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Hank Hanegraaff: O Bible Answer Man que recusou o calvinismo e chegou à Ortodoxia
Neste texto
- Vida
- Da Holanda ao ateísmo prático
- O especialista em memória
- A sucessão de Walter Martin
- Os livros de combate
- Revisões
- A entrada na Ortodoxia
- Pensamento
- Apologética para guardar na memória
- A recusa do calvinismo
- A Ortodoxia e a theosis
- Onde ele fica em relação ao arminianismo
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
No dia 4 de dezembro de 1988, Walter Martin, o fundador do Christian Research Institute (CRI), apresentou à sua classe bíblica um homem de negócios holandês de nascimento, especialista em técnicas de memória, que ele acabava de trazer para a direção da casa. Seis meses depois Martin morreu, e Hank Hanegraaff assumiu a presidência do instituto e o microfone do Bible Answer Man (“O homem das respostas bíblicas”), o programa de rádio em que ouvintes ligam com perguntas sobre a Bíblia e a fé. Segue nos dois postos até hoje. No caminho escreveu mais de vinte livros, enfrentou o movimento da Palavra da Fé e os avivamentos de Toronto e Pensacola e, em 2017, surpreendeu o público evangélico ao entrar na Igreja Ortodoxa.
Vida
Da Holanda ao ateísmo prático
Hendrik Hanegraaff nasceu em 1950, na Holanda, e cresceu nos Estados Unidos. O holandês foi a sua primeira língua. Os pais eram cristãos da tradição reformada holandesa, de “orientação calvinista”, como ele diz. Foi a doutrina da predestinação, como ele a ouvia em casa, que o afastou da fé ainda menino: entendia que, para Calvino, as pessoas nasciam predestinadas à destruição ou à vida, e decidiu não querer muita coisa com o cristianismo.
Até os 29 anos foi, nas palavras dele, um “ateu prático”. O ateísmo lhe trouxe o mesmo problema: se tudo se reduz a moléculas em movimento, a escolha livre perde o lugar. A virada veio quando três pessoas da Igreja Presbiteriana Coral Ridge, de Fort Lauderdale, na Flórida, o visitaram e o desafiaram a examinar as provas da fé cristã histórica. Convidaram-no para um debate sobre as origens marcado para a semana seguinte, e ele foi. Começou ali um exame das provas, primeiro sobre a criação e depois sobre a ressurreição de Jesus, que terminou na sua conversão.
A Coral Ridge era a igreja de D. James Kennedy, criador do Evangelismo Explosivo, um método de treino de leigos para a evangelização pessoal. Quem ensinou Hanegraaff a evangelizar, nesse treinamento, foi Kathy, com quem ele depois se casou. O casal teve doze filhos.
O especialista em memória
Hanegraaff era planejador estratégico e instrutor de técnicas de memória, e chegou a trabalhar com Jerry Lucas, ex-jogador de basquete conhecido pelos seus métodos de memorização. Juntou a memória e a evangelização num curso próprio, o Personal Witness Training (“Treinamento em testemunho pessoal”), que publicou em 1987: doze sessões que associavam cada parte do evangelho a uma parte do corpo, com um ursinho chamado Evangel como mascote. Esse gosto pela memorização marcou todos os livros que ele escreveu depois, em que cada argumento vem amarrado a uma sigla.
A sucessão de Walter Martin
Walter Martin fundou o CRI em 1960 e era a principal voz evangélica americana contra as seitas, autor de O império das seitas. Hanegraaff entrou primeiro no conselho do instituto, para ajudar na administração e na captação de recursos. Em dezembro de 1988 Martin o nomeou vice-presidente executivo, dizendo que ele personificava “a próxima fase” do CRI. Martin morreu em junho de 1989, de insuficiência cardíaca, e Hanegraaff assumiu a presidência e o programa.
A sucessão nunca foi aceita por todos. A filha de Martin, Jill Martin Rische, passou a dizer que o pai não o tinha escolhido como herdeiro e que ele viera apenas para levantar dinheiro. Elliot Miller, editor do Christian Research Journal, respondeu com as gravações das aulas de Martin, em que o fundador entregava a Hanegraaff a direção executiva da casa ainda em vida.
