
HistóriaTeólogos arminianos3 de 195
Gerald O. McCulloh: o metodista que pediu uma nova remonstrância na América
Neste texto
- Vida
- Formação: Kansas, Boston, Edimburgo
- Hamline e o pastorado em Saint Paul
- Professor em Garrett
- O primeiro diretor de educação teológica
- No metodismo mundial
- Historiador do ministério metodista
- Pensamento
- A influência de Armínio na América
- As crenças metodistas
- A perfeição no amor
- Onde ele difere da declaração de fé do site
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em agosto de 1960, quatrocentos anos depois do nascimento de Jacó Armínio, a Irmandade Remonstrante reuniu em Amsterdã, Leiden e Utrecht um simpósio que o convite chamava de inédito: pela primeira vez na história da igreja, os principais representantes do arminianismo, com todas as diferenças que tinham entre si, sentariam à mesma mesa para refazer o caminho até a origem comum. Falaram um professor remonstrante de Leiden, um historiador congregacional inglês, um teólogo remonstrante, um unitarista americano e um metodista de Nashville. O metodista era Gerald O. McCulloh, diretor de educação teológica da Igreja Metodista dos Estados Unidos, encarregado de contar como as ideias de Armínio tinham atravessado o Atlântico. Houve coroa de flores no túmulo de Armínio, em Leiden, e uma peregrinação a Oudewater, a cidade onde ele nasceu. Dois anos depois, McCulloh publicou as conferências e o sermão do culto de Utrecht em Man’s Faith and Freedom (A fé e a liberdade do homem).
Vida
Formação: Kansas, Boston, Edimburgo
Gerald Otho McCulloh se formou na Baker University, uma faculdade metodista de Baldwin City, no Kansas, em 1932. Seguiu para a Universidade de Boston, onde fez o mestrado em 1934 e o curso da Escola de Teologia. Boston era então o centro do personalismo de Albert Knudson e Edgar Brightman, que punha a pessoa no centro da compreensão de Deus e do homem. A dissertação de mestrado, The New Christology (A nova cristologia), percorre a doutrina de Cristo dos pais da igreja até Knudson.
De Boston ele foi para a Escócia, terra dos antepassados de que se orgulhava. Doutorou-se na Universidade de Edimburgo em 1938, com a tese Theism of James Martineau, sobre o teísmo do filósofo inglês James Martineau. Também estudou algum tempo na Universidade de Tübingen, na Alemanha.
Hamline e o pastorado em Saint Paul
De volta aos Estados Unidos, McCulloh ensinou filosofia durante quatro anos na Hamline University, uma universidade metodista de Saint Paul, em Minnesota. Em 1942 aceitou o pastorado da Igreja Metodista Hamline, na mesma cidade, sem deixar de dar aulas como professor convidado. Desse tempo há um sermão publicado em outubro de 1944 na revista The Pulpit, “The Restraining Hand” (A mão que refreia), sobre o freio que a fé põe na vida do cristão. A tese é que, numa época de tanta liberdade exterior, o domínio de si precisa ser ainda maior, porque depende quase todo da pessoa.
Professor em Garrett
Em 1946 o Garrett Biblical Institute, seminário metodista de Evanston, ao lado de Chicago, procurava um sucessor para Harris Franklin Rall, o teólogo sistemático que tinha marcado a escola por três décadas. O presidente Horace Greeley Smith escolheu McCulloh. Ele ensinou teologia sistemática em Garrett de 1946 a 1953 e ocupou a cátedra Henry Pfeiffer de Teologia Sistemática. Em 1952 publicou na motive, revista dos universitários metodistas, “Easter Is Life” (A Páscoa é vida), onde explicou a cruz com a imagem do salva-vidas, que vai até quem se afoga e dá a própria força a quem não tem força para se salvar.
