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A perseguição de Diocleciano: por que Roma atacou em 303?

Nicomédia, Lactâncio, Eusébio e o édito de Galério: do incêndio das Escrituras em 303 ao clamor dos mártires

Diego Gonçalvesatualizado 10 min de leitura1.988 palavras

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Ao amanhecer de 23 de fevereiro de 303, soldados arrombaram a igreja de Nicomédia e queimaram as Escrituras, enquanto o imperador e o seu césar olhavam tudo de uma janela do palácio. Por que Diocleciano, que deixou os cristãos em paz por quase vinte anos, mandou fazer isso?

Nicomédia era a capital de Diocleciano. Ele era um soldado de origem humilde, nascido na costa do Adriático, que governava desde 284 e tinha dividido o poder com mais três homens para manter o império de pé. Naquela manhã, estava em jogo uma coisa simples de dizer: se dentro desse império reconstruído ainda cabia quem se recusava a oferecer sacrifício aos deuses de Roma.

Quarenta anos de paz

Nas cidades do Oriente romano, por volta do ano 300, igrejas novas e maiores subiam ao lado dos templos. Desde 260, quando um imperador devolveu às comunidades cristãs os seus lugares de culto, havia mais de quarenta anos de paz. Eusébio, um estudioso cristão de Cesareia, cresceu nesse tempo. Na sua história da Igreja, ele conta que havia cristãos governando províncias e servindo no palácio, e que as igrejas antigas já não davam conta das multidões.

Eusébio, porém, não pinta esses anos só com as cores da vitória. Ele era um homem de dentro da Igreja, escrevendo poucos anos depois, e confessa que a liberdade trouxe preguiça e inveja, com pastores disputando posições como quem disputa um cargo. Por isso ele lê a perseguição que veio depois como disciplina de Deus sobre uma Igreja acomodada. É uma frase dura, e ela alcança também a nós, que costumamos tomar a tranquilidade como prova de que tudo vai bem.

Lactâncio e a primeira rachadura

Numa sala de aula de Nicomédia, nesses mesmos anos, um professor africano ensinava retórica latina, chamado à capital pelo próprio imperador. O nome dele era Lactâncio, e ele estava na cidade quando a fumaça subiu.

A primeira rachadura apareceu diante de um altar. Lactâncio conta que, num sacrifício oficial, os arúspices, isto é, os sacerdotes que liam o futuro nas entranhas dos animais, não encontraram os sinais de costume. O chefe deles culpou os servos cristãos que estavam ao lado do imperador e faziam o sinal da cruz. Diocleciano mandou que todo o palácio sacrificasse, e depois os soldados, sob pena de perderem a farda.

Não houve mortes naquele dia, mas, a partir dele, ser cristão no exército de Roma passou a ter um preço.

Galério, Diocleciano e o oráculo

No inverno de 302, Galério, o césar que guardava as fronteiras do Oriente, veio passar a estação em Nicomédia. Como uma limpeza no quartel virou uma guerra contra a Igreja inteira? Lactâncio, que odiava Galério e escreveu depois da morte dele, diz que os dois passaram o inverno em conversas fechadas. Segundo ele, Galério pedia sangue, e Diocleciano resistia, porque achava perigoso perturbar o mundo e sabia que os cristãos aceitavam morrer.

Você pode estar pensando: “então foi só o ódio de um homem”. A explicação romana é mais séria do que isso. Para Roma, a paz do império dependia da paz com os deuses, mantida pelos ritos antigos, e quem se recusava a sacrificar deixava de ser apenas diferente e passava a ser um risco para todos. Poucos anos antes, numa lei contra os maniqueus, uma seita vinda da Pérsia, o próprio Diocleciano escreveu que era um crime gravíssimo desfazer o que os antigos haviam estabelecido. A ideia já estava na cabeça do imperador antes de Galério chegar.

