em Scarborough, no Yorkshire, um colega o levou a uma pequena igreja pentecostal. O pregador falou de Isaías 6, e Prince ouviu em “homem de lábios impuros” a descrição exata de si mesmo. Dias depois, numa reunião das Assembleias de Deus, o pregador lhe perguntou se cria que Cristo tinha morrido pelos seus pecados, e ele respondeu que não via o que a morte de Jesus, dezenove séculos antes, tinha a ver com ele.

No fim daquela semana resolveu orar até que algo acontecesse. Perto da meia-noite, sentado diante da janela do quarto, percebeu que havia outra pessoa ali e passou horas orando em voz alta, chorando e depois rindo, deitado no chão. No dia seguinte notou que não tinha dito uma blasfêmia entre os soldados e que, à porta do bar, não teve vontade de entrar. Essas mudanças, insistia, “não foram coisas que eu fiz, foram coisas que foram feitas em mim”. Daquele dia em diante nunca mais duvidou de duas coisas: que Jesus está vivo e que a Bíblia é a Palavra de Deus. Cerca de uma semana depois, no mesmo quarto, falou em línguas pela primeira vez. Era 1941. Decidiu então que não voltaria à filosofia, embora tenha continuado fellow do King’s até 1949.

O deserto e Jerusalém

Prince passou os três anos seguintes nos desertos do Egito, da Líbia e do Sudão. Em 1944, em Kiryat Motzkin, perto de Haifa, recebeu o chamado que guiaria o resto da vida: ser “um mestre das Escrituras, em verdade, fé e amor, que estão em Cristo Jesus, para muitos”. Na mesma época começou a visitar um lar de crianças perto de Jerusalém dirigido por Lydia Christensen, missionária dinamarquesa vinte e cinco anos mais velha que ele. Casaram-se em Jerusalém em fevereiro de 1946, e Prince se tornou, de uma vez, pai de oito meninas: seis judias, uma árabe e uma inglesa. Estudou hebraico na Universidade Hebraica e viu de perto o nascimento do Estado de Israel; durante a guerra de 1948 a família foi retirada de casa e acabou na Inglaterra.

Londres, Quênia e América do Norte

Em Londres, Prince pregava ao ar livre no Speakers’ Corner do Hyde Park. Dos encontros na casa da família nasceu uma igreja pentecostal que ele pastoreou de 1949 a 1956. Em janeiro de 1957 o casal foi para o Quênia como missionário das Assembleias de Deus, e Prince dirigiu o centro de formação de professores de Nyang’ori, perto de Kisumu. Ali adotaram a nona filha, uma menina africana cuja mãe tinha morrido no parto.

Em 1962, depois de uma temporada no Canadá, Prince ensinou numa igreja pentecostal de Minneapolis e depois pastoreou o Broadway Tabernacle, em Seattle, em 1963 e 1964. Ali chegou à convicção que marcaria o seu ministério: até cristãos verdadeiros podiam estar “endemoninhados”, termo que ele preferia a “possuídos”, e precisar de libertação. A posição o separava da maioria dos pentecostais, para quem o demônio podia oprimir o crente, mas não habitá-lo. Em 1968 chegou a Fort Lauderdale, na Flórida, depois de passar por Chicago.

O movimento do pastoreio

O movimento carismático crescia, e Prince se tornou um dos seus professores mais procurados. Em Fort Lauderdale, com Bob Mumford, Don Basham, Charles Simpson e Ern Baxter, formou o grupo conhecido como os “cinco de Fort Lauderdale”. Eles se submeteram uns aos outros para prestar contas e passaram a ensinar que todo crente devia ter um pastor pessoal a quem se submetesse. O movimento do pastoreio queria corrigir a falta de compromisso entre os carismáticos, mas foi muito criticado pelo controle que alguns pastores passaram a exercer sobre a vida dos discípulos. No começo dos anos 1980 Prince se afastou e resumiu o que tinha acontecido assim: “éramos culpados do erro dos gálatas: tendo começado no Espírito, logo degeneramos na carne” (Gálatas 3:3).

Livros, fitas e rádio

Em maio de 1971 Prince abriu em Fort Lauderdale um escritório para publicar o seu ensino, que a partir de 1990 se chamou Derek Prince Ministries. Foi por causa das fitas cassete com as suas aulas que chegou o convite para visitar Gana em 1987. Lá o seu ensino sobre libertação se espalhou entre os pentecostais, e o teólogo ganense Opoku Onyinah o chamou de “mentor” desse tipo de ministério no país.

Lydia morreu em 5 de outubro de 1975, aos 85 anos. Em 1978 Prince se casou com a americana Ruth Baker, mãe de três filhos adotivos. Em 1979 começou o programa diário de rádio Today with Derek Prince, depois transmitido em muitas línguas. Em 1981 ele e Ruth se mudaram para Jerusalém, e de lá Prince viajou pelos seis continentes. Ruth morreu em 29 de dezembro de 1998. No enterro, Prince agradeceu a Deus em público pela vida dela, porque, disse depois, se ficasse no lamento passaria a culpar a Deus.

Derek Prince morreu dormindo, de insuficiência cardíaca, em sua casa em Jerusalém, em 24 de setembro de 2003, aos 88 anos. Era pai de doze filhos. A lápide, no cemitério da Alliance Church International, repete o chamado de 1944. Um ano antes, um jornalista do Jerusalem Post lhe perguntou qual era a maior necessidade da igreja, e ele respondeu: “Mestres da Bíblia, mestres sérios da Bíblia”.

