
HistóriaTeólogos arminianos11 de 195
Gary Habermas: O filósofo que passou a vida estudando a ressurreição de Jesus
Neste texto
- Vida
- Uma década de dúvida
- Formação
- Professor na Liberty
- Os diálogos com Antony Flew
- Uma bibliografia de milhares de títulos
- O luto
- O mestre de Mike Licona
- A obra da maturidade
- Pensamento
- Onde Habermas fica nesta série
- O método dos fatos mínimos
- A dúvida como problema a diagnosticar
- A ressurreição e o sofrimento
- A distância em relação ao arminianismo clássico
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
No verão de 1995, uma gripe que não passava levou Debbie Habermas ao hospital para exames. O diagnóstico foi câncer no estômago, e cerca de quatro meses depois ela morreu, aos 43 anos, logo depois de completar 23 anos de casamento. O marido, Gary, estudava a ressurreição de Jesus havia 25 anos. Ele contou depois que, naqueles meses, perguntava a Deus por que aquilo acontecia, e que na imaginação ouvia sempre a mesma pergunta de volta: “Gary, eu ressuscitei o meu Filho dentre os mortos?”. A pergunta não explicava o sofrimento, mas lembrava que o Deus que tirou Jesus do túmulo conhecia a resposta. Gary Habermas é um dos estudiosos que mais escreveram sobre a ressurreição de Jesus no nosso tempo.
Vida
Uma década de dúvida
Gary Robert Habermas nasceu em 1950, nos arredores de Detroit, no estado de Michigan. Cresceu num lar cristão e frequentava com a família uma igreja batista de origem alemã. Na juventude, porém, passou por uma crise de fé que durou cerca de dez anos, seguida de outros cinco de dúvidas que iam e voltavam. Estudou outras religiões e o naturalismo, a visão de que só existe a natureza. Procurou na arqueologia e nas profecias cumpridas um argumento que resolvesse a questão de uma vez, concluiu que quase nada se provava em religião e chegou a dizer à mãe que estava perto de se tornar budista.
O que mudou o rumo da busca foi uma constatação simples: se Jesus tinha mesmo ressuscitado, o cristianismo tinha uma base que nenhuma outra religião tinha. Habermas passou então a investigar se os fundadores de outras religiões tinham alegações parecidas e chegou a juntar cerca de 1.300 fichas sobre o assunto.
Formação
Formou-se em 1972 no William Tyndale College, em Michigan, com estudos em ciências sociais, educação cristã e Bíblia. No ano seguinte concluiu o mestrado em teologia filosófica na Universidade de Detroit, onde também estudou religiões do mundo. Em 1976 recebeu o doutorado em história e filosofia da religião pela Universidade Estadual de Michigan. A tese se chamou The Resurrection of Jesus: A Rational Inquiry (“A ressurreição de Jesus: uma investigação racional”).
A banca impôs uma condição que marcaria toda a carreira dele. Os textos do Novo Testamento só podiam ser usados na medida em que passassem pelos critérios comuns da crítica histórica, sem que se pressupusesse a fé nem a inspiração da Bíblia. Dessa limitação nasceu o que ele chamaria de método dos “fatos mínimos”.
Professor na Liberty
De 1979 a 1981 Habermas chefiou o departamento de filosofia do William Tyndale College, como professor associado de apologética e filosofia da religião. Em 1981 mudou-se para Lynchburg, na Virgínia, para ensinar na Liberty University, a escola batista fundada dez anos antes por Jerry Falwell e Elmer Towns. Foi chefe do departamento de filosofia e recebeu o título de Distinguished Research Professor (professor-pesquisador de distinção) de apologética e filosofia na Rawlings School of Divinity.
