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HistóriaTeólogos arminianos14 de 195

Gareth Lee Cockerill: Do interior da Serra Leoa ao comentário de Hebreus

Diego Gonçalves13 min de leitura2.559 palavras

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Neste texto

Em 4 de setembro de 1969, um jovem casal americano subiu de Freetown para o interior da Serra Leoa e chegou a Kamakwie, no norte do país. Gareth Lee Cockerill tinha acabado de sair do seminário e de se casar. Ia ser capelão e professor de Bíblia numa escola secundária da missão wesleyana, com cerca de 450 alunos. Era o único missionário da escola. Quarenta e três anos depois, o mesmo homem publicaria o comentário de Hebreus que tomou o lugar do de F. F. Bruce na série da Eerdmans.

Vida

Formação

Gareth Lee Cockerill, chamado de Gary pelos amigos, nasceu em 1944. Formou-se em história em 1966 na faculdade wesleyana de Central, na Carolina do Sul, hoje Southern Wesleyan University. Fez depois o mestrado em divindade no Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, concluído em 1969.

Em 15 de agosto de 1969 casou-se com Rosa, enfermeira que já tinha passado três anos na Serra Leoa como missionária solteira. Duas semanas e meia depois, em 2 de setembro, os dois desembarcaram em Freetown para o primeiro período de três anos de Gary na missão.

A escola de Kamakwie

Os anos em Kamakwie foram duros. Os missionários do ano anterior tinham saído depois de uma disputa. Cockerill denunciou desvio de dinheiro e casos de imoralidade envolvendo gente de autoridade na escola. No último ano sofreu com febres que voltavam sempre, e chegou a ter a vida ameaçada. Anos depois, ao contar essa história no seu blog, descreveu o período com as palavras de 2 Coríntios 4:11: era ser “entregue à morte por causa de Jesus”.

Quando o casal deixou a escola, ela tinha um diretor cristão firme, vários professores cristãos e um centro para os estudantes na cidade. Cockerill considerava mais importante o que veio depois: entre os alunos daqueles anos estavam um futuro superintendente nacional da igreja, um futuro diretor do Evangelical College of Theology, em Jui, perto de Freetown, e um futuro diretor do Gbendembu Wesleyan Bible College.

O doutorado e a volta à África

De volta aos Estados Unidos, Cockerill fez o mestrado em teologia e o doutorado em estudos bíblicos no Union Theological Seminary in Virginia, em Richmond. A tese, defendida em 1976, tratava da cristologia de Melquisedeque em Hebreus 7:1-28.

Depois do doutorado voltou à Serra Leoa. No outono de 1979, numa licença da missão, deu o seu primeiro curso no Wesley Biblical Seminary, em Jackson, no Mississippi, que forma pastores da tradição wesleyana de santidade. Em 1981 voltou à África para mais um período de três anos. Ao todo, os Cockerill serviram nove anos na Serra Leoa, com a Global Partners, a agência missionária da Igreja Wesleyana, em evangelização, ensino, administração e saúde. Gary chegou a diretor da missão no país.

Trinta e cinco anos em Jackson

Em 1984 Cockerill se fixou no Wesley Biblical Seminary, onde ensinou Novo Testamento e teologia bíblica até 2017. Foi professor de interpretação bíblica e teologia, diretor acadêmico e, por oito anos, vice-presidente de assuntos acadêmicos. Ajudou a Oklahoma Wesleyan University a oferecer em Tulsa o mestrado em divindade do seminário. Ensinava também na escola dominical da sua igreja e pregava em acampamentos e conferências.

O alvo missionário continuou. Em 2002 publicou pela William Carey Library o Guidebook for Pilgrims to the Heavenly City (Guia para os peregrinos rumo à cidade celestial), escrito para o discipulado de cristãos vindos do islamismo. Foi também o editor de Novo Testamento da Wesley Bible, uma Bíblia de estudo wesleyana.

Em novembro de 2004 apresentou ao grupo de estudos de Hebreus da Evangelical Theological Society o trabalho que, em 2007, virou o capítulo “A Wesleyan Arminian View” (Uma visão arminiana wesleyana) no livro Four Views on the Warning Passages in Hebrews (Quatro visões sobre as passagens de advertência em Hebreus), organizado por Herbert Bateman. Ao lado dele escreveram Grant Osborne, pela visão arminiana clássica, e dois reformados.

A obra principal saiu em 2012: The Epistle to the Hebrews, na série New International Commentary on the New Testament, da Eerdmans, com 742 páginas, no lugar do comentário de F. F. Bruce, de 1964. Grant Osborne o pôs entre os três melhores comentários de Hebreus já escritos. Em 2024 saiu a tradução espanhola. Em 2014 Cockerill publicou pela Thomas Nelson Christian Faith in the Old Testament (A fé cristã no Antigo Testamento), e a Southern Wesleyan University o escolheu como ex-aluno do ano.

