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Por que Pilatos entregou um inocente? Agostinho e Calvino

A pedra de Cesareia, Tácito, Josefo, Fílon e João 18: quem foi Pilatos e como Agostinho e Calvino leram a culpa dele

Diego Gonçalvesatualizado 9 min de leitura1.776 palavras

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Em 1961, no teatro romano de Cesareia, arqueólogos italianos viraram uma pedra reaproveitada e leram nela, em latim, o nome de Pôncio Pilatos. Quem era, de fato, o homem que perguntou a Jesus: que é a verdade?

Estamos na Judeia do primeiro século, uma província pequena e inquieta de Roma. Ela era governada a partir de Cesareia por um oficial do imperador Tibério, e para conhecer esse oficial temos cinco testemunhas que nunca escreveram juntas: uma pedra, dois escritores judeus, um historiador romano e um evangelista.

A pedra de Cesareia

Volte à pedra. As letras estão gastas e incompletas, mas quem as leu encontrou três linhas: uma palavra ligada ao nome de Tibério, depois o nome de Pilatos e, embaixo, o título que ele usava, prefeito da Judeia. Prefeito, nesse tempo, era o homem de confiança do imperador numa província menor, com o comando das tropas e o poder de julgar os casos de vida e morte.

A pedra parece ter pertencido a um edifício dedicado ao imperador, e isso já conta alguma coisa sobre o governador, porque ele gravou o próprio nome ao lado do nome de César, numa cidade construída para homenagear Roma. Antes de 1961, nenhum objeto da época trazia o nome de Pilatos com o seu cargo, e essa pedra continua sendo o testemunho mais direto que temos dele.

Tácito, Josefo e Fílon

Agora atravesse o mar até Roma, por volta do ano 116, onde o senador Tácito escrevia os Anais, a história dos imperadores. Ao contar o grande incêndio que tinha devastado a cidade décadas antes, ele explicou de onde vinha o nome dos cristãos e escreveu que Cristo, o fundador, tinha sofrido a pena capital no governo de Tibério, por ordem do procurador Pôncio Pilatos.

Tácito não gostava dos cristãos. No mesmo parágrafo, ele chama a fé deles de superstição perniciosa, e é exatamente por isso que o seu testemunho pesa, porque vem de alguém que não tinha nenhum interesse em confirmar o Evangelho. Ele usa o título de procurador, que era o nome do cargo no tempo dele, enquanto a pedra guarda o título do tempo do próprio Pilatos.

A pedra e o senador fixam o mesmo ponto: Pilatos governou a Judeia sob Tibério, e um homem chamado Cristo morreu por sentença dele. Resta saber que tipo de homem estava sentado naquela cadeira.

Para isso entram duas testemunhas judaicas, e nenhuma delas gostava do governador. A primeira é Flávio Josefo, um sacerdote de Jerusalém que lutou contra Roma na grande revolta, foi capturado e terminou a vida em Roma, escrevendo a história do seu povo sob a proteção dos imperadores.

Josefo conta que Pilatos, logo no começo do governo, mandou as tropas entrarem em Jerusalém à noite levando estandartes com a imagem de César, coisa que os governadores anteriores evitavam por respeito à lei judaica contra as imagens. Uma multidão desceu até Cesareia e ficou cinco dias e cinco noites diante da residência do governador, pedindo que as imagens saíssem da cidade santa.

No sexto dia, segundo Josefo, Pilatos cercou o povo com soldados de espada na mão e ameaçou matar todos. Os judeus se jogaram no chão, ofereceram o pescoço e disseram que preferiam morrer a ver a lei violada. O governador, espantado com aquela firmeza, mandou retirar os estandartes.

Josefo conta ainda que Pilatos usou o dinheiro sagrado do Templo para construir um aqueduto e que, quando a multidão protestou, mandou soldados vestidos como gente comum para o meio dela, armados de porretes, e muitos morreram. É o retrato de um homem que provoca, endurece e às vezes recua.

A segunda testemunha é mais dura. Fílon, um filósofo judeu já idoso, foi a Roma por volta do ano 40 para defender o seu povo diante do imperador, e no livro em que contou essa viagem ele descreve Pilatos como inflexível por natureza, teimoso e cruel, acusado de subornos, insultos, roubos e execuções sem julgamento.

Mas pense em quem escreve e para quem. Fílon queria convencer um imperador perigoso de que perseguir os judeus era um erro, e a lista de crimes de um governador romano servia bem a essa defesa. Isso não torna a lista falsa, mas pede que você a leia como peça de acusação.

E no meio dela Fílon registra um detalhe. Quando Pilatos pendurou escudos dourados com o nome de Tibério no palácio de Jerusalém e os líderes judeus ameaçaram mandar uma embaixada ao imperador, o que mais o assustou foi a possibilidade de que essa embaixada contasse a César o resto do seu governo. Tibério, ao saber do caso, mandou tirar os escudos de Jerusalém.

O fim, segundo Josefo, veio depois de dez anos na Judeia. Uma matança de samaritanos fez o governador da província vizinha mandar Pilatos a Roma para prestar contas, e o retrato que vem de fora fica completo: um homem duro com o povo e com medo de uma só pessoa no mundo, o imperador.

Pilatos diante de Jesus

Agora entre no Pretório, a residência do governador em Jerusalém, na madrugada antes da Páscoa, por volta do ano 30. João conta que os acusadores não quiseram entrar no palácio de um pagão, e por isso Pilatos andava de dentro para fora, entre o réu e a multidão.

