
HistóriaTeólogos arminianos10 de 195
Gene L. Green: De Springfield a San José, o exegeta de Pedro e de Tessalônica
Neste texto
Antes de entrar na sala de cirurgia para trocar a válvula aórtica, o professor de Novo Testamento Gene L. Green fez o que um estudioso faz diante de um problema: foi às estantes. Procurou o que os teólogos tinham escrito sobre a cirurgia e saiu de mãos vazias. “Em toda a literatura”, contou depois, ele não achou nada “que pudesse ser chamado de teologia da cirurgia”. Fez testamentos novos, conversou com as filhas sobre a vida sem ele e se entregou ao cirurgião confiando em Deus. Do hospital saiu um livro pequeno, The Scalpel and the Cross (O bisturi e a cruz, 2015), e uma frase que resume quarenta anos de trabalho: “para o cristão, vida e teologia não podem ser separadas”.
Vida
Springfield e Wheaton
Gene Green começou no ministério em 1972, como pastor auxiliar da Bethel Assembly Church, em Springfield, no Illinois, uma igreja pentecostal ligada às Independent Assemblies of God. Formou-se em estudos bíblicos no Wheaton College em 1976 e concluiu ali o mestrado em Novo Testamento em 1977, os dois com distinção. Nos anos de Wheaton, serviu de 1975 a 1977 como pastor auxiliar da Salem United Methodist Church, em Barrington, também no Illinois. As duas tradições, a pentecostal e a metodista, voltariam a se cruzar na vida dele.
Do Illinois foi para a Escócia. Na Universidade de Aberdeen fez o doutorado em exegese do Novo Testamento, concluído em 1980, com uma tese sobre a teologia e a ética de 1 Pedro. Sobre o mesmo tema publicou no Tyndale Bulletin (1990) um artigo acerca do uso do Antigo Testamento na ética da carta. A carta de Pedro o acompanharia pelo resto da carreira.
Em 1980 a Bethel Assembly Church o ordenou ministro, e ele voltou a Springfield como pastor associado e diretor dos cursos noturnos da igreja. Em 1981 e 1982 ensinou Novo Testamento na Melodyland School of Theology, em Anaheim, na Califórnia, escola ligada ao movimento carismático, e foi presbítero da Melodyland Christian Center.
Treze anos na América Latina
Em 1983 Green estudou espanhol no Instituto de Língua Espanhola de San José, na Costa Rica. Em 1984 ensinou Novo Testamento na Universidade CETEC, em Santo Domingo, na República Dominicana. Depois de um ano na Christian Life College, em Mount Prospect, no Illinois, voltou à América Central como missionário da Latin America Mission, de 1986 a 1996.
A casa desses dez anos foi o Seminario ESEPA, em San José. Green foi professor de Novo Testamento e diretor acadêmico de 1986 a 1991, reitor de 1991 a 1994 e de novo diretor acadêmico até 1996. Participou da Fraternidade Teológica Latino-Americana. Em 1989 escavou em Tel Dor, em Israel. Escreveu em espanhol o comentário 1 Pedro y 2 Pedro (Editorial Caribe, 1993), para o Comentário Bíblico Hispano-Americano, e verbetes do Diccionario ilustrado de la Biblia (1998), entre eles o de “apostasia”.
Vinte e três anos em Wheaton
Em 1996 Green voltou a Wheaton como professor de Novo Testamento, cargo que ocupou até 2019. Em 2000 publicou 1 y 2 Tesalonicenses pela Editorial Portavoz, escrito em espanhol, e em 2002 o comentário em inglês The Letters to the Thessalonians, na série Pillar, da Eerdmans. Em 2008 saiu Jude and 2 Peter, na série Baker Exegetical Commentary on the New Testament. Craig Blomberg chamou este último de “talvez o melhor de todos” os comentários evangélicos recentes sobre as duas cartas. Em 2009 lançou com Gary Burge e Lynn Cohick The New Testament in Antiquity (O Novo Testamento na Antiguidade), uma introdução ao Novo Testamento no seu mundo cultural, refeita com Burge em 2020.
