
HistóriaTeólogos arminianos16 de 195
F. B. Meyer: o pastor batista que esperava os presos no portão da cadeia
Neste texto
- Vida
- Infância e formação
- Liverpool, York e Moody
- Leicester e Melbourne Hall
- A consagração e Keswick
- Londres: Regent’s Park e Christ Church
- Viagens e últimos anos
- Pensamento
- A vida entregue
- O Espírito recebido pela fé
- Vitória sobre o pecado: a diferença com Wesley
- Graça para todos e eleição em Cristo
- Santidade que desce à rua
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Numa manhã fria de inverno, com neblina pingando das árvores, um jovem pastor batista foi até a cadeia de Leicester, na Inglaterra. Uma moça da congregação tinha pedido que ele recebesse o pai dela, que sairia da prisão naquele dia, antes que os antigos companheiros o levassem de volta para a bebida. O homem tinha sido transferido para outra cadeia, e o pastor ficou do outro lado da rua, olhando. Viu os presos soltos atravessarem direto para a taverna. Perguntou por quê, e ouviu que não havia outro lugar para ir. Frederick Brotherton Meyer tocou então a campainha da prisão e pediu ao diretor, Miles Walker, licença para levar cada preso libertado, toda manhã, a uma casa de café a três minutos dali. Até deixar Leicester, serviu ali o café da manhã a algo entre 4.500 e 5.000 homens e mulheres.
A partir dos anos 1890, Meyer foi um dos ministros mais conhecidos do mundo evangélico, autor de dezenas de livros devocionais, voz constante da Convenção de Keswick e presidente da União Batista. Nunca separou a vida interior com Deus do trabalho com os bêbados, os presos e os pobres.
Vida
Infância e formação
Meyer nasceu em Londres em 8 de abril de 1847 e cresceu no bairro de Clapham. A mãe reunia os filhos todo domingo de manhã para procurar referências na Bíblia, e à tarde a família cantava hinos ao piano, puxada pela voz grave do pai. A família se mudou depois para Brighton, por causa da saúde de uma irmã, e ele estudou no Brighton College. Por volta dos quinze anos, as perdas do pai nos negócios obrigaram a volta para Londres e a uma vida mais apertada.
A família frequentava a Bloomsbury Chapel, do pastor batista William Brock, que o menino tomou como modelo. Meyer foi batizado em 1864 na capela de New Park Road, em Brixton, e aos dezesseis anos sentiu o chamado ao ministério. O pai o aconselhou a ganhar antes experiência de vida, e ele passou mais de dois anos num escritório comercial, provando chá e aprendendo contabilidade. Em 1866 entrou no Regent’s Park College, o seminário batista de Londres, e em 1869 se formou bacharel pela Universidade de Londres.
Liverpool, York e Moody
Formado, foi pastor auxiliar de C. M. Birrell na Pembroke Chapel, em Liverpool (1870-1872), e depois assumiu a igreja batista de Priory Street, em York (1872-1874). Em 1873 dois americanos ainda pouco conhecidos, Dwight L. Moody e o cantor Ira Sankey, começaram a campanha britânica na capela de Meyer e ficaram com ele cerca de três semanas. Meyer escreveu que ali viu uma vida “mais ampla e maior”, em que a lealdade de denominação não tinha lugar e a única medida de um homem era a sua devoção ao Filho de Deus. Os dois ficaram amigos para a vida toda.
Leicester e Melbourne Hall
Em setembro de 1874 Meyer foi para a Victoria Road Baptist Church, em Leicester. Queria fazer da igreja um centro de evangelização dos operários, e os diáconos não quiseram. Em 1878 ele se demitiu, e um pequeno grupo pediu que ficasse na cidade. Em 23 de setembro de 1878, 77 pessoas assinaram a declaração que fundou a nova igreja, com a regra de que cada membro estivesse ocupado em algum ramo do trabalho cristão. O templo, Melbourne Hall, foi aberto em 28 de junho de 1881, com lugar para cerca de 1.300 pessoas.
O trabalho no portão da cadeia cresceu. Meyer pagava os cafés com o próprio dinheiro e com ofertas da cidade, pedia aos presos que assinassem o compromisso de abstinência, porque a bebida estava por trás de quase todas as prisões, e guardava as economias dos que saíam. Alugou um pátio com oficina e estrebaria, a “Providence House”, onde chegaram a morar trinta homens. Para dar trabalho aos ex-presidiários, abriu um comércio de lenha e um serviço de limpeza de janelas, com carrinhos de mão que levavam o nome dele pelas ruas. Nas noites de sábado, umas trezentas pessoas oravam em Melbourne Hall e depois saíam pelas ruas.
A consagração e Keswick
Em 1874 Meyer foi ouvir o casal americano Robert Pearsall e Hannah Whitall Smith, pregadores da “vida superior”, que anunciava vitória sobre o pecado e descanso pela fé. Desse movimento nasceu, em 1875, a Convenção de Keswick.
