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HistóriaTeólogos arminianos13 de 210

Grant R. Osborne: A espiral hermenêutica e a leitura arminiana do Novo Testamento

Diego Gonçalves14 min de leitura2.865 palavras

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Neste texto

Em 5 de maio de 2016, Grant Osborne deu a sua última aula na Trinity Evangelical Divinity School, perto de Chicago. Tinha 73 anos e cinquenta de ministério, contados desde a primeira igreja que pastoreou em Newark, no Ohio, em 1966. Depois da aula, sentou-se no meio da turma para uma fotografia, de suéter azul, cercado pelos alunos. Ele explicou a aposentadoria sem rodeios: o corpo já não permitia continuar. Era o mesmo corpo frágil que, meio século antes, o tinha impedido de ser missionário e o levado para os livros.

Grant Osborne, de suéter azul, sentado no meio de uma turma de alunos
Grant Osborne com a turma depois da última aula na Trinity Evangelical Divinity School, 5 de maio de 2016. Foto de Etarge, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Infância, asma e conversão

Grant R. Osborne nasceu em 7 de julho de 1942, no bairro do Queens, em Nova York, filho de Thomas e Evelyn Burkett Osborne. Cresceu numa casa de músicos e chegou a reger o Messias de Handel. Durante a Segunda Guerra Mundial a família se mudou para Fort Wayne, no Indiana, e foi ali que ele se tornou cristão.

A asma o acompanhou desde o nascimento. Passou duas férias de verão inteiras dentro de casa por ordem médica e, como contou mais tarde ao comentar Romanos 8:26, cresceu trancado em casa com uma mãe que fumava um cigarro atrás do outro. Pediu a cura durante décadas, e o uso constante de corticoide acabou lhe enfraquecendo os músculos. Ele lia a própria história com gratidão: “a fraqueza física me fez o que sou hoje”, disse, porque foi ela que o empurrou para o estudo e o ensino.

Formação

Osborne estudou no Fort Wayne Bible College, ligado à Missionary Church, denominação americana de raízes menonitas e do movimento de santidade. Preparou-se para missões e para o pastorado e chegou a fazer uma viagem missionária curta ao norte do Paquistão, mas a asma fechou o caminho do campo missionário. Em 1º de julho de 1967 casou-se em Fort Wayne com Nancy Hardy. O casal teve duas filhas, Amber e Susanne.

Depois de alguns anos de pastorado no Ohio, fez o mestrado em Novo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School, concluído em 1971. O professor Richard Longenecker o animou a fazer o doutorado no Reino Unido. Osborne foi para a Universidade de Aberdeen, na Escócia, e se tornou o primeiro orientando de doutorado de I. Howard Marshall, o metodista autor de Kept by the Power of God, sobre a perseverança. A tese, defendida em 1974, estudou as narrativas da ressurreição nos Evangelhos com o método da crítica da redação, que examina como cada evangelista selecionou e organizou o material para servir à sua mensagem.

Winnipeg e a polêmica da crítica da redação

De 1974 a 1977 ensinou no Winnipeg Theological Seminary, no Canadá. Nesse tempo publicou no Journal of the Evangelical Theological Society (1976) o artigo que o colocou no centro de uma disputa: “Redaction Criticism and the Great Commission” (A crítica da redação e a Grande Comissão). Ele defendia que a crítica da redação, usada com critério, era uma ferramenta positiva para os evangélicos e não ameaçava a inerrância da Bíblia. Aplicando o método a Mateus 28:16-20, sugeriu que a fórmula batismal “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” podia ser uma expansão, feita pela tradição ou por Mateus, de uma fórmula original mais simples.

A reação veio rápida. Em 29 de julho de 1977, John Warwick Montgomery escreveu na Christianity Today que, com esse método, a exatidão das palavras perdia para a relevância e a inerrância virava um conceito sem conteúdo. Kenneth Kantzer, então deão da Trinity, defendeu a abordagem de Osborne em cartas ao próprio Montgomery. Osborne escreveu mais dois artigos na mesma revista, o último em 1979, para mostrar como um evangélico podia usar a crítica da tradição e da redação sem aceitar os pressupostos céticos da crítica radical.

Quarenta anos na Trinity

Em 1977 Osborne voltou à Trinity Evangelical Divinity School como professor de Novo Testamento e ficou até 2016. Um dos alunos da primeira turma, um curso sobre o Evangelho de Mateus, era Scot McKnight, que depois foi seu assistente e colega. McKnight lembra as apostilas enormes e as aulas em forma de diálogo: Osborne percorria um livro inteiro, apresentava as posições dos estudiosos e então defendia a que julgava melhor. Uma das apostilas mais conhecidas reunia todos os textos bíblicos sobre a segurança do crente e a possibilidade de perder a salvação. Osborne deu a McKnight a tarefa de atualizá-la, e o trabalho mudou a opinião do aluno sobre o tema.