Os livros de combate
O primeiro livro, Cristianismo em crise (1993), atacou o movimento da Palavra da Fé, a pregação de Kenneth Hagin, Kenneth Copeland, Benny Hinn e outros sobre saúde, prosperidade e confissão positiva. Hanegraaff acusou esses pregadores de heresia: de rebaixar Deus a um ser que depende da fé humana, de chamar os crentes de “pequenos deuses” e de desfigurar a obra da cruz. Na Christianity Today, Bruce Barron julgou que a maior parte das críticas acertava o alvo, mas que o autor fora duro demais com a família Hagin e com David Yonggi Cho. Em Counterfeit Revival (1997) ele fez o mesmo com os fenômenos da Bênção de Toronto e do avivamento de Brownsville, em Pensacola, e a recepção foi mais dividida.
Vieram depois Ressurreição (2000), que recebeu, como Cristianismo em crise, o prêmio Gold Medallion; The Prayer of Jesus (2001), primeiro lugar entre os mais vendidos do mercado cristão americano em 2002; romances com Sigmund Brouwer ambientados no primeiro século; The Apocalypse Code (2007), sobre a profecia; e Has God Spoken? (2011), sobre a inspiração da Bíblia. O livro mais ligado ao rádio é The Complete Bible Answer Book, coletânea das perguntas dos ouvintes, revista e ampliada em 2024.
Revisões
Nos anos 1990 Hanegraaff dialogou com Joseph Tkach Jr. e outros líderes da Igreja de Deus Universal, fundada por Herbert Armstrong, e acompanhou a mudança que a levou a confessar a Trindade e a salvação pela graça. Em 2003 se reuniu com representantes das “igrejas locais” de Watchman Nee e Witness Lee, que o CRI chamava de seita desde os anos 1970, e mandou refazer a pesquisa com documentos reunidos nos Estados Unidos, na China, em Taiwan, na Coreia do Sul e na Inglaterra. Em 2009 o Christian Research Journal publicou o resultado com a manchete “We Were Wrong!” (“Estávamos errados!”). Em meados dos anos 2000 a família e o instituto se mudaram da Califórnia para Charlotte, na Carolina do Norte, para cortar custos.
A entrada na Ortodoxia
Uma viagem à China mudou o rumo de Hanegraaff. Ele voltou impressionado com cristãos chineses “profundamente apaixonados pelo Senhor” e contou que, no voo de volta, comparava a sua habilidade de comunicar a verdade com o amor deles por Cristo. Passou a estudar a doutrina ortodoxa da theosis, a união do ser humano com Deus. O casal frequentou por mais de dois anos a Igreja Ortodoxa Grega de São Nectário, em Charlotte, e no Domingo de Ramos de 2017, 9 de abril, Hanegraaff, Kathy e dois dos filhos foram recebidos na Igreja Ortodoxa pela crismação, a unção com que os ortodoxos recebem quem já foi batizado em outra tradição cristã.
A Bott Radio Network e a Truth Network, somando cerca de 120 emissoras, tiraram o Bible Answer Man do ar. Em julho de 2017 a maior parte da família de Walter Martin pediu que Hanegraaff deixasse a presidência do CRI; a filha Cindee Martin Morgan se recusou a assinar. Hanegraaff disse que a decisão da Bott revelava “ignorância sobre a Ortodoxia” e que continuava crendo no que sempre creu, nos termos do Credo Niceno.
Poucos dias depois da crismação, recebeu o diagnóstico de linfoma de células do manto, um câncer raro. Passou 2017 em quimioterapia, entrou num ensaio clínico e anunciou a remissão em novembro de 2018. Em junho de 2019 recebeu um transplante de células-tronco de um dos filhos e passou cerca de quarenta dias no hospital. Em 2019 publicou Truth Matters, Life Matters More (“A verdade importa, a vida importa mais”), em que conta o caminho até a Ortodoxia. Continua presidente do CRI e apresentador do Bible Answer Man.