O primeiro diretor de educação teológica
A Conferência Geral metodista de 1952, em San Francisco, criou um departamento para coordenar toda a formação de ministros da denominação. Em 15 de junho de 1953 McCulloh deixou Garrett para dirigi-lo, em Nashville, no Conselho de Educação da igreja, e foi o primeiro diretor de educação teológica em tempo integral da história do metodismo. O departamento mudou de nome algumas vezes (Escolas Teológicas, Educação Ministerial, Ministério), e ele continuou à frente dele até a fusão que criou a Igreja Metodista Unida, em 1968, e depois dela, como secretário-geral associado do Conselho de Educação Superior e Ministério. O departamento cuidava das verbas da igreja para os seminários, dos estudos dos pastores supridos e do recrutamento de vocações.
Foi um tempo de expansão. A Conferência Geral de 1956 decidiu abrir dois seminários, um em Ohio e outro em Kansas City, e transferir o Wesley Theological Seminary para Washington. Em outubro de 1960 McCulloh participou da dedicação do campus da Methodist Theological School in Ohio, o décimo segundo seminário metodista do país. Em julho de 1959 reuniu em Nashville a primeira Convocação dos Corpos Docentes Teológicos Metodistas, cujo tema, “O ministério na herança metodista”, virou livro sob a sua edição em 1960. Organizou ainda a coletânea My Call to Preach (O meu chamado para pregar, 1962).
No metodismo mundial
McCulloh também trabalhou no Conselho Metodista Mundial. Em 1954 era o responsável pela comissão de Fé e Ordem, e em 1956 falou na Conferência Metodista Mundial de Lake Junaluska, na Carolina do Norte, sobre o preparo do pregador. Em 1959 entrou na comissão de seis pessoas encarregada de preparar o segundo Instituto de Oxford de Estudos Teológicos Metodistas, ao lado do britânico A. Raymond George. O Instituto se reuniu no Lincoln College, onde John Wesley tinha sido membro do corpo docente, em julho de 1962, sobre a doutrina da igreja, e McCulloh apresentou o estudo “The Church Through Preaching and Other Means of Grace” (A igreja pela pregação e pelos outros meios de graça), publicado em 1964. No fim da década de 1970 e no começo da de 1980 presidiu, com o australiano Norman Young, a comissão de educação teológica do Conselho Metodista Mundial.
Historiador do ministério metodista
Ao lado do trabalho administrativo, McCulloh escreveu história. Na grande History of American Methodism (1964), em três volumes, assinou o capítulo sobre a teologia e as práticas do metodismo entre 1876 e 1919, período marcado pelas disputas sobre a santidade e pela chegada do liberalismo teológico às escolas metodistas. Em 1975 a revista Methodist History publicou o seu discurso devocional “The Pilgrimage of Perfection in Love” (A peregrinação da perfeição no amor). Em 1980 saiu Ministerial Education in the American Methodist Movement (A educação ministerial no movimento metodista americano), até hoje uma das obras mais citadas sobre a formação dos ministros metodistas nos Estados Unidos. Em 1986, já aposentado, escreveu a biografia de John O. Gross, antigo secretário da educação superior metodista, na coletânea Something More Than Human.
Pensamento
Classe: wesleyano. McCulloh foi ministro e teólogo da Igreja Metodista e falou no Simpósio de 1960 como representante metodista da herança arminiana. Ensinou que Deus quer a salvação de todos, que a graça pode ser recusada e que o crente é chamado à perfeição no amor, e encerrou a conferência sobre Armínio pedindo aos teólogos americanos uma nova remonstrância contra a eleição incondicional, a expiação limitada e a graça irresistível.
A influência de Armínio na América
A conferência de 1960 é o texto em que McCulloh fala mais diretamente do arminianismo. A tese é histórica. A Nova Inglaterra começou calvinista, com puritanos formados em Cambridge, e a doutrina da eleição sustentou os primeiros colonos nas privações do Novo Mundo. Mas a fronteira trouxe uma tarefa missionária, e a pregação da incapacidade, dirigida a pessoas que não se viam entre os eleitos, produzia apatia e desânimo. Os anglicanos que se estabeleceram na Virgínia, em Maryland e nas Carolinas levaram as ideias arminianas que a ala da Alta Igreja anglicana já tinha aceitado, e o metodismo as espalhou pelo país. Para McCulloh, a doutrina da santificação de Armínio marcou os avivamentos americanos, tanto o movimento de santidade metodista quanto os congregacionais Nathaniel W. Taylor, em Yale, e Charles Finney, em Oberlin.
