AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaTeólogos arminianos1 de 195

Glen Shellrude: O professor de Nova York que respondeu ao calvinismo com o Novo Testamento

Diego Gonçalves13 min de leitura2.607 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Em 2010, na reunião anual da Evangelical Theological Society, a principal associação de estudiosos evangélicos dos Estados Unidos, um professor de Novo Testamento de um seminário de Manhattan leu um trabalho com uma pergunta incômoda: o que acontece com as exortações morais, as advertências, as orações e as lágrimas de Jesus sobre Jerusalém quando o Novo Testamento é lido com a ideia de que Deus determinou cada detalhe do que acontece? O professor era Glen Shellrude, e o trabalho virou artigo de revista, capítulo de livro e material das suas aulas.

Vida

Uma infância na Guiné

Glen M. Shellrude é filho de Ralph Melvin Shellrude (1927-2008) e Marion Greiner. O pai nasceu em Winnipeg, no Canadá, e estudou no Canadian Bible College, da Aliança Cristã e Missionária (Christian and Missionary Alliance). Em 1950, Ralph e Marion deixaram o Canadá com o filho ainda bebê e foram a Paris aprender francês, a língua da administração colonial da Guiné, na África Ocidental. De lá seguiram para a Guiné, onde trabalharam por cerca de vinte anos entre o povo kissi.

Glen cresceu ali com as duas irmãs mais novas, e foi também na Guiné que conheceu Lois, com quem se casou. Em 1971, a saúde da mãe obrigou os pais a voltar para a América do Norte, onde Ralph foi pastor em Seattle e, de 1979 em diante, superintendente distrital das igrejas da Aliança no noroeste dos Estados Unidos.

Formação: Beirute, Toronto, Denver e St Andrews

O filho dos missionários fez a graduação em filosofia e história na Universidade Americana de Beirute, no Líbano. Depois cursou o mestrado em Divindade (Master of Divinity), o curso que forma pastores, passando pelo Wycliffe College, a escola anglicana ligada à Universidade de Toronto, e concluindo no Denver Seminary, no Colorado.

O doutorado em Novo Testamento foi na Universidade de St Andrews, na Escócia, sob a orientação de Robert McLachlan Wilson, um dos maiores estudiosos britânicos do gnosticismo. O gnosticismo reunia movimentos dos primeiros séculos que prometiam salvação por um conhecimento secreto, e os textos de Nag Hammadi, achados no Egito em 1945, são a principal biblioteca que eles deixaram. Em setembro de 1979, Shellrude apresentou na Oitava Conferência Internacional de Estudos Patrísticos, em Oxford, um trabalho sobre um desses textos, o Apocalipse de Adão. Ele defendeu que o escrito nasceu em círculos gnósticos influenciados por tradições cristãs. O trabalho saiu em 1981 no volume 17 da série Nag Hammadi Studies, da editora Brill.

A tese, Nag Hammadi Apocalypses (Apocalipses de Nag Hammadi), aprovada em 1986, perguntou se os textos da biblioteca chamados de “apocalipses” seguiam o gênero judaico e cristão. Shellrude propôs uma definição: um apocalipse é uma obra montada em torno de um relato em primeira pessoa de uma revelação recebida por meio de um mediador. Com esse critério, concluiu que o Apocalipse de Pedro e o Apocalipse de Paulo de Nag Hammadi seguem o modelo tradicional, enquanto o Apocalipse de Adão é mais um testamento, o discurso de despedida de um patriarca.

Quinze anos em Manila

De 1985 a 2000, Shellrude ensinou Novo Testamento no Alliance Biblical Seminary, o seminário da Aliança Cristã e Missionária nas Filipinas, em Manila, hoje chamado Alliance Graduate School. De 1990 a 2000 foi também o deão acadêmico da escola.

Alliance Theological Seminary, em Nova York

Em 2000, Shellrude passou a ensinar Novo Testamento na Alliance Theological Seminary, o seminário ligado ao Nyack College e à Aliança Cristã e Missionária. Trabalhou no campus de Manhattan, primeiro como professor associado e, a partir do começo da década de 2010, como professor titular.

Em 2015, a versão revista do trabalho lido na Evangelical Theological Society entrou em Grace for All: The Arminian Dynamics of Salvation (Graça para todos: a dinâmica arminiana da salvação), organizado por Clark Pinnock e John D. Wagner, ao lado de textos de Roger Olson, Robert Picirilli, Jack Cottrell e I. Howard Marshall.

Matthew R. Peterson, que foi seu monitor de grego por alguns anos, o descreveu como alguém “tão atencioso quanto franco”, capaz de terminar a aula mais cedo para os alunos não perderem o trem, e atribui a ele a forma da própria teologia. Shellrude também mantinha bibliografias curtas e seletivas, porque achava que uma lista longa demais desanima o leitor antes de ele começar. Em 2023, a Alliance University, nome que o Nyack College tinha adotado, perdeu o credenciamento e anunciou o fim das atividades para o final daquele ano.

