
A submissão da mulher vem da criação ou da queda? Gênesis 3
Gênesis 3:16 lido com Crisóstomo, Matthew Henry, o Catecismo da Igreja Católica e Wesley
A submissão da mulher nasceu no Éden, antes do fruto, ou entrou no mundo junto com o pecado? A resposta passa por uma frase curta que Deus dirige à mulher em Gênesis 3:16: “o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”. João Crisóstomo, pregando em Antioquia no fim do século quatro, ouviu ali um freio que só chegou depois da desobediência. Matthew Henry, no seu comentário à Bíblia, enxergou um governo que já existia antes e que o pecado endureceu. O Catecismo da Igreja Católica fala de uma atração, dom do Criador, que se transformou em domínio. E John Wesley, num sermão sobre o suor e o pó do versículo 19, pergunta que inferioridade havia entre os dois antes daquele dia. Só que, na mesma passagem, a palavra “maldito” cai sobre a serpente e sobre a terra, e não sobre a mulher. Então, quando Deus disse “ele te dominará”, estava entregando uma ordem para você cumprir ou anunciando um estrago?
O texto e o seu horizonte
Gênesis 3 começa com uma conversa no jardim e termina com uma sentença. Depois do fruto, Deus procura o homem, ouve as desculpas do casal e fala primeiro com a serpente, depois com a mulher e por fim com o homem.
À mulher, ele declarou:
“Multiplicarei grandemente as tuas dores e teus sofrimentos de parto; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.”
(Gênesis 3:16, Bíblia Livre)
Ao homem, Deus diz que a terra fica amaldiçoada por causa dele, que dela virão espinhos e ervas daninhas, que o pão vai custar o suor do rosto e que ele voltará ao pó de onde foi tirado.
Pense no laudo de um exame de sangue: ele descreve com precisão o que está errado no corpo, e ninguém sai do laboratório achando que precisa obedecer ao laudo, porque quem manda fazer alguma coisa é a receita. A dúvida inteira sobre estes quatro versículos cabe nessa diferença: eles são o laudo do estrago que o pecado fez no casal e no trabalho, ou a receita do que Deus quer que se mantenha?
O que essas palavras diziam ao povo que as ouviu primeiro, muito antes de qualquer teólogo comentá-las? Israel era um povo de lavradores e pastores, para quem espinho no roçado, terra pedregosa e parto arriscado eram a vida de todo dia, e Gênesis dizia de onde vinha essa dor: da desobediência no jardim.
E o texto escolhe as palavras com cuidado, porque o termo “maldito” cai sobre a serpente, no versículo 14, e sobre a terra, no versículo 17. Para a mulher e para o homem, Deus anuncia consequências, mas não pronuncia maldição.
A palavra hebraica traduzida por “desejo” é rara, e volta só em Gênesis 4:7 e em Cântico dos Cânticos 7:10, por isso uns a leem como anseio de amor pelo marido e outros como vontade de controlá-lo. O que o versículo sozinho não responde é se, antes dessa ferida, havia uma ordem boa que ela deformou, e é aí que as leituras da Igreja se separam.
Crisóstomo: a sujeição como freio
Elas partem de um chão comum, porque todas tratam Adão e Eva como pessoas reais e leem a dor, o suor e a morte como frutos do pecado. A primeira leitura vem de Antioquia, no fim do século quatro, quando João Crisóstomo, antes de ser bispo de Constantinopla, pregou as suas Homilias sobre Gênesis.
Na homilia sobre este versículo, ele admira a brandura de Deus depois de uma queda tão grande e diz que a dor do parto funciona como um freio para quem usou mal a fartura do paraíso. Então vem a frase que define a leitura dele. Na voz que Crisóstomo empresta a Deus, a mulher ouve mais ou menos isto: no princípio, eu a criei igual ao seu marido em honra, e confiei a você, como a ele, o governo de todas as coisas. Mas você usou mal essa igualdade, e por isso agora eu a sujeito ao seu marido.
Para Crisóstomo, a sujeição não estava no desenho original, mas entrou como medida de Deus depois do pecado. Ele é pai da Igreja venerado por ortodoxos e católicos e lido também por protestantes, e a pergunta que deixa vale para todos: se a sujeição foi imposta por causa do pecado, ela deve durar enquanto o pecado durar?
Matthew Henry: um governo que já existia
A segunda leitura atravessa mais de treze séculos e chega ao comentário que o pastor presbiteriano Matthew Henry escreveu sobre a Bíblia inteira, no começo do século dezoito, na Inglaterra. E aqui Henry vai na direção contrária de Crisóstomo num ponto exato, que é o que existia antes da queda.