Aqui é preciso distinguir. Taylor e Finney atribuíam à vontade humana uma capacidade natural que Armínio e Wesley negavam, e não pertencem ao arminianismo clássico. A tradição arminiana que vai de Armínio a Wesley afirma que o pecador, por si, não pode querer o bem, e que só a graça o liberta para crer.
No fim da conferência, McCulloh olha para o próprio tempo. A neo-ortodoxia tinha voltado a Lutero e a Calvino, e o nome de Armínio quase sumira dos índices dos livros de teologia. Ele lista o que se calava com isso: a defesa da razão e da tolerância, “a dignidade e a liberdade do homem nascido sob uma graça preveniente”, a responsabilidade de perseverar na fé e na obediência, com a possibilidade real de cair por culpa própria, o lugar da certeza da salvação presente e o chamado a crescer em justiça pessoal e social na santificação. E conclui: “Na teologia americana, chegou a hora de uma nova remonstrância” (Man’s Faith and Freedom, 1962).
As crenças metodistas
Em 1954 McCulloh escreveu para a revista Adult Teacher um trimestre inteiro de lições sobre as “principais crenças metodistas”, para as classes de adultos das igrejas. Elas mostram a teologia dele em palavras simples. A primeira lição fala do “equilíbrio vital” do metodismo: experiência pessoal e vida da igreja, conversão e educação, salvação pessoal e responsabilidade social. A base de tudo é a dependência do homem em relação à graça, que ele define como amor imerecido e que vai contra a tendência humana de bastar a si mesmo. “Nós descobrimos também que não podemos fazer tudo o que Deus quer que façamos”, escreveu, e por isso Deus nos dá em Cristo, além de um modelo, um poder que entra na vida. A justiça das obras não justifica ninguém; o perdão é dom da graça.
Sobre a eleição, a lição é direta: “A salvação é destinada por Deus a todos os homens, não apenas a uns poucos especialmente eleitos para recebê-la” (Adult Teacher, outubro de 1954). Entre todos, alguns aceitam o presente de Deus e outros o recusam e se perdem. Aos que o recebem, o Espírito testemunha que são filhos de Deus, a certeza que Wesley conheceu em Aldersgate. McCulloh acrescenta que essa certeza tem fluxo e refluxo, porque o crente volta a cair, mas Deus continua a persegui-lo, mesmo no pecado.
A lição sobre o homem segue Wesley. O ser humano é espírito, e essa semelhança com Deus a queda não destruiu; por isso o pecado é tão grave: a flor e o macaco não pecam. Pecar é deixar de viver como filho de Deus, e são muitos os caminhos para se afastar dele. O perdão de Deus é o seu amor sem fim, que não deixa de envolver o pecador, e a cruz é a declaração mais clara disso.
A perfeição no amor
A lição de dezembro de 1954 trata da conversão, da certeza e da perfeição cristã, que ele chama de doutrina própria do metodismo. McCulloh define a perfeição como o chamado de Deus à consagração total, à bondade total e ao amor total. Cita a definição de Wesley, ter o coração tão inflamado do amor de Deus que cada pensamento, palavra e obra se torne sacrifício espiritual, e a observação da Explicação clara da perfeição cristã de que ela é sempre precedida e seguida de uma obra gradual. O perigo da doutrina é o orgulho espiritual, e a resposta dele é curta: “Se a perfeição cristã significa orgulho de si, então não queremos nada dela” (Adult Teacher, dezembro de 1954). Entendida como o chamado sem fim de Cristo para seguir a Deus, ela merece ser crida.
Ao escrever a história do metodismo entre 1876 e 1919, ele resumiu as doutrinas que davam identidade à denominação em quatro: a universalidade do pecado, a salvação gratuita oferecida a todos, o testemunho do Espírito e o chamado à perfeição cristã.
