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Gilbert Bilezikian: o professor de Wheaton por trás da Willow Creek

Diego Gonçalves13 min de leitura2.510 palavras

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Neste texto

Em 1975, Bill Hybels, recém-formado na Trinity College, em Deerfield, perto de Chicago, procurou o antigo professor e anunciou: “Dr. B., você e eu vamos começar uma igreja”. O professor era Gilbert Bilezikian, um francês filho de refugiados armênios que ensinava Novo Testamento. Ele tentou desanimar o aluno: não havia dinheiro nem lugar para reunir ninguém. Em 25 de outubro daquele ano, mesmo assim, o primeiro culto da Willow Creek Community Church aconteceu num cinema de Palatine, no subúrbio de Chicago. Hybels diria mais tarde que sem Bilezikian não haveria Willow Creek. O sonho de uma igreja nos moldes de Atos 2 tinha nascido nas aulas do “Dr. B.”.

Vida

Paris, a ocupação e a conversão

Gilbert G. Bilezikian nasceu em Paris em 26 de junho de 1927. Os pais tinham fugido da Armênia durante o genocídio de 1915, e ele cresceu na capital francesa falando francês.

Era ainda menino quando as tropas de Hitler entraram em Paris, e viveu quatro anos sob a ocupação nazista. Um colega de escola desapareceu depois que o apartamento da família foi marcado com uma fita de suástica, e ele nunca mais o viu. Esses anos lhe deixaram, como ele contou, a recusa a toda pretensão de mando fundada no nascimento, seja de raça, de classe ou de sexo.

Na juventude foi um pugilista promissor. Converteu-se numa reunião do Exército de Salvação e trocou o boxe pela Bíblia. Os primeiros passos na vida da igreja ele deu entre os batistas de Paris, e continuou, mesmo depois de décadas nos Estados Unidos, membro da Igreja Batista da Avenue du Maine.

Formação e serviço militar

Bacharelou-se pela Universidade de Paris. Planejava estudar teologia na França, mas a morte repentina da primeira namorada o levou a partir para Boston, onde morava um tio. Chegou aos Estados Unidos em 1947. Estudou no Gordon Divinity School, hoje Gordon-Conwell, onde assistiu às aulas do teólogo reformado Roger Nicole, e doutorou-se em teologia (Th.D.) pela Universidade de Boston. A tese, revista e ampliada, virou o livro The Liberated Gospel (O evangelho libertado, 1977).

A França o chamou de volta para o serviço militar mais de uma vez. No treinamento, recusou a promoção a oficial porque não podia assumir a responsabilidade por outros homens que matassem: só podia responder por si mesmo. Serviu como enfermeiro num hospital militar na Argélia, durante a guerra de independência.

Ensino na França e chegada aos Estados Unidos

De dezembro de 1956 a 1961 ensinou Novo Testamento no Instituto Bíblico Europeu, em Chatou, perto de Paris. Em 1961 foi para os Estados Unidos como pastor visitante da Loudonville Community Church, perto de Albany, no estado de Nova York. Depois do pastorado, entrou para o corpo docente do Wheaton College, em Illinois, como professor de Novo Testamento.

Presidente da Haigazian, em Beirute

De 1967 a 1971 Bilezikian presidiu o Haigazian College, a faculdade evangélica armênia de Beirute, no Líbano, fundada em 1955. Reorganizou a administração, criou o cargo de deão, ampliou as bolsas, melhorou o quadro de professores e abriu o curso de administração de empresas, que se tornou o mais procurado da casa e ajudou a sustentar os cursos de artes e ciências.

Com o Líbano cada vez mais perigoso, ele mandou a família de volta para os Estados Unidos e ficou um ano sozinho em Beirute. A esposa, Maria, cuidou sozinha dos quatro filhos pequenos. Ao voltar, ele concluiu que não tinha direito de retomar as áreas em que ela se saíra melhor e que a liderança bíblica se reparte segundo os dons de cada um. Por causa das necessidades especiais dos filhos, renunciou à presidência em maio de 1971 e voltou à cátedra em Wheaton.

Trinity, Hybels e a Willow Creek

Por dois anos ensinou na Trinity College, em Deerfield, onde Bill Hybels era aluno. Nas aulas, voltava sempre ao retrato da igreja de Atos 2: uma comunidade em que todos servem, partilham e cuidam uns dos outros. Hybels saiu de lá decidido a fazer daquilo uma igreja de verdade, e Bilezikian ficou ao lado dele desde o primeiro culto, em 1975. Nunca fez parte da equipe remunerada, mas foi membro fundador e presbítero, chamado muitas vezes de teólogo da Willow Creek, que se tornaria uma das maiores igrejas dos Estados Unidos.