Para Henry, a sentença põe a mulher num estado de dor e num estado de sujeição, castigos próprios de um pecado de desejo e de orgulho. Só que ele acrescenta que, se o homem não tivesse pecado, teria governado sempre com sabedoria e amor, e a mulher teria obedecido sempre com humildade e mansidão. Ou seja, havia governo antes da queda, e o pecado endureceu um governo que nasceu para ser de amor. Henry chega a ligar o “ele te dominará” à instrução apostólica de que as esposas se sujeitem aos maridos.
Essa linha alimenta hoje a leitura complementarista, ou seja, a de quem entende que homem e mulher têm o mesmo valor e papéis diferentes, dados por Deus desde a criação. Na sua melhor forma, ela protege uma convicção séria: a diferença entre homem e mulher é obra de Deus, e não um acidente do pecado. Mas a tradição reformada não fala com uma voz só, e outra parte dela lê a submissão como fruto apenas da queda, que é a leitura igualitária, de quem vê a hierarquia entrando com o pecado. As duas posições atravessam presbiterianos, batistas, pentecostais e muitas outras igrejas, porque essa fronteira não separa denominações, mas passa por dentro delas.
Você pode estar pensando: “uma leitura assim não serviu de desculpa para muito marido duro dentro de casa?” A resposta honesta é sim, e também em casas protestantes este versículo já justificou dureza no casamento. Nenhum de nós está livre de ler a Bíblia a favor de si mesmo, e o governo sem amor, como o próprio Henry deixa entender, nasce do pecado, e não da criação.
O Catecismo da Igreja Católica: a atração que virou domínio
Existe, porém, uma leitura que chama o domínio pelo nome. É a terceira, o Catecismo da Igreja Católica, promulgado por João Paulo II em 1992. No parágrafo 1607, o Catecismo ensina que a desordem que nós sentimos com tanta dor não vem da natureza do homem e da mulher, mas do pecado. A primeira consequência da ruptura com Deus foi a ruptura da comunhão do casal, e a atração mútua, dom do Criador, virou relação de domínio e de concupiscência, isto é, de desejo desordenado.
Até aqui, o ensino oficial católico, que nem todo católico aplica do mesmo jeito em casa, concorda com Crisóstomo ao chamar o domínio de desordem nascida do pecado. Mas o parágrafo seguinte acrescenta que a ordem da criação persiste, ainda que gravemente perturbada, e logo adiante diz que a dor do parto e o suor do trabalho também trazem remédios contra o estrago do pecado. É o freio de Crisóstomo ecoando mais de mil e quinhentos anos depois. Fica, então, a pergunta que a quarta leitura enfrenta: se a pena também é remédio, onde está a cura?
Wesley: o remédio no segundo Adão
A quarta leitura é de John Wesley, pregador do século dezoito, no sermão “A queda do homem”, que tem como texto Gênesis 3:19. Ele abre perguntando por que existe dor no mundo se Deus é amoroso com todos, e responde que é porque existe pecado.
Ao chegar à mulher, Wesley cita o “ele te dominará” e pergunta se, até aquele momento, havia alguma inferioridade dela em relação ao homem além da que se imagina entre um anjo e outro. A pergunta deixa em aberto que diferença seria essa, mas mostra onde ele põe o domínio, que é dentro da sentença. Sobre os espinhos, ele observa que, no começo, nada feito para ferir ou causar dor tinha lugar na criação.
Aqui Wesley vai além das três leituras anteriores, porque o remédio que ele aponta é o segundo Adão, Cristo, que morreu por todos os que morreram no primeiro. Com Romanos 5:20, ele lembra que onde o pecado abundou a graça transbordou, e conclui que nós podemos ganhar mais do que perdemos, porque até a dor, nas mãos de Deus, vira remédio. O movimento de santidade, nascido dessa linha wesleyana, foi além do que o sermão diz e leu a sentença dada à mulher como algo que Cristo vem reverter, e não como padrão a preservar.
O que o texto sustenta
Você pode estar pensando: “tudo bem, mas Paulo não funda uma ordem na criação, antes de qualquer fruto?” Em 1 Coríntios 11:8-9, ele diz que a mulher veio do homem e foi criada por causa dele. Por trás dessa objeção há um medo legítimo: se toda diferença entre homem e mulher for fruto da queda, a redenção acabaria apagando o próprio homem e a própria mulher.
Então, o que o texto sustenta, a começar pelo próprio “ele te dominará”? Deus diz essa frase à mulher como algo que vai acontecer, sem mandar o homem dominá-la, e no mesmo fôlego da dor do parto e dos espinhos. Ninguém acha que obedece a Deus deixando o mato tomar a roça ou negando alívio a uma mulher em trabalho de parto.