Os diálogos com Antony Flew
Em fevereiro de 1985, numa série de debates entre ateus e cristãos em Dallas, Habermas conheceu o filósofo britânico Antony Flew, um dos ateus mais conhecidos da filosofia acadêmica. Em 2 de maio daquele ano os dois debateram a ressurreição de Jesus na Liberty, diante de um auditório cheio. Os juízes, um grupo de filósofos e outro de juízes profissionais de debate, deram a maioria dos votos a Habermas. O texto saiu em livro em 1987, com o título Did Jesus Rise from the Dead? The Resurrection Debate (“Jesus ressuscitou dos mortos?”).
Os dois ficaram amigos. Trocaram cartas por quase vinte anos e debateram de novo ao vivo na televisão em abril de 2000, num programa moderado por John Ankerberg. Flew começou esse segundo debate aceitando a lista de fatos históricos de Habermas como ponto de partida, e o texto saiu em livro como Resurrected? An Atheist and Theist Dialogue (2005). Em janeiro de 2004 Flew contou ao amigo que tinha passado a crer em Deus, porque “tinha de ir aonde a evidência leva”. Na entrevista que Habermas fez com ele para a revista Philosophia Christi (2004), Flew disse que a evidência da ressurreição era melhor, em quantidade e em qualidade, que a de qualquer milagre de outras religiões, mas que não o convencia, e que achava muito improvável tornar-se cristão por causa do problema do mal.
Uma bibliografia de milhares de títulos
O que começou como uma atualização da bibliografia da tese virou um levantamento do que se publicava sobre a morte e a ressurreição de Jesus. Em 2005, no Journal for the Study of the Historical Jesus, Habermas relatou ter examinado mais de 1.400 publicações acadêmicas em inglês, francês e alemão, escritas desde 1975; em 2012 a lista passava de 3.400 títulos. A pesquisa ocupou cinco anos seguidos e gerou um manuscrito de mais de seiscentas páginas que organiza as posições dos estudiosos sobre cerca de 140 perguntas.
O luto
A morte de Debbie deixou Habermas com quatro filhos e uma dor em dobro: a perda da companheira e o sofrimento dos filhos. Ele procurou o livro de Jó e concluiu que a lição de Jó é confiar em Deus naquilo que não entendemos, a partir do que já sabemos dele. Diz que isso o livrou da angústia dos “e se”. Em 1997 publicou Forever Loved: A Personal Account of Grief and Resurrection (“Amada para sempre: um relato pessoal de luto e ressurreição”) e passou a dar palestras sobre o luto. “No pior dos casos, vou ver Debbie de novo no céu”, escreveu. Sobre o tema, temos o estudo Jó e o sofrimento: confiar em Deus quando ele se cala.
O mestre de Mike Licona
Michael Licona fazia mestrado em grego do Novo Testamento na Liberty e atravessava uma crise de fé. Nunca tinha sido aluno de Habermas, mas bateu à porta da sala dele para conversar, e daí nasceu uma longa amizade. Licona o chama de “provavelmente a maior influência” da sua vida. Os dois escreveram juntos The Case for the Resurrection of Jesus (2004), e das conversas durante esse trabalho saiu o doutorado de Licona, publicado em 2010, que aplica o método dos fatos mínimos e diz estar “sobre os ombros de Habermas”.
A obra da maturidade
Habermas também estudou o Sudário de Turim. Escreveu com Kenneth Stevenson Verdict on the Shroud (1981) e The Shroud and the Controversy (1990), participou do documentário Shroud of Turin: Face to Face (2023) e diz que o pano tem “uma boa chance de ser autêntico”. Com Jerry Walls e David Baggett organizou C. S. Lewis as Philosopher (2008), sobre o pensamento de C. S. Lewis.
Em janeiro de 2024, depois de cerca de cinquenta livros, saiu o primeiro volume de On the Resurrection, pela B&H Academic, a obra que resume a pesquisa de uma vida. O segundo volume, Refutations, saiu no mesmo ano; o terceiro, Scholarly Perspectives, em maio de 2025, com quase mil páginas; o quarto, sobre as consequências da ressurreição para a vida cristã, foi anunciado para agosto de 2026.
