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HistóriaTeólogos arminianos4 de 195

George Washington Northrup: O presidente do seminário batista de Chicago que deixou o calvinismo estrito

Diego Gonçalves12 min de leitura2.479 palavras

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Neste texto

No começo de 1893, o presidente do seminário batista de Chicago publicou no jornal The Standard cinco artigos contra a doutrina da predestinação do calvinismo estrito. Tinha 66 anos, ensinava teologia sistemática havia um quarto de século e, nos primeiros anos de cátedra, tinha ensinado ele mesmo essa doutrina. A resposta veio de Belfast, na Irlanda: o presbiteriano Robert Watts escreveu uma série no Western Recorder, de Louisville, e deu ao primeiro capítulo um título que era uma acusação, “Na verdade, arminianismo”. O debate virou livro em 1894, com os dois lados lado a lado. O autor dos artigos era George Washington Northrup.

Retrato de George Washington Northrup
G. W. Northrup, gravura publicada em The Baptist Encyclopaedia, de William Cathcart (Filadélfia, 1881), vol. 2, p. 857. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Antwerp e os anos de professor de escola

Northrup nasceu em 15 de outubro de 1826 em Antwerp, no condado de Jefferson, no norte do estado de Nova York. O pai era um homem de piedade marcante, e o menino cresceu sob forte influência religiosa. Ele próprio datava a conversão dos doze anos. Aos dezesseis foi batizado pelo pastor Wilbur Tillinghast e entrou para a igreja batista da cidade.

As escolas de Antwerp eram fracas, e Northrup começou o latim sozinho, com os poucos livros que conseguia. Aos dezoito anos saiu de casa sem saber ainda que carreira seguiria. Passou alguns anos dando aulas em Trenton, perto de Utica, e em Granville e Hartford, no condado de Washington.

Por volta dos 21 anos, uma visita a parentes em Watertown o convenceu a fazer um curso regular. Estudou em casa, em parte com A. C. Beach, depois vice-governador de Nova York, e em um ano e meio estava pronto para entrar no último período do segundo ano do Williams College, em Massachusetts. Antes da faculdade já era leitor apaixonado de metafísica: leu cinco vezes o tratado Rational Psychology e sabia páginas dele de cor. Na formatura, em 1854, recebeu a honra da oração metafísica, uma das mais altas da casa.

Rochester

Do Williams foi para o Seminário Teológico de Rochester, onde se formou em 1857. No mesmo ano foi ordenado ao ministério batista em Rochester e nomeado instrutor de história da igreja no seminário; um ano depois era professor titular da cadeira. Ficou dez anos. A Baptist Encyclopaedia de 1881 diz que talvez nenhum seminário americano tivesse feito trabalho melhor em história da igreja.

Ao mesmo tempo ganhou fama de pregador. Durante um ano e meio supriu o púlpito da Primeira Igreja Batista de Rochester, e nesse período 105 pessoas foram batizadas e recebidas na igreja. Em 1864 a Universidade de Rochester lhe deu o título de doutor em divindade.

O seminário de Chicago

Os batistas de Chicago tinham criado em 1863 a União Teológica Batista, com o objetivo de fundar e sustentar uma escola de teologia. Em setembro de 1866 os curadores convidaram Northrup para a cadeira de teologia sistemática. Dois meses depois, os curadores da antiga Universidade de Chicago, também batista, quiseram fazer dele o presidente da universidade enquanto a cadeira do seminário não estivesse dotada. O arranjo não foi adiante, e Northrup se dedicou só ao seminário.

As aulas começaram no outono de 1867, com dezenove alunos, no Douglas Hall, prédio da velha universidade. Em 1869 ele foi feito presidente do Seminário Teológico da União Batista, e no dia 1º de julho daquele ano a escola inaugurou prédio próprio, do outro lado da rua. Oferecia ensino em inglês, norueguês, sueco e dinamarquês.

O dinheiro sempre faltou. Em meados da década de 1870, sem conseguir pagar as despesas correntes, o seminário vendeu os prédios e aceitou terreno e edifício oferecidos em Morgan Park, então um subúrbio a cerca de vinte quilômetros ao sul do centro de Chicago. A mudança, em 1877, assustou alguns, mas no primeiro ano em Morgan Park a escola teve 65 alunos. Em 1879 o Kalamazoo College deu a Northrup o doutorado em direito.

