
HistóriaTeólogos arminianos13 de 195
French L. Arrington: O sargento que largou a escola e se tornou mestre do grego na Igreja de Deus
Neste texto
- Vida
- Uma infância de roça e de perdas
- Da Lee a Columbia
- Professor na Lee
- O seminário e a igreja
- Pensamento
- A Bíblia como ponto de partida
- Perseverança sem slogan
- O Espírito que convence, batiza e capacita
- Santidade no cotidiano
- Pontos de contato e de diferença
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 1953, numa igreja instalada num ponto comercial de Milledgeville, na Geórgia, o reverendo Casey Monsees dirigia uma série de cultos de avivamento. Entre os que ouviam estava um rapaz de 22 anos, recém-saído do Exército, que tinha deixado a escola no nono ano para ajudar a sustentar a mãe viúva. Naquele mesmo avivamento ele se converteu, foi batizado no Espírito Santo e sentiu o chamado para o ministério. O nome dele era French L. Arrington. Duas décadas depois, ele defendia uma tese de doutorado em línguas bíblicas numa universidade jesuíta e ensinava grego do Novo Testamento aos futuros pastores da Igreja de Deus (Cleveland, Tennessee), uma das mais antigas denominações pentecostais dos Estados Unidos.
Vida
Uma infância de roça e de perdas
French L. Arrington nasceu em 5 de julho de 1931, na zona rural perto de Wadley, no condado de Emanuel, na Geórgia. O pai, lavrador, morreu quando ele tinha uns três anos, e a mãe, Robbie Mae, criou sozinha os três filhos, trabalhando como enfermeira prática. O mais velho, Henry Robbie, nasceu com graves limitações e morreu aos 18 anos. French trabalhou na lavoura desde criança e saiu da escola no nono ano.
Assim que teve idade, alistou-se no Exército. Serviu de 1950 a 1953, chegou a primeiro-sargento e foi instrutor em Okinawa durante a Guerra da Coreia. Deu baixa em 1953, o ano do avivamento de Milledgeville.
Da Lee a Columbia
Logo depois da conversão, Arrington entrou no Lee College, a escola da Igreja de Deus em Cleveland, no Tennessee (hoje Lee University). Em 1954 fez o exame que lhe deu o diploma do ensino médio e, em 18 de dezembro, casou-se com Frances Lee Treadaway, professora da Lee, que mais tarde dirigiu a biblioteca da escola por 24 anos, ajudou o marido nas pesquisas e morreu em 2011.
Formou-se em psicologia, com estudos de línguas clássicas, na Universidade de Chattanooga (1957) e fez o bacharelado em Divindade no Columbia Theological Seminary, seminário presbiteriano perto de Atlanta (1960), enquanto era pastor auxiliar de uma Igreja de Deus na cidade. De 1961 a 1964 ensinou no Southeastern Bible College, das Assembleias de Deus, em Lakeland, na Flórida.
Professor na Lee
Em 1964 voltou à Lee como professor. Em 1968 foi ordenado ministro na Igreja de Deus e assumiu a chefia do departamento de Bíblia e Teologia, que ocupou até 1981. No mesmo ano o irmão caçula, Breedlove, morreu de leucemia aos 32 anos. A perda marcou a dissertação do mestrado em Teologia em Columbia (1969), sobre a esperança da imortalidade em 2 Coríntios 5:1-10, o texto de Paulo sobre a casa terrestre que se desfaz e o edifício eterno que Deus prepara.
Em 1971 a Lee lhe deu dois anos de licença para o doutorado na Saint Louis University, universidade jesuíta do Missouri, onde também foi pastor interino de uma Igreja de Deus. Concluiu o doutorado em línguas e literatura bíblicas em 1975, com uma tese sobre a “teologia dos éons” em 1 Coríntios, isto é, o contraste que Paulo faz entre “este século”, cuja sabedoria passa, e o século vindouro (1 Coríntios 2:6-8). No mesmo ano recebeu o prêmio de excelência no ensino, a maior honra da Lee a um professor.
