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HistóriaTeólogos arminianos12 de 195

Gary B. McGee: O historiador que mostrou que o pentecostalismo nasceu das missões

Diego Gonçalves12 min de leitura2.474 palavras

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Neste texto

Em 1921, a evangelista Aimee Semple McPherson fez uma campanha em Canton, cidade industrial de Ohio. Entre as pessoas que se converteram estava uma mulher que levou a fé pentecostal para dentro de casa. A família dela se firmou no Bethel Temple, igreja das Assembleias de Deus da cidade, e foi nesse banco de igreja que cresceu o neto, Gary Blair McGee. Décadas depois, o menino de Canton se tornou um dos principais historiadores das missões pentecostais e passou a vida explicando como um avivamento numa missão pobre de Los Angeles chegou às aldeias da África, às igrejas domésticas da China e aos salões do Vaticano.

Vida

Canton e Springfield

Gary B. McGee nasceu em 22 de abril de 1945, o segundo de cinco filhos. Para estudar para o ministério, foi para Springfield, no Missouri, onde ficava o Central Bible College, escola bíblica das Assembleias de Deus. Formou-se em 1967.

No mesmo ano, aos 22 anos, começou a ensinar no Open Bible College, em Des Moines, no Iowa. Foi ordenado ministro pelo Concílio Distrital do Iowa das Assembleias de Deus em 1969. Em 1970 voltou para Springfield, agora como professor da escola em que estudara, e ali ficou até 1984.

Um pentecostal entre luteranos e jesuítas

Enquanto ensinava, McGee fez um mestrado em estudos religiosos no Concordia Theological Seminary, seminário luterano, concluído em 1971; um segundo mestrado em estudos religiosos na universidade estadual de Springfield, hoje Missouri State University, em 1976; e o doutorado em história da Igreja na Saint Louis University, universidade jesuíta, em 1984.

O seminário das Assembleias de Deus

Em 1984 McGee entrou para o corpo docente do Assemblies of God Theological Seminary (AGTS), o seminário de pós-graduação da denominação, também em Springfield. Ali ensinou por 24 anos e foi o primeiro professor do seminário a receber o título de professor distinto (Distinguished Professor of Church History and Pentecostal Studies). Na aula inaugural da cátedra, em 2006, havia autoridades católicas na plateia, entre elas enviados do Vaticano, que foram agradecer o trabalho dele no diálogo entre católicos e pentecostais. Também ensinou fora dos Estados Unidos, em escolas de Singapura, Bruxelas, Osijek (Croácia), Kiev, Bucareste e Bangalore (Índia).

Os alunos o conheciam como professor exigente. Byron Klaus, presidente do seminário, lembrava que McGee começava as aulas com oração e cântico e que dizia a quem queria ser professor que o melhor treino era dar aula numa classe de Escola Dominical. Ele mesmo escreveu um livrinho sobre hinos e cânticos evangélicos, How Sweet the Sound (1994), voltado para a graça de Deus na vida dos cristãos que sofrem. O historiador Grant Wacker, da Universidade Duke, dizia que McGee estava sempre pronto “para uma piada e também para uma oração”.

O historiador das missões

A primeira grande obra de McGee foi a história das missões estrangeiras das Assembleias de Deus, This Gospel Shall Be Preached (“Este evangelho será pregado”), em dois volumes: o primeiro (1986) vai da fundação da denominação, em 1914, até 1959; o segundo (1989) segue até o fim dos anos 1980. Os dois volumes se tornaram a obra de referência sobre como a denominação, que fez do modelo da igreja autóctone a sua política oficial de missões em 1921, aplicou esses princípios: igrejas nacionais que se sustentam, se governam e se multiplicam sem depender do dinheiro e da direção dos missionários americanos.

Em 1988 saiu o Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements (Zondervan), que McGee organizou com Stanley M. Burgess. Em 1991 ele organizou Initial Evidence, um volume de estudos históricos e bíblicos sobre a doutrina pentecostal de que o falar em línguas é a evidência inicial do batismo no Espírito Santo. Em 1994 escreveu o capítulo histórico de abertura da Systematic Theology organizada por Stanley Horton. Em 2004 vieram dois livros: Introducing World Missions (Baker Academic), manual de missiologia escrito com A. Scott Moreau e Gary R. Corwin, e People of the Spirit, uma história das Assembleias de Deus em 661 páginas contada por meio de biografias de pastores, escritores, músicos, missionários e de um grande número de mulheres que trabalharam na obra desde o começo.

No total, McGee publicou sete livros, capítulos em quinze obras coletivas, dezenas de artigos em revistas acadêmicas e 129 verbetes em doze dicionários, entre eles o verbete sobre a missionária metodista Minnie F. Abrams no Biographical Dictionary of Christian Missions (1998).