Lactâncio acrescenta mais uma etapa. Diocleciano ouviu conselheiros e oficiais e, por fim, mandou consultar um oráculo de Apolo, e a resposta veio contra os cristãos.

A porta arrombada e os éditos

A data escolhida foi a festa de Término, o deus romano dos limites, e Lactâncio não deixa passar a ironia de que aquele dia foi marcado para pôr um limite à fé. Os oficiais forçaram as portas, procuraram uma imagem de deus e não encontraram nenhuma, e queimaram os livros. Galério queria pôr fogo no prédio inteiro. Diocleciano temeu que as chamas pegassem nas casas ricas em volta, e a guarda do palácio derrubou a igreja a machado em poucas horas.

No dia seguinte, o édito foi afixado na cidade. Ele mandava destruir as igrejas e entregar as Escrituras para o fogo, e tirava dos cristãos de posição os seus privilégios e a proteção contra a tortura. Eusébio conta que um cristão de alta posição arrancou o papel da parede, zombando das vitórias do imperador, e foi executado. Pouco depois o palácio pegou fogo duas vezes em quinze dias. Lactâncio acusa Galério de ter mandado atear o fogo, e os servos cristãos pagaram a conta.

Os éditos vieram um atrás do outro. Ainda em 303, uma ordem mandou prender o clero, e Eusébio diz que as prisões ficaram tão cheias de bispos, presbíteros e leitores que já não sobrava lugar para os criminosos. No começo de 304, um quarto édito exigiu que todos, em cada cidade, oferecessem sacrifício.

Em pouco mais de um ano, a lei que começou com livros queimados chegou ao altar de cada praça do império.

O Ocidente e o Oriente

Na Gália, o césar era Constâncio Cloro, e ali a mesma ordem pesou de outro jeito. Lactâncio escreve que ele deixou derrubar paredes de igrejas, que podiam ser reconstruídas, mas preservou o verdadeiro templo de Deus, que são as pessoas. Eusébio vai mais longe e afirma que Constâncio não tocou nem nas paredes. As duas testemunhas discordam no detalhe e concordam no essencial: naquela parte do Ocidente, ninguém foi obrigado a escolher entre o altar e a vida.

O Ocidente, porém, não era todo igual. No norte da África, a província tinha um governante bem mais duro que Constâncio. Em 19 de maio de 303, um funcionário da cidade de Cirta entrou na igreja e mandou fazer um inventário. A ata sobreviveu porque foi lida num tribunal anos depois, e ela lista cálices, lâmpadas e uma pilha de túnicas e sapatos guardados para os pobres. Era isso que o império confiscava. A Carta aos Hebreus, capítulo 10, versículo 34, lembra cristãos que aceitaram com alegria o confisco dos seus bens, e em Cirta essa frase ganhou um endereço.

No Oriente de Galério, a perseguição foi mais longa e mais dura. Eusébio afirma ter visto execuções em massa no sul do Egito. Na sua própria cidade, ele viu o seu mestre, um presbítero, passar dois anos na prisão antes de ser morto, em 310. Eusébio registrou esses nomes num livro sobre os mártires da Palestina, escrito para que não fossem esquecidos.

A abdicação e o édito de 311

Em 1º de maio de 305, numa colina perto de Nicomédia, Diocleciano tirou o manto púrpura diante das tropas e deixou o poder, cansado e doente. Constâncio assumiu o comando do Ocidente, e ali a perseguição foi apagando nos meses seguintes. No Oriente, agora nas mãos de Galério, ela ainda tinha seis anos pela frente.

Em 30 de abril de 311, um novo édito foi afixado em Nicomédia, a mesma cidade onde tudo tinha começado. Quem assinava era Galério, preso a uma doença longa e terrível, e o texto, preservado por Lactâncio e por Eusébio, é a voz do próprio perseguidor.

