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Hank Hanegraaff: O Bible Answer Man que recusou o calvinismo e chegou à Ortodoxia

Diego Gonçalves14 min de leitura2.733 palavras

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Neste texto

No dia 4 de dezembro de 1988, Walter Martin, o fundador do Christian Research Institute (CRI), apresentou à sua classe bíblica um homem de negócios holandês de nascimento, especialista em técnicas de memória, que ele acabava de trazer para a direção da casa. Seis meses depois Martin morreu, e Hank Hanegraaff assumiu a presidência do instituto e o microfone do Bible Answer Man (“O homem das respostas bíblicas”), o programa de rádio em que ouvintes ligam com perguntas sobre a Bíblia e a fé. Segue nos dois postos até hoje. No caminho escreveu mais de vinte livros, enfrentou o movimento da Palavra da Fé e os avivamentos de Toronto e Pensacola e, em 2017, surpreendeu o público evangélico ao entrar na Igreja Ortodoxa.

Hank Hanegraaff autografando livros em St. Louis, em 2007
Hank Hanegraaff autografando livros em St. Louis, Missouri, em 30 de agosto de 2007. Foto de Tim Seidenstricker. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Da Holanda ao ateísmo prático

Hendrik Hanegraaff nasceu em 1950, na Holanda, e cresceu nos Estados Unidos. O holandês foi a sua primeira língua. Os pais eram cristãos da tradição reformada holandesa, de “orientação calvinista”, como ele diz. Foi a doutrina da predestinação, como ele a ouvia em casa, que o afastou da fé ainda menino: entendia que, para Calvino, as pessoas nasciam predestinadas à destruição ou à vida, e decidiu não querer muita coisa com o cristianismo.

Até os 29 anos foi, nas palavras dele, um “ateu prático”. O ateísmo lhe trouxe o mesmo problema: se tudo se reduz a moléculas em movimento, a escolha livre perde o lugar. A virada veio quando três pessoas da Igreja Presbiteriana Coral Ridge, de Fort Lauderdale, na Flórida, o visitaram e o desafiaram a examinar as provas da fé cristã histórica. Convidaram-no para um debate sobre as origens marcado para a semana seguinte, e ele foi. Começou ali um exame das provas, primeiro sobre a criação e depois sobre a ressurreição de Jesus, que terminou na sua conversão.

A Coral Ridge era a igreja de D. James Kennedy, criador do Evangelismo Explosivo, um método de treino de leigos para a evangelização pessoal. Quem ensinou Hanegraaff a evangelizar, nesse treinamento, foi Kathy, com quem ele depois se casou. O casal teve doze filhos.

O especialista em memória

Hanegraaff era planejador estratégico e instrutor de técnicas de memória, e chegou a trabalhar com Jerry Lucas, ex-jogador de basquete conhecido pelos seus métodos de memorização. Juntou a memória e a evangelização num curso próprio, o Personal Witness Training (“Treinamento em testemunho pessoal”), que publicou em 1987: doze sessões que associavam cada parte do evangelho a uma parte do corpo, com um ursinho chamado Evangel como mascote. Esse gosto pela memorização marcou todos os livros que ele escreveu depois, em que cada argumento vem amarrado a uma sigla.

A sucessão de Walter Martin

Walter Martin fundou o CRI em 1960 e era a principal voz evangélica americana contra as seitas, autor de O império das seitas. Hanegraaff entrou primeiro no conselho do instituto, para ajudar na administração e na captação de recursos. Em dezembro de 1988 Martin o nomeou vice-presidente executivo, dizendo que ele personificava “a próxima fase” do CRI. Martin morreu em junho de 1989, de insuficiência cardíaca, e Hanegraaff assumiu a presidência e o programa.

A sucessão nunca foi aceita por todos. A filha de Martin, Jill Martin Rische, passou a dizer que o pai não o tinha escolhido como herdeiro e que ele viera apenas para levantar dinheiro. Elliot Miller, editor do Christian Research Journal, respondeu com as gravações das aulas de Martin, em que o fundador entregava a Hanegraaff a direção executiva da casa ainda em vida.

Os livros de combate

O primeiro livro, Cristianismo em crise (1993), atacou o movimento da Palavra da Fé, a pregação de Kenneth Hagin, Kenneth Copeland, Benny Hinn e outros sobre saúde, prosperidade e confissão positiva. Hanegraaff acusou esses pregadores de heresia: de rebaixar Deus a um ser que depende da fé humana, de chamar os crentes de “pequenos deuses” e de desfigurar a obra da cruz. Na Christianity Today, Bruce Barron julgou que a maior parte das críticas acertava o alvo, mas que o autor fora duro demais com a família Hagin e com David Yonggi Cho. Em Counterfeit Revival (1997) ele fez o mesmo com os fenômenos da Bênção de Toronto e do avivamento de Brownsville, em Pensacola, e a recepção foi mais dividida.

