
HistóriaTeólogos arminianos5 de 195
George Pretyman Tomline: O tutor de Pitt que escreveu a Refutação do calvinismo
Neste texto
- Vida
- Cambridge e Pitt
- Bispo de Lincoln
- Os metodistas de Lincoln
- A campanha contra o calvinismo
- Winchester
- Pensamento
- Onde Tomline fica no arminianismo
- O argumento dos Pais da Igreja
- Eleição e predestinação
- A graça que vai à frente
- O pecado original: a distância de Armínio
- Batismo, justificação e “experiências”
- O manual dos ordenandos
- Obras principais
- Para aprofundar
Em janeiro de 1806, William Pitt, primeiro-ministro da Grã-Bretanha, morria aos 46 anos em Putney, perto de Londres. Nos dois últimos dias, quem ficou junto da cama foi um bispo. Ele escreveu as últimas instruções do amigo, que Pitt assinou, e ouviu dele uma despedida: “não consigo agradecer o bastante toda a sua bondade comigo ao longo da vida”. O bispo era George Pretyman Tomline, de Lincoln, que tinha sido tutor de Pitt em Cambridge. Cinco anos depois, o mesmo homem publicou A Refutation of Calvinism (1811), livro que chegou à oitava edição em 1823 e o pôs em polêmica aberta com os evangélicos calvinistas da Igreja da Inglaterra.
Vida
Cambridge e Pitt
George Pretyman nasceu em Bury St. Edmunds, no condado de Suffolk, em 9 de outubro de 1750, filho de George Pretyman e de Susan Hubbard, de uma família antiga da região. Estudou na escola de gramática da cidade e no Pembroke Hall, em Cambridge, onde se destacou em matemática: em 1772 foi o senior wrangler, o primeiro colocado nos exames de matemática da universidade. Tornou-se membro (fellow) e tutor do colégio em 1773, foi ordenado diácono em 1774 e presbítero em 1776.
Em 1773, William Pitt, filho do conde de Chatham, chegou ao Pembroke com catorze anos, e Pretyman foi escolhido como seu tutor. Nasceu ali uma amizade que decidiu a carreira do tutor. Quando Pitt se tornou primeiro-ministro, em dezembro de 1783, aos 24 anos, Pretyman passou a ser o seu secretário particular, sem usar o título, que o ministro achava prejudicial para um clérigo. O matemático foi útil nas finanças: formulou as objeções ao plano de Richard Price para reduzir a dívida pública e fez a maior parte dos cálculos do plano que Pitt adotou. Vieram prebendas e paróquias, o doutorado em teologia (1784) e a entrada na Royal Society (1785). Em 1784 casou-se com Elizabeth Maltby, que ele consultava em todos os assuntos políticos importantes; tiveram três filhos.
Bispo de Lincoln
Em janeiro de 1787, com 36 anos, Pretyman foi feito bispo de Lincoln e deão da Catedral de São Paulo, em Londres. Conta-se que o rei Jorge III respondeu ao pedido de Pitt com um “jovem demais, jovem demais” e só cedeu quando o ministro disse que, sem aquele amigo, ele mesmo não estaria no governo. Do palácio episcopal de Buckden, o bispo continuou indo a Londres para aconselhar Pitt, e de 1787 a 1806 a maior parte das nomeações da Igreja passou pelo seu conselho. Opôs-se com firmeza à emancipação dos católicos, isto é, à abertura dos cargos públicos aos católicos romanos.
Em 1803, Marmaduke Tomline, um homem com quem tinha estado cinco ou seis vezes na vida, deixou-lhe em testamento uma grande propriedade em Riby, e o bispo adotou o sobrenome do benfeitor. Em 1805, Pitt tentou fazê-lo arcebispo de Cantuária, mas o rei recusou, dizendo que não se sentiria rei se não pudesse escolher o arcebispo. No ano seguinte, Tomline estava ao lado de Pitt no leito de morte e ficou como seu executor literário.
Os metodistas de Lincoln
Em 1790, John Wesley, com 86 anos, escreveu duas cartas ao bispo de Lincoln. Na primeira, de março, disse que era “um homem moribundo, com um pé na cova”, perguntou por que o bispo perturbava os que viviam em paz e temiam a Deus, e terminou com um conselho: “pense, e deixe pensar”. A segunda, escrita em Hull em 26 de junho, é mais dura. Os metodistas, escreveu Wesley, “sustentam todas as doutrinas” da Igreja da Inglaterra, frequentam os seus cultos e participam dos seus sacramentos. Pediam licença para se reunir conforme a própria consciência; o bispo a recusava e depois os punia por não terem licença. A escolha que lhes restava, resumiu Wesley, era “deixem a Igreja ou passem fome”, e isso era perseguição.
