
Paulo mentiu para dividir o Sinédrio?
Fariseus, saduceus e a ressurreição em Atos 22 e 23, com Josefo, Crisóstomo e Calvino
Por volta do ano 57, numa sala de Jerusalém, o sumo sacerdote mandou bater na boca de um prisioneiro. Pouco depois, bastou uma frase desse prisioneiro para partir ao meio o conselho judaico que o julgava. Que judaísmo era esse, que se dividia assim? Era um só, ou eram vários? Os juízes passaram a brigar aos gritos, e soldados romanos tiveram de arrancar o prisioneiro do meio deles para que não fosse despedaçado.
Um prisioneiro e um conselho dividido
Quem conta a cena é Lucas, no livro de Atos, capítulos 22 e 23. O prisioneiro era Paulo, um judeu de Tarso que os soldados tinham tirado de uma multidão no pátio do Templo e que, para surpresa do comandante romano, era cidadão romano. Para saber ao certo de que o acusavam, o comandante mandou reunir os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio, o conselho judaico da cidade, e pôs Paulo diante deles.
Quem presidia era o sumo sacerdote Ananias, de quem o historiador judeu Flávio Josefo conta coisas duras. Anos depois, já fora do cargo, os servos de Ananias tomavam à força os dízimos dos sacerdotes pobres, que chegavam a morrer de fome. Quando Paulo disse que tinha vivido com toda a boa consciência diante de Deus, Ananias mandou que lhe batessem na boca. E Paulo respondeu: “Deus vai bater em ti, parede caiada!” (Atos 23:3).
Então Paulo olhou para a assembleia e percebeu que uma parte era de saduceus e a outra de fariseus. E gritou no meio do conselho: “Irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus. É por causa da esperança e da ressurreição dos mortos que estou sendo julgado.” Repare no verbo: “eu sou”, e não “eu era”. Paulo dizia isso depois de mais de vinte anos como apóstolo de Jesus.
O efeito foi imediato. Fariseus e saduceus começaram a discutir, e Lucas diz que a assembleia se dividiu, com o mesmo verbo grego que tinha usado no seu Evangelho para o véu do Templo que se rasgou na morte de Jesus. E aconteceu uma coisa que quase ninguém lembra: alguns escribas do partido dos fariseus se levantaram para defender Paulo. “Não achamos mal nenhum neste homem” (Atos 23:9). A gritaria cresceu tanto que o comandante teve medo de que Paulo fosse despedaçado e mandou a tropa tirá-lo dali. Para o romano, aquilo era uma briga interna dos judeus. Na carta que mandou depois ao governador, ele resumiu o caso assim: Paulo era acusado “acerca de questões da lei deles” (Atos 23:29).
Os judeus do tempo de Jesus, segundo Josefo
Mas que povo era esse, que lia a mesma Lei de modos tão diferentes que uma frase bastava para pôr os seus juízes em guerra? Quem melhor descreve esses grupos é o mesmo Josefo, um sacerdote de Jerusalém que, depois da guerra contra Roma, escreveu em grego, na própria Roma, a Guerra Judaica. No meio da história de uma revolta, ele interrompe a narrativa para explicar aos leitores gregos e romanos quem eram os judeus. “Há entre os judeus três formas de filosofia.” Ele chama os grupos de filosofias porque os seus leitores conheciam os estoicos e os epicuristas. O retrato é útil, mas vem traduzido para outra cultura.
Os fariseus, diz Josefo, passavam por interpretar as leis com exatidão. Criam que a alma não morre e que só a dos bons passaria a outro corpo, o que a maioria dos estudiosos lê como um jeito grego de falar da ressurreição. Nas Antiguidades Judaicas, escritas anos depois, ele acrescenta que guardavam normas da tradição dos pais, que não estão escritas nas leis de Moisés. É a mesma tradição de que Paulo, na carta aos Gálatas (1:14), diz ter sido muito mais zeloso que os da sua idade.
Os saduceus diziam o contrário: que as almas desaparecem com os corpos, e que não há castigo nem recompensa depois da morte. Guardavam só as normas escritas e rejeitavam as tradições dos fariseus. Foi para esse partido que o sumo sacerdote João Hircano passou, segundo o próprio Josefo. Eram poucos e convenciam só os ricos, mas Josefo diz que eram os primeiros em dignidade. E ele conta um detalhe, que muitos historiadores acham exagerado: quando um saduceu ocupava um cargo público, cedia ao que os fariseus diziam, porque de outro modo o povo não o toleraria. Se ele tem razão, a aristocracia do Templo podia ser saduceia, mas a rua era farisaica.
