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HistóriaTeólogos arminianos9 de 195

G. Campbell Morgan: o pregador recusado pelos metodistas que se tornou o príncipe dos expositores

Diego Gonçalves12 min de leitura2.456 palavras

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Neste texto

Em maio de 1888, um evangelista de 24 anos subiu ao púlpito da igreja metodista de Lichfield Road, em Birmingham, para pregar o sermão de prova exigido dos candidatos ao ministério wesleyano. O templo tinha lugar para mil pessoas, e havia setenta e cinco. Na sacristia, um dos três ministros encarregados de avaliá-lo, J. Gregory Mantle, apontava um lápis comprido e disse: “Agora estou pronto para você”. George Campbell Morgan pregava desde os treze anos e já tinha dirigido missões com igrejas lotadas, mas não passou no exame. Dos cento e cinquenta candidatos daquele ano, cento e cinco foram recusados, e ele foi um deles. Mandou ao pai um telegrama de uma palavra: “Recusado”. O pai respondeu: “Recusado na terra. Aceito no céu”.

Retrato de G. Campbell Morgan de pé, de beca, com a mão no peito
Retrato de G. Campbell Morgan, estúdio James Russell & Sons, c. 1906. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O rapaz recusado pelos metodistas se tornou um dos pregadores mais ouvidos do mundo de língua inglesa. Pastoreou a Westminster Chapel, em Londres, em dois períodos, escreveu mais de sessenta livros e ficou conhecido como “o príncipe dos expositores”. Nunca estudou num seminário.

Vida

Infância em Gales

George Campbell Morgan nasceu em 9 de dezembro de 1863 em Tetbury, no condado inglês de Gloucestershire, segundo filho de George Morgan e Elizabeth Fawn Brittan. O pai, de família galesa de Monmouthshire, era pastor batista. Atraído pelo exemplo de Robert Chapman e George Müller, deixou o pastorado e passou a partir o pão aos domingos com um pequeno grupo, perto dos Irmãos de Plymouth, sem se filiar a eles. Quatro meses depois do nascimento do menino, a família se mudou para o sul de Gales e se fixou em Cardiff, onde passou a frequentar a igreja wesleyana de Roath Road.

A companhia da infância era a irmã Lizzie, quatro anos mais velha. Ela arrumava as bonecas no quarto das crianças como congregação, e o irmão de sete anos pregava para elas de um púlpito improvisado. No começo de 1872 Lizzie morreu. Pouco depois, os pais o encontraram desmaiado sobre o túmulo da irmã, aonde tinha corrido de madrugada; teve pneumonia e quase morreu. Por volta dos dez anos ouviu D. L. Moody e Ira Sankey, na campanha que os dois americanos fizeram na Grã-Bretanha a partir de 1873.

O primeiro sermão e a crise de fé

O primeiro sermão para adultos foi em 1876, aos treze anos, na sala da escola dominical da capela metodista wesleyana de Monmouth. O tema era a salvação, dividido em quatro partes, cada uma presa a um texto bíblico, método que ele seguiu a vida inteira.

Para ajudar a família, ainda adolescente foi ser professor na escola diária wesleyana de Islington, em Birmingham, e depois mestre no Jewish Collegiate School, um colégio judaico dirigido por Lawrence Levy. Aos dezenove anos, a fé entrou em eclipse. As teorias materialistas da época o atraíram, ele parou de pregar e passou dois anos lendo livros que atacavam ou defendiam a Bíblia, sem achar descanso em nenhum. Por fim trancou todos os livros num armário, onde ficaram sete anos, comprou uma Bíblia nova e passou a lê-la de mente aberta. “Aquela Bíblia me encontrou”, disse depois, e acrescentou que desde então viveu para pregar o livro que o tinha encontrado.

Em agosto de 1886, dividido entre a sala de aula e a vontade de pregar, orou pedindo que Deus o forçasse a sair, se fosse essa a vontade dele. Na manhã seguinte Levy o chamou para avisar que o colégio ia fechar. Ao ouvir a história da oração, o diretor judeu respondeu: “O Deus de Abraão não está morto. Vá, e seja abençoado”.

Evangelista metodista, pastor congregacional

Morgan passou a viver de missões nas igrejas, e em 1887 foi nomeado evangelista leigo wesleyano do distrito de Macclesfield, com campanhas em Staffordshire, Shropshire e Cheshire. Nas semanas de solidão que vieram depois, contou que ouviu de Deus uma ordem: parar de fazer planos para si e deixar que Deus planejasse a sua vida. Em 20 de agosto de 1888 casou-se em Market Drayton com Annie Morgan, sua prima, conhecida como Nancy.