Quando chegou a hora de nomear os primeiros presbíteros, a opinião dominante era que a Bíblia proibia mulheres no cargo, embora várias mulheres tivessem trabalhado na fundação da igreja desde o começo. Em vez de decidir depressa, a liderança resolveu estudar com cuidado o que a Escritura diz sobre o ministério das mulheres. O resultado desse estudo é Beyond Sex Roles (Além dos papéis sexuais), publicado pela Baker em 1985 e revisto em edições posteriores, a terceira em 2006.

Wheaton, CBE e a aposentadoria

Bilezikian ensinou em Wheaton por cerca de vinte anos e se aposentou em 1992, com o título de professor emérito de estudos bíblicos. Foi um dos sete autores de “Men, Women and Biblical Equality” (Homens, mulheres e igualdade bíblica), a declaração que deu origem, no fim dos anos 1980, aos Christians for Biblical Equality, hoje CBE International. A organização reserva o título de fundadoras a Catherine Kroeger, Gretchen Gaebelein Hull e Alvera Mickelsen. Em 2002, numa entrevista a Sébastien Fath, aconselhou as igrejas francesas a não copiar a Willow Creek e a renovar a vida comunitária a partir dos pequenos grupos.

As acusações de 2020

Em janeiro de 2020 os presbíteros da Willow Creek declararam ter por críveis as acusações de uma antiga integrante da igreja, segundo a qual Bilezikian a beijou, a acariciou e a pressionou a ter relações sexuais entre 1984 e 1988, quando ela era recém-convertida. A igreja admitiu que restringira o serviço dele cerca de dez anos antes, sem comunicar a medida, e pediu desculpas. Em 28 de fevereiro de 2020 o Wheaton College retirou dele o título de professor emérito, depois de reabrir uma investigação e receber outras denúncias de conduta imprópria. A CBE International informou que rompera toda colaboração com ele no fim de 2018. Bilezikian negou as acusações, disse que nunca abusou de ninguém intencionalmente e, em maio de 2020, processou a igreja e os presbíteros por difamação.

Pensamento

Onde ele fica diante do arminianismo

Bilezikian é simpatizante do arminianismo, e não arminiano clássico. Ele mesmo se definia como um “calvinista de um ponto e meio”. Dos cinco pontos do calvinismo (depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos), aceitava por inteiro só o último: o crente verdadeiro não perde a salvação. E recusava o retrato pessimista que o calvinismo faz do ser humano na doutrina da depravação total. Gregory Pritchard, num estudo sobre a Willow Creek publicado em 1996, resumiu a teologia de Bilezikian como um arminianismo otimista.

Em Christianity 101, ao tratar da redenção, ele reconhece que a Bíblia traz muita evidência a favor da predestinação, mas recusa a leitura de que Deus teria escolhido, antes da fundação do mundo, um número limitado de indivíduos para a salvação. Como recusava também a expiação limitada e a graça irresistível, a eleição, para ele, não reparte a humanidade em salvos e perdidos por decreto: Cristo morreu por todos, e a salvação está aberta a quem crê.

Os pontos de contato com a declaração de fé deste site são claros: Cristo morreu por todos, a graça pode ser recusada e a eleição não é incondicional. As diferenças também. O site afirma a perseverança condicional, e Bilezikian, a segurança eterna. O arminianismo clássico, de Jacó Armínio a John Wesley, afirma a depravação total com a mesma força de Calvino e põe toda a capacidade de crer na conta da graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade. O otimismo de Bilezikian sobre o ser humano fica aquém dessa ênfase. Há ainda o conhecimento de Deus: Clark Pinnock e os coautores de The Openness of God (1994) puseram o nome dele, ao lado de Philip Yancey e Greg Boyd, entre os evangélicos que afirmariam a “abertura” de Deus, isto é, que Deus não conhece de antemão todas as decisões livres, ou que se aproximariam dessa ideia. O site rejeita o teísmo aberto e afirma que Deus conhece todo o futuro, inclusive as nossas escolhas.

A Trindade sem hierarquia

A contribuição mais técnica de Bilezikian é um artigo de março de 1997 no Journal of the Evangelical Theological Society, “Hermeneutical Bungee-Jumping: Subordination in the Godhead” (Bungee-jump hermenêutico: subordinação na Divindade). Alguns defensores da hierarquia entre homem e mulher buscavam o modelo dela numa suposta subordinação eterna do Filho ao Pai: assim como o Filho obedece ao Pai, a mulher obedeceria ao homem. Bilezikian respondeu que essa ideia mexe no ponto mais frágil da doutrina da Trindade, a relação entre o Pai e o Filho.

