
O anabatista que voltou pelo gelo para salvar quem o caçava
Crisóstomo, Lutero e Dirk Willems diante da injustiça: pedir justiça, não revidar e entregar a conta a Deus.
Seu nome some da escala do ministério, o grupo da igreja fica em silêncio e ninguém nunca explica por quê. Quando a igreja fere você e ninguém presta contas, perdoar significa desistir da justiça?
Essa ferida é muito mais antiga do que o grupo de mensagens.
Crisóstomo: pedir justiça e bendizer a Deus
No ano 403, o bispo de Constantinopla era o pregador mais famoso do Oriente, um homem que o povo chamava de Crisóstomo, isto é, “boca de ouro”. João Crisóstomo (c. 347–407) foi deposto por um sínodo, ou seja, uma reunião de bispos, e mandado para o exílio. O povo protestou nas ruas, e ele voltou em poucos dias. No ano seguinte foi exilado de novo, agora para uma vila remota nas montanhas da Armênia. Em 407, velho e doente, morreu na estrada, enquanto os soldados o levavam para um lugar ainda mais distante.
Ele fez duas coisas com essa ferida, e é preciso ver as duas juntas. A primeira foi pedir justiça. Do exílio, escreveu a Inocêncio, bispo de Roma, contando o que tinha acontecido e pedindo um julgamento honesto, sem fingir que estava tudo bem. A segunda foi escrever um pequeno tratado, ainda longe de casa, com um título que provoca até hoje: Ninguém é prejudicado a não ser por si mesmo. Nele, Crisóstomo argumenta que o inimigo pode tirar o seu cargo, a sua casa e a sua saúde, mas só tira a sua fidelidade se você entregar. Paládio, amigo e biógrafo dele, conta que as últimas palavras do bispo foram “Glória a Deus por todas as coisas”. Ele pediu justiça e bendisse a Deus, e essa combinação é admirável.
Talvez você esteja pensando: “Isso é bonito, mas é conformismo. Se toda vítima perdoa e ninguém cobra, quem abusa continua abusando, e a igreja aprende que pode ferir de graça.” A objeção é séria, porque muita injustiça na igreja foi abafada justamente com a palavra perdão.
Perdoar funciona como passar uma dívida para a Justiça em vez de ir cobrar na porta do devedor com um pedaço de pau. A dívida continua registrada, e só muda quem cobra. É exatamente o que Paulo escreve em Romanos 12:19: “Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor.” Paulo não diz que a injustiça não importa. Ele diz que existe um juiz, e que esse juiz não é você.
Crisóstomo mostra que dá para viver esse versículo sem ingenuidade: ele chamou a injustiça pelo nome, pediu um julgamento justo e se recusou a deixar o rancor governar o resto da vida. Perdoar não apaga a conta, mas tira a cobrança das suas mãos e a entrega a Deus.
Lutero e os anabatistas: lutar ou sofrer?
E quando a injustiça não para no exílio e chega ao fogo, o que é mais fiel, lutar ou sofrer? A Reforma deu duas respostas diferentes a essa pergunta.
Em 1520, o papa Leão X publicou uma bula, um documento oficial selado, que ameaçava Martinho Lutero (1483–1546) de excomunhão, isto é, de ser expulso da comunhão da igreja, se não se retratasse. Em dezembro, diante dos portões de Wittenberg, Lutero jogou a bula no fogo. Em janeiro de 1521 veio a excomunhão e, em abril, diante da assembleia do império em Worms, ele se recusou a retirar o que tinha escrito, porque a consciência dele estava presa à Palavra de Deus. Foi declarado fora da lei e escondido no castelo de Wartburg, e ali traduziu o Novo Testamento para o alemão. Lutero lutou, com a pena e com a consciência, e ficou de pé.
