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Greg Laurie: O menino perdido do Movimento de Jesus que virou evangelista de estádios

Diego Gonçalves15 min de leitura2.934 palavras

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Neste texto

Num dia de 1970, no pátio da Newport Harbor High School, na Califórnia, um rapaz de 17 anos que fumava maconha todos os dias viu um amigo conversando com uma moça bonita que carregava uma Bíblia. Pensou que era um desperdício: ela devia ser uma Jesus freak, como chamavam os jovens convertidos do Movimento de Jesus. Curioso, atravessou o pátio e foi parar na reunião dela. Quem pregava era Lonnie Frisbee, um evangelista de cabelo comprido e barba, parecido com o Jesus dos filmes. Frisbee citou a pergunta de Jesus sobre estar a favor dele ou contra ele, e o rapaz, que não queria estar contra Jesus, foi à frente para orar. Era Greg Laurie. Duas décadas depois, ele pregaria em estádios.

Retrato de Greg Laurie
Greg Laurie pregando na AmericaFest, em Phoenix, no Arizona, em dezembro de 2025. Foto de Gage Skidmore, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Uma infância sem chão

Greg Laurie nasceu em 10 de dezembro de 1952, em Long Beach, na Califórnia. A mãe, Charlene McDaniel, tinha crescido num lar cristão em Friendship, no Arkansas, mas fugiu de casa ainda jovem. Engravidou de Greg numa relação passageira, e ele nunca conheceu o pai biológico. Charlene casou-se sete vezes e bebia muito. Ainda menino, Greg aprendeu a cuidar da mãe, e muitas vezes a recolheu do chão depois de uma bebedeira. “A minha infância foi quase uma pré-evangelização”, disse numa entrevista à revista Outreach: a infelicidade da casa o pôs à procura de alguma coisa.

Nos períodos em que a mãe o deixava com os avós maternos, ele assistia às cruzadas de Billy Graham na televisão em preto e branco. Um dos maridos da mãe, Oscar Laurie, advogado que não bebia nem fumava, adotou o menino e lhe deu o sobrenome. Moravam em Nova Jersey quando, um dia, Greg saiu da escola e encontrou o carro carregado de malas: a mãe ia para o Havaí, e o pai não iria junto. Em Honolulu, o novo marido era um bêbado violento, que numa noite quase matou Charlene com uma estatueta. Greg fugiu pela janela até a casa de um vizinho, que chamou a ambulância.

Depois disso, conta ele, “eu desabei”. Entrou nas drogas, que na cultura dos anos 1960 prometiam autoconhecimento: maconha todos os dias, LSD nos fins de semana. Depois de alguns anos, sabia o que não era a resposta, mas ainda não sabia o que era.

A conversão e o folheto

No começo, o recém-convertido queria passar despercebido e escondeu num canteiro a Bíblia que ganhou, com uma cruz de palitos de picolé colada na capa. Meses depois, já evangelizando na rua, ouviu do dono de uma loja de artigos para drogas as perguntas de sempre sobre o inferno e o sofrimento, não soube responder e decidiu estudar a fé a sério.

Ele desenhava bem, e o primeiro ministério veio pelo desenho. Fez um folheto evangelístico em quadrinhos, mais bem-humorado que os folhetos de fogo e enxofre da época, chamado Living Water (“Água viva”). Chuck Smith, pastor da Calvary Chapel de Costa Mesa e principal líder do Movimento de Jesus, gostou do material e apoiou a sua distribuição; mais de um milhão de exemplares circularam pelo mundo. Num dia de batismos no mar, alguém o confundiu com um pastor, e ele acabou batizando gente e pregando à multidão na encosta sobre a praia.

Em 1974 casou-se com Cathe Martin, que também tinha chegado à fé no Movimento de Jesus. Tiveram dois filhos, Christopher e Jonathan.

Riverside

A Calvary Chapel mandava pregadores para um estudo bíblico de jovens que se reunia na All Saints Episcopal Church, em Riverside. Um dia pediram a Laurie que ensinasse, e os jovens pediram que ele voltasse, semana após semana, até que passaram a chamá-lo de pastor Greg. Ele não se achava qualificado e só aceitou quando ninguém mais quis o lugar. Em 1973, aos 20 anos, sob a orientação de Chuck Smith, fundou a Harvest Christian Fellowship, que depois ocupou o prédio de uma igreja batista de Riverside e construiu o seu próprio templo.

Laurie ficou dividido por muito tempo entre dois chamados: seria um evangelista que pastoreava ou um pastor que evangelizava? Concluiu que era chamado às duas coisas, e essa dupla vocação marcou a igreja. Em 2017, a Harvest tinha cerca de 15 mil membros. Ganhou depois um segundo campus, a Harvest Orange County, e outros no Havaí.