Pensamento
Onde Habermas fica nesta série
Classe: simpatizante. Habermas vem da tradição batista e ensina há mais de quatro décadas numa universidade batista. Na seção de perguntas e respostas do seu site, ao responder se é justo que todos sejam condenados pelo pecado de Adão e Eva, ele diz que cada pessoa também tem livre-arbítrio e responde por aquilo que faz com Jesus, e acrescenta: “pessoalmente, não fico com as opções calvinistas aqui”. Na resposta sobre o inferno afirma que a condenação “é uma escolha livre”. Ele rejeita, portanto, a eleição incondicional e a graça irresistível, mas não se apresenta como arminiano, e a doutrina da salvação ocupa pouco espaço numa obra voltada para a apologética, a defesa racional da fé.
O método dos fatos mínimos
O método, que ele formulou na tese e repetiu em dezenas de publicações, tem duas exigências. Um fato só entra na lista se estiver bem estabelecido por argumentos históricos e se for aceito pela grande maioria dos estudiosos da área, crentes e não crentes. Habermas sempre deu mais peso à primeira exigência, porque o consenso pode estar errado ou mudar.
A lista curta tem de quatro a seis itens. Os três principais são estes: Jesus morreu crucificado; pouco depois, os discípulos tiveram experiências que entenderam como aparições de Jesus ressuscitado; poucos anos mais tarde, Saulo de Tarso, perseguidor da igreja, também teve uma experiência que entendeu como aparição de Jesus. Ao lado deles costumam vir a transformação dos discípulos, a conversão de Tiago, o irmão cético de Jesus, e a pregação muito antiga da ressurreição. O túmulo vazio fica fora da lista curta: segundo o levantamento de 2005, cerca de três quartos dos estudiosos críticos o aceitam, número alto, mas abaixo do que o método exige.
O argumento parte daí. As explicações naturais, como a de que Jesus não morreu de fato, a de que os discípulos tiveram alucinações ou a de que roubaram o corpo, não dão conta desses fatos juntos. A ressurreição dá. A vantagem do método, diz ele, é pular a discussão preliminar sobre quais textos são confiáveis e começar pelo “denominador comum” que até os céticos concedem. Veja também Por que cremos na ressurreição? e o texto sobre apologética cristã.
A dúvida como problema a diagnosticar
A experiência pessoal de Habermas aparece nos livros sobre a dúvida, Dealing with Doubt (1990) e The Thomas Factor (1999). Neste último ele define a dúvida como “a falta de certeza sobre a verdade do cristianismo, sobre a própria fé ou sobre a sua aplicação à vida”. Ela não é, por si, pecado nem o contrário da fé. Existem três tipos de dúvida, e cada um pede um remédio. A factual pergunta se o cristianismo tem base, e para ela serve a evidência. A volitiva é da vontade: a pessoa não quer crer ou se arrepender. A que mais ocupa o livro é a emocional, feita de perguntas do tipo “e se…?” que não cedem a argumento nenhum. Por isso, observa ele, “a dúvida raramente é um problema só no campo dos fatos”.
Para a dúvida emocional ele propõe o caminho de Filipenses 4:6-9: levar a ansiedade a Deus em oração, agradecer e louvar no meio da dúvida, ocupar a mente com o que é verdadeiro e praticar isso até virar hábito. Junta a isso um exercício: localizar as mentiras que dizemos a nós mesmos (“provavelmente vou para o inferno”) e trocá-las pelas verdades bíblicas sobre o amor de Deus. Isso não é autoajuda, insiste, porque depende do poder de Deus. Tomé, que exigiu ver as feridas (João 20:24-29), é o caso exemplar: Jesus lhe deu a evidência, mas disse que teria sido melhor confiar no testemunho dos outros apóstolos.
A ressurreição e o sofrimento
Para Habermas, a ressurreição não é só um argumento para descrentes. Na revista Decision (2000) ele escreve que “a ressurreição corporal de Jesus ocupa o centro da fé cristã”: se Deus ressuscitou Jesus, a vida eterna e o reencontro com os que morreram em Cristo estão garantidos (1 Coríntios 15:20-23), e o porquê do sofrimento pode ficar sem resposta.