Os anabatistas seguiram outro caminho. O nome quer dizer “rebatizadores”, porque eles batizavam adultos que tinham sido batizados quando bebês. Foram perseguidos por católicos, por luteranos e por reformados. Nós, protestantes, gostamos de contar a Reforma como a história dos perseguidos, mas ela também é a história de perseguidores, e em 1536 o próprio Lutero assinou um parecer dos teólogos de Wittenberg que aceitava a pena de morte para anabatistas. A honestidade também vale para o outro lado: em Münster, entre 1534 e 1535, um grupo anabatista tomou a cidade pelas armas, e a maioria dos anabatistas depois rejeitou esse caminho.
Dirk Willems no gelo
Em 1569, em Asperen, na Holanda, então sob o domínio da Espanha católica, um anabatista chamado Dirk Willems estava preso por causa da fé. Ele fugiu descendo por uma corda de panos amarrados e correu sobre a água congelada. O homem que o perseguia entrou no gelo atrás dele, o gelo quebrou, e ele afundou gritando por socorro. Dirk voltou e o tirou da água. O perseguidor quis soltá-lo, mas o burgomestre, isto é, o prefeito da cidade, lembrou a ele o juramento que tinha feito, e Dirk foi levado de volta à prisão. Em maio daquele ano, foi queimado. O relato não diz o que passou pela cabeça dele naquele instante, só mostra o que ele fez.
A história está no Espelho dos Mártires, que o pastor menonita Thieleman van Braght publicou em 1660 para guardar a memória dos anabatistas mortos. No prefácio, ele avisa o leitor que não o levará a teatros de comédia, mas a vales escuros, e mesmo assim diz que a alma se alegrará com o que vai ver. Os anabatistas lembravam a injustiça sem transformar a memória em vingança.
Falar a verdade sem revidar
Talvez você esteja pensando: “Isso é ingênuo. Se Lutero tivesse ficado quieto como um mártir, o evangelho continuaria enterrado.” A objeção tem força, porque a verdade às vezes precisa de alguém de pé. Paulo, porém, continua o mesmo trecho em Romanos 12:20-21: “Pelo contrário: ‘Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber’. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem.”
O texto não manda calar a verdade, mas proíbe o revide. Lutero acertou ao se recusar a negar a Palavra diante do império, porque falar a verdade não é vingança. A casa que ele ajudou a construir errou quando chamou a espada contra irmãos, e os de Münster erraram pelo mesmo caminho. Dirk, no gelo, cumpriu quase palavra por palavra o que Romanos pede. Por isso, quando a pergunta é se o certo é lutar ou sofrer, a resposta do texto é lutar pela verdade com a palavra e nunca revidar com a mão.
Romanos 8:28 não serve para calar ninguém
O mesmo vale para o versículo que tanta gente usa para encerrar a conversa com quem foi ferido, Romanos 8:28: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.” O versículo seguinte diz qual é esse bem, que é sermos “conformes à imagem de seu Filho”. Poucas linhas depois, Paulo lembra que os cristãos são considerados “como ovelhas destinadas ao matadouro”. Ele escreveu essa promessa para gente perseguida.
O versículo não diz que o que fizeram com você foi bom. Diz que Deus vai usar até isso para fazer você parecido com Jesus. Quem usa Romanos 8 para calar uma vítima está usando Paulo contra Paulo, e nós já fizemos isso mais vezes do que gostaríamos de admitir.
Jesus é a medida
O próprio Jesus é a medida. Pedro escreve, em 1Pedro 2:23, que, “quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça”. O Filho de Deus foi condenado pelas autoridades religiosas do seu povo e não fingiu que era justo. Ele entregou a causa ao Pai, e o Pai respondeu na ressurreição.
Então, perdoar é desistir da justiça? Perdoar é entregar a conta a Deus e recusar a vingança, sem nunca fingir que o mal foi justo. Se o seu nome sumiu de alguma escala e o grupo ficou em silêncio, diga a verdade a quem precisa ouvir e entregue o resto a Deus. Não deixe que a ferida decida quem você vai ser.
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