
Judaísmo e cristianismo: a distância e a hostilidade
Da destruição do templo em 70 a Crisóstomo, Constantino e Agostinho: como a separação virou hostilidade
No ano 66 depois de Cristo, a província romana da Judeia entrou em guerra aberta contra Roma. Os judeus, exasperados por décadas de ocupação, impostos opressivos e provocações religiosas, pegaram em armas. Roma respondeu com força total. Em agosto do ano 70, após um cerco brutal de vários meses, as tropas do general Tito invadiram Jerusalém e queimaram o Segundo Templo.
A destruição foi devastadora para além do militar. O templo não era apenas um edifício: era o coração de toda a vida religiosa judaica, o único lugar onde poderiam ser oferecidos os sacrifícios de expiação prescritos pela Torá. Com ele em cinzas, uma pergunta teológica urgente pairava no ar: como agora se aproximar de Deus? Como obter o perdão dos pecados sem os sacrifícios?
Dois grupos que até então ainda conviviam dentro do amplo universo do judaísmo do Segundo Templo deram respostas distintas a essa mesma pergunta. E essa diferença de resposta acelerou a separação entre o que viria a ser o judaísmo rabínico e o que viria a ser o cristianismo.
Duas respostas para uma mesma crise
Os rabinos responderam à queda do templo desenvolvendo uma forma de fé centrada não no culto sacrificial, mas no estudo da Torá, na oração e nas boas obras. As tradições que antes eram transmitidas oralmente, de geração em geração, começaram a ser sistematizadas por escrito. Em torno do ano 200 depois de Cristo, o rabino Judá ha-Nasi compilou a Mishná, o primeiro grande registro escrito da Torá oral. Nos séculos seguintes surgiriam os comentários sobre a Mishná, chamados de Gemará. Juntas, Mishná e Gemará formariam o Talmude, a espinha dorsal do judaísmo rabínico até hoje.
Os seguidores de Jesus, por sua vez, responderam à queda do templo com uma interpretação diferente. A morte de Jesus na cruz era o sacrifício de expiação definitivo, perfeito e suficiente, que tornava todos os sacrifícios anteriores desnecessários. O templo havia cumprido seu propósito. A nova comunidade era o próprio templo de Deus, edificado sobre Cristo.
Essas duas respostas teológicas, em si, não precisariam ter gerado hostilidade. Mas o contexto político criou pressões que forçaram as duas comunidades a se distanciar uma da outra com rapidez crescente. Depois da destruição do templo, em 70, novas revoltas judaicas contra Roma se seguiram: a guerra de Kitos, entre os anos 115 e 117, e a revolta de Bar Kochba, entre 132 e 135. Cada fracasso resultava em novas punições coletivas, impostos punitivos e restrições impostas por Roma sobre todos os judeus, independentemente de terem participado dos levantes ou não.
Nesse clima, os cristãos gentios, a maioria não judia, tinham cada vez mais razão para evitar qualquer associação com esse grupo politicamente suspeito. E os judeus que não criam em Jesus tinham igual incentivo para se distanciar dos seguidores de um mestre que havia sido crucificado como agitador pelo Estado romano. A separação avançou menos por decisão teológica e mais por sobrevivência política.
O nascimento da hostilidade cristã
Ao longo do século dois, algo novo e preocupante começou a surgir dentro do cristianismo: uma literatura teológica voltada contra os judeus. Os historiadores a chamam de Adversus Iudaeos, “contra os judeus”. Textos como o Diálogo com Trifão, de Justino Mártir, e os escritos de Tertuliano se apresentavam como debates com judeus, mas eram, na prática, textos destinados a unificar as comunidades cristãs em torno de uma identidade definida em oposição ao judaísmo. Nesses textos, os judeus eram retratados como teimosos, carnais, incapazes de compreender suas próprias Escrituras e condenados por Deus em razão de sua rejeição ao Messias.
Já nesse período, a frase de Mateus 27:25, “Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos”, começou a ser lida de forma distorcida, como se fosse a confissão de culpa coletiva de toda a nação judaica por todos os tempos. O texto registra a fala de uma multidão, naquele momento, assumindo a responsabilidade por uma decisão; foi transformado em prova da culpa hereditária dos judeus pela morte de Cristo.
Por volta do ano 170, o bispo Melito de Sardes escreveu, em um sermão pascal, que o Soberano foi insultado, que Deus foi assassinado, que o Rei de Israel foi posto à morte por mãos israelitas. Essa acusação, a de que o povo judeu como um todo era culpado pelo assassinato de Deus, ecoaria pelos séculos, sendo repetida por papas, patriarcas, pregadores e leigos, de príncipes cultos a camponeses analfabetos.
Acontece que isso contradiz diretamente o testemunho dos próprios Evangelhos: Jesus morreu por decisão de uma autoridade romana, e o próprio Paulo esclarece que foi a humanidade como um todo (“todos pecaram”, Romanos 3:23) que necessitava da expiação oferecida na cruz.
O segundo elemento teológico problemático que emergiu nesse período foi o supersessionismo. Segundo essa visão, o evangelho substituiu a Torá, a nova aliança anulou a aliança mosaica e os cristãos tomaram o lugar dos judeus como povo de Deus. Mas isso contrariava frontalmente os escritos do próprio Paulo, o apóstolo dos gentios, que insistia na fidelidade de Deus às promessas feitas a Israel. “Os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis”, afirmava ele (Romanos 11:29), e concluía com a declaração esperançosa: “todo o Israel será salvo” (Romanos 11:26). A oliveira de Paulo tinha um só tronco, Israel, e nele os gentios foram enxertados: não no lugar dos ramos naturais, mas junto com eles.