Onde ele difere da declaração de fé do site
McCulloh vinha da escola de Boston, e isso aparece na ênfase constante na dignidade e na liberdade humanas e na pessoa como ser espiritual. Ele fala da graça preveniente e da dependência da graça, mas não desenvolve a incapacidade total do pecador com a força que a declaração de fé do site dá a ela: todos nascemos pecadores, incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar, e a capacidade de crer vem inteira da graça. Também a perfeição aparece nele sobretudo como consagração total e crescimento sem fim. O site crê na inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração, recebida pela fé, que purifica o coração; McCulloh cita a obra gradual de Wesley, mas fala pouco desse momento.
Obras principais
- The New Christology (dissertação de mestrado, Universidade de Boston, 1934).
- Theism of James Martineau (tese de doutorado, Universidade de Edimburgo, 1938).
- The Ministry in the Methodist Heritage (editor, 1960).
- Man’s Faith and Freedom: The Theological Influence of Jacobus Arminius (editor, Abingdon, 1962; reimpressão Wipf and Stock, 2007), com o ensaio “The Influence of Arminius on American Theology”.
- My Call to Preach (editor, 1962).
- “The Church Through Preaching and Other Means of Grace”, em The Doctrine of the Church (Abingdon, 1964).
- “The Theology and Practices of Methodism, 1876-1919”, em The History of American Methodism, v. 2 (Abingdon, 1964).
- “The Pilgrimage of Perfection in Love”, Methodist History (1975).
- Ministerial Education in the American Methodist Movement (Nashville: Board of Higher Education and Ministry, 1980).
Livros em português
- A fé e a liberdade do homem: a influência teológica de Jacó Armínio (Reflexão, 2015). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Gerald O. McCulloh, “The Influence of Arminius on American Theology”, trechos da conferência de 1960 publicados em Man’s Faith and Freedom, Society of Evangelical Arminians.
- Resenha de Man’s Faith and Freedom, Society of Evangelical Arminians, com o sumário do livro.
- Arminius Symposium, Information Service da Associação Internacional para o Cristianismo Liberal e a Liberdade Religiosa, junho de 1960, com o convite e o programa.
- “Arminius Symposium”, World Congregationalism, setembro de 1960.
- Gerald O. McCulloh, “The Restraining Hand”, The Pulpit, outubro de 1944, com nota biográfica do autor.
- Gerald O. McCulloh, “Easter Is Life”, motive, abril de 1952.
- Nota sobre a nomeação de McCulloh, Church and Campus, setembro-outubro de 1953.
- Gerald O. McCulloh, lições sobre as crenças metodistas, Adult Teacher, outubro, novembro e dezembro de 1954.
- Gerald O. McCulloh, “The Modern Prophet’s Equipment”, Christian Advocate, novembro de 1956.
- Gerald O. McCulloh (ed.), The Ministry in the Methodist Heritage (1960).
- Gerald Otho McCulloh, The New Christology, dissertação de mestrado, Universidade de Boston, 1934.
- Gerald Otho McCulloh, Theism of James Martineau, tese de doutorado, Universidade de Edimburgo, 1938, Edinburgh Research Archive.
- World Parish, Conselho Metodista Mundial, dezembro de 1961, sobre a comissão do Instituto de Oxford de 1962.
- The Methodist Story, dezembro de 1960, sobre a dedicação da Methodist Theological School in Ohio.
- “A Critical Analysis of the Ministry Studies Since 1944”, Board of Higher Education and Ministry, 1988, sobre a Convocação de 1959.
- Dorothy Leiffer e Murray H. Leiffer, Enter the Old Portals: Reminiscences: Fifty Years on a Seminary Campus (Garrett-Evangelical, 1987).
- Rosemary Skinner Keller, Georgia Harkness: For Such a Time as This (Abingdon, 1992), sobre a sucessão de Harris Franklin Rall em Garrett.
- James V. Heidinger II, “The Role and Importance of Doctrine for American Methodists”, Seedbed, 2017.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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