
HistóriaTeólogos arminianos19 de 195
Franz Delitzsch: O hebraísta de Leipzig que levou o Novo Testamento ao hebraico
Neste texto
- Vida
- Uma infância pobre e um benfeitor judeu
- A conversão
- Estudos, livros e casamento
- Rostock e Erlangen
- De volta a Leipzig
- O Novo Testamento em hebraico e a defesa dos judeus
- Os últimos anos
- Pensamento
- Um luterano contra a predestinação arbitrária
- A graça que vem antes e pode ser recusada
- A advertência de Hebreus
- A Escritura e a história da salvação
- Onde ele difere da declaração de fé do site
- Obras principais
- Para aprofundar
Na manhã de 4 de março de 1890, em Leipzig, um velho professor de Antigo Testamento estava fraco demais para ler. Na devoção da manhã, com os filhos ao lado da cama, a esposa leu para ele, entre soluços, uma passagem sobre a ressurreição. Ele moveu os lábios numa oração sem som e depois disse: “Estou cansado e vou dormir”. Foram as suas últimas palavras. Era o aniversário do seu batismo, celebrado 77 anos antes, na Igreja de São Nicolau, na mesma cidade. Entre as duas datas, Franz Delitzsch passou de estudante racionalista a um dos maiores hebraístas da Europa, e deixou ao povo judeu um Novo Testamento na língua dos profetas.
Vida
Uma infância pobre e um benfeitor judeu
Franz Julius Delitzsch nasceu em Leipzig, na Saxônia, em 23 de fevereiro de 1813. O pai mantinha uma lojinha de objetos usados que rendia muito pouco, e o próprio Delitzsch chamou a sua infância de árdua. Quem tornou possível o estudo foi Levy Hirsch, livreiro judeu de livros usados, amigo da família, que morava com eles e a quem o menino chamava de “tio”. Ainda em vida de Delitzsch corria o boato, nunca confirmado e usado com tom antissemita, de que Hirsch era o seu pai verdadeiro. O certo é o afeto: Delitzsch se dedicou a levar o benfeitor a Cristo, e Hirsch foi batizado em 10 de maio de 1843, aos 78 anos.
A mãe, viúva em 1836, manteve com Hirsch uma banca de livros usados, e continuou nela mesmo quando o filho já era professor famoso, porque queria ser independente.
A conversão
Na escola, Delitzsch tornou-se, nas suas palavras, “um racionalista completo”. Sentia-se atraído por Deus, mas a pessoa de Jesus Cristo era para ele escuridão total. Entrou na Universidade de Leipzig em 1831 para estudar filosofia e filologia e se encantou com o idealismo de Fichte.
Um colega chamado Schütz, que tinha encontrado o Salvador, trabalhou sem descanso para levá-lo à fé. Delitzsch resistiu por muito tempo. Depois contou que ainda sabia apontar o lugar, numa rua de Leipzig, onde “uma luz do alto” o pôs no mesmo estado de Tomé quando disse: “Senhor meu, e Deus meu!” (João 20:28, Bíblia Livre). “Daí em diante tornei-me teólogo”, escreveu. Os anos de 1832 a 1834 foram, para ele, “a primavera da minha vida espiritual, os dias do meu primeiro amor”.
A fé nova foi alimentada pela devoção luterana antiga, como o Verdadeiro cristianismo de Johann Arndt, e pelos círculos ligados ao pastor Martin Stephan, de Dresden, que uniam o pietismo, a ênfase na conversão pessoal e na piedade do coração, ao luteranismo confessional. Parte desse grupo emigrou para os Estados Unidos em 1838 e deu origem ao Sínodo de Missouri. Na mesma época, os missionários Goldberg e Becker, que trabalhavam entre os judeus nas feiras de Leipzig, ensinaram-lhe, como ele contou, a amar o povo de onde veio o Salvador. Becker lhe deu as primeiras aulas de hebraico rabínico.