As cruzadas Harvest

Laurie pregava nas noites de segunda-feira na Calvary Chapel de Costa Mesa, num culto pensado para os jovens. Chuck Smith sugeriu levar a reunião para um lugar maior, o Pacific Amphitheatre, com cerca de 15 mil lugares. “Chuck, é um lugar muito grande”, respondeu Laurie. “Nós servimos a um Deus muito grande”, disse Smith. A primeira cruzada, em 1990, lotou o anfiteatro todas as noites. No ano seguinte passou para o estádio dos Angels, em Anaheim, sua casa desde então.

As cruzadas seguiram o modelo das de Billy Graham, com bandas de música cristã contemporânea, e foram também para o Oregon, o Texas, Nova York, a Austrália e a Nova Zelândia. Em 2012 começou a Harvest America, transmitida pela internet e por satélite para igrejas, cinemas e casas. Até 2017, mais de 7,7 milhões de pessoas tinham passado pelos eventos, e quase 500 mil tinham feito uma profissão pública de fé.

Laurie tornou-se amigo de Billy Graham, a quem tinha visto na televisão dos avós, fez parte do conselho da Associação Evangelística Billy Graham e escreveu sobre ele Billy Graham: The Man I Knew (2021). Em 2017 falou no culto de oração da posse de Donald Trump, de quem foi um dos conselheiros evangélicos. Essa proximidade com a política rendeu críticas de historiadores evangélicos como John Fea.

A morte de Christopher

Na manhã de 24 de julho de 2008, Christopher Laurie, de 33 anos, diretor de arte da Harvest, ia para o trabalho pela rodovia 91 quando o seu carro bateu na traseira de um caminhão do departamento de estradas, em Corona, e ele morreu. Laurie contou que Christopher tinha vivido fases de filho pródigo, mas que pouco antes tinha voltado a se comprometer com Cristo. Três dias depois do acidente, subiu ao púlpito e disse à igreja: “Eu ainda creio”.

Laurie conta também duas reconciliações. Já pastor, localizou Oscar Laurie e foi visitá-lo; numa caminhada, na manhã seguinte ao jantar em que Greg contou a sua conversão, o pai adotivo se ajoelhou num parque e entregou a vida a Cristo, e viveu mais quinze anos como presbítero da sua igreja. A mãe, que fugiu de Deus a vida inteira, recomprometeu-se com Cristo numa conversa com o filho, um mês antes de morrer.

Batistas, cinema e processos

Em junho de 2017, no dia seguinte à Harvest America de Phoenix, Laurie anunciou que a Harvest entrava na Convenção Batista do Sul, sem deixar a comunhão com as igrejas da Calvary Chapel. Explicou que a decisão “não muda a nossa teologia, a nossa filosofia de ministério nem a nossa história” e que admirava a ênfase dos batistas na evangelização.

A sua história chegou ao cinema. Jesus Revolution (2018), escrito com Ellen Vaughn, conta a conversão de Greg e de Cathe no meio do Movimento de Jesus e virou filme da Lionsgate em 2023, com Kelsey Grammer como Chuck Smith e Jonathan Roumie como Lonnie Frisbee. O filme arrecadou cerca de 52 milhões de dólares nos Estados Unidos. Alguns críticos acharam que o livro e o filme puseram Laurie no centro de um movimento que, na época, era conduzido sobretudo por Frisbee e por Smith.

Em setembro de 2025, ex-moradores de abrigos para crianças de rua que a Harvest sustentava em Bucareste, na Romênia, entraram na Justiça federal da Califórnia contra Paul Havsgaard, pastor e missionário da igreja que dirigia os abrigos, acusando-o de abuso sexual e exploração de menores. Os processos também acusam Laurie e a Harvest de negligência na supervisão. Em 2026, já eram 22 ações reunidas num só processo. A igreja nega ter acobertado os abusos, chama o processo de “extorsão financeira” e pede que o caso seja julgado na Romênia.

Pensamento

Onde ele fica

Classe: simpatizante. Laurie é um pregador de cruzadas, e não um teólogo de sistema. Formado na Calvary Chapel, herdou de Chuck Smith a posição intermediária que rejeita a eleição incondicional e a expiação limitada e afirma ao mesmo tempo a segurança eterna do crente.

A devocional “A Cause for Rejoicing” (2024), sobre Efésios 1:5, mostra o argumento. “Deus sabia exatamente como cada um de nós ia ser”, escreve, “e nos escolheu desde a fundação do mundo.” A escolha não se deve a mérito algum, e Deus nos escolheu primeiro, como em João 15:16. Mas Laurie vai além: “Creio que Deus predestinou todas as pessoas para serem salvas”. Ele insiste que João 3:16 fala do amor de Deus pelo mundo, e não pelos eleitos, e conclui que Cristo derramou o sangue por todos. Na outra ponta, afirma que Deus nos deu livre-arbítrio e que nós damos “o voto decisivo”.