Em 2001 passou um período no Departamento de Fonética e Linguística da University College London, onde se desenvolveu a teoria da relevância, que estuda como entendemos o que o outro quer dizer além do que ele diz. Entre 2004 e 2012 dirigiu, com outro colega, o grupo de teoria da relevância e interpretação bíblica da Society of Biblical Literature. Trabalhou também em traduções da Bíblia, em inglês e em espanhol: traduziu Colossenses para a Common English Bible (2011).
De 1997 a 2011 fez parte da diretoria da Langham Partnership, fundada por John Stott para formar pastores e professores no mundo não ocidental. Em 2011 tornou-se membro da Gary United Methodist Church, em Wheaton. No mesmo ano organizou com Jeffrey Greenman a conferência teológica de Wheaton sobre teologia global, que virou o livro Global Theology in Evangelical Perspective (2012). Na mesma linha veio a série Majority World Theology, organizada com Stephen Pardue e K. K. Yeo, com seis volumes sobre as grandes doutrinas, de 2014 a 2019.
Nos últimos anos de Wheaton, Green se voltou para os povos indígenas da América do Norte. De 2015 a 2021 fez um certificado de pós-graduação em estudos nativo-americanos na Montana State University. Ensinou Novo Testamento na NAIITS, uma comunidade de formação teológica indígena, de 2017 a 2019, e foi o seu diretor acadêmico interino no último ano. Em 2019 publicou Vox Petri: A Theology of Peter (A voz de Pedro: uma teologia de Pedro), com prefácio de Michael Gorman, e deixou Wheaton como professor emérito.
Miami
Em abril de 2020, no começo da pandemia, Green assumiu a direção da Trinity International University Florida, em Miami, na gestão do presidente Nicholas Perrin, com quem já tinha trabalhado catorze anos. Na chegada, descreveu a igreja daquele momento como “uma comunidade de fé unida, com uma mensagem de esperança e mãos de amor”.
Pensamento
Um pentecostal na igreja metodista
Green entra nesta série como pentecostal arminiano. Foi ordenado por uma igreja das Independent Assemblies of God, ensinou na escola carismática de Melodyland, é membro da Society for Pentecostal Studies e escreveu para a Pneuma Review. A tradição pentecostal clássica, a de Myer Pearlman e Stanley Horton, é arminiana na doutrina da salvação: a graça de Deus alcança todos, pode ser resistida, e o crente é chamado a permanecer em Cristo. Desde 2011 Green é membro de uma igreja metodista unida, cujos Artigos de Religião, herdados de John Wesley, ensinam que ninguém pode se voltar para Deus pela própria força e que a graça de Deus por Cristo nos “previne”, isto é, vem antes de nós, para que tenhamos boa vontade (art. VIII). (Ver as diferenças entre metodistas e pentecostais.)
A contribuição dele está na exegese. Ele lê o Novo Testamento com as perguntas de um pentecostal sobre o Espírito, de um missionário sobre a cultura e de um linguista sobre as palavras.
O Reino e o Espírito
Em “The Kingdom and the Spirit” (O Reino e o Espírito), publicado na Pneuma Review em 1999, Green pergunta como o reino de Deus se manifesta entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. Ele rejeita as duas respostas extremas, a do reino só futuro (Johannes Weiss e Albert Schweitzer) e a do reino já realizado (C. H. Dodd), e fica com a posição intermediária, a mesma de George Eldon Ladd, cuja Teologia do Novo Testamento ele recomendou numa antologia de leituras em 2001. No ensino de Jesus, escreve Green, o reino “é ao mesmo tempo uma realidade presente e uma esperança futura”.