Pensamento

Um arminiano da linha de Marshall

Shellrude é um arminiano evangélico. Diz que Romanos 9 se lê com mais naturalidade num quadro “arminiano ou libertário”, assina um capítulo num livro dedicado à “dinâmica arminiana da salvação” e defende os pontos que distinguem essa tradição do calvinismo: Deus deseja a salvação de todos, Cristo morreu por todos, a graça pode ser resistida e a apostasia, o abandono da fé por quem creu, é uma possibilidade real. A sua referência declarada é I. Howard Marshall, a quem atribui a chave para ler a eleição e cujo livro sobre a perseverança e a queda ele considera a melhor análise dos textos.

Ele fala muito em “liberdade libertária”, a capacidade real de escolher entre alternativas, mas sempre com uma qualificação que o afasta do semipelagianismo: é uma liberdade “capacitada pela graça”. Para Shellrude, Deus toma a iniciativa e estende a graça que torna possível a resposta da fé; no crente, a mesma graça liberta do condicionamento da carne para desejar e fazer o que é certo. É o que a tradição arminiana chama de graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. No fim do artigo de 2011 ele resume: o Deus trino criou pessoas à sua imagem, dotadas de liberdade capacitada pela graça, “para que pudessem entrar num relacionamento de amor recíproco” com o Criador.

O Novo Testamento lido com óculos deterministas

O artigo “Calvinism and Problematic Readings of New Testament Texts” (O calvinismo e as leituras problemáticas dos textos do Novo Testamento), de 2011, parte da definição de determinismo teológico: tudo o que acontece, acontece porque Deus ordenou que fosse assim. Shellrude lembra que esse é o ensino da Confissão de Westminster e dos principais teólogos calvinistas, e que o próprio Calvino chamava de “refúgio frívolo” a ideia de que Deus apenas permite o mal.

Depois ele percorre o Novo Testamento por tipos de texto. As exortações morais pedem ao crente que perdoe e que resista ao pecado. Se Deus determina tudo e a sua graça é sempre irresistível, o cristão que não perdoa deixou de perdoar porque Deus reteve a graça que o capacitaria. Em 1 Coríntios 10:13, Paulo promete que Deus dará uma saída na tentação; na leitura determinista, Deus dá a uns a graça que abre a saída e a outros uma graça que não abre. As advertências, a oração “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mateus 6:10) e o lamento de Jesus sobre Jerusalém (Mateus 23:37) seguem o mesmo raciocínio: por que lamentar uma incredulidade que o próprio Deus roteirizou?

Nas conclusões, Shellrude junta sete argumentos. O judaísmo do Segundo Templo não era determinista, e nenhum teólogo da igreja antiga encontrou o determinismo no Novo Testamento antes de Agostinho, embora o estoicismo tornasse a ideia familiar. A leitura calvinista exige interpretações forçadas de milhares de textos, o que ele chama de “um exercício de eisegese em grande escala”, isto é, pôr no texto o que ele não diz. E a distinção entre a vontade revelada e a vontade secreta de Deus produz, para ele, um Deus de duas vontades em conflito. O último argumento é sobre o relacionamento: Deus não teria alegria em criaturas que apenas seguem a programação, como um romancista que só se relacionasse com os personagens que escreveu.

O tom é duro: Shellrude chega a dizer que o ateísmo explica o mal no mundo de modo mais plausível que o determinismo teológico.

Romanos 9

Romanos 9 recebeu um artigo próprio em 2009, na Evangelical Quarterly. Shellrude começa pela pergunta que Paulo responde: judeus objetavam que, se as promessas tinham se cumprido em Jesus, Deus teria falhado com Israel, porque não agiu para garantir que o povo da aliança cresse, e ainda deixou que os gentios fossem os maiores beneficiados. Contra essa ideia de obrigação, Paulo afirma a liberdade de Deus em quatro pontos: Deus é livre para definir quem é o seu povo, sem dever nada aos descendentes físicos de Abraão; é livre para julgar com o endurecimento, em vez de “aumentar a pressão da graça irresistível”; é livre para usar o endurecimento de Israel para levar o evangelho aos gentios, como usou o faraó; e é livre para ter misericórdia dos gentios que creem.