A distância em relação ao arminianismo clássico
Habermas descreve a salvação com “dois lados”: o que Deus providenciou em Cristo, na morte expiatória e na ressurreição, e a resposta de fé, que ele compara ao “sim” do casamento. Leva a sério as advertências de Hebreus 6:4-8 e 10:26-39 contra quem se aproxima do evangelho e depois o abandona. Concorda conosco em que Deus não escolhe sem condição quem será salvo e em que a salvação oferecida pode ser recusada. Mas ele fala a linguagem do livre-arbítrio e não desenvolve a doutrina da graça. Para Jacó Armínio e para John Wesley, a vontade caída está morta para o bem, e só a graça preveniente, obra do Espírito que vem antes de qualquer resposta, a liberta para crer; a fé é a mão vazia que recebe, e não a metade humana da salvação. É assim que a nossa declaração de fé fala da resposta humana. Habermas é um aliado na defesa da graça resistível e, sobretudo, do centro do evangelho, mas pensa como apologista batista e não como teólogo arminiano.
Obras principais
- The Resurrection of Jesus: A Rational Inquiry (tese, 1976).
- Verdict on the Shroud, com Kenneth E. Stevenson (1981).
- Did Jesus Rise from the Dead? The Resurrection Debate, com Antony Flew (1987).
- Dealing with Doubt (1990).
- The Historical Jesus: Ancient Evidence for the Life of Christ (1996).
- Forever Loved: A Personal Account of Grief and Resurrection (1997).
- The Thomas Factor: Using Your Doubts to Draw Closer to God (1999).
- The Case for the Resurrection of Jesus, com Michael Licona (2004).
- Resurrected? An Atheist and Theist Dialogue, com Antony Flew (2005).
- C. S. Lewis as Philosopher, com David Baggett e Jerry Walls (organizadores, 2008).
- On the Resurrection, 4 volumes (2024-2026).
Livros em português
- Veredicto sobre o sudário: prova da morte e ressurreição de Jesus Cristo, com Kenneth E. Stevenson (Centro do Livro Brasileiro, 1983). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Gary R. Habermas, Vita in Nuce e currículo, no site do autor.
- Gary R. Habermas, Answers from Dr. Gary R. Habermas, perguntas e respostas sobre dúvida, sofrimento, teologia e ressurreição.
- Gary R. Habermas, The Thomas Factor: Using Your Doubts to Draw Closer to God (Broadman & Holman, 1999), texto completo.
- Gary R. Habermas, Forever Loved, capítulos 9 e 10 (College Press, 1997).
- Gary R. Habermas, The Truth, and the Comfort, of the Resurrection, Decision, abril de 2000.
- Gary R. Habermas, Resurrection Research from 1975 to the Present: What Are Critical Scholars Saying?, Journal for the Study of the Historical Jesus 3.2 (2005).
- Gary R. Habermas, The Minimal Facts Approach to the Resurrection of Jesus, Southeastern Theological Review 3.1 (2012).
- Antony Flew e Gary R. Habermas, My Pilgrimage from Atheism to Theism, Philosophia Christi 6.2 (2004), na Evangelical Philosophical Society.
- Liberty University, perfil de Gary R. Habermas no Faculty SHARE.
- Liberty News, Leading apologist takes part in Shroud of Turin film, releases first volume in new work on the resurrection (2024).
- Liberty News, World-renowned professor draws attention for his case for Christ’s resurrection (2018).
- Apologetics 315, Michael Licona Interview Transcript (2013).
- Frank Turek, The Resurrection of Debbie, CrossExamined (2010).
- B&H Academic, On the Resurrection, página da série.
- Brian G. Chilton, resenha de On the Resurrection, vol. 1, Liberty Theological Review 8.1 (2024).
- Biblioteca Nacional de Portugal, registro de Veredicto sobre o sudário.
- Wikipédia, Gary Habermas, ponto de partida biográfico.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Apologética