O seminário e a igreja
Em 1981 passou para a escola de pós-graduação da Igreja de Deus, hoje Pentecostal Theological Seminary, também em Cleveland, onde ensinou grego e exegese do Novo Testamento por 21 anos, até se aposentar como professor emérito em 2002. Em 1984 assumiu também o departamento de interpretação bíblica do Colegio Bíblico Pentecostal. Pregou e ensinou em muitos estados americanos e em quinze países.
Bispo ordenado, serviu na junta geral de educação da denominação (1974-1984) e presidiu a comissão de Doutrina e Governo da Igreja de Deus, encarregada de zelar pela declaração de fé.
Com o canadense Roger Stronstad, organizou o Full Life Bible Commentary to the New Testament (1999), mais tarde Life in the Spirit New Testament Commentary, e escreveu nele a parte sobre Lucas e Atos. Em 2012 já tinha publicado catorze livros.
Em 2012 o Centro de Pesquisa Pentecostal Dixon lhe deu o prêmio Espírito de Azusa, criado para quem leva adiante o legado do avivamento da Rua Azusa. O diretor do centro, David G. Roebuck, disse que Arrington “integra continuamente a Palavra de Deus com a fé e a prática da Igreja”. Em 2018, aos 87 anos, fez a Conferência Azusa sobre o pentecostalismo mundial, e em 2022 escreveu o prefácio de Saved, Delivered, and Healed, introdução de Tony Richie à doutrina pentecostal da salvação.
Pensamento
Arrington é um pentecostal arminiano, da linhagem do pentecostalismo de santidade. A Igreja de Deus nasceu do movimento de santidade wesleyano e confessa a justificação e o novo nascimento pela fé no sangue de Cristo, a santificação posterior ao novo nascimento e a santidade como padrão de vida. Arrington presidiu a comissão que guarda essa confissão, escreveu um estudo sobre ela e dedicou um livro inteiro a defender, contra a segurança eterna incondicional, que o crente pode abandonar a fé.
A Bíblia como ponto de partida
O método de Arrington é o do exegeta. Christian Doctrine percorre os temas clássicos (Escritura, Deus, criação e ser humano; Cristo, pecado e salvação; Espírito Santo, igreja e últimas coisas), com ênfase no papel do Espírito na vida do crente e no culto. Christopher Stephenson, que estudou os métodos dos teólogos pentecostais, põe a obra ao lado das de Myer Pearlman e Ernest S. Williams no tipo que chama de “doutrinas bíblicas”: a teologia sistemática como arranjo de textos bíblicos por assunto, com o risco de nivelar os textos, como se todos tivessem o mesmo peso.
Num artigo de 1994 na revista Pneuma, Arrington escreveu que “o ponto de partida e o fundamento” da fé e da prática pentecostais “é o texto bíblico”. A questão própria da hermenêutica pentecostal, para ele, é o papel do Espírito em fazer a Escritura viva na comunidade de fé: o Espírito que guiou os autores ilumina também quem lê. Numa entrevista de 2004 à Pneuma Review, disse que a pregação pentecostal, em geral, “não é substanciosa em conteúdo bíblico”, e pediu pastores que deem à igreja uma “dieta equilibrada” da Escritura.
Perseverança sem slogan
O livro mais ligado ao debate arminiano é Unconditional Eternal Security: Myth or Truth? (“Segurança eterna incondicional: mito ou verdade?”, 2005). Ele entrou num debate que já tinha Kept by the Power of God, de I. Howard Marshall, mas foi escrito para pastores: deixa de lado a especulação filosófica e percorre os textos, do Antigo Testamento a Judas.
No Antigo Testamento, a escolha de Israel como povo não garante a salvação de cada israelita, e os profetas não ensinam que Deus determina de antemão os atos de cada pessoa. Nos Evangelhos, Jesus insiste na perseverança (Marcos 13:13): “fora de uma vida de fé, não há garantia de que os crentes perseverarão, mas a salvação deles nunca está em dúvida se continuarem firmes na fé” (p. 56). Em João, permanecer em Cristo é parte da própria fé, como o ramo que permanece na videira e o ramo cortado que seca (João 15:4-6).
