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HistóriaTeólogos arminianos17 de 195

Frédéric Godet: O comentarista de Neuchâtel que educou um imperador

Diego Gonçalves12 min de leitura2.453 palavras

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Neste texto

Em junho de 1838, um pastor suíço de 26 anos recebeu uma carta de Berlim. O príncipe Guilherme da Prússia, futuro imperador Guilherme I, convidava-o para educar o filho de sete anos, herdeiro do trono. Frédéric Godet escreveu no diário que o convite o tirava de todos os seus planos: teria de deixar a pregação, a casa pastoral, os amigos e a mãe. Lembrou que naquela primavera tinha ganhado as obras de Fénelon, o arcebispo que educara o neto de Luís XIV, e orou: “Oh, se a minha alma pudesse ter alguma semelhança, ainda que distante, com a de Fénelon!”. Aceitou uma semana depois. O menino seria, por 99 dias de 1888, o imperador Frederico III da Alemanha, e o pastor seria lembrado em toda a Europa como o grande comentarista bíblico da Suíça francesa.

Retrato a lápis de Frédéric Godet idoso, de cabelos brancos, gravata escura e casaco preto
Frédéric Godet na velhice, desenho de autor desconhecido. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Infância e estudos

Frédéric Louis Godet nasceu em Neuchâtel, em 25 de outubro de 1812, sexto e último filho da família. Neuchâtel era um principado ligado ao rei da Prússia, e em 1815 entrou também na Confederação Suíça. O pai, Paul-Henri Godet, advogado, morreu cedo e deixou dívidas. A mãe, Eusébie Gallot, filha de pastor, manteve uma escola para moças com que sustentou a família e pagou o que o marido devia, e o filho adolescente ajudou a dar aulas ali.

Como Neuchâtel não tinha faculdade de teologia, em 1832 Godet foi para a Universidade de Berlim e depois para Bonn. Conheceu professores como Schleiermacher, Hengstenberg, Tholuck e Nitzsch, mas quem mais o marcou foi o historiador da igreja August Neander. Antes de partir decidiu que nenhuma teoria abalaria nele o senso da gravidade do pecado.

Em 1834 a mãe foi chamada a Berlim para ser governanta do pequeno Frederico Guilherme, de três anos, filho do príncipe Guilherme e da princesa Augusta. Godet visitava a mãe nos palácios, e ali a princesa o conheceu. Ordenado em 1836, trabalhou como pastor auxiliar em Valangin até o convite de 1838.

Preceptor do príncipe

Godet chegou a Babelsberg em setembro de 1838. O príncipe tinha um colega de estudos, Rudolf von Zastrow, e os dois meninos ficaram aos cuidados do novo preceptor. “Minha cama ficava entre as das crianças”, contou ele; antes de dormir podia tocar a cabeça de cada uma para abençoá-la. A princesa vinha todas as manhãs, com o seu bordado, assistir às aulas. Godet contava aos meninos as histórias do Antigo Testamento. Em 1839, doente de cama, o príncipe de oito anos pediu um caderno para escrever “um salmo como Davi”.

Em 1844 Godet entregou o aluno a Curtius e voltou para casa. Casou-se em 16 de outubro daquele ano com Caroline Vautravers, governanta neuchâtelense que conhecera em Frankfurt. O príncipe Guilherme lhe deu uma pensão vitalícia e o título de capelão real em Neuchâtel.

A amizade com o aluno durou até a morte deste. Aos dezessete anos Frederico Guilherme mandou-lhe uma carta de quinze páginas com uma confissão de fé, dizendo que ele e a mãe lhe tinham ensinado a confiar no Deus “que só quer o nosso bem”. Numa resposta, Godet contou que falava com Deus até sobre a troca de um empregado, porque “não há coisas pequenas”.

Pastor e professor em Neuchâtel

De 1844 a 1850 Godet serviu às igrejas do Val-de-Ruz. A revolução de 1848 proclamou a república em Neuchâtel e pôs em xeque a velha igreja, governada pela Companhia dos Pastores. Godet propôs que a Companhia entregasse a autoridade aos membros da igreja, e não ao Estado: um sínodo eleito pelas paróquias, com forte presença de leigos, e pastores escolhidos pelo povo. Publicou em 1849 os Três diálogos sobre a lei eclesiástica, e os seus princípios deram forma à lei que manteve a igreja unida até 1873.

Em 1850 tornou-se professor de exegese na academia de Neuchâtel e, em 1851, pastor da cidade. Como a pensão da corte já não correspondia a nenhum serviço, abriu mão dela em favor de um colega empobrecido pela revolução. Depois que a Prússia renunciou aos seus direitos, em 1857, Godet, amigo conhecido da casa real, foi chamado a pregar no culto de abertura da assembleia constituinte da república, em 1858. Falou da soberania de Deus, que permanece quando as soberanias da terra mudam, e advertiu os dois lados: a impaciência dos republicanos era tão pouco cristã quanto a obstinação dos monarquistas.