O diálogo com os católicos

Em julho de 1990, na abertura da quarta fase, dedicada à evangelização, do diálogo internacional entre a Igreja Católica e os pentecostais, em Emmetten, na Suíça, McGee apresentou o texto de posição do lado pentecostal. Voltou a participar das sessões nos anos seguintes, e em 1998 estava em Bolton, no Canadá, quando a quinta fase começou a tratar da iniciação cristã e do batismo no Espírito.

Os últimos anos

McGee passou a última década da vida lutando contra um câncer e contra a artrite. Em março de 2008 a Society for Pentecostal Studies lhe deu o prêmio pelo conjunto da obra. Em 13 de novembro do mesmo ano foi internado com uma infecção bacteriana; com o sistema imunológico enfraquecido pela doença, não se recuperou. Morreu em casa, em Springfield, cercado pela família, em 10 de dezembro de 2008, aos 63 anos. Deixou a esposa, Alice, e duas filhas.

O último livro já estava quase pronto. Annette Newberry completou a introdução a partir das notas dele, e Miracles, Missions, and American Pentecostalism saiu em 2010 pela Orbis Books, como o volume 45 da série da American Society of Missiology, e recebeu o Pneuma Book Award, da Society for Pentecostal Studies. Em 2009 o seminário o nomeou professor emérito. Em 2017, amigos, colegas e ex-alunos publicaram em sua memória A Light to the Nations, organizado por Stanley M. Burgess e Paul W. Lewis, com estudos sobre ecumenismo, missões e pentecostalismo, os três campos do seu trabalho.

Pensamento

Onde ele fica no arminianismo

Gary McGee foi um pentecostal arminiano. Pastor ordenado das Assembleias de Deus e professor da denominação a vida inteira, ele pertencia a uma igreja que ensina a expiação para todos, a graça que pode ser resistida e a perseverança condicional: a declaração das Assembleias de Deus sobre a segurança do crente (1978) rejeita a ideia de que quem foi salvo nunca pode se perder. O próprio McGee, ao contar a história da doutrina pentecostal no capítulo de abertura da Teologia Sistemática organizada por Horton, explicou que parte dos evangélicos americanos olhou com reserva para as Assembleias de Deus por causa da “natureza geralmente arminiana da sua antropologia teológica”, isto é, da maneira arminiana de entender o ser humano diante de Deus.

No arminianismo clássico, essa antropologia afirma duas coisas ao mesmo tempo. O ser humano caído não pode, por si mesmo, crer nem buscar a Deus; a graça vem antes de qualquer resposta (a graça preveniente, que alcança todos) e liberta a vontade para que a pessoa possa crer. E essa graça não força: pode ser recusada. A fé, nesse quadro, recebe a salvação sem acrescentar mérito a ela. Tratamos desse ponto em Arminianismo: a segurança da salvação.

O pentecostalismo como movimento missionário

A tese central de McGee é que o pentecostalismo nasceu do zelo missionário. No fim do século XIX, um grupo que ele chamou de “evangélicos radicais” (líderes como A. B. Simpson, A. J. Gordon e A. T. Pierson) vivia o que eles mesmos chamavam de “crise das missões”. Esperavam a volta próxima de Cristo e oravam pelo derramamento do Espírito prometido em Joel 2:28-29, esperando que os mesmos sinais e prodígios do livro de Atos acompanhassem os missionários e quebrassem a resistência das grandes religiões. Ele deu a esse jeito de pensar a missão o nome de “estratégia radical”: uma abordagem da missão centrada no Espírito Santo, que liga a pregação à expectativa de curas, libertações e milagres.

No último livro, McGee observa que chamar de “apostólica” a missão da Igreja sem a possibilidade dos sinais e prodígios dos apóstolos sempre “criou um constrangimento”, que obrigava a explicar ou a se defender. A pergunta de fundo, diz ele, era se o ministério do Espírito mudou depois da era apostólica, e os pentecostais responderam que não.

As línguas dos missionários

McGee estudou de perto a esperança das “línguas missionárias”. Em setembro de 1906, o jornal da missão da Rua Azusa anunciou que o Pentecostes tinha chegado e que o dom de línguas vinha junto com a ordem de pregar o evangelho a toda criatura. Muitos dos primeiros pentecostais acreditaram que falavam idiomas humanos que nunca tinham aprendido e que Deus os capacitava assim para evangelizar o mundo antes da volta de Cristo. Mais de duzentos missionários, a maioria mulheres, partiram até 1910. No campo, descobriram que as línguas não serviam para pregar aos povos que encontravam. McGee chamou essa esperança de “atalho para o preparo linguístico” e mostrou como o movimento passou a entender as línguas sobretudo como oração no Espírito. A decepção, segundo ele, não apagou o chamado: “orar no Espírito nas línguas do mundo colou o chamado missionário à firmeza pessoal” (Miracles, Missions, and American Pentecostalism, 2010). Para McGee, é isso que explica por que tantos aceitaram deixar tudo e ir para as regiões mais distantes.