Sobre Atos, Arrington escreve que “o Espírito Santo não obriga ninguém a crer” (p. 92). A graça divina opera ao longo de toda a vida cristã; a pessoa pode acolhê-la ou rejeitá-la, e “receber e conservar a salvação é questão de fé” (p. 93). Em Hebreus, destaca a fidelidade de Deus e a intercessão de Jesus, e lê as advertências (Hebreus 3:12; 10:36) como reais. A vida cristã é uma maratona longa e cheia de obstáculos, em que Jesus vai à frente como pioneiro da fé (Hebreus 12:1-3).
A conclusão é pastoral. Arrington quer que o crente tenha confiança na vida eterna, mas acha enganoso o slogan “uma vez salvo, salvo para sempre”. A segurança incondicional, para ele, diminui a importância do discipulado e oferece uma certeza falsa que atrapalha justamente nas horas de fraqueza. O alvo é o de Colossenses 1:22-23: ser apresentado santo e irrepreensível diante de Cristo, “se é que permaneceis na fé”. É a perseverança condicional da tradição arminiana, defendida texto a texto.
O Espírito que convence, batiza e capacita
Encountering the Holy Spirit (2003), com mais de quinhentas páginas, é o resumo da pneumatologia de Arrington, escrito para leigos, estudantes e grupos de estudo. O Espírito, diz ele logo no início, é “o elemento decisivo” para a vida, a vitalidade e o crescimento da igreja (p. 19). Antes de tratar do batismo no Espírito, o livro mostra o Espírito na conversão: é ele quem convence do pecado e conduz ao arrependimento, à fé e ao perdão, e quem une o novo crente ao corpo de Cristo. Nessa descrição a iniciativa é do Espírito, que vem ao pecador antes que ele se mova, e é essa a obra que a tradição arminiana chama de graça preveniente.
O título de um artigo de 1981 na Pneuma já anunciava uma preocupação constante dele: distinguir a habitação, o batismo e o enchimento do Espírito, termos que muitos confundem. Na conversão, todo crente é batizado pelo Espírito no corpo de Cristo (1 Coríntios 12:13) e passa a ter o Espírito habitando nele. O batismo no Espírito que Jesus prometeu (Lucas 3:16; Atos 1:4-8) é outra coisa: uma capacitação para o testemunho, posterior à conversão, oferecida a todos os crentes, e as línguas são o seu sinal físico inicial. Arrington defende essas teses do pentecostalismo clássico sem tom de confronto, a partir de Lucas e de Paulo.
Os dons, para ele, pertencem à congregação inteira. Na entrevista de 2004 lamentou a ênfase em alguns líderes dotados, e não numa igreja dotada que ora e ministra junta, e advertiu contra a obsessão pelo demoníaco: a ênfase deve estar no triunfo de Cristo sobre Satanás. Pediu também aos pentecostais que não tratem como não salvos os crentes de outras tradições, nem se fechem numa “mentalidade de seita”.
Santidade no cotidiano
A herança de santidade aparece na ética. Num texto escrito para a Igreja de Deus sobre bebidas alcoólicas, Arrington define a santidade como “devoção a Deus sem concessões” e defende a abstinência total. Lê o “não vos embriagueis com vinho” de Efésios 5:18 como incompatível com o enchimento do Espírito e fecha com quatro princípios: o senhorio de Cristo (1 Coríntios 6:20), a edificação do próximo (1 Coríntios 14:26), o corpo como templo do Espírito (1 Coríntios 6:19) e a glória de Deus em tudo (1 Coríntios 10:31).