Quando se aposentou, em maio de 2017, os colegas lhe dedicaram Listen, Understand, Obey (Ouvir, entender, obedecer), uma coletânea de ensaios sobre Hebreus organizada por Caleb Friedeman. Num dos ensaios, Chris Bounds estudou como Wesley, Joseph Benson e Adam Clarke leram Hebreus.

A aposentadoria

Como professor emérito, Cockerill continuou a escrever e passou a orientar doutorandos no programa do Kirby Laing Centre com a Union School of Theology. Em 2016 voltou com Rosa à Serra Leoa, deu palestras no Evangelical College of Theology e visitou a escola de Kamakwie. Em 2022 publicou Yesterday, Today, and Forever (Ontem, hoje e para sempre), que distribui a leitura de Hebreus em 49 dias. Em 2023 organizou com Craig Bartholomew e Benjamin Quinn um volume sobre a ação divina em Hebreus. O livro seguinte, The Jesus Question, sobre a identidade de Jesus no Evangelho de Marcos, tem lançamento marcado pela Hendrickson para dezembro de 2026.

Pensamento

Um wesleyano de Hebreus

Cockerill entra nesta série como wesleyano. É ministro ordenado da Igreja Wesleyana, que confessa o arminianismo de John Wesley e a doutrina da santidade, passou a vida em instituições dessa tradição e escreveu, no livro de 2007, a posição que o próprio título chama de arminiana wesleyana. Quando discorda de uma leitura comum entre os seus, ele a apresenta como a interpretação de “minha própria tradição wesleyana de santidade” (SBJT, 2020).

Hebreus como sermão

O comentário de 2012 lê Hebreus como um sermão. Cockerill o classifica como uma “homilia de sinagoga cristã” (p. 15) e chama o autor, cujo nome não sabemos, de “o pastor”. A escolha tem consequência: Hebreus deixa de ser um tratado de teologia distante e passa a ser a palavra de um pastor a uma igreja cansada, perseguida e tentada a voltar atrás. O sermão, para ele, tem três grandes partes (Hebreus 1:1 a 4:13; 4:14 a 10:18; 10:19 a 12:29), e o capítulo 13 aplica os temas à vida da igreja.

Duas convicções atravessam a leitura. A primeira é a força do Salmo 110 em Hebreus: Cristo, depois de fazer a purificação dos pecados, assenta-se à direita de Deus e dali sustenta os seus. A segunda é a unidade do povo de Deus. Hebreus, escreve ele, “nunca compara o cristianismo com o judaísmo, a igreja com Israel” (p. 23). O povo de Deus “sempre foi constituído pela palavra de Deus e pela resposta da fé”, e por isso não há em Hebreus a troca de um povo por outro: o Filho suficiente leva os fiéis de todos os tempos à herança prometida (SBJT, 2020). (Ver também a introdução a Hebreus.)

As advertências e a perseverança

A teologia de Cockerill aparece com mais clareza nas advertências de Hebreus, como Hebreus 6:4-6. Na leitura arminiana wesleyana que ele defende, essas passagens falam a crentes de verdade e tratam de um perigo real: quem abandona a Cristo pode se perder para sempre. Ele reconhece que elas são difíceis para todos, para calvinistas e para wesleyanos, porque parecem descrever uma queda da qual não há volta. Ele distingue, porém, o esfriamento e o desvio, que o arrependimento pode remediar, da apostasia final, a recusa deliberada e persistente de Cristo.

A preocupação dele é pastoral. As advertências não foram dadas para gerar ansiedade, mas para despertar o cuidado de quem não quer cair, e a gravidade delas vem da grandeza da salvação que Cristo trouxe. Cada pessoa está indo na direção de Deus ou para longe dele, e o pastor deve olhar para essa direção, e não só para a decisão que alguém tomou um dia. No comentário, ele escreve que “o poder enganoso do pecado não é desculpa para a desobediência, mas um chamado urgente à resistência vigilante” (p. 187).

A segurança, para ele, está em Cristo. “A perseverança na vida fiel depende de uma compreensão adequada de Cristo e da sua suficiência” (p. 476). Por isso o pastor de Hebreus adverte e, ao mesmo tempo, confia que “não somos dos que retrocedem para a perdição” (Hebreus 10:39). É a mesma estrutura da perseverança condicional dos arminianos: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a própria fé é sustentada pelo Sumo Sacerdote que intercede por ele. A declaração de fé deste site diz o mesmo: a perseverança é condicional, e a fé salvadora pode ser abandonada. O tema está explicado em Perseverança e apostasia na teologia arminiana e em Apostasia na Bíblia.