Por isso, o “ele te dominará” é estrago anunciado, e não sentença que alguém deva cumprir. Quando Crisóstomo trata a sujeição como medida imposta para durar, e quando Henry liga a frase a um mandamento, os dois transformam em desenho a guardar o que o texto apresenta como consequência do pecado. Eles leram com fidelidade no seu tempo e cercaram a sujeição de honra e de amor, mas Gênesis 3 não sustenta essa passagem do anúncio para a ordem. Quanto a Eva, ela ouviu o anúncio do que o pecado faria com a sua casa, e não uma condenação à submissão, e o domínio anunciado não foi entregue ao marido como direito.
Falta a pergunta do título, sobre a origem da submissão, e para respondê-la é preciso voltar ao começo do livro. Em Gênesis 1:27, os dois carregam a imagem de Deus (“macho e fêmea os criou”) e recebem juntos o domínio sobre os peixes, as aves e os animais. Em Gênesis 2:18, Deus faz para o homem uma “ajuda idônea”, isto é, alguém à altura dele. A palavra hebraica para esse auxílio é a mesma usada para o próprio Deus que socorre o seu povo, em Êxodo 18:4 e no Salmo 121.
A ordem de formação em Gênesis 2 é real, e Paulo a usa. Mas, logo depois, em 1 Coríntios 11:11-12, ele acrescenta que no Senhor a mulher não existe sem o homem, nem o homem sem a mulher. Se a mulher veio do homem, o homem nasce da mulher, e tudo vem de Deus.
Por isso, a resposta que o texto sustenta melhor é esta: a diferença entre homem e mulher vem da criação, e o domínio de um sobre o outro vem da queda. O medo da objeção se resolve no próprio texto, porque “macho e fêmea os criou” está em Gênesis 1:27, antes de qualquer pecado. A redenção não apaga o homem nem a mulher, mas desfaz o domínio.
Cristãos fiéis à Escritura ainda divergem sobre o que a ordem de Gênesis 2 significa hoje dentro de casa, se uma liderança de serviço do marido ou nenhuma distinção de papéis, e seguem irmãos nessa conversa. O que nenhum deles pode fazer, com o texto na mão, é chamar de vontade de Deus o domínio que nasceu do pecado.
De um jardim a outro
E a sentença de Gênesis 3 não ficou sem resposta, porque a dor, os espinhos e o suor daquele dia voltam no corpo de Jesus. O próprio Matthew Henry notou isso no mesmo comentário: o Salvador foi coroado de espinhos, como conta João 19:2. E, quando ele orava no monte das Oliveiras, o seu suor foi como gotas de sangue caindo no chão, segundo Lucas 22:44.
João conta, em 19:41, que no lugar onde Jesus foi crucificado havia um jardim, e nesse jardim um sepulcro novo. É ali, em João 20:17-18, que o Cristo ressuscitado envia Maria Madalena aos seus irmãos, e ela vai aos discípulos anunciar que viu o Senhor.
No primeiro jardim, uma mulher ouviu uma sentença de dor e de domínio. No jardim do sepulcro vazio, uma mulher recebeu do próprio Jesus a missão de anunciar a ressurreição aos discípulos. Esse é o fio que o texto oferece: em Cristo, aquilo que o pecado distorceu entre homem e mulher começa a ser refeito.
Começa, e ainda não terminou, porque a dor do parto, o suor do trabalho e o pó continuam conosco. O Apocalipse, em 22:3, guarda a promessa de um tempo em que “não haverá mais maldição alguma”. Até lá, em Cristo, a maldição começa a ser desfeita, e não perpetuada, inclusive dentro da sua casa.
Gênesis 3 anuncia dor, suor e domínio depois do pecado, e reserva a palavra maldito para a serpente e para a terra. Crisóstomo viu igualdade de honra no princípio e uma sujeição imposta como freio depois da queda. Henry viu um governo de amor antes da queda e um governo endurecido pelo pecado depois dela. O Catecismo chamou o domínio de desordem nascida do pecado e lembrou que a pena também carrega remédio. Wesley pôs o domínio dentro da sentença e o remédio no segundo Adão. E o próprio texto, lido até Paulo e até o jardim da ressurreição, mostra que a diferença vem da criação e o domínio vem da queda.
E você, como enxerga isso na sua casa, no seu trabalho e no jeito como a sua igreja ensina o casamento?
O laudo de Gênesis 3 é verdadeiro e descreve com precisão a doença que todos nós carregamos. Mas ninguém leva um laudo para casa para obedecer à doença; leva ao médico, e esse médico entrou num jardim, carregou os espinhos na cabeça e, na manhã da ressurreição, chamou uma mulher pelo nome.
- História da Igreja
- Mulheres na Igreja
- João Crisóstomo
- Queda
- Interpretação Bíblica