Em 1860 perdeu a esposa, mãe dos seus sete filhos, e em 1862 casou-se com Caroline Alioth. Na mesma época terminava o Comentário sobre o Evangelho de João, cujo manuscrito quase se perdeu num incêndio; a obra saiu em Paris de 1863 a 1865. Em 1866 Godet deixou o pastorado para se dedicar à cátedra.

A Igreja Independente

Quando o protestantismo liberal chegou a Neuchâtel, com Ferdinand Buisson e outros conferencistas, Godet respondeu com palestras públicas sobre a ressurreição de Jesus, os milagres e a divindade de Cristo, depois reunidas em livro. O Comentário sobre o Evangelho de Lucas (1871-1872) esgotou-se em poucas semanas.

Em 1873 entrou em vigor uma nova lei eclesiástica que tirava do sínodo o controle da igreja e da formação dos pastores, abrindo os púlpitos a ministros liberais. Godet não defendia por princípio a separação entre igreja e Estado, mas não aceitou responder diante de Deus por uma igreja nessas condições. Ajudou a fundar a Igreja Evangélica Independente de Neuchâtel, e toda a faculdade de teologia, professores e alunos, passou para ela. Godet ensinou ali até 1887, quando o filho Georges o sucedeu.

Vieram os grandes livros: os Estudos bíblicos, traduzidos para cinco línguas, o comentário a Romanos, o de 1 Coríntios e, a partir de 1879, a Bíblia anotada, comentário popular feito com colegas e terminado em 1900. Em 1877, no primeiro Concílio Geral Presbiteriano, em Edimburgo, Godet disse que o século 16 perguntava a Cristo o que ele tinha feito por nós, enquanto o século 19 queria saber primeiro quem ele era, e lamentou que os protestantes tivessem guardado com menos cuidado que Roma a encarnação e a expiação. Recebeu doutorados honorários de Basileia e, em 1884, de Edimburgo.

Os últimos anos

Em 1887, com a saúde abalada, Godet deixou a cátedra. No mesmo ano o antigo aluno adoeceu de câncer na garganta. De San Remo, Frederico escreveu-lhe que se submetia a Deus como nos dias em que era “uma criança confiada aos seus cuidados”. Subiu ao trono em março de 1888 e morreu em 15 de junho. A última carta de Godet, de 4 de maio, lembrava a visita do imperador ao monte das Oliveiras: “Foi daquele lugar que ele subiu. Una-se a ele, para subir com ele.”

A Introdução ao Novo Testamento começou a sair em 1893. Godet morreu em casa, em Neuchâtel, em 29 de outubro de 1900, quatro dias depois de completar 88 anos.

Pensamento

Um reformado contra a eleição incondicional

Godet viveu na tradição reformada suíça e nunca se chamou arminiano. A série o apresenta como simpatizante: ele rejeita o calvinismo nos pontos centrais e afirma a eleição fundada na presciência da fé, a graça que pode ser recusada e a possibilidade real de um convertido cair da graça. No comentário a Romanos ele mesmo se põe ao lado de Orígenes, Crisóstomo, “os arminianos” e Tholuck, que procuraram unir a liberdade moral do homem à predestinação divina, e diz que só por esse caminho se explica o pensamento do apóstolo.

Presciência e predestinação

Em Romanos 8:29, “conhecer de antemão” não pode significar escolher, diz Godet, porque então Paulo repetiria a mesma ideia ao acrescentar “também os predestinou”. Conhecer é ver o que existe, e o ato de ver não cria o objeto visto. Como Deus vive acima do tempo, prever é ver, e a fé futura do crente já está diante dele: “Essa fé não existe porque Deus a vê; ele a vê porque ela vai existir.” Por isso a predestinação de que Paulo fala não é para a fé, mas “para a glória, fundada na previsão da fé” (Comentário sobre Romanos, nota a 8:29). É a ordem do quarto decreto da Declaração de Sentimentos de Armínio e a ideia da eleição condicional em Cristo.

Romanos 9 e o endurecimento de Faraó

O tema de Romanos 9, para Godet, não é a relação abstrata entre decreto e liberdade, mas a rejeição de Israel. Os judeus achavam que a eleição prendia Deus a eles em qualquer condição. Paulo defende a liberdade de Deus contra essas correntes: ele pode mostrar graça aos que estavam fora da aliança e rejeitar os que estavam dentro dela, conforme a condição moral que encontra. A conclusão é forte: “Temos aqui um tratado não a favor, mas contra a eleição incondicional.”