O artigo de 2018 no Tyndale Bulletin aplica essa leitura a Hebreus 12:18-24. Os dois montes, o Sinai que se pode tocar e o monte Sião, não representam a antiga e a nova aliança, nem o mundo terreno e o celeste. São duas possibilidades presentes: a situação e o destino dos desobedientes, excluídos da comunhão com Deus, e a situação e o destino dos fiéis, que entram nela.

O descanso que ainda vem

Num ponto Cockerill discorda da própria tradição. A tradição wesleyana de santidade muitas vezes leu o “descanso” de Hebreus 4 como uma experiência de santificação que o crente pode receber agora. Para Cockerill, Hebreus usa a linguagem do sacerdócio para falar do acesso presente a Deus e a linguagem da Terra Prometida para falar da entrada final na sua presença. O descanso é a pátria celestial que ainda espera os fiéis, o descanso em que Deus entrou ao concluir a criação. A divergência é de exegese, e não de doutrina: a Igreja Wesleyana, de que ele é ministro, confessa a inteira santificação, a obra da graça recebida pela fé que purifica o coração e o enche de amor, e a declaração de fé deste site faz o mesmo.

A mesma esperança aparece no artigo de 2000 sobre Hebreus 11. Cockerill mostra que a fé do capítulo, a fé de Abraão que esperava a ressurreição (Hebreus 11:17-19) e a dos mártires que buscavam “uma ressurreição melhor” (Hebreus 11:35), é no seu centro fé na ressurreição dos mortos, e é ela que permite aos fiéis vencer o sofrimento num mundo hostil.

A Bíblia verdadeira e inteira

O segundo grande tema de Cockerill é a Escritura. Em 2008, na Evangelical Theological Society, ele examinou como a Wesleyan Theological Society abandonou a inerrância bíblica e como, desde um artigo de Paul Bassett em 1978, se espalhou a ideia de que ela seria estranha aos wesleyanos e que bastaria afirmar a função salvadora da Bíblia. Cockerill respondeu que essa separação entre a verdade dos fatos narrados e o efeito salvador da Escritura “interpreta mal o pensamento de Wesley e dos seus seguidores”. Para Wesley, negar a veracidade da Bíblia invalidaria a sua mensagem de salvação. Cockerill propunha ver a Escritura como a fala pessoal de Deus, que revela a verdade sobre si mesmo ao longo da história para levar as pessoas à comunhão com ele. Nesse ponto ele está com a declaração de fé deste site, que afirma que os escritos originais foram preservados de erro.

A unidade da Bíblia é a outra face desse tema. “Ler o Novo Testamento sem o Antigo é como ler só o último capítulo de um romance”, disse ele em 2014, ao lançar Christian Faith in the Old Testament. Em 2021, no Journal of the Evangelical Theological Society, defendeu que a interpretação cristã siga a ordem dos livros do Antigo Testamento das antigas listas gregas e latinas, a ordem das nossas Bíblias, que termina nos profetas e aponta para o cumprimento em Cristo, e não a ordem tripartida da Bíblia hebraica (sobre a formação da lista dos livros, ver O cânon das Escrituras).

Obras principais

  • The Melchizedek Christology in Heb. 7:1-28 (tese de doutorado, Union Theological Seminary in Virginia, 1976).
  • Hebrews: A Bible Commentary in the Wesleyan Tradition (Wesleyan Publishing House, 1999).
  • “The Better Resurrection (Heb. 11:35)”, Tyndale Bulletin 51, n. 2 (2000).
  • Guidebook for Pilgrims to the Heavenly City (William Carey Library, 2002).
  • “A Wesleyan Arminian View”, em Herbert W. Bateman IV (org.), Four Views on the Warning Passages in Hebrews (Kregel, 2007).
  • The Epistle to the Hebrews, New International Commentary on the New Testament (Eerdmans, 2012); em espanhol, La epístola a los Hebreos (Editorial Tesoro Bíblico, 2024).
  • Christian Faith in the Old Testament: The Bible of the Apostles (Thomas Nelson, 2014).
  • “Hebrews 12:18-24: Apocalyptic Typology or Platonic Dualism?”, Tyndale Bulletin 69, n. 2 (2018).
  • “From Deuteronomy to Hebrews”, Southern Baptist Journal of Theology 24, n. 1 (2020).
  • “‘Prophets and Apostles’: The Arrangement of the Old Testament Canon”, JETS 64, n. 3 (2021).
  • Yesterday, Today, and Forever: Listening to Hebrews in the Twenty-First Century (Cascade, 2022).
  • Divine Action in Hebrews and the Ongoing Priesthood of Jesus (Zondervan Academic, 2023), organizado com Craig G. Bartholomew e Benjamin T. Quinn.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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