Josefo também tinha lado. Conta que, aos 19 anos, depois de conhecer as escolas por dentro, começou a atuar na vida pública seguindo a escola dos fariseus. Era sacerdote, descendia dos antigos reis hasmoneus e escrevia sob a proteção dos imperadores que tinham destruído Jerusalém. O retrato que ele deixou não é neutro, e os historiadores o leem sabendo disso.
E fariseus e saduceus não eram todo o judaísmo. Josefo conta que, quando o povo jurou lealdade ao rei Herodes, os fariseus, mais de seis mil, se recusaram. Dos essênios, o terceiro grupo, ele diz que eram mais de quatro mil. O naturalista romano Plínio, o Velho, põe os essênios a oeste do mar Morto e os descreve como um povo sem mulher e sem dinheiro, “tendo por companhia as palmeiras”. Que foram essênios os que esconderam os manuscritos do mar Morto, nas grutas de Qumran, é a hipótese da maioria dos estudiosos, mas tem críticos sérios. Havia ainda os seguidores de Judas, o Galileu, que se revoltaram contra o recenseamento romano e só reconheciam Deus como senhor; Josefo os chama de quarta filosofia. Havia os herodianos dos Evangelhos e os samaritanos, rivais dos judeus, com o mesmo Moisés e outro templo, no monte Gerizim.
Seis mil fariseus, num povo de centenas de milhares: a maioria dos judeus não pertencia a escola nenhuma. E a maior parte nem vivia na Judeia, mas em Alexandria, em Antioquia, em Roma, na Babilônia.
Um judaísmo ou vários?
Então, era um judaísmo ou eram vários? O próprio Novo Testamento dá uma pista com uma palavra. Lucas chama de haíresis, que quer dizer partido ou escola, três grupos do mesmo povo: o partido dos saduceus, o partido dos fariseus e, na boca dos acusadores de Paulo, o partido dos nazarenos. A palavra ainda não queria dizer heresia. Aos olhos de fora, os seguidores de Jesus eram mais um partido dentro de Israel. E Paulo podia dizer ao rei Agripa: “Vivi como fariseu, segundo o partido mais rigoroso da nossa religião” (Atos 26:5).
Os historiadores de hoje discutem como descrever esse quadro. Jacob Neusner e os seus colegas preferiram falar de judaísmos, no plural: vários sistemas, cada um com a sua leitura da Lei e a sua esperança. E. P. Sanders respondeu que havia um judaísmo comum, um só Deus, a aliança, a Lei, o Templo e a prática diária que quase todos compartilhavam, e que os partidos eram minorias discordando dentro desse quadro. A fórmula mais justa talvez seja esta: um só povo, uma só Lei e um só Templo, dividido sobre como lê-los.
Nenhum dos dois partidos do Sinédrio de Paulo saiu inteiro da história. No ano 70, os romanos destruíram o Templo, e os saduceus, ligados à aristocracia dos sacerdotes, desaparecem das fontes junto com ele. A corrente que vinha dos fariseus foi a principal herdeira quando se formou, depois, o judaísmo dos rabinos, a raiz do judaísmo de hoje. O judaísmo que Jesus conheceu, com Templo, sacerdotes e partidos, acabou ali.
A ressurreição, o ponto em comum
Entre todas as diferenças, Lucas escolhe uma para explicar a cena do Sinédrio. Está em Atos 23:8: “Pois os saduceus dizem que não há ressurreição, nem anjo, nem espírito; mas os fariseus confessam as duas coisas.” Lucas provavelmente junta anjo e espírito numa só, e o que os saduceus negavam ao negar os anjos, os estudiosos ainda discutem, porque a Lei de Moisés, que eles aceitavam, fala de anjos.
Mas o centro da frase é claro: a ressurreição. Jesus já tinha enfrentado os saduceus nesse ponto. Eles lhe propuseram o caso de uma mulher que se casou, um depois do outro, com sete irmãos, e todos morreram: na ressurreição, de quem ela seria mulher? Jesus respondeu com o livro que eles mesmos aceitavam sem discussão, o de Moisés. Está em Marcos 12:26-27:
“E quanto aos mortos que ressuscitarão, não lestes no livro de Moisés, como Deus lhe falou com a sarça, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Deus não é Deus de mortos, mas de vivos. Portanto errais muito.”