A tese do artigo é que Deus exerce o seu reinado nesta era pela ação do Espírito Santo. Jesus expulsa demônios “pelo Espírito de Deus”, e por isso o reino chegou (Mateus 12:28). O Cristo exaltado derrama o Espírito (Atos 2:33). Em Paulo, o Espírito produz justiça, paz e alegria, que são o reino (Romanos 14:17), e é o penhor e as primícias da herança que virá. A conclusão cabe numa linha: “onde o Espírito está agindo, ali o reinado de Deus está presente”. Para a igreja local, isso tem duas consequências: o poder do Espírito a livra do derrotismo, mas não do sofrimento, porque “a presença do Espírito não garante” que o lado duro da vida será evitado. Como dizem Paulo e Barnabé, “por muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus” (Atos 14:22). (Ver também Reino de Deus e Igreja.)
As palavras ganham sentido no uso
A segunda marca de Green é a teoria da relevância. No artigo “Lexical Pragmatics and Biblical Interpretation” (JETS, 2007), ele discorda do método comum dos estudos de palavras, que consiste em abrir o léxico, ver a lista de sentidos possíveis e escolher o que serve no contexto. Para ele, as palavras apontam para conceitos que o autor ajusta no próprio texto, estreitando ou alargando o sentido, e o leitor reconstrói esse conceito ajustado com o que autor e leitores sabiam em comum.
O exemplo é a palavra “Senhor” em Filipenses 2:11. O léxico classifica o uso como título de Cristo, e Green mostra que Paulo diz muito mais. Ao citar Isaías 45:23, Paulo põe Cristo no lugar do próprio Deus de Israel, diante de quem todo joelho se dobra. No contexto da carta, o Senhor é o mesmo que se humilhou até a morte de cruz, e é também Senhor sobre os adversários que perseguiam a igreja de Filipos. Por isso, escreve Green, os léxicos são só um mapa geral, e não devem ser tratados como “uma caixinha de promessas da qual tiramos a palavra do dia”.
Tessalônica, Judas e Pedro
Nos comentários, Green lê as cartas dentro da cidade romana. Em Tessalonicenses, explica o chamado de Paulo ao trabalho à luz das relações de patrono e cliente, e mostra como o culto ao imperador tornava a fé dos tessalonicenses perigosa. O sofrimento, para ele, era “parte do catecismo básico dos novos crentes” (p. 161). Green não vê em 1 Tessalonicenses 4:16-17 um arrebatamento secreto, mas a volta visível e final de Cristo, e lê o “homem da iniquidade” de 2 Tessalonicenses 2 contra o pano de fundo das pretensões divinas do imperador (ver o estudo de 2 Tessalonicenses 2:1-8). Nesse ponto ele concorda com a declaração de fé deste site, que espera a segunda vinda como um evento único, seguido da ressurreição e do juízo.
Em Jude and 2 Peter (2008), Green defende que Judas e Pedro escreveram as cartas que levam os seus nomes, nas décadas de 50 e 60, e que Pedro usou Judas recriando o texto, como faziam os escritores antigos que imitavam os modelos. Os adversários de 2 Pedro, para ele, eram mestres influenciados pelo epicurismo, que negavam a ação de Deus na história e o juízo final, e por isso viviam na imoralidade. A participação na natureza divina de 2 Pedro 1:4 é moral, e não de essência: o crente é transformado no caráter, sem deixar de ser criatura (ver o estudo de 2 Pedro 1:1-11). A leitura conversa com a ênfase wesleyana na santidade de vida.