Crisóstomo e a retórica que deixou marcas
No final do século quatro, um dos pregadores mais talentosos do mundo cristão levou essa hostilidade a um novo patamar: João Crisóstomo, cujo epíteto grego significa “boca de ouro”. Era presbítero em Antioquia, onde pregou entre os anos 386 e 397, antes de se tornar bispo de Constantinopla. Era genuinamente eloquente, social e moralmente sério: defendia os pobres, criticava o abuso do poder clerical, e sua famosa homilia pascal ainda é lida em igrejas orientais até hoje.
Mas, no começo de seu ministério em Antioquia, ele pregou uma série de oito sermões chamados Adversus Iudaeos, “contra os judeus”. O alvo imediato não eram os judeus em si, mas cristãos de Antioquia que frequentavam as sinagogas, observavam festas judaicas e até enviavam suas esposas para escutar o shofar no Rosh Hashaná. Crisóstomo ficou alarmado com essa mistura religiosa e reagiu com uma retórica de dureza impressionante, interpretando Jeremias 12:7-9 e João 8:19 como provas de que Deus havia abandonado as sinagogas. Ele declarou: “Certamente é hora de mostrar que demônios habitam a sinagoga, não só o lugar em si, mas também as almas dos judeus.” Em outra passagem: “Eu odeio os judeus, pois eles têm a Lei e a insultam.”
É preciso dizer com honestidade: Crisóstomo usava a hipérbole retórica comum no mundo greco-romano, e seu alvo pastoral eram os cristãos de sua congregação que estavam sendo atraídos para práticas judaicas. Mas as palavras que deixou escritas sobreviveram ao seu contexto. Séculos depois, propagandistas nazistas citaram e divulgaram esses sermões para justificar o ódio antissemita. As palavras de um pregador do século quatro tornaram-se combustível para o maior genocídio do século vinte.
Constantino e Agostinho: o Estado entra em cena
Em 313 depois de Cristo, o imperador Constantino legalizou o cristianismo no Império Romano. Em 380, o imperador Teodósio o declarou religião oficial do Estado. Em poucas décadas, a fé que havia sido perseguida tornou-se poder, e com o poder vieram novas tentações.
- Em 315, Constantino proibiu os judeus de fazerem prosélitos.
- Em 325, o Concílio de Niceia separou a data da Páscoa cristã do calendário judaico, uma decisão teológica com uma clara mensagem de distanciamento.
- Em 388, uma multidão liderada por clérigos destruiu uma sinagoga em Calínico, na atual Síria. O imperador Teodósio ordenou que o bispo local ajudasse a reconstruí-la. O bispo Ambrósio de Milão, uma das maiores vozes da Igreja naquele tempo, respondeu furioso, chamando a sinagoga de “morada de incredulidade, casa de impiedade, receptáculo de loucura que o próprio Deus condenou”. A sinagoga não foi reconstruída. O precedente estava estabelecido.
Até Agostinho de Hipona, que nos séculos quatro e cinco desenvolveu uma posição mais moderada, enquadrou os judeus como figuras de uma narrativa cristã, e não como um povo com identidade e propósito próprio perante Deus. Agostinho os chamava de “carregadores de livros”, úteis para o cristianismo porque preservavam as Escrituras, mas no erro, por não reconhecerem Jesus. Com base no Salmo 59:11, “não os mates, para que o meu povo não se esqueça”, ele argumentava que os judeus deveriam ser tolerados, mas humilhados, como testemunha viva do fracasso de não reconhecer o Messias. Essa doutrina da testemunha governaria a política da Igreja em relação aos judeus por séculos: uma tolerância condicional, que oferecia proteção limitada, mas negava a dignidade plena.
O padrão estava formado. Dois grupos que haviam nascido do mesmo tronco, lido as mesmas Escrituras e esperado pelo mesmo Deus de Abraão, como vemos em Romanos 4:1-3 e Gálatas 3:7-9, agora se olhavam com crescente desconfiança e, em alguns círculos cristãos, com ódio declarado. O pior, porém, ainda estava por vir.
As pedras foram assentadas
Bem, agora você já entende como a separação entre cristãos e judeus passou do campo teológico para o campo político e jurídico. Você viu como o supersessionismo, a ideia de que a Igreja substituiu Israel, contradiz diretamente o que Paulo escreveu em Romanos 11. Você ouviu as palavras de João Crisóstomo contra os judeus e viu que, quinze séculos depois, elas seriam usadas como propaganda nazista. E percebeu que Agostinho, mesmo sendo mais moderado, encaixou os judeus numa narrativa cristã que os destituía de dignidade.
As pedras foram assentadas. Na próxima parte, veremos o que foi construído sobre elas: as Cruzadas e os massacres nas cidades do Reno, o libelo de sangue, a peste negra e o bode expiatório, os guetos medievais, a Inquisição espanhola, a expulsão de 1492, o tratado de Lutero que os nazistas imprimiram como panfleto e, por fim, o silêncio de uma Igreja diante de seis milhões de mortos.
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