Ele estudou também o avivamento do começo do século XX na Índia, na missão de Pandita Ramabai, em Mukti, e o debate que se seguiu sobre o falar em línguas (“‘Latter Rain’ Falling in the East”, 1999). Para ele, a Rua Azusa foi o mais conhecido dos avivamentos que formaram o pentecostalismo, mas não o único.

A história da doutrina

No capítulo da Teologia Sistemática, McGee traça as raízes da doutrina pentecostal até o ensino de John Wesley sobre a perfeição cristã. O movimento de santidade americano falava de uma “segunda obra da graça”, distinta da conversão, que libertaria a pessoa dos defeitos da sua natureza moral. Benjamin H. Irwin acrescentou uma terceira obra, de poder para o serviço, e essa ideia preparou o terreno para o ensino pentecostal do batismo no Espírito. McGee descreve as três controvérsias que marcaram as Assembleias de Deus nos primeiros anos: a evidência inicial do batismo no Espírito, a santificação (se a vida cristã tem duas ou três obras da graça) e a questão da Unidade, que negava a Trindade e batizava só no nome de Jesus. Na santificação, a denominação seguiu William H. Durham, para quem o problema do pecado interior “recebeu o golpe mortal” na cruz, e passou a ensinar uma santificação progressiva, apropriada pela fé na obra consumada de Cristo.

Aqui está a principal diferença em relação à declaração de fé deste site. Nós cremos na inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração, recebida pela fé, que purifica o coração e o enche de amor perfeito, na linha de Wesley. As Assembleias de Deus, cuja história McGee contou, ficaram com a santificação progressiva de Durham. As duas posições concordam que a santidade é dom de Deus em Cristo, e não conquista humana; a diferença está em como esse dom é recebido ao longo da vida cristã. Sobre a relação entre as duas tradições, ver Metodistas e pentecostais: 8 diferenças entre as tradições.

História com nomes e rostos

O método de McGee era biográfico. Em People of the Spirit, ele contou a história de uma denominação por meio de muitas pessoas comuns, com as suas lutas e os seus defeitos, uma história “maior que a soma das partes”, nas palavras da apresentação do livro. Deu lugar às mulheres e a figuras como Minnie Abrams, metodista que ensinou o batismo no Espírito como “uma obra separada da graça” e cujo livro de 1906 ajudou a acender o avivamento no Chile. Nos últimos trabalhos, voltou o olhar para o mundo majoritário, a África, a Ásia e a América Latina, onde a espiritualidade carismática se tornou a forma predominante do cristianismo. Ele terminava o capítulo da Teologia Sistemática lembrando que o estudo piedoso das Escrituras, da teologia, da missiologia e da história da Igreja é um dom do Cristo ressuscitado à sua Igreja.

Obras principais

  • This Gospel Shall Be Preached: A History and Theology of Assemblies of God Foreign Missions to 1959, vol. 1 (1986).
  • This Gospel Shall Be Preached, vol. 2 (1989).
  • Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements, com Stanley M. Burgess (1988).
  • Initial Evidence: Historical and Biblical Perspectives on the Pentecostal Doctrine of Spirit Baptism, como organizador (1991).
  • “Historical Background”, em Systematic Theology: A Pentecostal Perspective, org. Stanley M. Horton (1994).
  • How Sweet the Sound (1994).
  • “Abrams, Minnie F.”, em Biographical Dictionary of Christian Missions, org. Gerald H. Anderson (1998).
  • “‘Latter Rain’ Falling in the East: Early-Twentieth-Century Pentecostalism in India and the Debate over Speaking in Tongues”, Church History 68, n. 3 (1999).
  • “Shortcut to Language Preparation? Radical Evangelicals, Missions, and the Gift of Tongues”, International Bulletin of Missionary Research 25, n. 3 (2001).
  • People of the Spirit: The Assemblies of God (2004).
  • Introducing World Missions: A Biblical, Historical, and Practical Survey, com A. Scott Moreau e Gary R. Corwin (2004).
  • Miracles, Missions, and American Pentecostalism (2010, póstumo).

Livros em português

  • Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal, org. Stanley M. Horton (CPAD), com o capítulo histórico de McGee. Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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