Pensamento

Prince se definia como pentecostal sem denominação e dizia que importavam menos os rótulos que a atitude do coração e o rumo da vida. Na doutrina da salvação, as suas posições são as de um pentecostal arminiano: fundava a eleição na presciência de Deus, afirmava que Deus não obriga ninguém a crer, ensinava que Cristo morreu por todos e advertia que quem se afasta deliberadamente de Cristo pode chegar a não ter mais volta.

Predestinação e livre-arbítrio

Numa sessão de perguntas de 1990, Prince começou com uma regra de leitura: não usar uma afirmação da Escritura para anular outra. A igreja, dizia, anda como um bêbado na estrada, caindo ora na vala de quem só fala de livre-arbítrio, ora na de quem só fala de predestinação. “Creio na predestinação. Mas também sei que tenho livre-arbítrio”, disse, e chamou Calvino de homem de Deus, um dos mais piedosos dos reformadores.

A chave, para ele, estava no conhecimento de Deus. Deus conhece todo o passado e todo o futuro e por isso “nunca tem uma emergência”; conhece as escolhas que faremos, “mas não nos obriga a fazê-las”. Para explicar, falou de um pai que fez o testamento sabendo qual dos dois filhos se converteria no seu enterro: planejou de acordo com o que sabia, sem forçar a decisão de nenhum deles. Num devocional sobre Efésios 1:4, Prince resumiu: Deus nos conheceu de antemão e, com base nessa presciência, nos escolheu. É a eleição condicional da tradição de Jacó Armínio, em que Deus elege em Cristo os que, como ele sabe, vão crer (ver Presciência, Eleição e Predestinação).

Esse livre-arbítrio não fazia do homem o autor da salvação. O testemunho que Prince repetiu a vida inteira diz o contrário: ele não sabia orar, não via relação entre a cruz e os próprios pecados, e o que mudou naquela noite foi feito nele, e não por ele. Em A troca divina (sermões de 1987) ele afirma que tudo o que Deus dá na cruz vem da graça, e que “se você pode merecer, não é graça”. A graça vem por Jesus, tem a cruz como base e se recebe pela fé, e não pelas obras.

A cruz e a troca divina

O centro da pregação de Prince era a cruz. Em Isaías 53:6 lia a palavra hebraica avon, que significa tanto a culpa quanto o castigo da culpa, e concluía que Deus pôs sobre Jesus o castigo que era nosso. Daí as trocas que ele ensinava: Jesus foi castigado para que fôssemos perdoados, ferido para que fôssemos curados, feito maldição para que recebêssemos a bênção. É a substituição penal, com alcance universal: comentando Hebreus 2:9, dizia que Jesus provou a morte por todos e morreu no lugar de todos os que deviam morrer (ver A expiação e Arminianismo: Expiação para Todos).

Arrependimento e apostasia

Perguntado se quem foi salvo está salvo para sempre, Prince respondia com Hebreus 6:4-6. As pessoas descritas ali foram iluminadas de modo sobrenatural e provaram o dom celestial, que para ele era o próprio Jesus. Se elas se afastam deliberadamente, nada as renova para o arrependimento, e “quando perdemos a capacidade de nos arrepender, não há mais caminho para Deus”. Em Through Repentance to Faith repetiu que uma pessoa pode, nesta vida, passar do ponto do arrependimento e nunca mais voltar. Mas recusava julgar casos particulares, porque o juiz final, dizia, é Deus. É a perseverança condicional dos arminianos (ver A perseverança dos santos), que ele compartilhava com outro professor britânico da Bíblia, David Pawson.

O mundo invisível

O lado mais discutido de Prince é a demonologia. Em Blessing or Curse: You Can Choose (1990) e They Shall Expel Demons (1998) ele ensinou que demônios podem dominar áreas da vida de um cristão e que bênçãos e maldições passam de geração em geração, a partir de Deuteronômio 28 e Êxodo 20:5. O historiador Brian Stanley mostrou a marca do Platão que ele estudou em Cambridge: para Prince, as coisas visíveis são passageiras, e só no reino invisível estão a realidade que dura e as forças que moldam o nosso destino. Na África, essa mensagem explicou para muitos crentes a doença e a pobreza que não passavam, mas, como nota Stanley, a caça a maldições herdadas pode gerar medo em vez de confiança em Cristo.

Israel

Rejeitava a teologia da substituição, segundo a qual a igreja tomou o lugar de Israel nas promessas de Deus, e ensinava em The Destiny of Israel and the Church (1992) que a aliança de Deus com Israel continua de pé. Via no Estado de Israel um cumprimento da profecia. “O bem mais precioso da minha vida é a minha Bíblia, e eu a devo ao povo judeu”, dizia.

Onde ele difere da declaração de fé do site

Prince e a declaração de fé deste site concordam no essencial da salvação: a incapacidade humana, a expiação por todos, a graça recebida pela fé e a perseverança condicional. As diferenças estão em outros pontos. O site é wesleyano e fala da inteira santificação como purificação do coração pela fé; Prince, como pentecostal, punha no centro o batismo no Espírito Santo com o falar em línguas. A declaração é amilenista e não faz do Estado de Israel um sinal profético. E a ideia de cristãos endemoninhados e de maldições hereditárias, recebida com reservas pelo próprio pentecostalismo, não faz parte dela.

Obras principais

  • Praying for the Government (1970)
  • Shaping History Through Prayer and Fasting (1973)
  • Philosophy, the Bible and the Supernatural (1978)
  • God Is a Matchmaker, com Ruth Prince (1986)
  • Blessing or Curse: You Can Choose (1990)
  • The Destiny of Israel and the Church (1992)
  • The Divine Exchange (1995)
  • They Shall Expel Demons (1998)
  • Atonement: Your Appointment with God (2000), depois Bought with Blood

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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