(Marcos 12:26-27, Bíblia Livre)
Séculos depois da morte dos patriarcas, Deus se apresenta a Moisés como Deus deles, no presente. Lucas, que conta o mesmo encontro, diz que alguns dos escribas responderam: “Mestre, falaste bem” (Lucas 20:39).
Na questão da ressurreição, Jesus, Paulo e os fariseus estavam do mesmo lado contra os saduceus. Em português, fariseu virou sinônimo de hipócrita; mas o próprio Jesus disse que os escribas e os fariseus se assentam na cadeira de Moisés (Mateus 23:2), e Paulo, já apóstolo, ainda dizia: eu sou fariseu.
Paulo mentiu?
A tática de Paulo levanta uma suspeita antiga. Ele não estava sendo acusado de crer na ressurreição, e sim de ensinar contra a Lei e de levar gentios ao Templo, e, ao gritar que era fariseu, parece ter dividido a assembleia com um truque.
João Crisóstomo, pregando sobre Atos em Constantinopla por volta do ano 400, admitiu que Paulo quis dividir a multidão, mas disse que “também aqui ele não diz mentira”, porque era fariseu por descendência.
O reformador João Calvino, no seu comentário a Atos, foi mais longe e escreveu a objeção com todas as letras: a astúcia de Paulo “vinha envolta em dissimulação, que não estava longe da mentira”. E respondeu: “embora isso seja verdade, ele não mentiu.” Paulo se disse fariseu, explica Calvino, não porque aprovasse todas as invenções deles, mas só quanto à ressurreição dos mortos. Tinha tentado expor tudo com clareza; como ninguém o ouvia, usou o último remédio.
E Paulo não escondeu a frase depois. Diante do governador Félix, chamou-a de “este único brado” (Atos 24:21). Diante do rei Agripa, explicou que a ressurreição não era um ponto de escola, mas a esperança das doze tribos de Israel. E perguntou: “Por que se julga incrível entre vós que Deus ressuscite mortos?” (Atos 26:8).
Aos cristãos de Filipos (3:5-7), Paulo escreveu que era, quanto à Lei, fariseu, e quanto à justiça da Lei, irrepreensível. Mas acrescentou: “o que para mim era lucro, isso passei a considerar perda por causa de Cristo”. Não era um mau fariseu que descobriu a virtude: era um fariseu que encontrou, num homem crucificado, a ressurreição que esperava.
Aí está a diferença entre Paulo e os escribas que o defenderam: eles esperavam a ressurreição no fim dos tempos, e Paulo anunciava que Jesus já tinha ressuscitado. Para Paulo, isso era a leitura de Moisés e dos Profetas, não uma religião nova. O Cristo, disse ele a Agripa, haveria de sofrer e, “sendo o primeiro a ressuscitar dos mortos, anunciaria luz tanto ao povo como às nações” (Atos 26:23).
Alguns cristãos de Corinto diziam, como os saduceus, que não há ressurreição de mortos. Paulo lhes escreveu: “Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, primícias dos que adormeceram” (1 Coríntios 15:20). Primícias é o primeiro feixe da colheita, o que garante o resto.
Um espelho para a Igreja
Essa história é fácil de usar mal. Durante séculos, cristãos leram essas disputas como um julgamento contra os judeus, e o próprio Crisóstomo generalizou sobre aquela nação, mas o livro de Atos não faz isso: são escribas fariseus que defendem Paulo. E Calvino, comentando a mesma cena, virou o aviso para dentro da Igreja: “A fé é a alma da Igreja; nada é mais próprio da fé que a concórdia, nada mais contrário que as seitas.” A assembleia dividida de Jerusalém não é retrato dos outros. É um espelho.
Volte ao prisioneiro que o sumo sacerdote mandou bater na boca, diante de um conselho partido em dois. O judaísmo do tempo de Jesus era um só povo, com uma só Lei e um só Templo, dividido em partidos sobre como ler a mesma Escritura. E o que dividiu os juízes de Paulo naquele dia foi a pergunta que ainda divide o mundo: Deus ressuscita os mortos? Paulo respondeu que sim, e que a ressurreição já tinha começado.
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