Ali Galério conta por que tudo aquilo foi feito: o império quis corrigir tudo segundo as leis antigas e a disciplina pública dos romanos, e trazer de volta ao bom senso os cristãos que haviam abandonado a religião dos antepassados. Ele admite que muitos resistiram e que o plano falhou. Então permite que os cristãos voltem a se reunir e pede que orem ao seu Deus pela saúde do imperador e do Estado. Galério morreu poucos dias depois. No Oriente, o seu sucessor ainda tentou reacender a perseguição, mas isso já é outra história.

Esta é a resposta à pergunta da porta arrombada. Diocleciano atacou porque acreditava que o império só ficaria de pé se voltasse aos deuses dos antigos, e uma Igreja que crescia dentro do palácio e do exército deixou de caber nesse projeto. Galério empurrou, o oráculo autorizou, e a ideia era do próprio imperador.

O “até quando” dos mártires

O professor de retórica que viu a fumaça em 303 escreveu, poucos anos depois, um livro chamado Sobre a morte dos perseguidores. Lactâncio abre o livro dizendo que o Senhor ouviu as orações do seu povo, e depois conta, um a um, o fim de cada imperador que perseguiu a Igreja. Eusébio, já bispo de Cesareia, fechou a sua história com igrejas sendo reconstruídas e um hino de ação de graças. Para os dois, a resposta de Deus ao sofrimento dos mártires tinha chegado e estava escrita na história.

Os dois estavam ecoando uma pergunta muito mais antiga. Em Apocalipse 6:9-11, o apóstolo vê, debaixo do altar, as almas dos que foram mortos por causa da palavra de Deus. Elas clamam a Deus em alta voz.

“Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue?”

Cada uma delas recebe uma veste branca. O texto diz que lhes mandaram esperar um pouco mais, até que se completasse o número dos seus irmãos.

Mil e duzentos anos depois, um monge alemão que tinha virado reformador leu o mesmo capítulo. Num prefácio de 1522, Martinho Lutero confessou que não conseguia encontrar Cristo nesse livro. Em 1530, ao reescrever o prefácio, já o lia como a história das provações da Igreja e encontrava nele um consolo: com todas as pragas, Cristo continua com os seus santos e a Igreja não perece.

O bispo e o reformador ouviram respostas diferentes ao “até quando”. Lactâncio e Eusébio apontaram para os tiranos derrubados e para a paz que veio. Lutero apontou para uma Igreja guardada no meio da tribulação, sem um imperador amigo para garantir nada. O texto dá razão aos dois, mas na ordem certa. O juízo virá, e o Apocalipse promete isso com todas as letras. Antes do juízo, porém, vem a veste branca, e o prazo continua nas mãos de Deus. O risco da leitura dos pais, que é também o nosso, é medir a fidelidade de Deus pela queda dos inimigos e pela chegada de governantes simpáticos. Mateus 24:13 guarda a promessa para quem persevera até o fim, e não para quem vê o fim do perseguidor.

E há um detalhe que muda tudo nessa cena. Quem abre o quinto selo é o Cordeiro que, um capítulo antes, aparece como quem tinha estado morto e está de pé. O Senhor a quem os mártires clamam também derramou o seu sangue, foi morto por testemunhar a verdade e venceu a morte ressuscitando. O clamor deles sobe a alguém que conhece aquela dor por dentro. A veste branca que recebem é o primeiro sinal da vitória que ele já conquistou.

Por isso a perseguição mais dura da história de Roma teve um limite. Esse limite não foi marcado por Diocleciano nem por Galério, foi marcado por Deus, que sabe quanto dura o “um pouco mais”. O clamor dos que sofrem por Cristo não fica sem resposta, mesmo quando a resposta demora.

Lembre a manhã de 303, com a porta arrombada e os livros no fogo diante do palácio. Oito anos depois, naquela mesma cidade, Galério, o perseguidor mais feroz, afixou um papel pedindo que os cristãos orassem por ele. Diocleciano atacou para devolver o império aos deuses antigos, e o resultado foi o seu sucessor pedindo as orações da Igreja que os dois tinham tentado apagar.

Publicado em 13 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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