Pensamento
Apologética para guardar na memória
Hanegraaff escreve para o leigo que precisa responder a um vizinho. Em Ressurreição ele organiza a defesa do túmulo vazio com a sigla F-E-A-T: a tortura fatal da cruz (fatal torment), que derruba a hipótese de Jesus ter só desmaiado; o túmulo vazio (empty tomb); as aparições (appearances), apoiadas no credo antigo de 1 Coríntios 15; e a transformação (transformation) dos discípulos. Para ele, é inconcebível que estivessem dispostos a morrer “pelo que sabiam ser uma mentira” (Christian Research Journal, 1999). Em Has God Spoken? a sigla é MAPS: manuscritos, arqueologia, profecia e a harmonia das Escrituras entre si.
A convicção de que “a verdade importa” sustenta os livros de combate: a Palavra da Fé erra sobre quem é Deus, quem é Cristo e o que a cruz fez, e por isso prega outro evangelho. O caso das igrejas locais mostra o outro lado do princípio, pois quando a pesquisa mostrou que o CRI tinha errado, ele publicou a retratação com a mesma ênfase. Na profecia, The Apocalypse Code propõe uma “escatologia exegética”, que lê as profecias pelo sentido que tinham para os primeiros leitores e com Cristo no centro da Escritura. Hanegraaff é preterista parcial: entende que boa parte das profecias do Novo Testamento se cumpriu na destruição de Jerusalém, no ano 70, e espera a volta de Cristo e a ressurreição dos mortos.
A recusa do calvinismo
Hanegraaff vê no calvinismo “um certo fatalismo teísta” (entrevista ao Pravmir, 2017) e explicou no Bible Answer Man que Romanos 9 não ensina o calvinismo. A sua resposta sobre o faraó mostra o argumento. Paulo diz que Deus endureceu o coração do faraó (Romanos 9:17-18), mas o Êxodo registra que o próprio faraó endureceu o coração quando a praga foi retirada (Êxodo 8:15). Deus lhe deu oportunidades reais de se arrepender, e a cada misericórdia ele respondeu com teimosia. Os “vasos preparados para a destruição” chegam a ela pela própria incredulidade (The Complete Bible Answer Book, 2024). A Society of Evangelical Arminians reproduziu essas respostas entre os seus materiais sobre Romanos 9.
Nesse ponto ele se aproxima do arminianismo: Deus dá a cada um oportunidade real de arrependimento, o seu chamado pode ser resistido e quem se perde responde pela própria recusa, como argumentaram Armínio e John Wesley (ver por que Armínio rejeitou o calvinismo). Pelo rádio, abriu espaço ao debate: em dezembro de 2003 recebeu por três dias George Bryson e o reformado James White.
A Ortodoxia e a theosis
Na Ortodoxia, Hanegraaff diz ter encontrado a fé de “memória comunitária”, oposta ao que ele chama de “pastor-empresário”. Em “Questions and Answers about Orthodoxy” (2017) ele explica que a salvação é transação e transformação: há o perdão recebido pela fé (Efésios 2:8-10) e a vida transformada que dele nasce. O alvo é a theosis: tornar-se “pela graça o que Deus é por natureza”, fórmula dos pais gregos. Isso não quer dizer que o ser humano vire Deus, mas que é unido a ele e participa da sua vida (2 Pedro 1:4). A liturgia é para ele uma “academia espiritual”, e a Eucaristia, o meio em que essa união cresce. Ele continua chamando a Escritura de “único repositório infalível da revelação redentora”.
Onde ele fica em relação ao arminianismo
Hanegraaff é um simpatizante: rejeita o calvinismo nos pontos centrais (eleição incondicional, graça irresistível e o determinismo que ele chama de fatalismo), mas nunca se apresentou como arminiano e hoje pertence a uma tradição que não passa pelo debate holandês do século XVII. A Ortodoxia fala de sinergia, a cooperação da liberdade humana com a graça, e não usa o vocabulário ocidental da depravação total e da graça preveniente. O arminianismo clássico afirma que a vontade caída está morta para o bem e só crê porque a graça a liberta antes; a fé é a mão vazia que recebe, e não uma contribuição. Aqui a distância entre o Hanegraaff ortodoxo e Armínio é real.