Seguiu-se mais de um ano de missão em Hull, no Wilberforce Hall, com cultos para duas mil pessoas. Em agosto de 1889 assumiu a igreja congregacional de Stone, em Staffordshire, e em 22 de setembro de 1890 foi ordenado ministro congregacional. Em 1891 passou para Rugeley, ali perto, e foi lá que viveu a crise que ele mesmo comparou à luta de Jacó no vau de Jaboque: depois de um culto com conversões, sentado sozinho no escritório, ouviu a pergunta “O que você vai ser, um pregador ou o meu mensageiro?”. Percebeu que a vontade de ser conhecido como grande pregador estava tomando conta dele, e passou a noite em luta até responder: “Teu mensageiro, meu Mestre”.

O mesmo Gregory Mantle que o tinha reprovado o recomendou à igreja de Westminster Road, em Birmingham, dividida por brigas doutrinárias, que ele reuniu e fez crescer. Em Birmingham conheceu R. W. Dale, o grande pregador congregacional da cidade. Quando Dale quis saber que teologia ele tinha lido, Morgan contou que tinha estudado a fundo o Compendium of Christian Theology do metodista William Burt Pope. Quando ele se desculpou por não ter formação, Dale o cortou: nunca mais devia dizer que era um homem sem preparo. Em 1897 foi para Londres, como pastor da igreja de New Court, em Tollington Park.

Moody, Northfield e a Westminster Chapel

Em 1896 Morgan fez a primeira viagem aos Estados Unidos, a convite de Dwight L. Moody, e pregou nas conferências de Northfield. Moody morreu em dezembro de 1899, e de 1901 a 1904 Morgan se dedicou à Northfield Extension, levando conferências bíblicas a cidades dos Estados Unidos e do Canadá. Em 1902 o Chicago Theological Seminary lhe deu o título de doutor em teologia.

No último domingo de outubro de 1904 começou o ministério na Westminster Chapel, uma igreja congregacional grande e esvaziada perto do Palácio de Buckingham. Criou ali uma classe bíblica nas noites de sexta-feira, que passou de mil pessoas e deu origem à escola de teologia da igreja. No segundo ano fundou a conferência bíblica de Mundesley, no litoral de Norfolk, uma espécie de Northfield inglesa. De 1911 a 1914 dirigiu também o Cheshunt College, em Cambridge, que formava ministros congregacionais. Doente, deixou o pastorado em 1917.

Os anos americanos e a volta a Londres

Em agosto de 1919 Morgan se mudou para os Estados Unidos, onde passou catorze anos, a maior parte deles como professor itinerante da Bíblia. No fim dos anos 1920 lecionou no Instituto Bíblico de Los Angeles (Biola), de onde saiu no começo de 1929 em solidariedade ao deão John MacInnis, criticado por um livro para o qual Morgan tinha escrito o prefácio. Pastoreou de 1929 a 1932 a Tabernacle Presbyterian Church, em Filadélfia, e deu aulas no Gordon College, em Boston.

Em 1933 voltou para a Westminster Chapel. Em 1938 convidou o médico galês Martyn Lloyd-Jones para dividir o púlpito com ele. Os dois divergiam sobre a doutrina da salvação: Morgan era arminiano, Lloyd-Jones, calvinista. Mesmo assim pregaram juntos durante os anos dos bombardeios de Londres, até a aposentadoria de Morgan, em 1943. Morgan morreu em Londres em 16 de maio de 1945, aos 81 anos.

Pensamento

Um arminiano de formação metodista

Morgan cresceu na igreja wesleyana, começou a pregar em capelas metodistas, foi evangelista leigo wesleyano e aprendeu teologia sistemática em Pope, o principal teólogo metodista inglês do século XIX. Quando a porta metodista se fechou, entrou numa denominação congregacional de raiz calvinista, mas levou consigo a teologia em que tinha sido formado. Não gostava de rótulos e evitava controvérsias, mas as posições que defendeu o põem do lado arminiano.

O ponto mais claro é a eleição. Em God’s Methods with Man (1898), escreveu que encontrava no Novo Testamento “o livre-arbítrio do homem e a soberania de Deus” ensinados com clareza. A solução a que chegou foi dizer que a eleição divina não se refere à salvação pessoal, e sim à participação num grupo interno da igreja, a “Igreja dos Primogênitos”, formado pelos crentes conformados à imagem de Cristo. Essa eleição “não é caprichosa”, mas leva em conta o caráter: Deus predestinou os que conheceu de antemão para serem conformados à imagem do Filho (Romanos 8:29). A salvação ficava aberta a todos pela obra consumada de Cristo, e em 1929 Morgan subscreveu sem ressalvas uma plataforma doutrinária que falava do sacrifício de Cristo “para a redenção do mundo”.

