
HistóriaTeólogos arminianos15 de 195
Fritz Guy: O teólogo adventista que chamou a graça irresistível de contradição
Neste texto
Em 1948, um rapaz de Grand Rapids, no Michigan, tomou um ônibus para o sul da Califórnia. Ia se matricular no La Sierra College, a faculdade adventista vizinha de Riverside. Começou pela física, passou para o inglês e terminou na teologia, nas aulas do professor Edward Heppenstall. O rapaz era Fritz Guy. Quarenta e dois anos depois daquela viagem, ele seria o primeiro presidente da Universidade La Sierra. No meio do caminho, ajudaria a redigir a declaração de crenças da Igreja Adventista do Sétimo Dia e escreveria, para um livro em defesa do arminianismo, que a expressão “graça irresistível” parece “suspeitamente um oximoro”, isto é, uma contradição nos próprios termos.
Vida
Da Califórnia a Washington
Fritz Guy nasceu em 1930 em St. Cloud, no Minnesota, e cresceu em Grand Rapids. Formou-se em teologia no La Sierra College em 1952 e foi pastor na Associação do Sudeste da Califórnia. Em 1954 casou-se com Marcia J. Specht, que morreu em 2006; tiveram três filhos.
Depois foi para Washington, onde funcionava então o Seminário Teológico Adventista, hoje parte da Universidade Andrews, e ali fez o mestrado e o bacharelado em divindade. Na mesma época trabalhou como editor assistente do Youth’s Instructor, a revista semanal da igreja para os jovens.
Professor em La Sierra e doutor em Chicago
Em 1961 voltou a La Sierra como professor. De 1964 a 1968 estudou na Escola de Divindade da Universidade de Chicago e em 1971 recebeu o doutorado, com uma tese sobre o tempo e a temporalidade na filosofia e na teologia. O historiador Martin Marty contou mais tarde que o teólogo Langdon Gilkey considerava a mente teológica de Guy uma das melhores que tinha encontrado ali.
Em 1966 publicou na revista do seminário de Andrews um comentário sobre a teologia do processo, a corrente que, a partir do filósofo Alfred North Whitehead, descreve Deus como um ser que também muda com o mundo. A relação de Deus com o tempo ocupou Guy a vida toda.
De volta à Califórnia, Guy foi o primeiro diretor associado e depois o diretor da Faculdade de Artes e Ciências da Universidade de Loma Linda, que na época incorporava o campus de La Sierra. Ajudou também a fundar a Associação dos Fóruns Adventistas, que publica a revista Spectrum. O nome dele apareceu no expediente da revista desde o primeiro número, em 1969, até a sua morte.
Andrews e a declaração de 1980
Em 1977 Guy aceitou o convite para ser professor de teologia no seminário da Universidade Andrews, em Berrien Springs. Ali foi o secretário da comissão que preparou o primeiro rascunho de uma nova Declaração de Crenças Fundamentais e participou da comissão que reviu as versões finais. A Assembleia da Associação Geral, reunida em Dallas em 1980, adotou o texto com revisões. Eram 27 artigos; em 2005 a igreja acrescentou um sobre o crescimento em Cristo, e a declaração passou a ter 28. Em 2004 Guy contou essa história num longo artigo na Spectrum.
Em Andrews foi também um dos três orientadores, com Raoul Dederen e Gerhard Hasel, da tese de Fernando Canale (1983), sobre o tempo e a atemporalidade como pressupostos da teologia. Anos depois, Canale se tornaria um dos críticos mais firmes do método do antigo orientador.
Loma Linda e a presidência de La Sierra
Em 1984 Guy voltou à Califórnia a convite do amigo de toda a vida Louis Venden, pastor da Igreja da Universidade de Loma Linda. Foi pastor associado, encarregado da relação com os professores e funcionários da universidade, e dirigiu ali a classe de Escola Sabatina fundada por Jack Provonsha.
Em 1990 o campus de La Sierra se separou da Universidade de Loma Linda, e Guy foi o primeiro presidente da nova universidade, de 1990 a 1993. Escreveu a declaração de missão, que pedia à universidade “ampliar o entendimento humano num contexto cristão adventista do sétimo dia contemporâneo”, e fortaleceu o governo dos professores. Depois continuou como professor e, já aposentado, retomou as aulas no fim de 2002 como professor pesquisador de teologia filosófica. Naquele ano La Sierra lhe deu o doutorado honorário em divindade.
Ao receber em 2009 o Prêmio Charles Elliot Weniger, ele resumiu a carreira numa frase: “ser teólogo na igreja e para a igreja foi um privilégio e uma bênção extraordinários”. Dizia que a parte mais gratificante da vida profissional era o sucesso dos alunos.
Causas e últimos anos
Guy apoiou com persistência o ministério feminino. Ajudou a organizar o primeiro culto de ordenação de mulheres na Associação do Sudeste da Califórnia. Foi voluntário de um projeto de assistência a doentes de aids na região de Riverside e um dos três representantes oficiais da igreja no primeiro encontro anual da SDA Kinship, a associação de adventistas homossexuais. Em 2008 coorganizou a coletânea Christianity and Homosexuality. O colega Gary Chartier o descreveu como “progressista sem pedir desculpas” e, ao mesmo tempo, feliz de ser adventista.