Pontos de contato e de diferença
Na soteriologia, Arrington está muito perto da declaração de fé deste site: salvação oferecida a todos, graça que vem antes e pode ser recusada, justificação pela fé, santificação posterior ao novo nascimento e perseverança condicional. Uma frase dele pede cuidado: “Deus chama todos à salvação, mas não predestina ninguém para a vida eterna” (p. 92). No contexto, ela recusa a predestinação incondicional de indivíduos. O arminianismo clássico, porém, conserva a palavra: Armínio ensinou que Deus predestina em Cristo os que creem, segundo a sua presciência, e nós entendemos a eleição como condicional e em Cristo.
As outras diferenças são de igreja. A Igreja de Deus ensina o batismo no Espírito como experiência posterior à conversão, com as línguas como sinal inicial, pratica o lava-pés junto com a Ceia e confessa uma volta de Cristo pré-milenista. A nossa declaração de fé não trata do batismo no Espírito e é amilenista. São diferenças dentro da mesma família arminiana, como mostram os textos sobre metodistas e pentecostais.
Obras principais
- Paul’s Aeon Theology in I Corinthians (University Press of America, 1977), tese de doutorado.
- Divine Order in the Church: A Study of 1 Corinthians (Baker, 1978).
- The Ministry of Reconciliation: A Study of 2 Corinthians (Baker, 1980).
- “The Indwelling, Baptism, and Infilling with the Holy Spirit: A Differentiation of Terms”, Pneuma 3, n. 2 (1981).
- Maintaining the Foundations: A Study of 1 Timothy (Baker, 1982).
- The Acts of the Apostles: Introduction, Translation and Commentary (Hendrickson, 1988).
- Christian Doctrine: A Pentecostal Perspective, 3 volumes (Pathway Press, 1992-1994).
- “The Use of the Bible by Pentecostals”, Pneuma 16 (1994).
- Full Life Bible Commentary to the New Testament (Zondervan, 1999), organizado com Roger Stronstad; depois Life in the Spirit New Testament Commentary (2003).
- Encountering the Holy Spirit: Paths of Christian Growth and Service (Pathway Press, 2003).
- Exploring the Declaration of Faith (Pathway Press, 2003).
- Unconditional Eternal Security: Myth or Truth? (Pathway Press, 2005).
Livros em português
- Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento (CPAD, 2003), organizado por French L. Arrington e Roger Stronstad, hoje em dois volumes. Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Hal Bernard Dixon Jr. Pentecostal Research Center, “French L. and Frances T. Arrington Collection (M0008)”, nota biográfica e descrição do acervo pessoal (1958-2007).
- Lee University, “Arrington Receives Spirit of Azusa Award”, 9 nov. 2012.
- Lee University, “Arrington to Present Azusa Lecture on Global Pentecostalism”, 16 out. 2018.
- Pentecostal Theological Seminary, “Dr. French Arrington”, perfil do professor.
- Paul Elbert, resenha de Unconditional Eternal Security: Myth or Truth?, Asian Journal of Pentecostal Studies 9, n. 1 (2006).
- Paul Elbert, resenha de Encountering the Holy Spirit, Asian Journal of Pentecostal Studies 7, n. 2 (2004).
- Michael J. Knowles, “French Arrington: Encountering the Holy Spirit”, The Pneuma Review, 2004.
- “Empowered to Serve: an interview with French L. Arrington”, The Pneuma Review, 2004.
- French L. Arrington, “Beer, Wine, and Liquors: Total Abstinence”, Igreja de Deus (Cleveland, Tennessee).
- Christopher A. Stephenson, “Systematic Theology as ‘Bible Doctrines’: Myer Pearlman, E. S. Williams, and French L. Arrington”, em Types of Pentecostal Theology (Oxford University Press, 2013).
- Marius Nel, “Attempting to define a Pentecostal hermeneutics”, Scriptura 114 (2015).
- Igreja de Deus (Cleveland, Tennessee), “Declaration of Faith”.
- Buckner & Fike Funeral Home, “Frances Treadaway Arrington”, 2011.
- CPAD News, “Morre Roger Stronstad, um dos maiores teólogos pentecostais”, 30 ago. 2022.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Pentecostalismo