O argumento tem três passos. Primeiro, os concílios afirmaram que as três pessoas são coeternas e de uma só substância, o que exclui hierarquia no ser eterno de Deus; levar a submissão do Filho para antes da encarnação chega perigosamente perto do arianismo. Segundo, a palavra “subordinação” supõe alguém que submete outro pela força ou pela autoridade, e a Bíblia descreve o contrário: o Pai glorifica o Filho, o Filho glorifica o Pai, e o Espírito glorifica os dois, num serviço recíproco. Terceiro, a salvação depende disso. Se quem morreu na cruz fosse um deus de segunda categoria, a redenção perderia a grandeza, porque “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2 Coríntios 5:19). Uma cristologia baixa produz uma soteriologia fraca. O Filho não foi subordinado: humilhou-se a si mesmo (Filipenses 2:7-8). A fórmula final do artigo é “não subordinação, mas auto-humilhação”.

Nesse ponto ele está em plena concordância com a declaração de fé do site, que confessa as três pessoas “coeternas e coiguais em poder e glória”.

A igreja como comunidade de unidade

Para Bilezikian, a comunidade é o centro do cristianismo, e não um acessório. Community 101 acompanha a história da salvação por esse fio: a comunidade se perdeu na queda, foi restaurada em Cristo e chegará à plenitude na Nova Jerusalém. Entre uma ponta e outra, a igreja é a “comunidade de unidade” de Deus, inclusive entre homens e mulheres. Num artigo de 2002 ele contou três perdas da igreja: o acesso à Escritura, durante cerca de mil anos; o evangelho da graça, trocado pela salvação por obras até a Reforma; e, por fim, a identidade de comunidade, sufocada por estruturas institucionais rígidas.

Daí a insistência no serviço: todo crente tem um ministério, e não só o clero. Ele recusava o rótulo de feminista, porque via no feminismo uma luta por poder, e o ideal cristão, para ele, é o serviço. Batista de convicção, defendia o batismo por imersão como condição para entrar na igreja; a declaração de fé do site aceita tanto a imersão quanto a aspersão.

Homem e mulher, da criação à redenção

Beyond Sex Roles lê a Bíblia em três tempos. Na criação, homem e mulher são iguais e formam uma só carne, sem hierarquia (Gênesis 1 e 2). O domínio do marido sobre a mulher aparece só depois da queda, como consequência do pecado, e não como plano de Deus (Gênesis 3:16; o tema é discutido no estudo A submissão da mulher vem da criação ou da queda?). Na redenção, Cristo vence os efeitos da queda e restaura a relação entre o homem e a mulher. O texto central é Efésios 5:21, a submissão mútua. A chefia de Cristo sobre a igreja é a do servo que provê o sustento do corpo, e não a de um chefe que dá ordens. As restrições de 1 Timóteo 2 seriam uma medida temporária para uma crise da igreja de Éfeso.

Marcos e a tragédia grega

O primeiro livro, The Liberated Gospel, compara o Evangelho de Marcos com a tragédia grega, gênero criado pelos grandes autores do século V a.C. e codificado por Aristóteles na Poética. Bilezikian sustenta que Marcos usou a forma da tragédia como molde para organizar as tradições orais e escritas que recolheu. A escolha de um gênero dos gentios já anunciava que o evangelho era para toda a humanidade.

Na escatologia, John Walvoord, do Seminário de Dallas, acusou-o de ensinar o amilenismo em Wheaton. É a leitura do milênio de Apocalipse 20 que a declaração de fé do site também adota.

Obras principais

  • The Liberated Gospel: A Comparison of the Gospel of Mark and Greek Tragedy (Baker, 1977; Wipf and Stock, 2010).
  • Beyond Sex Roles: What the Bible Says about a Woman’s Place in Church and Family (Baker, 1985; 3.ª ed., 2006). Tradução francesa: Homme-femme, vers une autre relation (1992); espanhola: El lugar de la mujer en la iglesia y la familia (1995).
  • Christianity 101: Your Guide to Eight Basic Christian Beliefs (Zondervan, 1993). Tradução espanhola: Cristianismo elemental (2008).
  • “Hermeneutical Bungee-Jumping: Subordination in the Godhead”, Journal of the Evangelical Theological Society 40/1 (1997).
  • Community 101: Reclaiming the Local Church as Community of Oneness (Zondervan, 1997).
  • “Biblical Community ‘Versus’ Gender-Based Hierarchy”, Priscilla Papers 16/3 (2002).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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