Vox Petri (2019) coroa o estudo de Pedro iniciado no doutorado. Green chama o apóstolo de um dos “garotos perdidos” da teologia cristã: os protestantes o deixaram de lado desde a Reforma, a tradição católica o usou para defender o papado e a crítica moderna duvidou que se pudesse ouvir a sua voz. I. Howard Marshall, em cujo livro de homenagem Green escreveu sobre os discursos de Atos (2011), chegou a lhe dizer que o projeto não podia ser feito. Green o fez com três fontes, o Evangelho de Marcos, os discursos de Pedro em Atos e 1 Pedro. Pedro aparece como teólogo conciliador, que entendeu que o evangelho inclui os gentios sem exigir que deixem a sua cultura, e de quem Paulo é devedor. A cruz, para esse Pedro, foi salvadora, e não uma tragédia sem sentido. Green defende que Pedro é a pedra de Mateus 16:18, e completa: ele é “a Rocha teológica que nos conduz à verdadeira Rocha, que é Cristo”.
Teologia de todos os povos
A série Majority World Theology dá a palavra a teólogos da África, da Ásia, da América Latina e dos povos indígenas sobre as doutrinas centrais da fé. No volume sobre a salvação, So Great a Salvation (2017), a doutrina aparece como questão de vida ou morte para muitos cristãos fora da Europa e da América do Norte. Em 2014, no simpósio anual da NAIITS, Green apresentou “The Death of Mission: Rethinking the Great Commission” (A morte da missão: repensando a Grande Comissão), publicado no jornal da instituição. O subtítulo do livro de 2012 resume esse interesse: explorar a natureza contextual da teologia e da missão.
Obras principais
- 1 Pedro y 2 Pedro (Editorial Caribe, 1993).
- 1 y 2 Tesalonicenses (Editorial Portavoz, 2000).
- The Letters to the Thessalonians, Pillar New Testament Commentary (Eerdmans, 2002).
- Jude and 2 Peter, Baker Exegetical Commentary on the New Testament (Baker Academic, 2008).
- The New Testament in Antiquity, com Gary Burge e Lynn Cohick (Zondervan, 2009; 2.ª ed., com Gary Burge, 2020).
- Série Majority World Theology, organizada com Stephen Pardue e K. K. Yeo (Eerdmans e Langham, 2014-2019), reunida em Majority World Theology: Christian Doctrine in Global Context (IVP Academic, 2020).
- The Scalpel and the Cross: A Theology of Surgery (Zondervan, 2015).
- Vox Petri: A Theology of Peter (Cascade, 2019).
Livros em português
- O Comentário de 1 e 2 Tessalonicenses (Shedd Publicações, 2025). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Judas e 2Pedro: comentário exegético (Vida Nova, 2026). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Gene L. Green, “Curriculum vitae”, Trinity International University, 2021.
- “Gene L. Green, PhD Appointed Dean of Trinity International University Florida”, The Good News, 2 abr. 2020.
- Gene L. Green, “The Kingdom and the Spirit”, Pneuma Review 2 (1999).
- Gene L. Green, “Lexical Pragmatics and Biblical Interpretation”, JETS 50, n. 4 (2007), p. 799-812.
- Gene L. Green, “A Theology of Peter”, trecho da introdução de Vox Petri, Wipf and Stock, 2023.
- “Is Surgery Part of God’s Story? An Excerpt from The Scalpel and the Cross”, Zondervan Academic.
- Jeremy Bouma, “How Does Physical Surgery Impact Faith in Christ?”, Zondervan Academic.
- Craig L. Blomberg, “Jude and 2 Peter”, resenha, Denver Journal, jan. 2009.
- Craig L. Blomberg, “The Letters to the Thessalonians”, resenha, Denver Journal 6 (2003).
- David P. Clark, “The Scalpel and the Cross: Brief Review”, The Englewood Review of Books, 23 out. 2015.
- “The Rock (Matt 16:18) with Dr. Gene Green”, Exegetically Speaking, 30 ago. 2021, e “Relevance Theory (John 15:15) with Dr. Gene Green”, 3 maio 2021.
- “1 Peter #1: Overview (with Dr. Gene Green)”, Determinetruth, 16 ago. 2026.
- “Judas e 2Pedro: comentário exegético”, Edições Vida Nova.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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