Estudos, livros e casamento
Delitzsch doutorou-se em 1835. De 1835 a 1842 dirigiu reuniões devocionais num círculo de amigos crentes, e delas nasceu o seu livro de confissão e comunhão, O sacramento do verdadeiro corpo e sangue de Jesus Cristo (1844), que chegou à sétima edição. Ao mesmo tempo publicou uma história da poesia judaica pós-bíblica (1836). Em 1842 habilitou-se para lecionar com uma tese sobre o profeta Habacuque, e em 1844 tornou-se professor extraordinário. Recusou uma cátedra em Königsberg porque era luterano estrito e a universidade seguia a União prussiana, que juntava luteranos e reformados numa só igreja.
Em 27 de abril de 1845 casou-se com Clara Silber, que conheceu nas reuniões devocionais. O casal teve quatro filhos.
Rostock e Erlangen
Em 1846 Delitzsch foi para Rostock como professor titular de exegese do Antigo e do Novo Testamento. Em 1850 mudou-se para Erlangen, na Baviera, onde ficou dezessete anos ao lado de Johann von Hofmann e Gottfried Thomasius. Juntos fizeram de Erlangen o centro da teologia luterana da época.
Ali começou a sua parte no Comentário bíblico sobre o Antigo Testamento, fundado por Carl Friedrich Keil e conhecido como “Keil-Delitzsch”. Delitzsch ficou com Jó (1864), Isaías (1866), Salmos (1867), Provérbios (1873), Cântico dos Cânticos e Eclesiastes (1875). Em Erlangen escreveu também o Sistema de psicologia bíblica (1855) e o comentário aos Hebreus (1857). Em 1863 fundou a sociedade bávara de missão entre os judeus e a revista Saat auf Hoffnung (“Semeado em esperança”).
De volta a Leipzig
Erlangen tentou segurá-lo com ofertas generosas, até com a promessa de um título de nobreza, mas em 1867 Delitzsch voltou para a cidade natal, chamado pelo decano Christoph Ernst Luthardt. O filho Ernst, médico que serviu na guerra franco-prussiana, morreu em 1872; o mais velho, Johannes, já professor de teologia, morreu em 1876. O mais novo, Friedrich, tornou-se um assiriólogo célebre.
Nesse período a crítica do Pentateuco avançava, e Delitzsch mudou de posição devagar. Em 1852 defendia a grande antiguidade de todo o Pentateuco. No Novo comentário sobre Gênesis (1887) aceitou a análise das fontes e a data tardia de boa parte das leis, embora continuasse a ver ali material vindo de Moisés. Na quarta edição do comentário a Isaías (1889) atribuiu os capítulos 40 a 66 a um profeta do exílio. Mesmo assim, rejeitou a crítica que negava o milagre: “Creio na mensagem da Páscoa e tiro as suas consequências”, escreveu no prefácio do Gênesis de 1887.
O Novo Testamento em hebraico e a defesa dos judeus
A obra a que mais se dedicou foi a tradução do Novo Testamento para o hebraico, feita entre 1864 e 1874 e publicada em 1877 pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira. Delitzsch quis um hebraico próximo do que se falava no tempo de Jesus, com o vocabulário da Mixná; só na Epístola aos Romanos usou mais de cem palavras que não aparecem no Antigo Testamento. Em vida, a tradução passou por dez edições, e no enterro dele já circulavam mais de sessenta mil exemplares. “Nossa nova tradução contribuiu um pouco para aproximar o Novo Testamento dos judeus”, escreveu.
Delitzsch foi também um dos opositores mais firmes do antissemitismo alemão. Quando August Rohling acusou o Talmude de ensinar o ódio aos cristãos, respondeu com O judeu do Talmude de Rohling examinado (1881). Durante o caso de Tiszaeszlár, a falsa acusação de assassinato ritual na Hungria, publicou Testemunhos cristãos contra a acusação de sangue (1882). Um manifesto dele chegou às mãos do rabino húngaro Isaac Lichtenstein, que por causa dele foi ler o Novo Testamento. Em 1886 fundou em Leipzig o Institutum Judaicum, para estudar o judaísmo e formar missionários entre os judeus; depois da sua morte, ele passou a se chamar Institutum Judaicum Delitzschianum.