A campanha contra o calvinismo
A cada três anos, o bispo anglicano visitava a diocese e lia ao clero uma charge, uma instrução pastoral. Tomline usou as de 1803, 1806 e 1809 para combater as doutrinas calvinistas, e elas, muito ampliadas, formaram a base de A Refutation of Calvinism (1811). O alvo eram os evangélicos anglicanos, que tinham crescido desde o avivamento do século XVIII. Thomas Scott, pároco de Aston Sandford e comentarista bíblico, lembrou no prefácio da sua resposta que, no seu tempo de jovem, os evangélicos eram um grupo pequeno e desprezado; agora pareciam tão numerosos que se temia que “o mundo inteiro” fosse atrás deles. Scott publicou Remarks on the Refutation of Calvinism ainda em 1811, e Thomas Haweis também respondeu. O congregacional Edward Williams escreveu A Defence of Modern Calvinism (1812), e o professor John Allen, de Truro, respondeu com uma nova tradução inglesa das Institutas de Calvino.
Winchester
Em 1813, Tomline recusou o bispado de Londres. Em 1820 foi transferido para Winchester, onde ganhou fama de bispo cuidadoso, que visitava a diocese com regularidade. Em 1821 publicou a biografia de Pitt, que ia só até 1793 e decepcionou quem esperava as cartas do primeiro-ministro, guardadas por ele. Em 1823 teve reconhecido o direito a um título de baronete e passou a ser Sir George Pretyman Tomline. Morreu em 14 de novembro de 1827, em Kingston Hall, perto de Wimborne, na casa do amigo Henry Bankes, e foi sepultado na Catedral de Winchester. O monumento, de Richard Westmacott, o mesmo escultor das estátuas de Pitt, é um anjo de mármore branco com um cajado de pastor e um livro.
Pensamento
Onde Tomline fica no arminianismo
Tomline é um anglicano anticalvinista que defendeu, ponto por ponto, as posições dos remonstrantes, os herdeiros de Armínio que assinaram a Remonstrância: eleição condicional, segundo a presciência de Deus; redenção universal; graça resistível; e a possibilidade de o crente cair da graça. Por isso entra na série, ao lado de outro bispo anglicano, Jeremy Taylor. Mas recusou o rótulo. Chamar os Trinta e Nove Artigos de arminianos lhe parecia absurdo, porque foram redigidos em 1562, quando Jacó Armínio tinha dois anos. O livro termina assim: “Nossa Igreja não é luterana, não é calvinista, não é arminiana: é bíblica” (A Refutation of Calvinism, 1811, p. 590). No pecado original e no batismo, como veremos, ele fica longe de Armínio e de Wesley.
O argumento dos Pais da Igreja
O método do livro é histórico. Tomline conta no prefácio que examinou cerca de setenta volumes in-fólio e reuniu umas 380 citações dos Pais da Igreja, de Clemente de Roma a Teodoreto, no século V, e umas sessenta de Calvino, para deixá-los “falar por si”. Daí o desafio: se os calvinistas sustentam que a eleição e a reprovação incondicionais, a redenção particular e a graça irresistível eram a fé da Igreja primitiva, que mostrem um autor anterior a Agostinho que as ensinasse. Mesmo Agostinho só as teria adotado nos últimos escritos, quando o seu juízo foi “pervertido pelo calor da controvérsia pelagiana”. O mesmo raciocínio vale para a Igreja da Inglaterra: nas Homilias, a palavra “predestinação” nunca aparece, e “eleição” aparece uma vez, como exortação a confirmar a vocação e a eleição pelas boas obras, como em 2 Pedro 1:10.
Eleição e predestinação
Em Elements of Christian Theology (1799), ao comentar o artigo 17, Tomline explica a predestinação como parte de uma aliança. Deus planejou antes da fundação do mundo a redenção da humanidade por Cristo, e a salvação de cada pessoa depende das condições dessa aliança, que ela pode aceitar ou rejeitar. Pela presciência, Deus viu quem aceitaria, e os que cumpririam as condições do evangelho estão predestinados para a vida, porque “aos que de antemão conheceu, também os predestinou” (Romanos 8:29). Para Tomline, esse é “o único sentido” em que a predestinação se concilia com os atributos de Deus e com a liberdade humana. E a presciência é completa: Deus conhece todas as palavras, pensamentos e ações dos homens antes que aconteçam.
Na Refutation, ele soma a isso uma leitura coletiva da eleição. Israel inteiro, rebeldes e fiéis, é chamado de “escolhido”, e nem por isso todos os judeus estavam destinados à vida eterna. Pedro chama de “eleitos segundo a presciência de Deus” (1 Pedro 1:2) os cristãos de cinco províncias inteiras e, ainda assim, os exorta a confirmar a eleição e os previne contra falsos mestres que podiam desviá-los. Por isso, conclui, “ser eleito e crer em Cristo são a mesma coisa”. É uma leitura próxima da eleição condicional em Cristo defendida pelos arminianos, com ênfase maior na eleição de povos para os privilégios do evangelho do que na eleição para a salvação final.