Godet não reduz o endurecimento de Faraó a mera permissão, como fizeram Orígenes e Hugo Grócio. Mas o Êxodo diz cinco vezes que Faraó endureceu o próprio coração antes de dizer que Deus o endureceu, e o endurecimento divino veio como castigo de uma resistência já escolhida. A mesma observação aparece em B. W. Johnson, e a leitura de Romanos 9 como discussão sobre o povo de Deus voltou nos estudos de Brian Abasciano.

A graça que atrai e a fé que recebe

Godet não põe a iniciativa da salvação no homem. Ao comentar João 6:44, em que Jesus diz que ninguém pode ir a ele se o Pai não o atrair, explica que essa atração é uma luz interior que ensina a alma. A Lei faz a pessoa sentir que é incapaz de cumprir o ideal moral, como em Romanos 7, e a profecia lhe mostra aquele que supre essa falta. “Na salvação a iniciativa pertence ao Pai”, escreve. A fé é “em certo sentido obra de Deus”, mas inclui a adesão livre do homem ao chamado divino, e por isso essa graça pode ser recusada.

No diário de 1840, Godet definiu a fé que salva como “uma troca de vida entre nós e Cristo”: entregamos a ele o nosso pecado e recebemos a sua justiça. E resumiu numa frase o alvo do seu trabalho: “O que salva é a fé somente; o que satisfaz é a fé que chegou a conhecer-se a si mesma.”

Também não tinha o crente como seguro em qualquer caminho. Contra Agostinho, os reformadores e Dort, lembra que Paulo fala da possibilidade de um convertido cair do estado de graça “por falta de vigilância ou de fidelidade” (Romanos 8:13; 1 Coríntios 10:1-12; Gálatas 5:4; Colossenses 1:23). É a perseverança condicional.

A expiação e a pessoa de Cristo

Num simpósio de 1900 sobre a expiação, Godet recusou a ideia pagã de um deus que precisa ser comprado, porque na Bíblia é o próprio Deus ofendido quem toma a iniciativa da reconciliação. Recusou também a teologia liberal que apagava a ira de Deus e a propiciação. Na consciência de Jesus, o pecado do mundo foi julgado como Deus o julga, e a cruz tornou visível esse juízo: Cristo foi feito maldição por nós (Gálatas 3:13). Godet chamou isso de dupla substituição, moral e exterior: “não é um sofrimento meramente suportado que reconcilia; é um sofrimento aceito, reconhecido como justo”.

Na cristologia seguiu a teoria kenótica de Wolfgang Gess, para quem o Filho eterno se reduziu voluntariamente à condição humana na encarnação. Defendeu a autenticidade dos Evangelhos contra Strauss e Baur e aceitou uma terra antiga, como o geólogo Hugh Miller. Sobre a inspiração, dizia que as flores alegraram os homens por milênios sem precisar de botânicos, e que os teólogos são “os botânicos da religião”.

Onde ele difere da declaração de fé do site

A declaração do Diego afirma que Cristo assumiu a natureza humana sem deixar de ser plenamente Deus, e a kenose de Gess vai além disso; o capítulo sobre os estados de Cristo trata do tema. A explicação de Godet para a expiação, centrada no juízo do pecado na consciência de Jesus, difere da substituição penal afirmada por Armínio, por John Wesley e pelo site, embora mantenha a propiciação e a ira de Deus. E a sua linguagem sobre a liberdade humana às vezes soa mais forte que a de Armínio, que via a vontade caída como presa até ser libertada pela graça. Na eleição condicional, na graça resistível e na possibilidade da apostasia, porém, Godet está ao lado dos arminianos.

Obras principais

  • Trois dialogues sur la loi ecclésiastique (1849)
  • Histoire de la Réformation et du Refuge dans le pays de Neuchâtel (1859)
  • Commentaire sur l’Évangile de saint Jean (1863-1865; em inglês, Commentary on the Gospel of St. John)
  • Commentaire sur l’Évangile de saint Luc (1871-1872; em inglês, A Commentary on the Gospel of St. Luke)
  • Études bibliques (Antigo e Novo Testamento; 3ª ed., 1875)
  • Commentaire sur l’épître aux Romains (2ª ed. revista, 1883; em inglês, Commentary on St. Paul’s Epistle to the Romans, 1881)
  • Lectures in Defence of the Christian Faith (conferências apologéticas, em inglês, 1881)
  • Commentary on St. Paul’s First Epistle to the Corinthians (em inglês, 1889-1890)
  • Introduction au Nouveau Testament (1893-1904)
  • La Bible annotée (com outros autores, 1879-1900)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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