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HistóriaLucas

Tibério César: o poder, a suspeita e a sombra da cruz

O peso do poder e a sombra da cruz no tempo de Jesus

Diego Gonçalves5 min de leitura991 palavras

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Neste texto

Quando César Augusto morreu no ano 14 depois de Cristo, Roma mergulhou num silêncio pesado. Durante quatro décadas, Augusto havia sido o rosto inquestionável da ordem, o arquiteto do império e o restaurador da estabilidade. Com o trono vago, a grande questão política não era apenas quem assumiria o comando, mas se o Império Romano sobreviveria à perda do seu fundador. O Senado entregou a púrpura imperial a Tibério, um general brilhante no campo de batalha, mas um homem profundamente amargo, desconfiado e isolado.

Tibério nunca foi a primeira escolha de Augusto. Ele era o herdeiro que sobrou. Todos os favoritos mais jovens, os netos e parentes queridos que Augusto treinou para a sucessão, morreram prematuramente de doenças ou em circunstâncias suspeitas na corte. Sobrou Tibério, filho do primeiro casamento de Lívia (esposa de Augusto). Forçado a se divorciar da mulher que realmente amava para se casar por conveniência política com Júlia, a escandalosa filha do imperador, Tibério cresceu em um ambiente palaciano onde afeto era fraqueza e cada sorriso podia esconder uma conspiração.

Busto de mármore do imperador romano Tibério, de rosto sério e cabelo curto em mechas sobre a testa
Busto do imperador Tibério, século I. Ny Carlsberg Glyptotek, Copenhague. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O governo da suspeita e o terror de Sejano

Ao contrário do padrasto carismático, Tibério detestava a adulação do Senado e desprezava a multidão de Roma. Ele governou com uma disciplina militar austera, organizou as finanças do Estado e evitou guerras de expansão desnecessárias para não sangrar os cofres públicos. Só que a sua desconfiança patológica logo envenenou o clima político da capital.

Com o tempo, Tibério entregou a rotina da administração a Lúcio Élio Sejano, o comandante da Guarda Pretoriana. Ambicioso e implacável, Sejano transformou a antiga lei de traição (maiestas) em uma indústria de delações recompensadas. Bastava um sussurro anônimo, um comentário desfavorável ou um olhar torto para que senadores e nobres fossem executados ou levados ao suicídio forçado, com seus bens confiscados pelo Estado. O medo paralisou a vida cívica de Roma: amigos delatavam amigos e parentes se espionavam para salvar a própria pele.

Exausto das intrigas de Roma e com fobia de conspirações, Tibério tomou uma decisão inédita no ano 26: abandonou a capital e foi morar na ilha de Capri. De lá, cercado por penhascos íngremes e vigiado por soldados de confiança, passou a governar o império mais poderoso do planeta por meio de cartas e decretos selados. O poder romano se tornou uma sombra invisível e aterrorizante. Quando Sejano tentou dar um golpe para tomar o trono, Tibério enviou uma carta fria ao Senado ordenando a execução imediata do seu antigo braço direito e o extermínio de toda a sua família.

O imperador no pano de fundo dos Evangelhos

É exatamente durante o reinado desse homem paranoico e distante que a história do cristianismo tem o seu divisor de águas. O Evangelho de Lucas faz questão de situar historicamente a pregação de João Batista e o início do ministério público de Jesus: “No ano quinze do império de Tibério César” (Lucas 3:1, Bíblia Livre).

Mais adiante, quando os líderes religiosos tentam armar uma armadilha para Jesus com a pergunta sobre os tributos, o Senhor pede uma moeda e pergunta de quem é a imagem gravada nela.

“Mostrai-me uma moeda; ela tem a imagem e a inscrição de quem? E eles, respondendo, disseram: De César. Então lhes disse: Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.”

(Lucas 20:24-25, Bíblia Livre)

A moeda de prata que circulava na Judeia trazia gravado o rosto austero de Tibério, com o título que o proclamava filho do divino Augusto. Jesus reconheceu a autoridade temporal do governo sobre a vida civil (Romanos 13:1), mas delimitou as fronteiras: a moeda traz a imagem do imperador, enquanto o ser humano traz a imagem do Criador (Gênesis 1:27).

Poucos anos depois, sob o mesmo Tibério, o governador romano Pôncio Pilatos cedeu à pressão da multidão em Jerusalém e condenou Jesus à morte na cruz. O argumento decisivo dos líderes que pediam a crucificação apelava ao terror do imperador em Capri: “Se soltas a este, não és amigo de César; qualquer que se faz Rei, contradiz a César” (João 19:12, Bíblia Livre). Com medo de ser delatado por traição e perder o cargo para um imperador impiedoso, Pilatos lavou as mãos e entregou o Justo para ser crucificado. A culpa de Pilatos é real, mas, nas mãos de Deus, aquela cruz foi o caminho da nossa redenção: Cristo morreu pelos nossos pecados, e somos salvos pela graça, mediante a fé (Atos 2:23; Efésios 2:8).

O contraste entre dois reinos

Tibério morreu no ano 37 depois de Cristo, aos 77 anos, doente e solitário em um palácio à beira-mar. Quando a notícia da sua morte chegou a Roma, o povo não chorou; comemorou nas ruas com gritos de alívio, e os historiadores registraram que muitos queriam arrastar o seu corpo para o rio Tibre. O homem que dominou o mundo com legiões e decretos terminou os seus dias como o prisioneiro mais amargo do próprio poder.

A história deixa uma lição diante de nós. O império de Tibério controlava moedas, prisões, exércitos e fronteiras territoriais. Enquanto o imperador se trancava amedrontado no alto dos rochedos de Capri, o Filho de Deus dava a própria vida em uma cruz romana nos arredores de Jerusalém. As legiões de Tibério desapareceram e seus decretos viraram pó em bibliotecas antigas, mas o Reino inaugurado por Cristo na cruz segue avançando no coração de homens e mulheres em todas as nações. O poder humano que se apoia no medo devora a si mesmo; o Reino de Deus, estabelecido na verdade e na graça, permanece para sempre.

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