Thomas W. Goodspeed, secretário do seminário e depois historiador da Universidade de Chicago, chamou Northrup de “príncipe dos professores”, igualmente à vontade na homilética, na história da igreja e na teologia. Dedicava-se em especial às relações entre a ciência, a filosofia e a fé cristã. Escreveu pouco para o público: deu-se aos alunos e à administração da escola.

William Rainey Harper

Quando o seminário precisou de alguém para a cadeira de hebraico, o nome indicado era o de um rapaz de 22 anos, mais novo que os alunos que teria de ensinar. Northrup e Goodspeed formaram a comissão que o entrevistou, no escritório do presidente em Morgan Park. William Rainey Harper começou em 1º de janeiro de 1879 e ficou até 1886. Goodspeed escreveu que nenhum dos colegas marcou Harper tão a fundo quanto Northrup, trinta anos mais velho, que derramou sobre o jovem toda a sua erudição, filosofia e experiência. Os dois ficaram amigos, e o primeiro filho de Harper, nascido em Morgan Park, recebeu o nome de Samuel Northrup Harper.

Quando John D. Rockefeller começou a planejar uma nova universidade batista em Chicago, Northrup trabalhou para que Harper, então em Yale, fosse o presidente. Quando a ortodoxia de Harper foi questionada em particular junto a Rockefeller, Northrup escreveu ao milionário, em 1º de janeiro de 1889, uma longa carta em defesa do amigo, que ele chamou de “o jovem mais notável da história religiosa do nosso país neste século”. Harper aceitou a presidência.

A doação de Rockefeller exigia que o seminário se tornasse a escola de teologia da nova universidade. Northrup defendeu os interesses do seminário nas negociações e, diante de quem pedia adiamento, defendeu o contrato. A união foi celebrada na formatura de 14 de abril de 1892, na igreja batista de Morgan Park, e passou a valer em 1º de julho: o seminário virou a Divinity School da Universidade de Chicago. Northrup fez questão de deixar a direção, e Eri B. Hulbert se tornou o primeiro deão. Até morrer chefiou o departamento de teologia sistemática.

Os últimos anos

Nesse cargo enfrentou, em 1893, Robert Watts, professor de teologia sistemática do Assembly’s College, em Belfast. Em 1897 preparou para uma conferência de pastores o texto “A paternidade de Deus”, que os colegas consideraram a melhor expressão das suas ideias maduras. Em 1900 doou parte da sua biblioteca à Universidade de Chicago. Morreu em Chicago em 30 de dezembro de 1900. Em julho de 1901 o American Journal of Theology publicou o texto de 1897, com uma nota dos editores: nos primeiros anos de cátedra Northrup tinha ensinado “um tipo um tanto estrito de calvinismo” e, nos últimos, modificou bastante essas posições.

Pensamento

Classe: simpatizante

Northrup é um simpatizante do arminianismo: rejeitou a eleição incondicional e a reprovação, afirmou a expiação universal e o amor de Deus por todos, mas não se disse arminiano e recusou de forma explícita a eleição baseada na fé prevista. Na primeira parte de Sovereignty of God ele toma o arminianismo como representante de todos os sistemas não calvinistas e o descreve sem rodeios: a eleição condicionada ao arrependimento, à fé e à perseverança previstos. E responde que essa representação “não é bíblica”. O rótulo de arminiano veio de Watts, e Northrup o rebateu ponto por ponto.

A soberania que não é “mera vontade”

O alvo de Northrup era uma definição de soberania. Ele cita Jonathan Edwards, para quem Deus pode dar ou recusar a salvação a qualquer pecador sem prejuízo de nenhum dos seus atributos, e tira as consequências. Se é assim, Deus poderia ter salvado todos os condenados e condenado todos os salvos, e continuaria igualmente glorioso. Com a expiação suficiente para o mundo inteiro, ele seria livre para salvar todos e escolheria não o fazer. Northrup desafia quem quer que seja a dar uma razão para isso que não negue, por lógica, a benevolência de Deus.

A resposta dele é que em Deus há uma perfeição ética absoluta, cuja essência é a santidade e o amor, e que essa perfeição é a regra da vontade divina na criação, na providência e na redenção. Daí a convicção que ele repete na réplica a Watts: Deus fará “o máximo que pode fazer para salvar cada membro da nossa raça” e não mandará ao inferno ninguém que pudesse levar ao céu, permanecendo Deus. Nenhuma escola evangélica nega a soberania; a questão é a sua natureza. As teses do calvinismo estrito sobre a reprovação não seriam parte do evangelho, mas “especulações agostiniano-calvino-edwardianas” que pesaram sobre a teologia cristã.