Os últimos anos
Delitzsch amava as flores e quase nunca era visto sem uma rosa. Com mais de 75 anos, numa viagem à Holanda para estudar o jacinto amarelo, tomou um banho no mar do Norte, e a saúde nunca mais se refez. Lecionou até o verão de 1889, quando as pernas ficaram paralisadas. Da cama acompanhou a impressão do seu último livro, Profecias messiânicas em sucessão histórica (1890), e a décima primeira edição do Novo Testamento hebraico, entregue a Gustaf Dalman. Numa das últimas cartas resumiu: “Tive o meu tempo, mas ele passou”. O enterro, em 8 de março de 1890, na igreja da universidade, reuniu judeus e cristãos.
Pensamento
Um luterano contra a predestinação arbitrária
Delitzsch nunca se chamou arminiano. Foi luterano confessional, da escola de Erlangen, com marca do pietismo, e o luteranismo tem o seu próprio caminho desde a Fórmula de Concórdia (1577). Por isso a série o apresenta como simpatizante: ele rejeita o calvinismo nos pontos centrais e afirma o amor de Deus por todos, a graça que pode ser recusada, a eleição feita em vista da relação de cada pessoa com Cristo e a possibilidade real de apostasia, isto é, de abandonar a fé.
No Sistema de psicologia bíblica (1855; 2ª ed., 1861), Delitzsch distingue dois propósitos eternos de Deus. Há um propósito geral de amor, pelo qual Deus deseja a felicidade “de todos os homens, sem exceção”, e esse propósito é o pressuposto do propósito especial, a eleição dos crentes. Deus escolhe porque vê as pessoas “na sua inteira destinação moral futura”, ou seja, conhece de antemão o uso que farão da liberdade. Por isso a reprovação dos ímpios não acontece “no sentido de uma praedestinatio duplex puramente arbitrária”, a dupla predestinação calvinista. Deus inclui as pessoas no seu amor ou na sua ira “conforme as encontra em Cristo ou fora de Cristo”. A eleição é livre, porque vem antes de toda decisão humana, mas “não absolutamente incondicionada”. É a mesma linha do quarto decreto da Declaração de Sentimentos de Armínio, que liga a eleição à presciência de quem creria.
A graça que vem antes e pode ser recusada
Delitzsch não dá ao ser humano caído nenhuma capacidade natural de se voltar para Deus. Depois da queda, diz ele, o homem ainda escolhe, porque nenhuma vontade estranha o obriga de modo irresistível; mas, por culpa própria, não é livre, porque o pecado domina a sua vontade (Romanos 7:14).
A fé, por isso, não começa no homem. Na mesma obra ele escreve que, se a fé fosse “obra do próprio homem, com iniciativa humana”, seria impossível dizer que uma criança crê. Mas a fé é “condição humana da operação divina, uma obra da graça que previne o homem”. Prevenir, aqui, tem o sentido antigo de vir antes: é a graça preveniente, que alcança a pessoa antes de qualquer resposta. Essa graça age pela Palavra e pelos sacramentos, e pode ser resistida. Enquanto o homem resiste, a Palavra que ele ouviu fica nele como sentença de juízo; mas basta que ele deixe a resistência, e a mesma Palavra se mostra poder que ilumina o espírito e muda a vida.
A advertência de Hebreus
No comentário aos Hebreus (1857), Delitzsch enfrenta Hebreus 6:4-6, que fala dos que “uma vez foram iluminados, e experimentaram o dom celestial” e “então caíram” (Bíblia Livre). Ele lembra que Calvino e todos os intérpretes predestinacionistas são obrigados a dizer que essas pessoas nunca foram regeneradas de verdade, e rejeita a leitura calvinista de que elas só provaram o dom “com a ponta dos lábios”. Para Delitzsch, o autor descreve justamente os verdadeiramente regenerados, e a advertência é real.