A graça que vai à frente
O artigo 10 dos Trinta e Nove Artigos fala da “graça de Deus por Cristo, que nos previne para que tenhamos boa vontade, e opera conosco quando temos essa boa vontade”. Tomline comenta que essa graça “vai adiante” e “dá o primeiro impulso e o começo dos nossos esforços”. Nem a convicção mais firme nem o arrependimento mais sincero permitem ao homem caído fazer, por si, obras agradáveis a Deus: a vontade precisa ser guiada e as ações, sustentadas pelo Espírito Santo. Ele cita com aprovação o arcebispo John Bramhall, que lia em Apocalipse 3:20 o próprio Deus batendo à porta do coração com a graça preveniente, “sem a qual não temos desejo de abrir a Cristo”, e lembrava que a própria liberdade de cooperar com a graça é dom de Deus. Tomline também rejeitou o mérito humano: os esforços do cristão recebem mais graça “não pelos próprios merecimentos, mas por causa do nosso bendito Redentor”.
O pecado original: a distância de Armínio
Aqui Tomline se afasta do arminianismo clássico. Ele afirma que a queda corrompeu e enfraqueceu todas as faculdades humanas e que todos nascem com uma inclinação ao mal “universal na extensão e poderosa nos efeitos”. Mas sustenta que o senso moral sobreviveu e que o homem natural guardou alguma capacidade de controlar as paixões. Põe a verdadeira doutrina entre os socinianos, que negavam a corrupção herdada, e os calvinistas, e chega a dizer que os esforços humanos são “indispensavelmente necessários” para obter a ajuda eficaz do Espírito.
Armínio foi mais longe na ruína da vontade: o livre-arbítrio para o verdadeiro bem não está só ferido, mas “aprisionado, destruído e perdido” (Disputas públicas XI), e a graça preveniente liberta uma vontade morta. Wesley chegou a dizer que ninguém afirmou o pecado original com mais força do que Armínio. A declaração de fé deste site segue os dois: todos nascemos pecadores, incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar, e só a graça preveniente torna possível a fé (veja o pecado original e a depravação total e a graça preveniente em Armínio). Tomline não é pelagiano, porque mantém que sem a graça ninguém agrada a Deus, mas atenua a incapacidade humana mais do que Armínio.
Batismo, justificação e “experiências”
A segunda diferença está no batismo. Para Tomline, a regeneração é o novo nascimento que acontece no batismo, uma só vez, e é ali que o cristão recebe o Espírito e a graça preveniente. Quando Paulo fala da justificação dos cristãos, diz ele, pensa na justificação dada no batismo, que pode ser perdida quando o batizado abandona a fé e renovada quando ele se arrepende e volta a crer. Com isso, rejeitava a “conversão instantânea”, a “graça indefectível” (que não pode ser perdida) e as “experiências”, a percepção sentida da ação do Espírito que os evangélicos e os metodistas pregavam.
Aqui ficamos com Wesley, que pregava o novo nascimento como obra de Deus que acompanha a fé e o testemunho do Espírito (Romanos 8:16), pelo qual o crente pode saber que é filho de Deus. A nossa declaração de fé afirma que quem crê em Cristo é justificado, adotado e regenerado, e que o batismo segue a conversão. Tomline liga a graça preveniente ao batismo; para Armínio, para Wesley e para nós, ela alcança todas as pessoas, antes de qualquer sacramento. A defesa que ele fez da redenção universal e da graça resistível, porém, continua útil (veja por que John Wesley rejeitou o calvinismo).
O manual dos ordenandos
O livro mais duradouro de Tomline foi o mais modesto. Elements of Christian Theology nasceu da ignorância que ele encontrava nos candidatos à ordenação. Reúne provas da autenticidade e da inspiração da Bíblia, um resumo da história dos judeus, o conteúdo de cada livro bíblico, a história das traduções inglesas e da liturgia anglicana e uma exposição dos Trinta e Nove Artigos. Dedicado a Pitt, chegou à 12ª edição em 1818 e foi revisto por Henry Stebbing em 1843.
Obras principais
- Elements of Christian Theology (1799), 2 volumes; edição revista por Henry Stebbing em 1843.
- An Introduction to the Study of the Bible (1801), o primeiro volume dos Elements publicado à parte.
- Instrução ao clero de Lincoln sobre a redenção universal (1803).
- A Refutation of Calvinism (1811); 8ª edição em 1823.
- Memoirs of the Life of the Right Honorable William Pitt (1821), 2 volumes.
Para aprofundar
- William Carr, “Tomline, George Pretyman”, Dictionary of National Biography, vol. 57 (1899). Wikisource.
- Tom Watson, “A Staid Angel: Bishop Tomline’s memorial”, Catedral de Winchester. PDF.
- Kenneth J. Stewart, “The Points of Calvinism: Retrospect and Prospect”, Scottish Bulletin of Evangelical Theology 26, n. 2 (2008). PDF.
- John Wesley, cartas ao bispo de Lincoln de março de 1790 e de 26 de junho de 1790, Wesley Corpus.
- “George Pretyman Tomline”, Wikipédia em inglês.
- George Tomline, A Refutation of Calvinism, 2ª edição (Londres, 1811). Archive.org.
- George Pretyman, Elements of Christian Theology, vol. 2 (Londres, 1799). Archive.org.
- Thomas Scott, Remarks on the Refutation of Calvinism (Filadélfia, 1817). Archive.org.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
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