Vieram depois Ressurreição (2000), que recebeu, como Cristianismo em crise, o prêmio Gold Medallion; The Prayer of Jesus (2001), primeiro lugar entre os mais vendidos do mercado cristão americano em 2002; romances com Sigmund Brouwer ambientados no primeiro século; The Apocalypse Code (2007), sobre a profecia; e Has God Spoken? (2011), sobre a inspiração da Bíblia. O livro mais ligado ao rádio é The Complete Bible Answer Book, coletânea das perguntas dos ouvintes, revista e ampliada em 2024.

Revisões

Nos anos 1990 Hanegraaff dialogou com Joseph Tkach Jr. e outros líderes da Igreja de Deus Universal, fundada por Herbert Armstrong, e acompanhou a mudança que a levou a confessar a Trindade e a salvação pela graça. Em 2003 se reuniu com representantes das “igrejas locais” de Watchman Nee e Witness Lee, que o CRI chamava de seita desde os anos 1970, e mandou refazer a pesquisa com documentos reunidos nos Estados Unidos, na China, em Taiwan, na Coreia do Sul e na Inglaterra. Em 2009 o Christian Research Journal publicou o resultado com a manchete “We Were Wrong!” (“Estávamos errados!”). Em meados dos anos 2000 a família e o instituto se mudaram da Califórnia para Charlotte, na Carolina do Norte, para cortar custos.

A entrada na Ortodoxia

Uma viagem à China mudou o rumo de Hanegraaff. Ele voltou impressionado com cristãos chineses “profundamente apaixonados pelo Senhor” e contou que, no voo de volta, comparava a sua habilidade de comunicar a verdade com o amor deles por Cristo. Passou a estudar a doutrina ortodoxa da theosis, a união do ser humano com Deus. O casal frequentou por mais de dois anos a Igreja Ortodoxa Grega de São Nectário, em Charlotte, e no Domingo de Ramos de 2017, 9 de abril, Hanegraaff, Kathy e dois dos filhos foram recebidos na Igreja Ortodoxa pela crismação, a unção com que os ortodoxos recebem quem já foi batizado em outra tradição cristã.

A Bott Radio Network e a Truth Network, somando cerca de 120 emissoras, tiraram o Bible Answer Man do ar. Em julho de 2017 a maior parte da família de Walter Martin pediu que Hanegraaff deixasse a presidência do CRI; a filha Cindee Martin Morgan se recusou a assinar. Hanegraaff disse que a decisão da Bott revelava “ignorância sobre a Ortodoxia” e que continuava crendo no que sempre creu, nos termos do Credo Niceno.

Poucos dias depois da crismação, recebeu o diagnóstico de linfoma de células do manto, um câncer raro. Passou 2017 em quimioterapia, entrou num ensaio clínico e anunciou a remissão em novembro de 2018. Em junho de 2019 recebeu um transplante de células-tronco de um dos filhos e passou cerca de quarenta dias no hospital. Em 2019 publicou Truth Matters, Life Matters More (“A verdade importa, a vida importa mais”), em que conta o caminho até a Ortodoxia. Continua presidente do CRI e apresentador do Bible Answer Man.

Pensamento

Apologética para guardar na memória

Hanegraaff escreve para o leigo que precisa responder a um vizinho. Em Ressurreição ele organiza a defesa do túmulo vazio com a sigla F-E-A-T: a tortura fatal da cruz (fatal torment), que derruba a hipótese de Jesus ter só desmaiado; o túmulo vazio (empty tomb); as aparições (appearances), apoiadas no credo antigo de 1 Coríntios 15; e a transformação (transformation) dos discípulos. Para ele, é inconcebível que estivessem dispostos a morrer “pelo que sabiam ser uma mentira” (Christian Research Journal, 1999). Em Has God Spoken? a sigla é MAPS: manuscritos, arqueologia, profecia e a harmonia das Escrituras entre si.

A convicção de que “a verdade importa” sustenta os livros de combate: a Palavra da Fé erra sobre quem é Deus, quem é Cristo e o que a cruz fez, e por isso prega outro evangelho. O caso das igrejas locais mostra o outro lado do princípio, pois quando a pesquisa mostrou que o CRI tinha errado, ele publicou a retratação com a mesma ênfase. Na profecia, The Apocalypse Code propõe uma “escatologia exegética”, que lê as profecias pelo sentido que tinham para os primeiros leitores e com Cristo no centro da Escritura. Hanegraaff é preterista parcial: entende que boa parte das profecias do Novo Testamento se cumpriu na destruição de Jerusalém, no ano 70, e espera a volta de Cristo e a ressurreição dos mortos.