Aqui é preciso marcar a distância. O arminianismo clássico, de Jacó Armínio a John Wesley, entende a eleição como escolha para a salvação, feita em Cristo e condicionada à fé que Deus conhece de antemão (veja A eleição condicional em Cristo). Morgan rejeitou a eleição incondicional para a salvação, como os arminianos, mas tirou a eleição do campo da salvação e a ligou à sua leitura da volta de Cristo. É uma solução pessoal, que não pertence à tradição arminiana.

A ruína humana e a resposta da fé

Morgan não suavizava o pecado. Em The Crises of the Christ (1903), o homem que destronou Deus deixou de dizer “quero porque Deus quer” e passou a dizer “quero porque desejo”, e ficou escravo do pecado, “incapaz de fazer outra coisa senão responder ao domínio do pecado”. Isso está perto da depravação total que Armínio e Wesley afirmavam.

Ao falar da fé, acentuava a vontade. Em The Teaching of Christ (1913), comentando João 6:29, explicou que ninguém escolhe uma convicção, mas pode escolher agir de acordo com ela; quem crê em Cristo e se entrega a ele “faz a obra de Deus”. A convicção vem do Espírito Santo, que convence o mundo do pecado (João 16:8), e “a luz cria responsabilidade”. Morgan não usava a expressão graça preveniente, a graça que vem antes da nossa resposta e liberta a vontade para crer, mas descrevia a mesma ordem: Deus convence primeiro, e a pessoa responde. O arminianismo clássico frisa mais do que ele que até essa resposta só é possível porque a graça libertou a vontade (veja Arminianismo: é tudo sobre a graça).

O Espírito e a santidade

Em The Spirit of God (1900), Morgan atribuiu o avivamento do século XVIII à recuperação da doutrina da santificação: Wesley não descobriu doutrina nova, mas trouxe à luz a verdade apostólica que estava perdida. Tomou ali emprestada uma frase do metodista Daniel Steele: em cada época, quem conserva a ortodoxia é o Espírito Santo.

No mesmo livro, porém, recusou a linguagem do movimento de santidade. Para ele, o batismo com o Espírito é a bênção do novo nascimento, e chamá-lo de “segunda bênção” seria uma nova forma de legalismo. Distinguia o batismo da plenitude do Espírito, que muitos crentes recebem depois da conversão, “muitas vezes, mas não necessariamente”, como segunda bênção. A declaração de fé do Diário do Diego afirma a inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração, recebida pela fé; Morgan não a ensinava como etapa definida e ficava mais próximo do ensino de Keswick sobre a plenitude do Espírito, que F. B. Meyer também pregava.

A Bíblia lida inteira

A marca maior de Morgan foi o método. Na introdução de The Analyzed Bible (1907), distinguiu a leitura telescópica, que olha um livro inteiro para ver a relação entre as partes, da microscópica, que examina palavras e versículos. A primeira vem antes, porque “textos nunca devem ser estudados senão em relação ao seu contexto”. Antes de escrever sobre um livro, ele o lia “às vezes até cinquenta” vezes, até sentir o movimento do conjunto. Em The Crises of the Christ, aplicou o método à vida de Jesus: Deus age por processos lentos e por crises súbitas, e as sete crises (nascimento, batismo, tentação, transfiguração, cruz, ressurreição e ascensão) contam a obra pela qual a redenção foi realizada para a raça humana.

Diferenças com a declaração de fé do site

Além da eleição e da segunda bênção, há a escatologia. Em God’s Methods with Man, Morgan ensinava o pré-milenismo e esperava que só a igreja interna dos eleitos fosse arrebatada. O Diário do Diego é amilenista e espera uma só volta de Cristo, seguida da ressurreição de todos e do juízo final. Nos pontos centrais da graça, Morgan está do mesmo lado: Cristo morreu pelo mundo, o homem é incapaz de se salvar, e a fé responde ao Espírito que convence.

Obras principais

  • Discipleship (1897)
  • God’s Methods with Man (1898)
  • The Spirit of God (1900)
  • The Crises of the Christ (1903)
  • The Analyzed Bible (1907-1911)
  • The Bible and the Cross (1909)
  • The Study and Teaching of the English Bible (1910)
  • Living Messages of the Books of the Bible (1912)
  • The Teaching of Christ (1913)
  • The Acts of the Apostles (1924)
  • The Gospel According to Mark (1927)
  • God’s Last Word to Man: Studies in Hebrews (1936)
  • The Parables and Metaphors of Our Lord (1943)
  • The Westminster Pulpit, 10 volumes (1954-1955)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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