Uma eleição condicionada

Em fevereiro de 1893 Northrup publicou vinte proposições para evitar que o entendessem mal. Algumas resumem a sua posição:

  • Jesus Cristo tornou possível a salvação de todos e certa a salvação de uma parte, e a expiação removeu para sempre a condenação que veio sobre todos pela queda de Adão.
  • Não há duas classes de crianças, eleitas e reprovadas: todas as crianças, como crianças, estão na mesma relação com Deus.
  • Deus trata todos com boa-fé e faz tudo o que pode, com sabedoria, para levá-los a buscar a salvação.
  • A eleição de uns e a rejeição de outros é determinada ou condicionada por alguma diferença prevista entre eles no uso da graça comum e dos seus meios.
  • O propósito da eleição é eterno e imutável e garante de modo infalível a regeneração, a justificação e a salvação final de todos os que ele inclui.

Na leitura de Romanos 8:28-30 ele observa que o primeiro ato de Deus na ordem da salvação é um ato de presciência. Efésios 1:3-7 e João 6:37-44, os textos centrais de Watts, ensinam a soberania de Deus, mas não uma eleição indiferente a toda diferença entre as pessoas.

Onde ele para antes do arminianismo clássico

Northrup ficou a meio caminho. Contra os arminianos, manteve que a regeneração é “obra exclusiva de Deus” no centro da alma e que o arrependimento e a fé são frutos dela, e não o contrário. Antes dela, o Espírito ilumina a alma, desperta a consciência e o remorso e provoca lutas para alcançar a vida eterna; e por baixo de tudo isso um “toque divino” abre os olhos cegos e liberta a vontade escravizada.

O arminianismo clássico diz isso de outro modo. Para Armínio e para John Wesley, a graça preveniente, dada a todos, liberta a vontade morta para que a pessoa possa crer, e a fé, capacitada por essa graça, é a mão vazia que recebe; a eleição é em Cristo e condicionada à fé prevista (veja A eleição condicional em Cristo e Os decretos de Deus e a predestinação). Northrup põe a condição da eleição no uso que cada um faz da graça comum e chega a falar de uma “capacidade plena” para usá-la. A linguagem é mais arriscada que a de Armínio, que não deixa ao homem caído nenhuma capacidade de querer o bem fora da graça. E a proposição sobre o propósito que salva “infalivelmente” os eleitos deixa de fora a perseverança condicional que o arminianismo afirma.

O texto de 1897 mostra um afastamento maior. Northrup ali admite uma ligação moral da raça com Adão, mas chama as teorias sobre essa ligação de especulação que não se pode verificar, e lê Efésios 2:3 como pecado adquirido pela vida, e não herdado. A declaração de fé do Diego afirma o pecado original e a depravação total com a força de Armínio e Wesley, e nesse ponto o último Northrup fica longe dela.

A paternidade de Deus

O centro da teologia madura de Northrup é a ideia de Deus, que ele compara ao Sol no sistema solar: só quando se põe o Sol no centro os movimentos dos planetas fazem sentido. A ideia fundamental de Deus é a sua perfeição ética, que consiste no amor santo e é a essência da sua paternidade. Na parábola do filho perdido (Lucas 15), lembra ele, o filho continua filho mesmo no país distante. Daí a frase que resume o texto: Deus “não se torna, ele é sempre e em toda parte, o Pai dos homens”. Pela fé a pessoa passa a viver como filho, e Deus se torna para ela um Pai reconciliado. Se alguém se perde, conclui, isso arranca do coração de Deus o lamento de Mateus 23:37 e de Ezequiel 18:32 e 33:11, porque ele não tem prazer na morte de ninguém.

Obras principais

  • Sovereignty of God (Louisville: Baptist Book Concern, 1894). Os artigos de Northrup no The Standard (1893), a resposta de Robert Watts no Western Recorder, a réplica de Northrup, a tréplica de Watts e a segunda réplica de Northrup, com prefácio de T. T. Eaton.
  • “The Fatherhood of God”, The American Journal of Theology 5 (julho de 1901), p. 473-495. Texto preparado em 1897 para uma conferência de pastores e publicado depois da morte do autor.
  • Manuscritos de aula guardados na Universidade de Chicago: Notes on Theology (1868), Lectures on Church History (dois volumes, 1870-1871), Outlines of Systematic Theology, Lectures on Systematic Theology, Christian Ethics, The Work of Christ, or the Doctrine of the Atonement e Soteriology, or the Doctrine of Salvation.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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