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Paulo de Tarso: A formação em três mundos

Paulo de Tarso na encruzilhada de três mundos

Diego Gonçalves4 min de leitura875 palavras

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Neste texto

Muitos leitores olham para as cartas de Paulo como se tivessem descido do céu prontas e encadernadas. Costumamos estudar a teologia das epístolas separando o texto da carne e do sangue de quem o escreveu. Só que, para compreender de verdade o alcance do pensamento paulino, é preciso conhecer a geografia, a cultura e as pressões políticas da época em que ele viveu.

Paulo de Tarso reuniu em uma única biografia três universos que quase nunca se misturavam em harmonia: o rigor da fé judaica, a sofisticação da língua grega e o peso dos privilégios da cidadania romana.

A Porta de Cleópatra, antigo portão de pedra da cidade de Tarso, na Turquia
A chamada Porta de Cleópatra, em Tarso, na Cilícia (atual Turquia). Foto de Dosseman, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

A cidade natal e o repertório cultural

Tarso, na planície da Cilícia (região que hoje pertence ao sul da Turquia), não era um vilarejo esquecido do interior. Era uma das metrópoles mais vibrantes do Mediterrâneo oriental. O geógrafo antigo Estrabão registrou que o amor às letras e à filosofia em Tarso superava, em certos aspectos, o de Atenas e o de Alexandria. Ali funcionavam escolas de retórica, academias de filosofia estoica e um porto agitado por onde passavam mercadorias e viajantes.

Paulo cresceu nesse ambiente cosmopolita. Quando lemos o discurso dele no Areópago de Atenas, em Atos 17, ouvimos um homem que conhece a literatura grega: “também nós somos descendência dele” (Atos 17:28) ecoa versos do poeta Arato, natural da própria Cilícia. Paulo mobiliza a cultura da sua terra para construir uma ponte com os filósofos gregos. Faz o mesmo ao citar Epimênides na carta a Tito (Tito 1:12) e, provavelmente, o comediógrafo Menandro em 1 Coríntios 15:33: “as más conversações corrompem os bons costumes”. Ele sabia dialogar com a cultura sem diluir a mensagem da cruz.

Três mundos em um só homem

A identidade de Paulo operava em três níveis ao mesmo tempo, e Deus usou isso, por Sua providência, na expansão do Evangelho pelo Império Romano.

O mundo judaico. Paulo era “hebreu de hebreus”, da tribo de Benjamim, circuncidado ao oitavo dia (Filipenses 3:5). Ele mesmo conta sua formação:

“Eu verdadeiramente sou um homem judeu, nascido em Tarso da Cilícia, e criado nesta cidade aos pés de Gamaliel, ensinado ao mais correto modo da Lei paterna e zeloso de Deus, assim como todos vós sois hoje.”

(Atos 22:3, Bíblia Livre)

Gamaliel era um mestre da Lei respeitado por todo o povo (Atos 5:34). Aos pés dele, Paulo aprendeu as Escrituras, dominou o debate da sinagoga e viveu com zelo as tradições dos fariseus.

O mundo grego. A língua do dia a dia do império era o grego koinê, falado nos mercados e nos portos. Paulo dominava a lógica retórica helenística: argumentava, usava silogismos e estruturava suas cartas com habilidade, e assim a mensagem cristã dialogou com a mente greco-romana.

O mundo romano. A imensa maioria dos habitantes das províncias vivia como súdita, sem direitos legais plenos. Paulo era cidadão romano de nascimento. Quando o comandante disse que tinha comprado a cidadania “com muita soma de dinheiro”, Paulo respondeu: “E eu a tenho desde que nasci” (Atos 22:28, Bíblia Livre). Esse status garantia imunidade contra castigos sem julgamento, direito a um tribunal regular e o poder de apelar a César, em Roma. Paulo usou esses direitos com inteligência quando seu ministério esteve em jogo.

Os laços familiares e a rede de apoio

Paulo muitas vezes parece uma figura solitária, cruzando mares e enfrentando naufrágios. Só que o Novo Testamento preserva detalhes de sua rede de afeto e parentesco.

No final da carta aos Romanos, ele envia saudações nominais a vários parentes que compartilhavam da mesma fé (Romanos 16:7, 11, 21). Em Atos 23, descobrimos que Paulo tinha uma irmã em Jerusalém. O filho dela, um sobrinho cujo nome não sabemos, ouviu falar de uma conspiração de mais de quarenta homens que haviam jurado matá-lo, entrou na fortaleza e contou tudo a Paulo, que o mandou ao comandante romano (Atos 23:12-22).

Há ainda Lucas, o médico que o acompanhou até o fim, na prisão de Roma (2 Timóteo 4:11). A caminhada apostólica foi sustentada por amizades leais.

A providência na biografia humana

Deus não descarta a nossa bagagem cultural, os nossos aprendizados e as nossas experiências cotidianas. O Senhor pegou aquele homem formado em três mundos e o fez mensageiro do Evangelho para além das fronteiras de Israel. A graça já trabalhava nele antes de Damasco.

Mesmo assim, nada dessa bagagem o salvou. Tudo o que ele tinha de herança, estudo e mérito, ele próprio chamou de perda por causa de Cristo (Filipenses 3:7-8). A salvação veio pela graça, mediante a fé, somente em Cristo; a formação em três mundos foi o instrumento que Deus usou depois.

A mensagem cristã pedia alguém que transitasse entre a sinagoga de Jerusalém, o mercado grego de Atenas e os tribunais de Roma. Ao conhecer o mundo de Paulo, compreendemos melhor as suas cartas e vemos a fidelidade a Cristo vivida no chão da história real.

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