Na figura do oleiro, Shellrude chama a atenção para uma assimetria. Os vasos de misericórdia são aqueles que Deus “para glória preparou de antemão” (Romanos 9:23), mas dos vasos de ira Paulo diz apenas que estão “preparados para perdição” (Romanos 9:22), sem dizer que Deus os preparou. O próprio Paulo explica a condição deles pela incredulidade (Romanos 9:32; 10:21), e ela não é definitiva: os ramos cortados serão enxertados de novo “se não permanecerem na incredulidade” (Romanos 11:23). Numa nota, ele mostra que John Wesley, nas Notas explicativas sobre o Novo Testamento (1754), já lia Romanos 9:6-29 como afirmação da liberdade de Deus no exercício da misericórdia e do juízo.

Todos são eleitos, poucos são eleitos

Em 2012, no Scottish Bulletin of Evangelical Theology, Shellrude propôs uma leitura da eleição que não segue nenhuma das duas linhas arminianas mais comuns. A primeira, a de Armínio e de Jack Cottrell, entende a eleição como escolha de indivíduos com base na presciência de quem vai crer; a segunda, de William Klein e Clark Pinnock, entende a eleição como escolha de um povo, em que o indivíduo entra pela fé, a mesma linha de Brian Abasciano. Shellrude acha que a primeira esvazia a graça, porque reduz a eleição a uma ratificação, por Deus, de decisões humanas previstas, e que a segunda põe no texto mais do que ele diz.

A proposta dele, que atribui a Marshall, é que a linguagem da eleição no Novo Testamento fala menos de seleção e mais de iniciativa graciosa. Deus tomou a iniciativa, convidou, deu a graça que torna possível a fé e trouxe para a sua família todos os que dizem sim. Como Deus quer que todos venham a ele, “em princípio todos são eleitos”; o título de eleito, porém, só é dado aos que responderam. É o que acontece com outras palavras do mesmo campo, como “amados”, “chamados” e “adotados”: o Novo Testamento as aplica aos crentes, sem concluir daí que Deus não ama, não chama nem quer adotar os outros.

A justificação

O artigo de 2010 sobre a imputação defende que, em Paulo, Deus credita ao crente um estado de justificado, por causa da união com Cristo, e não a justiça moral de Cristo transferida para a conta do pecador. Shellrude reconhece que Armínio afirmava a imputação da justiça de Cristo e lembra que Philipp van Limborch foi o primeiro a rejeitá-la, ainda que de modo implícito. A conclusão é pastoral: Deus vê o nosso pecado com toda a clareza, sem nada que o encubra, e mesmo assim decide nos perdoar e nos acompanhar no longo processo de crescer em justiça.

Diferenças com a declaração de fé do site

Shellrude concorda com a declaração de fé deste site na expiação universal, na graça resistível e na perseverança condicional. Há três diferenças. A primeira é a justificação: o site segue Armínio e Wesley na imputação da justiça de Cristo, que Shellrude rejeita (ver a justificação pela fé na teologia arminiana). A segunda é a eleição: o site aceita tanto a eleição condicional em Cristo, segundo a presciência, quanto a leitura corporativa, e Shellrude critica as duas. A terceira é o teísmo aberto, a ideia de que Deus não conhece de antemão as decisões livres. Shellrude estranha que tantos cristãos se alarmem com esse “mosquito” e engulam o “camelo” do calvinismo, numa alusão a Mateus 23:24; o site rejeita o teísmo aberto e não o trata como questão menor.

Obras principais

  • “The Apocalypse of Adam: Evidence for a Christian Gnostic Provenance”, em Martin Krause (org.), Gnosis and Gnosticism, Nag Hammadi Studies 17 (Leiden: Brill, 1981).
  • Nag Hammadi Apocalypses: A Study of the Relationship of Selected Texts to the Traditional Apocalypse (tese de doutorado, Universidade de St Andrews, 1986).
  • “The Freedom of God in Mercy and Judgment: A Libertarian Reading of Romans 9:6-29”, Evangelical Quarterly 81.4 (2009), p. 306-318.
  • “Imputation in Pauline Theology: Christ’s Righteousness or a Justified Status?”, Scottish Bulletin of Evangelical Theology 28.1 (2010), p. 18-30.
  • “Calvinism and Problematic Readings of New Testament Texts”, Journal for Baptist Theology and Ministry 8.1 (2011), p. 69-85; versão revista em Clark Pinnock e John D. Wagner (orgs.), Grace for All: The Arminian Dynamics of Salvation (Resource Publications, 2015).
  • “All Are Elect, Few Are Elect: Understanding New Testament Election Language”, Scottish Bulletin of Evangelical Theology 30.2 (2012), p. 142-159.
  • “My Problems with Calvinism (Summary)” (2016).

Para aprofundar

Para comparar, leia as biografias de I. Howard Marshall, de Brian Abasciano e de Robert Shank. Sobre o tema, veja também Por que Armínio rejeitou o calvinismo e Perseverança e apostasia na teologia arminiana.

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

140pal/min