A recusa do calvinismo

Hanegraaff vê no calvinismo “um certo fatalismo teísta” (entrevista ao Pravmir, 2017) e explicou no Bible Answer Man que Romanos 9 não ensina o calvinismo. A sua resposta sobre o faraó mostra o argumento. Paulo diz que Deus endureceu o coração do faraó (Romanos 9:17-18), mas o Êxodo registra que o próprio faraó endureceu o coração quando a praga foi retirada (Êxodo 8:15). Deus lhe deu oportunidades reais de se arrepender, e a cada misericórdia ele respondeu com teimosia. Os “vasos preparados para a destruição” chegam a ela pela própria incredulidade (The Complete Bible Answer Book, 2024). A Society of Evangelical Arminians reproduziu essas respostas entre os seus materiais sobre Romanos 9.

Nesse ponto ele se aproxima do arminianismo: Deus dá a cada um oportunidade real de arrependimento, o seu chamado pode ser resistido e quem se perde responde pela própria recusa, como argumentaram Armínio e John Wesley (ver por que Armínio rejeitou o calvinismo). Pelo rádio, abriu espaço ao debate: em dezembro de 2003 recebeu por três dias George Bryson e o reformado James White.

A Ortodoxia e a theosis

Na Ortodoxia, Hanegraaff diz ter encontrado a fé de “memória comunitária”, oposta ao que ele chama de “pastor-empresário”. Em “Questions and Answers about Orthodoxy” (2017) ele explica que a salvação é transação e transformação: há o perdão recebido pela fé (Efésios 2:8-10) e a vida transformada que dele nasce. O alvo é a theosis: tornar-se “pela graça o que Deus é por natureza”, fórmula dos pais gregos. Isso não quer dizer que o ser humano vire Deus, mas que é unido a ele e participa da sua vida (2 Pedro 1:4). A liturgia é para ele uma “academia espiritual”, e a Eucaristia, o meio em que essa união cresce. Ele continua chamando a Escritura de “único repositório infalível da revelação redentora”.

Onde ele fica em relação ao arminianismo

Hanegraaff é um simpatizante: rejeita o calvinismo nos pontos centrais (eleição incondicional, graça irresistível e o determinismo que ele chama de fatalismo), mas nunca se apresentou como arminiano e hoje pertence a uma tradição que não passa pelo debate holandês do século XVII. A Ortodoxia fala de sinergia, a cooperação da liberdade humana com a graça, e não usa o vocabulário ocidental da depravação total e da graça preveniente. O arminianismo clássico afirma que a vontade caída está morta para o bem e só crê porque a graça a liberta antes; a fé é a mão vazia que recebe, e não uma contribuição. Aqui a distância entre o Hanegraaff ortodoxo e Armínio é real.

Há também diferenças em relação à declaração de fé deste site, que entende a Ceia como memorial, batiza depois da conversão e afirma a justificação como declaração de Deus, pela qual o crente é declarado justo. A Ortodoxia vê a Eucaristia como participação real no corpo e no sangue do Senhor, batiza crianças e põe o peso da salvação na transformação. Hanegraaff, porém, continua confessando a Trindade, a divindade de Cristo, a ressurreição corporal e a autoridade da Escritura, e a sua obra apologética segue útil a qualquer cristão. Sobre a defesa da ressurreição, ver também a biografia de Gary Habermas.

Obras principais

  • Personal Witness Training: Your Handle on the Great Commission (edição do autor, 1987)
  • Christianity in Crisis (Harvest House, 1993; nova versão, Christianity in Crisis: 21st Century, Thomas Nelson, 2009)
  • Counterfeit Revival (Word, 1997; 2ª edição, 2001)
  • Walter Martin, The Kingdom of the Cults, edição revista, com Hanegraaff como editor-geral (Bethany House, 1997)
  • The FACE That Demonstrates the Farce of Evolution (Word, 1998)
  • Resurrection (Word, 2000)
  • The Prayer of Jesus (Word, 2001)
  • The Last Disciple (2004) e The Last Sacrifice (2005), com Sigmund Brouwer (Tyndale House)
  • The Apocalypse Code (Thomas Nelson, 2007)
  • Has God Spoken? Proof of the Bible’s Divine Inspiration (Thomas Nelson, 2011)
  • AfterLife (Worthy Publishing, 2013)
  • Truth Matters, Life Matters More: The Unexpected Beauty of an Authentic Christian Life (W Publishing, 2019)
  • The Complete Bible Answer Book: Collector’s Edition, Revised and Expanded (2024)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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