Há também diferenças em relação à declaração de fé deste site, que entende a Ceia como memorial, batiza depois da conversão e afirma a justificação como declaração de Deus, pela qual o crente é declarado justo. A Ortodoxia vê a Eucaristia como participação real no corpo e no sangue do Senhor, batiza crianças e põe o peso da salvação na transformação. Hanegraaff, porém, continua confessando a Trindade, a divindade de Cristo, a ressurreição corporal e a autoridade da Escritura, e a sua obra apologética segue útil a qualquer cristão. Sobre a defesa da ressurreição, ver também a biografia de Gary Habermas.
Obras principais
- Personal Witness Training: Your Handle on the Great Commission (edição do autor, 1987)
- Christianity in Crisis (Harvest House, 1993; nova versão, Christianity in Crisis: 21st Century, Thomas Nelson, 2009)
- Counterfeit Revival (Word, 1997; 2ª edição, 2001)
- Walter Martin, The Kingdom of the Cults, edição revista, com Hanegraaff como editor-geral (Bethany House, 1997)
- The FACE That Demonstrates the Farce of Evolution (Word, 1998)
- Resurrection (Word, 2000)
- The Prayer of Jesus (Word, 2001)
- The Last Disciple (2004) e The Last Sacrifice (2005), com Sigmund Brouwer (Tyndale House)
- The Apocalypse Code (Thomas Nelson, 2007)
- Has God Spoken? Proof of the Bible’s Divine Inspiration (Thomas Nelson, 2011)
- AfterLife (Worthy Publishing, 2013)
- Truth Matters, Life Matters More: The Unexpected Beauty of an Authentic Christian Life (W Publishing, 2019)
- The Complete Bible Answer Book: Collector’s Edition, Revised and Expanded (2024)
Livros em português
- Cristianismo em crise (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Ressurreição: uma poderosa defesa do principal acontecimento do cristianismo (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Christian Research Institute, Hank Hanegraaff, página do autor.
- Elliot Miller, Is Hank Hanegraaff the Rightful Successor of Walter Martin?, apêndice de Breaking the Silence, Christian Research Institute (2012).
- Hank’s Testimony: A Personal Look at Hank’s Journey as a Christian and Thirty Years as Leader of CRI, entrevista com Cindee Martin Morgan, Hank Unplugged.
- Maria Nekipelov, Hank Hanegraaff: I’ve Put Everything on the Line to Acquire the Treasure of Orthodoxy, Pravmir (2017).
- ‘Bible Answer Man’ Hank Hanegraaff Joins Orthodox Church, Christianity Today (12 abr. 2017).
- ‘Bible Answer Man’ Hank Hanegraaff Leaves Evangelicalism, Joins Greek Orthodox Church, The Christian Post (11 abr. 2017).
- Family of original Bible Answer Man calls on Orthodox convert Hank Hanegraaff to step down, OrthoChristian (2017).
- Steve Warren, Bible Answer Man Hank Hanegraaff: ‘The Lord Supernaturally Saved Me From Dying’, CBN News (2019).
- Hank Hanegraaff, Personal Witness Training: Your Handle on the Great Commission, Christian Research Institute.
- Hank Hanegraaff, The F-E-A-T That Demonstrates the FACT of Resurrection, Christian Research Journal 21, n. 3 (1999).
- Hank Hanegraaff, We Were Wrong, Christian Research Journal 32, n. 6 (2009).
- Hank Hanegraaff, Questions and Answers about Orthodoxy, Christian Research Institute (2017).
- Hank Hanegraaff, How could Pharaoh be morally responsible if God hardened his heart?, de The Complete Bible Answer Book (2024).
- Society of Evangelical Arminians, Hank Hanegraaff e Audio of Hank Hanegraaff Briefly Explaining that Romans 9 Does Not Teach Calvinism.
- Jean-Claude Larchet, resenha de Truth Matters, Life Matters More, Christian Research Institute.
- Bruce Barron, Sick of Health and Wealth, resenha de Christianity in Crisis, Christianity Today (22 nov. 1993).
- Kim Riddlebarger, “The Apocalypse Code” — Hank Hanegraaff, resenha.
- Hank Hanegraaff, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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