Ao mesmo tempo, ele não faz do texto uma ameaça sobre cada pecado. Quem cai numa armadilha do diabo pode, “pela força da graça”, levantar-se de novo (2 Timóteo 2:26); a queda em vista é o abandono deliberado de Cristo, como em Hebreus 10:26-31. A regra pastoral dele é não fazer da advertência apostólica “um instrumento de tortura para o desespero”, nem “um travesseiro de segurança carnal”.
A Escritura e a história da salvação
Como os colegas de Erlangen, Delitzsch lia a Bíblia como história da salvação: Deus age de fato no mundo, e o Antigo Testamento é uma revelação que avança até Cristo. A Bíblia é Escritura Sagrada, mas “não um livro caído do céu”, porque traz as marcas humanas do tempo em que foi escrita. Diante da crise da crítica bíblica, escreveu que, se no labirinto permanecer firme ao menos o Christus vere resurrexit, “Cristo de fato ressuscitou”, temos o fio para sair dele.
A Psicologia bíblica distingue ainda o espírito da alma, e por isso Delitzsch é lembrado entre os defensores da tricotomia, o ser humano em corpo, alma e espírito, tema do estudo sobre a imagem de Deus e a constituição do ser humano.
Onde ele difere da declaração de fé do site
Há diferenças que vêm do luteranismo. Delitzsch ensinava a regeneração pelo batismo e defendia o batismo de crianças; a declaração de fé do Diego entende o batismo como testemunho que segue a conversão. Ele cria na presença real de Cristo na Ceia, como diz o título do seu livro de comunhão; a declaração do site entende a Ceia como memorial. E, no fim da vida, aceitou a data tardia de partes do Pentateuco e de Isaías 40 a 66, enquanto a declaração afirma que os autógrafos foram preservados de erro. Na eleição, na graça resistível e na perseverança condicional, porém, ele está do mesmo lado de John Wesley e dos arminianos.
Obras principais
- Zur Geschichte der jüdischen Poesie (história da poesia judaica pós-bíblica, 1836)
- Das Sakrament des wahren Leibes und Blutes Jesu Christi (livro de confissão e comunhão, 1844)
- Die Genesis (1852)
- System der biblischen Psychologie (1855; 2ª ed., 1861; em inglês, A System of Biblical Psychology)
- Commentar zum Briefe an die Hebräer (1857; em inglês, Commentary on the Epistle to the Hebrews)
- Comentários da série Keil-Delitzsch: Jó (1864), Isaías (1866; 4ª ed., 1889), Salmos (1867), Provérbios (1873), Cântico dos Cânticos e Eclesiastes (1875)
- Jesus und Hillel (1866)
- System der christlichen Apologetik (1869)
- Novo Testamento em hebraico, Sifrei ha-Berit ha-Chadashah (1877)
- Rohling’s Talmudjude beleuchtet (1881)
- Neuer Commentar über die Genesis (1887)
- Messianische Weissagungen in geschichtlicher Folge (1890; em inglês, Messianic Prophecies in Historical Succession, 1891)
Para aprofundar
- Franz Delitzsch, “Autobiography; with Introduction and Notes”, tradução e notas de Hermann V. Hilprecht, The Old Testament Student 6 (1887), p. 209-213.
- Samuel Ives Curtiss, Franz Delitzsch: A Memorial Tribute (Edimburgo: T. & T. Clark, 1891).
- Meik Gerhards, “Delitzsch, Franz (1813-1890)”, WiBiLex: Das wissenschaftliche Bibellexikon im Internet (Deutsche Bibelgesellschaft, 2019).
- “Delitzsch, Franz”, Jewish Encyclopedia (1906).
- Raymond F. Surburg, “The Influence of the Two Delitzsches on Biblical and Near Eastern Studies”, Concordia Theological Quarterly 47, n. 3 (1983).
- Bible Society in Israel, “Hebrew Bible Translation and Publication”.
- Franz Delitzsch, A System of Biblical Psychology (Edimburgo: T. & T. Clark), sobretudo as seções sobre os postulados eternos e a ação da graça.
- Franz Delitzsch, Commentary on the Epistle to the Hebrews, vol. 1 (Edimburgo: T. & T. Clark), comentário a Hebreus 6:4-6.
- “Franz Delitzsch”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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