Stanley Porter, aluno e assistente dele em 1981 e 1982, lembra a fórmula com que ele resolvia muitas disputas de exegese: “as duas coisas”, em vez de uma ou outra. Matt Mitchell, outro aluno, conta que ele ensinava a discordar com cordialidade: era arminiano e cheio de respeito pelos colegas calvinistas.

Desde 1987 Osborne fez parte da comissão de tradução da New Living Translation, onde coordenou as equipes dos Evangelhos e de Atos. Escreveu as notas de Tiago na ESV Study Bible e dirigiu a série IVP New Testament Commentary. Ensinou na Europa, na Coreia e na China e presidiu o conselho de um ministério que leva professores de Bíblia para ensinar, livro por livro, pastores da China continental. Manteve laços fortes com a Missionary Church e uma longa ligação com a Village Church de Gurnee, no Illinois.

Os livros

O livro que o tornou conhecido, The Hermeneutical Spiral (A espiral hermenêutica, 1991), nasceu das notas de aula. Sobre a salvação, escreveu dois capítulos de Grace Unlimited (1975), a coletânea arminiana organizada por Clark Pinnock; em 2007, “A Classical Arminian View” (Uma visão arminiana clássica) em Four Views on the Warning Passages in Hebrews, ao lado de Gareth Lee Cockerill, que defendeu a visão wesleyana; e em 2015 a defesa da expiação geral em Perspectives on the Extent of the Atonement, diante do reformado Carl Trueman.

Em 2012 os colegas lhe entregaram On the Writing of New Testament Commentaries, livro de 21 ensaios em sua homenagem, organizado por Stanley Porter e Eckhard Schnabel. A partir de 2015 dedicou os últimos anos a comentários para pastores e leigos, inspirados em William Barclay, publicados pela Lexham Press: doze volumes, de Apocalipse (2016) a Hebreus, que ficou incompleto e foi terminado por George Guthrie, escolhido pelo próprio Osborne.

Os últimos anos

Em maio de 2018 o Bethel College, ligado à Missionary Church, lhe deu o doutorado honorário em divindade. Osborne morreu dormindo na manhã de 4 de novembro de 2018, em Libertyville, no Illinois, aos 76 anos. McKnight contou que ele tinha dito a alguém da família que a primeira coisa que faria no céu seria respirar fundo. Guthrie o descreveu como uma das pessoas mais calorosas, acessíveis e encorajadoras que já conheceu.

Pensamento

Um arminiano clássico

Osborne entra nesta série como arminiano clássico. O próprio título que escolheu para o capítulo de 2007 diz isso, e o texto de 1975 contra as leituras calvinistas termina propondo uma releitura completa dos cinco pontos do Sínodo de Dort.

O texto no seu contexto

Em A espiral hermenêutica, Osborne descreve a interpretação como uma espiral que vai do texto ao contexto de hoje, num vaivém entre o mundo do texto e o mundo do leitor. A cada volta, o intérprete testa o que já pensava contra o texto, corrige-se e chega mais perto do sentido que o autor quis dar e da sua aplicação para nós. O primeiro passo é sempre o contexto, histórico e lógico, porque “não existe sentido fora do contexto, só vários sentidos possíveis” (The Hermeneutical Spiral, 2006, cap. 1). Da exegese o livro segue para a teologia e o sermão, o mesmo caminho que propomos em Interpretação da Escritura: princípios de hermenêutica.

O mesmo método guiou a sua parte no debate com os calvinistas. Em “Exegetical Notes on Calvinist Texts” (1975), ele diz que muitas dificuldades desapareceriam se os dois lados abandonassem os versículos soltos usados como prova e lessem cada passagem no seu livro. Por isso organizou o estudo por livros bíblicos, e não pelos cinco pontos.

Graça para todos

Osborne afirma a depravação total: o ser humano está inteiramente sob o poder do pecado e não pode salvar-se por si. O que abre o caminho da fé é a ação do Espírito, que convence todas as pessoas e as atrai. Para ele, a atração de que fala João 6:44 deve ser lida com João 12:32, em que Cristo atrai “todos” a si: “o poder de ‘atração’ de Deus é aplicado a todos, mas só é eficaz para os que o aceitam pela fé” (Grace Unlimited, 1975). É a graça preveniente da teologia arminiana: a graça que vem antes, alcança todos e pode ser recusada. Em 2015 ele a chamou pelo nome wesleyano e apoiou nela a defesa da expiação por todos.

A eleição, para Osborne, é condicional e ligada à presciência. Ele lê 1 Pedro 1:1-2 e Romanos 8:29 como textos em que Deus escolhe conhecendo de antemão a fé: “presciência e eleição são dois aspectos da predestinação divina” (Grace Unlimited, 1975). Em Efésios 2:8, o dom de Deus é o conjunto inteiro, a salvação pela graça mediante a fé, e a fé é a entrega a Deus de quem foi alcançado pelo Espírito. Uma das suas frases, “a escolha soberana de Deus sempre leva em conta o livre-arbítrio da pessoa”, precisa ser lida dentro desse quadro: a vontade que responde a Deus é a vontade movida pela graça. Assim lida, a posição dele fica dentro do arminianismo de Jacó Armínio, para quem a fé recebe e não merece (ver a Declaração de Sentimentos).