A virada pessoal veio em 1884, quando dois jovens de Cambridge a caminho da China, Stanley Smith e C. T. Studd, visitaram Melbourne Hall. Meyer contou que até ali a sua vida cristã tinha sido “espasmódica e irregular”. Numa manhã de novembro, os dois lhe disseram que o crente deve confiar em Cristo não só para a salvação final, mas também para a vitória sobre cada pecado. Seguiu-se uma luta, porque havia coisas que ele sabia duvidosas e não queria entregar. A saída foi a oração que depois repetiria a milhares de pessoas: “Senhor, estou disposto a ser tornado disposto”. Nenhuma emoção veio naquela noite; a paz chegou depois. Em 1887 veio uma segunda experiência, que ele chamou de enchimento do Espírito Santo.
Também em 1887 ele falou pela primeira vez em Keswick. Pregaria em 26 convenções e seria o principal divulgador da espiritualidade de Keswick entre os batistas. Em maio daquele ano propôs no jornal The Freeman uma união de oração de ministros batistas que buscassem mais poder espiritual; em 1896 ela tinha cerca de 770 dos 2.000 ministros batistas do país.
Londres: Regent’s Park e Christ Church
Em 1888 Meyer foi para a Regent’s Park Chapel, em Londres, no meio da Controvérsia do Declínio, quando Charles Spurgeon deixou a União Batista por julgar que parte dos ministros tinha abandonado as doutrinas evangélicas. Meyer ficou na União e trabalhou para que a Associação Batista de Londres adotasse uma declaração evangélica sem transformá-la em credo obrigatório. Desconfiava dos credos, mas David Gracey, um dos homens de Spurgeon, escreveu que a contribuição dele tinha sido evangélica “de ponta a ponta”.
Em Londres dirigiu o Movimento Avançado Batista, que levava trabalho social e evangelístico aos bairros pobres, e em 1890 abriu uma casa para diaconisas batistas, mulheres que cuidavam de doentes e pobres nos cortiços. Em 1892 mudou-se para a Christ Church, em Lambeth, uma igreja independente que não era batista. Lá construiu um batistério e batizou tantos anglicanos que o reitor da paróquia vizinha instalou o seu próprio batistério. Pregava com força contra a embriaguez e a prostituição, e atribui-se a ele o fechamento de centenas de bares e bordéis.
Meyer foi um articulador das Igrejas Livres, as igrejas protestantes inglesas fora da Igreja Anglicana. Dirigiu a revista The Free Churchman a partir de 1897 e presidiu o Conselho Nacional das Igrejas Livres em 1904-1905. Em 1906 presidiu a União Batista. No discurso presidencial disse que a verdadeira sociologia trataria de justiça, e não de caridade, e lembrou as igrejas de que “somos guardas das nossas irmãs”, pensando nas operárias mal pagas.
Viagens e últimos anos
Desde 1891 pregava nas conferências de Moody em Northfield, nos Estados Unidos. Em 1908 passou seis meses na África do Sul, a serviço das Igrejas Livres, e em maio esteve vários dias com Mohandas Gandhi, por cuja resistência passiva mostrou uma simpatia cautelosa. Voltou à Regent’s Park Chapel de 1909 a 1915 para liderar a campanha de 250 mil libras que completava o salário dos pastores batistas pobres do interior; a meta foi alcançada em 1914. Em 1911 liderou a petição ao ministro do Interior, Winston Churchill, contra a luta de boxe entre Jack Johnson e Billy Wells em Earl’s Court, por causa do prêmio em dinheiro e das apostas. A luta foi declarada ilegal e não aconteceu.
A última fase em Christ Church foi de 1915 a 1920. Em 1916 foi à França com o quacre Hubert Peet para visitar os objetores de consciência britânicos. Em 1918 assinou o Manifesto de Londres, que anunciava a volta próxima de Cristo, e passou a liderar o movimento pré-milenarista britânico. Morreu em 28 de março de 1929, aos 81 anos, e o Daily Telegraph o chamou de “Arcebispo das Igrejas Livres”.
Pensamento
A vida entregue
O centro da pregação de Meyer foi a consagração, a entrega de toda a vontade a Cristo como passo de fé. Em Steps into the Blessed Life (1896) ele chama de “vida abençoada” aquela em que confiamos que o Senhor fará em nós e por nós o que não podíamos fazer. A consagração, diz ele, é ato da vontade e não dos sentimentos, e quem não consegue entregar tudo pode começar dizendo que está disposto a ser tornado disposto. O argumento repousa na graça: Deus “está operando em você o querer”, quer você sinta, quer não (Filipenses 2:13). A pessoa responde a uma obra que já começou nela.
O Espírito recebido pela fé
O mesmo raciocínio vale para o enchimento do Espírito. No capítulo “A Keswick Experience”, Meyer conta uma noite em Keswick em que, esgotado e sem emoção nenhuma, subiu sozinho os morros e entendeu que a parte dele no dom de Pentecostes estava guardada pelo Cristo glorificado, assim como o perdão tinha sido conquistado pelo Cristo crucificado. Recebeu-o “por um ato de fé, sem depender do sentimento”. A prova do enchimento, ensinava, é a consciência viva da presença de Cristo e a libertação do poder do pecado. Em 1895, A. M. Hills seguiu esse conselho de Meyer e tomou a bênção pela fé antes de senti-la.