Nos últimos anos escreveu com o patologista Brian Bull, de Loma Linda, livros sobre o começo de Gênesis, e deu palestras sobre o tempo de Deus, a teologia da criação e a esperança de que a salvação alcance a todos. Morreu em 25 de julho de 2023, em Longview, no estado de Washington, aos 93 anos, depois de um problema cardiovascular agudo.
Pensamento
Um arminiano de tradição adventista
Fritz Guy entra nesta série como arminiano da tradição adventista do sétimo dia. A evidência mais clara está no capítulo “The Universality of God’s Love” (A universalidade do amor de Deus), que ele escreveu para The Grace of God, the Will of Man (1989), a coletânea organizada por Clark Pinnock com o subtítulo A Case for Arminianism (Uma defesa do arminianismo). O livro reuniu também I. Howard Marshall, Jack Cottrell, William Lane Craig, Bruce Reichenbach e C. Stephen Evans. A Guy coube o fundamento: mostrar que o amor de Deus é universal.
O argumento parte do caráter de Deus. “Se a característica preeminente de Deus é o amor, e se Deus é a fonte de toda a realidade”, escreveu, quase não resta dúvida sobre o alcance universal desse amor. Seria “impensável” que o amor divino ficasse restrito a uma parte afortunada da criação. Para os seres humanos, isso significa que o amor de Deus “inclui absolutamente todos” e quer o bem último, “a salvação eterna”, de cada pessoa (p. 36-37).
Daí vem a frase que dá título a esta biografia. A graça de Deus, escreveu, nunca é, a rigor, “irresistível”, e a expressão “graça irresistível” parece “suspeitamente um oximoro”, porque “a graça é a oferta de um presente, não a imposição da vontade de outro”, e é da natureza do presente poder ser recusado. “É da natureza do amor poder ser ignorado ou desprezado” (p. 40).
Aqui Guy está no centro da tradição arminiana. O quarto artigo da Remonstrância de 1610 diz que a graça é o princípio, o progresso e o cumprimento de todo bem, e que, quanto ao modo de agir, ela não é irresistível. Armínio dizia que toda a controvérsia com os calvinistas se resumia a essa pergunta sobre o modo da graça. A intenção universal da salvação é a mesma que John Wesley pregou (ver Arminianismo: expiação para todos). O arminianismo clássico acrescenta a esse quadro a outra metade do argumento: depois da queda, a vontade humana está presa e só a graça preveniente, obra do Espírito dada a todos, a liberta para crer. A recusa é possível porque a graça liberta, e não porque o ser humano tenha por natureza o poder de escolher Deus.
Pensar teologicamente
O livro mais importante de Guy é Thinking Theologically: Adventist Christianity and the Interpretation of Faith (Pensar teologicamente: cristianismo adventista e a interpretação da fé), publicado em 1999 pela Andrews University Press. No subtítulo, o substantivo é “cristianismo”, e “adventista” vem como qualificação.
Guy define a teologia como o esforço de pensar “do modo mais cuidadoso, abrangente e criativo possível” sobre o conteúdo, a adequação e as implicações da própria vida religiosa (p. 4). Por isso todo crente faz teologia. Essa interpretação da fé tem três fontes que se completam: a Escritura, que reúne as narrativas e as interpretações dos acontecimentos em que Deus se revelou; o conhecimento secular, das ciências naturais à cultura; e a experiência religiosa, a consciência de ser aceito, perdoado e libertado em Cristo (p. 98).
A Escritura tem a prioridade. Ela deve prevalecer “sobre toda tradição teológica cristã posterior, inclusive a tradição adventista”, porque é nos seus documentos, “especialmente nos Evangelhos”, que chegamos mais perto da revelação de Deus em Jesus, o Messias (p. 120). Mas Guy achava que a fórmula sola Scriptura (somente a Escritura) foi um exagero polêmico, útil contra a autoridade da tradição romana, e preferia outra: prima Scriptura, “a Escritura antes de tudo” (p. 137).
O livro é lembrado também pelas distinções. Para Guy, “ortodoxia”, “heterodoxia” e “heresia” são termos históricos e relativos, definidos pelo consenso de uma comunidade, e o consenso de uma comunidade não é a verdade última. Os três termos se aplicam a ideias, e não a pessoas: chamar alguém de herege é “amplo demais, julgador demais” e quase sempre divide a igreja (p. 24-26). O que ele pedia era colegialidade, o cuidado de uns com a saúde espiritual e o crescimento teológico dos outros, expresso “em oração intercessória e em palavras de encorajamento” (p. 44).
Esse método provocou resistência. Fernando Canale, seu antigo orientando, defendeu que a Escritura é a única fonte de dados para a teologia e que as ciências e a filosofia devem ser julgadas por ela, e apontou Guy como o exemplo adventista do caminho oposto. A diferença aparece na leitura de Gênesis: em God, Sky & Land (2011), Guy e Brian Bull leram o primeiro capítulo da Bíblia como os hebreus antigos o ouviam, com o firmamento como abóbada sólida, e em Thinking Theologically Guy defendeu que as perguntas da cultura e da ciência sobre as origens, inclusive as da teoria da evolução, sejam levadas para dentro da teologia da criação.