Os três pontos centrais estão, portanto, do lado arminiano: a eleição se apoia na presciência, Cristo morreu por todos e a salvação pode ser recusada. Na devocional “Hell Is a Human Choice” (2019), Laurie cita C. S. Lewis: no fim, há os que dizem a Deus “seja feita a tua vontade” e aqueles a quem Deus diz o mesmo. Quem se perde rejeitou a solução de Deus, e isso parte o coração de Deus.

A distância do arminianismo clássico

A imagem do voto decisivo, porém, não vem de Armínio. Para Jacó Armínio, a vontade caída está morta para o bem, e ninguém pode sequer querer a Deus sem a graça preveniente, a graça que vem antes da fé, alcança todas as pessoas e liberta a vontade para que possa crer. No arminianismo clássico, a fé não acrescenta coisa alguma à salvação: ela é a mão vazia que recebe o presente. A declaração de fé da Harvest afirma que todos os seres humanos são “totalmente depravados por natureza e por escolha” e que o Espírito Santo atrai os não regenerados ao arrependimento e à fé. A ação prévia do Espírito está pressuposta, mas a ênfase de Laurie cai na decisão humana. A mesma declaração diz que Deus escolheu, antes da criação, os que seriam salvos, segundo o seu soberano beneplácito; nas devocionais, Laurie explica essa escolha pela presciência, como faz a eleição condicional dos arminianos.

Na perseverança, Laurie fica com a segurança eterna. Na devocional “Can Christians Lose Their Salvation?” (2016), ele responde à pergunta com outra: quem se afasta da fé alguma vez foi salvo de verdade? Quem se compromete com Cristo e vai embora para sempre nunca foi cristão; quem volta é um filho pródigo. “O verdadeiro teste é onde a pessoa termina”, escreve, e cita 1 João 2:19: “Eles saíram do nosso meio, mas na realidade não eram dos nossos”. É a leitura que os calvinistas também fazem. A certeza da salvação, para ele, vem da Palavra, e não das emoções: numa devocional de 2015, contra a dúvida, cita 1 João 5:13 e Romanos 8:16, o texto em que John Wesley apoiava a doutrina do testemunho do Espírito.

O evangelho como conversa

O centro do pensamento de Laurie é a evangelização. Em Tell Someone (2016), toma como modelo a conversa de Jesus com a samaritana, em João 4: Jesus pede água, mostra-se vulnerável e acha um terreno comum antes de falar do pecado dela. “Muitas vezes os cristãos querem ganhar a discussão mais do que ganhar a alma”, diz Laurie. Por isso a evangelização pessoal é um diálogo, enquanto a pregação é um monólogo.

A ferramenta mais eficaz, segundo ele, é o testemunho pessoal, desde que não glorifique o passado e use a própria história para chegar à história de Jesus, morto, sepultado e ressuscitado. Aos pastores ele pergunta quando foi a última vez que falaram de Jesus a alguém fora do púlpito, porque o fardo pela evangelização passa do pastor para a igreja: “Se há neblina no púlpito, há nevoeiro nos bancos”.

Laurie também desconfia da adaptação que esvazia a mensagem. “Se comprometemos a nossa mensagem no altar da relevância, perdemos tudo”, disse em 2019. As biografias que escreveu sobre Steve McQueen, Johnny Cash, John Lennon, Bob Dylan e Alice Cooper usam a curiosidade do público por ícones da cultura pop para contar a busca espiritual deles.

Onde a declaração de fé deste site difere

O site afirma a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14), como se lê em Apostasia na Bíblia e em Arminianismo: a segurança da salvação. Laurie ensina que o verdadeiro crente sempre volta. O site também prefere dizer que a graça liberta e capacita e que a pessoa, liberta por ela, crê, em vez de falar em voto decisivo. E é amilenista, enquanto a Harvest espera a volta pré-milenista de Cristo. Entre os batistas do Sul, Adrian Rogers chegou a uma posição parecida com a de Laurie, também sem adotar o nome arminiano.

Obras principais

  • Living Water (folheto evangelístico em quadrinhos, anos 1970)
  • The Upside Down Church, com David Kopp (1999), Medalhão de Ouro da Evangelical Christian Publishers Association em 2000
  • Wrestling with God (2003)
  • Every Day with Jesus (2004)
  • Lost Boy: My Story, com Ellen Vaughn (2008)
  • Let God Change Your Life (2011)
  • Tell Someone: You Can Share the Good News (B&H, 2016)
  • Steve McQueen: The Salvation of an American Icon, com Marshall Terrill (2017)
  • Jesus Revolution, com Ellen Vaughn (2018)
  • Johnny Cash: The Redemption of an American Icon, com Marshall Terrill (2019)
  • World Changers, com Larry Libby (2020)
  • Billy Graham: The Man I Knew, com Marshall Terrill (Salem Books, 2021)
  • Lennon, Dylan, Alice and Jesus (2022)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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