Lá dentro, ele chama Jesus e pergunta, como está em João 18, a partir do versículo 33: “Você é o rei dos judeus?”. Jesus responde que o seu Reino não é deste mundo e diz: “Por esta razão nasci e para isto vim ao mundo: para testemunhar da verdade. Todo aquele que é da verdade me ouve.”

E então vem a frase do versículo 38: “Que é a verdade?”, perguntou Pilatos. João não registra resposta, porque o governador não esperou. Ele saiu de novo para onde estavam os acusadores e disse: “Não acho nele motivo algum de acusação.” Marcos, no capítulo 15, acrescenta que diante do silêncio de Jesus, Pilatos ficou impressionado.

Você pode estar pensando: “Esse Pilatos que hesita não combina com o homem de Fílon; será que os cristãos amaciaram o governador para não brigar com Roma?” É a objeção mais séria, e merece resposta. O mesmo João conta que Pilatos mandou açoitar o réu que tinha declarado inocente e, no fim, o entregou para ser crucificado.

E João registra, no capítulo 19, o grito que encerrou a hesitação: “Se deixares esse homem livre, não és amigo de César.” É o mesmo medo que Fílon tinha registrado anos antes, o medo de uma denúncia diante do imperador. O Pilatos de Josefo e o de João são o mesmo homem: um visto de fora, pelo que fez com o povo, e o outro visto de dentro da sala, pelo que fez diante de Jesus.

Naquela manhã, o governador declarou o réu sem culpa e o entregou à cruz.

Agostinho e Calvino

Por que um juiz entrega quem ele mesmo declarou inocente? O bispo Agostinho, no norte da África, pregou ao seu povo, no começo do século quinto, uma longa série de sermões sobre o Evangelho de João. Diante da frase “o meu Reino não é deste mundo”, ele faz Jesus falar aos reis da terra: ouçam, judeus e gentios, eu não atrapalho o domínio de vocês neste mundo.

Para Agostinho, Pilatos teve medo de um rival que não existia. E quando chega à frase de Jesus em João 19:11, de que aquele que o entregou a Pilatos tinha um pecado maior, Agostinho não deixa o governador escapar: a culpa dele é menor, mas continua sendo dele. Essa leitura agostiniana ficou como herança comum de católicos, luteranos e reformados.

Mil e cem anos depois, o reformador João Calvino publicou o seu comentário ao Evangelho de João. Ele lê a pergunta de Pilatos como desdém de quem trata a verdade como assunto de gente ociosa, e não como curiosidade sincera. Diante da entrega, Calvino lembra a oração dos apóstolos em Atos 4:27-28: Herodes e Pôncio Pilatos se reuniram contra Jesus e “fizeram o que o teu poder e a tua vontade haviam decidido de antemão que acontecesse”.

Onde os dois se separam? Pouco, e é honesto dizer isso, porque os dois condenam Pilatos e os dois veem Deus por trás da cruz. Agostinho olha para dentro do governador e mede a culpa de um homem com medo de perder um reino que Jesus nem disputava. Calvino olha para cima e mostra que até a covardia de um governador ficou nas mãos de Deus, sem deixar de ser covardia.

O texto de Atos sustenta as duas coisas na mesma frase: eles conspiraram, e fizeram o que Deus tinha decidido. E aqui o texto confronta também a nós, porque a pergunta que Pilatos fez sem esperar resposta é a mesma que muitos de nós fazemos quando a resposta custa caro demais.

A Verdade diante de Pilatos

A resposta estava na sala. Poucas horas antes, no mesmo Evangelho, Jesus tinha dito aos discípulos, em João 14:6: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” Pilatos perguntou o que é a verdade com a Verdade de pé diante dele, de mãos amarradas, e saiu da sala.

A primeira carta a Timóteo lembra que Cristo Jesus, “diante de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão” (1 Timóteo 6:13). A Igreja nunca esqueceu esse nome. Os credos que católicos, ortodoxos e protestantes confessam até hoje dizem que Cristo padeceu sob Pôncio Pilatos, e o nome do governador ficou no centro da fé por um motivo simples: ele data a cruz num tempo e num lugar que a pedra e o senador romano confirmam.

Volte agora à pedra de Cesareia. Ela guarda o nome de Pilatos ao lado do nome de Tibério, e esse era o lugar onde ele queria estar. As testemunhas de fora mostram um governador duro, que temia o imperador acima de tudo; o Evangelho mostra esse mesmo homem diante da verdade em pessoa, entregando-a para continuar amigo de César.

Mateus conta que ele lavou as mãos diante da multidão. A verdade não mudou por isso. Três dias depois, o túmulo estava vazio, e o réu que Pilatos entregou continua sendo a verdade, mesmo quando o poder finge não vê-lo.

Publicado em 15 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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  • As Institutas da religião cristãJoão Calvino · 1ª ed. 1536; ed. definitiva 1559

    Nasceu como um catecismo para defender os protestantes franceses perseguidos e cresceu até a edição de 1559, em quatro livros. É a obra teológica mais influente da Reforma e a…

  • A Cidade de DeusAgostinho de Hipona · 354–430

    Escrita depois do saque de Roma (410), responde aos pagãos que culpavam os cristãos. Agostinho lê toda a história como a de duas cidades, formadas por dois amores, misturadas…

  • A TrindadeAgostinho de Hipona · 354–430

    A grande obra trinitária do Ocidente. Agostinho procura imagens da Trindade na alma humana, como memória, inteligência e vontade.

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