A declaração de fé deste site fica mais perto de Canale nesse ponto: a Bíblia é a autoridade final em matéria de fé e prática, e os escritos originais foram preservados de erro. A razão, a experiência e o conhecimento da criação ajudam a ler a Escritura, mas ficam abaixo dela.
O tempo de Deus e a esperança mais larga
O tema da tese de Chicago voltou em ensaios como “God’s Time: Infinite Temporality and the Ultimate Reality of Becoming” (O tempo de Deus: temporalidade infinita e a realidade última do devir). Guy respondia que sim, com qualificações, à pergunta se o tempo pertence a toda a realidade, inclusive a Deus: Deus seria infinitamente temporal, e não atemporal, e o seu conhecimento acompanharia o devir da realidade conhecida. Essa linha de pensamento o põe ao lado do colega Richard Rice, também adventista e também autor do livro de Pinnock, que levou a ideia até o teísmo aberto, a tese de que Deus não conhece de antemão as decisões livres. Armínio e Wesley afirmaram que Deus conhece todo o futuro, inclusive as escolhas livres, e o site segue essa posição (ver Presciência, eleição e predestinação).
A outra marca dos últimos anos foi a esperança. Em “How Inclusive Is Our Hope?” (Spectrum, 2005), Guy partiu das parábolas de Lucas 15 e da reação de Jonas diante do perdão a Nínive para perguntar se os adventistas receberiam com alegria ou com ressentimento a descoberta de que o amor de Deus salvou a humanidade inteira.
Nesse ponto ele se afasta do arminianismo clássico e da nossa declaração de fé. Armínio e Wesley ensinaram que Deus quer salvar a todos e que quem recusa a graça até o fim se perde. A declaração do site diz que não são salvas todas as pessoas, mas as que estão unidas a Cristo pela fé, e que os ímpios sofrerão castigo eterno. Há ainda as diferenças que separam adventistas e outros protestantes em geral, como o aniquilamento dos ímpios, explicado em Adventistas e batistas: diferenças entre as duas tradições, e a guarda do sábado, discutida em Dia de culto cristão: sábado ou domingo?.
Para o arminianismo, Fritz Guy deixou um capítulo claro: o amor de Deus alcança a todos, e a graça, por ser presente, pode ser recusada.
Obras principais
- “Comments on a Recent Whiteheadian Doctrine of God”, Andrews University Seminary Studies 4, n. 2 (1966).
- “Confidence in Salvation: The Meaning of the Sanctuary”, Spectrum 11, n. 2 (1980).
- “The Universality of God’s Love”, em Clark H. Pinnock (org.), The Grace of God, the Will of Man: A Case for Arminianism (Academie Books, 1989).
- Thinking Theologically: Adventist Christianity and the Interpretation of Faith (Andrews University Press, 1999).
- “Uncovering the Origins of the Statement of Twenty-seven Fundamental Beliefs”, Spectrum 32 (2004).
- “How Inclusive Is Our Hope?”, Spectrum 33 (2005).
- Christianity and Homosexuality: Some Seventh-day Adventist Perspectives (Adventist Forum, 2008), organizado com David Ferguson e David R. Larson.
- God, Sky & Land: Genesis 1 as the Ancient Hebrews Heard It (Adventist Forum, 2011), com Brian Bull.
- God, Land, and the Great Flood: Hearing the Story with 21st Century Christian Ears (Adventist Forum, 2017), com Brian Bull.
Para aprofundar
- Darla Martin Tucker, “La Sierra University’s Founding President, Beloved Scholar Fritz Guy Passes to His Rest”, Divisão Norte-Americana da Igreja Adventista, 27 jul. 2023.
- “La Sierra University’s founding president, beloved scholar Fritz Guy passes to his rest”, La Sierra University, 26 jul. 2023.
- Becky St. Clair, “Reflecting on Fritz Guy, an Adventist Visionary”, Pacific Union Recorder, 2 out. 2023.
- Glen Greenwalt, “If, … Then! Theology”, resenha de Thinking Theologically, Spectrum 29 (2001).
- Ryan Brousson, “The Hermeneutical Frameworks of Fernando Canale and Fritz Guy: Sola and Prima Scriptura and the Science-Theology Relationship” (2017), resumo da dissertação de mestrado na Andrews University.
- Society of Evangelical Arminians, “The Love of God and Calvinism’s Election (Part Two)” (2008), com as citações do capítulo de Guy no livro de Pinnock.
- Fernando Luis Canale, Toward a Criticism of Theological Reason: Time and Timelessness as Primordial Presuppositions, tese de doutorado, Andrews University, 1983.
- Fritz Guy, “Comments on a Recent Whiteheadian Doctrine of God”, Andrews University Seminary Studies 4, n. 2 (1966).
- “28 Fundamental Beliefs”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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