Vitória sobre o pecado: a diferença com Wesley
Meyer fica perto de Wesley no alvo e longe dele no modo. Para Meyer, a natureza pecaminosa continua no crente até o fim; o Espírito, quando o crente anda nele, trabalha contra os impulsos da velha natureza e os neutraliza, “como o pó desinfetante age contra os germes”. É a doutrina da “neutralização” de Keswick, e por isso os metodistas desconfiavam da convenção: ela negava a convicção wesleyana de que Deus purifica o coração do pecado. A declaração de fé deste site fica com Wesley, na inteira santificação como obra da graça, recebida pela fé, que purifica o coração do pecado original e o enche de amor perfeito.
Graça para todos e eleição em Cristo
Em The Way into the Holiest (1893), comentando Hebreus, ele descreve a salvação como um porto com lugar para “todo navio da raça de Adão”, porque Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro (1 João 2:2). Em Saved and Kept (1897), diz que a doutrina da eleição não deve ser apresentada a quem ainda busca, porque nada nela desanima ninguém: a porta da misericórdia está aberta para o mundo inteiro, com a inscrição “quem quiser, entre”. Só depois de entrar o crente lê que foi predestinado em Cristo. E explica a predestinação pela presciência (Romanos 8:29): Deus previu “os que se tornariam um com Jesus por uma fé viva”, e o seu propósito os incluiu. Em The Wideness of God’s Mercy (1906), ele rejeita a ideia de um Deus que, por capricho, abençoa uns poucos e deixa o resto da humanidade na miséria: “A eleição não é exclusiva, mas inclusiva”.
Na perseverança, porém, Meyer se separa do arminianismo clássico. Comentando Hebreus 6:4-6, afirma que os que caem de vez nunca tinham sido regenerados e que essa queda “não pode vir a um verdadeiro crente”. Trata o texto como advertência séria, mas ensina a segurança final de todo crente verdadeiro. A declaração de fé deste site, com Armínio e Wesley, entende a perseverança como condicional: quem está unido a Cristo deve permanecer nele, e a fé pode ser abandonada.
Por isso Meyer entra nesta série entre os batistas de “quatro pontos”. Ele afirma a expiação por todos, o convite sincero a todos, a eleição em Cristo segundo a fé prevista e uma graça que o pecador pode resistir (os apóstatas de Hebreus 6, diz ele, foram tocados pelo Espírito, que “lutou com eles”). Rejeita a eleição incondicional e a expiação limitada, mas conserva a perseverança incondicional dos regenerados, ponto em que fica com a tradição reformada.
Santidade que desce à rua
A marca mais pessoal de Meyer foi juntar a vida interior de Keswick com a ação social das Igrejas Livres. Entre os pregadores de Keswick do século XIX, ele foi o único a tratar da santidade em relação às questões sociais. Para ele a consagração terminava no portão da cadeia, no salário das operárias e no pastor de aldeia mal pago. É a convicção que John Wesley expressava ao dizer que o evangelho não conhece santidade senão a social.
Obras principais
- Israel: A Prince with God (1887)
- Elijah and the Secret of His Power (1888)
- Abraham, or the Obedience of Faith (1890)
- The Way into the Holiest (1893), exposição de Hebreus
- The Bells of Is (1894), memórias dos primeiros pastorados
- Steps into the Blessed Life (1896)
- The Secret of Guidance (1896)
- Saved and Kept (1897)
- Paul: A Servant of Jesus Christ (1897)
- The Wideness of God’s Mercy (1906)
- A Winter in South Africa (1908)
- Peter: Fisherman, Disciple, Apostle (1919)
Livros em português
- Comentário bíblico: Antigo e Novo Testamentos (Betânia, 2002). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Ian M. Randall, “Mere Denominationalism: F. B. Meyer and Baptist Life”, The Baptist Quarterly 35.1 (1993), p. 19-34.
- Ian M. Randall, “Capturing Keswick: Baptists and the changing spirituality of the Keswick Convention in the 1920s”, The Baptist Quarterly 36.7 (1996), p. 331-348.
- Ian M. Randall, Spirituality and Social Change: The Contribution of F. B. Meyer (1847-1929) (Paternoster, 2003).
- Bob Holman, F. B. Meyer: If I Had a Hundred Lives (Christian Focus, 2007).
- Paul Bassett, “Remember the days of old”, Evangelical Times (2009), sobre Melbourne Hall.
- Melbourne Hall Church, “Our history”.
- Joanne Sloan, “Heroes of the faith: F. B. Meyer”, The Alabama Baptist (2022).
- The London Archives, “The fight that never was”, sobre a campanha contra a luta de 1911.
- “F. B. Meyer”, Wikipédia em inglês.
- F. B. Meyer, The Bells of Is (1894).
- F. B. Meyer, Steps into the Blessed Life (1896).
- F. B. Meyer, Saved and Kept (1897).
- F. B. Meyer, The Way into the Holiest (CCEL).
- F. B. Meyer, The Wideness of God’s Mercy (1906).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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