A expiação por todos

Em Perspectives on the Extent of the Atonement (2015), Osborne defendeu que Cristo morreu por todas as pessoas, e não só pelos eleitos. Depois de responder aos textos usados para limitar a expiação, ele se apoia nos de linguagem universal, como o Cordeiro que tira o pecado do mundo (João 1:29) e a propiciação pelos pecados “de todo o mundo” (1 João 2:2). As duas posições são coerentes, admite ele, mas a expiação geral é a que melhor se sustenta na Escritura. E ela tem uma consequência para o púlpito: só ela permite um chamado sincero a cada pessoa para crer. É o que a declaração de fé deste site afirma, e o tema está desenvolvido em Arminianismo: expiação para todos.

Segurança e apostasia

Osborne não negava a segurança do crente. Romanos 8:38-39 garante que nenhuma pressão de fora separa o cristão do amor de Deus. Mas, observa ele, Paulo não fala ali de um decreto, e sim do amor de Deus; o que pode separar é a apostasia interior, o abandono da fé por quem antes creu. Mesmo o que se desvia continua amado e buscado por Deus, com exceção dos que cometem o pecado que o Novo Testamento declara sem perdão (Marcos 3:28-29; Hebreus 6:4-6; 1 João 5:16).

No capítulo de 2007 ele aplicou essa leitura a Hebreus. Os destinatários da carta são cristãos verdadeiros, chamados de irmãos e descritos como iluminados, e por isso as advertências falam de um perigo real. Para Osborne, a apostasia de Hebreus 6 é o pecado imperdoável: quem chega a ela não volta mais ao arrependimento. Aqui ele se distancia um pouco de Cockerill, que também vê a apostasia final como sem volta, mas distingue dela o esfriamento e o desvio, que o arrependimento remedeia. A declaração de fé deste site concorda com os dois no essencial: a perseverança é condicional, e a fé salvadora pode ser abandonada. O tema está em Perseverança e apostasia na teologia arminiana e em Arminianismo: segurança da salvação.

Apocalipse: o presente à luz do fim

No comentário de 2002, Osborne combina as escolas de leitura do Apocalipse. Para ele, as visões dos capítulos 4 a 22 descrevem sobretudo os acontecimentos do fim da história, mas usam imagens do primeiro século e servem de modelo à igreja de todas as épocas. Uma das definições que ele dava de literatura apocalíptica resume isso: “o presente abordado por meio de paralelos com o futuro” (Revelation, 2002). Os juízos dos selos, das trombetas e das taças mostram a soberania de Deus e, ao mesmo tempo, dão às nações uma última oportunidade de arrependimento (Apocalipse 9:20-21; 14:6-7). Até no juízo ele via a vontade de Deus de salvar.

Osborne adotou o pré-milenismo, mas reconheceu que as outras posições também são viáveis e pediu que ninguém brigasse por isso. A declaração de fé deste site é amilenista, e a diferença fica registrada no espírito que ele pediu.

O professor como pastor

Num dos seus últimos artigos, “O professor como pastor” (Didaktikos, 2017), Osborne resumiu o que tentou fazer na sala de aula: levar os alunos “não só a entender a Palavra de Deus, mas a desejá-la”. Os alunos, lembrava ele, encontram nos comentários tudo o que o professor tem a dizer; por isso a aula precisa mostrar por que a exegese importa para a vida e para a pregação. Foi com esse alvo que passou os últimos anos escrevendo comentários para pastores e leigos.

Obras principais

  • Handbook for Bible Study (com Stephen B. Woodward, 1979)
  • “Exegetical Notes on Calvinist Texts” e “Soteriology in the Epistle to the Hebrews”, em Grace Unlimited, org. Clark Pinnock (1975)
  • The Resurrection Narratives: A Redactional Study (1984)
  • The Hermeneutical Spiral (1991; ed. revista, 2006)
  • Three Crucial Questions about the Bible (1995)
  • Revelation, Baker Exegetical Commentary on the New Testament (2002)
  • Romans, IVP New Testament Commentary (2004)
  • The Face of New Testament Studies (org., com Scot McKnight, 2004)
  • “A Classical Arminian View”, em Four Views on the Warning Passages in Hebrews (2007)
  • Matthew, Zondervan Exegetical Commentary on the New Testament (2010)
  • Mark, Teach the Text Commentary (2014)
  • “General Atonement View”, em Perspectives on the Extent of the Atonement: 3 Views (2015)
  • Osborne New Testament Commentaries, Lexham Press, 12 volumes (2016-2021)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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