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Halford E. Luccock: O professor metodista de Yale que ensinou a pregar com sabedoria e humor
Neste texto
No domingo 11 de setembro de 1938, um ano antes de a guerra começar na Europa, o púlpito da Igreja de Riverside, em Nova York, foi ocupado por um professor de pregação de Yale. Halford E. Luccock, pastor metodista de 53 anos, pregou um sermão de título modesto, “Mantendo a vida longe da confusão”. No meio dele, disse que, quando e se o fascismo chegasse aos Estados Unidos, não viria com o rótulo “made in Germany” nem marcado com a suástica: “nem sequer será chamado fascismo; será chamado, é claro, de ‘americanismo’”. No dia seguinte o New York Times deu a notícia com a manchete “Fascismo disfarçado visto como ameaça”. Variações dessa advertência circularam por décadas, muitas vezes atribuídas ao romancista Sinclair Lewis. Quem a fez passou 25 anos ensinando futuros pastores a pregar e escreveu, sob o nome de um santo asceta, uma das colunas religiosas mais lidas dos Estados Unidos.
Vida
Filho de pastor metodista
Halford Edward Luccock nasceu em Pittsburgh, na Pensilvânia, em 11 de março de 1885, filho de Etta Anderson e de Naphtali Luccock, pastor da Igreja Metodista Episcopal que mais tarde foi eleito bispo. A família seguiu as nomeações do pai e se fixou em St. Louis, no Missouri, onde Halford terminou o ensino médio na Central High School em 1902. Estudou na Universidade Washington, em St. Louis, até 1905, e concluiu o bacharelado na Universidade Northwestern, perto de Chicago, em 1906.
Dali foi para Nova York. Formou-se em teologia no Union Theological Seminary em 1909 e, no mesmo ano, recebeu o mestrado da Universidade Columbia. Em 1910 foi ordenado ao ministério da Igreja Metodista Episcopal.
Pastor e professor na Nova Inglaterra
O primeiro posto foi a igreja metodista de Windsor, em Connecticut (1910-1912). Seguiram-se dois anos como instrutor no Seminário Teológico de Hartford (1912-1914) e o pastorado da Igreja de Santo André, em New Haven (1914-1916). De 1916 a 1918 foi secretário acadêmico e instrutor de Novo Testamento no Seminário Teológico Drew, o seminário metodista de Madison, em Nova Jersey.
Os primeiros livros saíram nesses anos e já mostravam a marca dele, ensaios curtos e cheios de imagens do dia a dia: Fares, Please! (Passagens, por favor!, 1916), sobre “temas práticos”, e Studies in the Parables of Jesus (1917), um roteiro de estudo das parábolas.
Missões, imprensa e juventude metodista
Em 1918 Luccock foi chamado para o Conselho de Missões Estrangeiras da Igreja Metodista Episcopal, onde foi secretário editorial por seis anos. Em 1924 organizou Through the Eyes of Youth (Pelos olhos da juventude), o registro da primeira Conferência Nacional de Estudantes Metodistas, em Louisville, no Kentucky: mais de quinhentos delegados de 122 faculdades, das duas igrejas metodistas separadas desde 1844 pela questão da escravidão, discutindo indústria, raça, guerra e a igreja.
De 1924 a 1928 foi editor colaborador do The Christian Advocate, o semanário oficial do metodismo do norte. Nesse período saíram as coletâneas de sermões Skylines (1923), The Haunted House (1923) e The East Window (1925). Em 1926, com Paul Hutchinson, então editor-gerente da revista The Christian Century, escreveu The Story of Methodism, uma história popular do movimento de John Wesley às missões do século XX, dedicada aos pais dos dois autores, “membros fiéis do ministério metodista”.
Yale
Em 1928 a Escola de Divindade da Universidade Yale o chamou para a cadeira de homilética, a arte de preparar e pregar sermões, como sucessor de Henry Hallam Tweedy. Em 1930 deu as Merrick Lectures na Universidade Wesleyana de Ohio, ampliadas no livro Jesus and the American Mind (Jesus e a mente americana). Nos anos seguintes escreveu sobre economia e fé no meio da Grande Depressão, sobre a literatura americana do seu tempo e sobre o próprio ofício, em In the Minister’s Workshop (Na oficina do pastor, 1944), o seu manual de homilética.
Para The Interpreter’s Bible, o grande comentário bíblico da editora metodista Abingdon, escreveu a exposição do Evangelho de Marcos (volume 7, 1951). Em 1952 deu as Lyman Beecher Lectures, a principal série de conferências sobre pregação dos Estados Unidos, mantida por Yale desde 1871, publicadas como Communicating the Gospel (1954). Naquele ano a revista Kirkus o apresentou como um dos líderes protestantes liberais mais conhecidos do país, já com dezoito livros publicados.
Simeon Stylites
A partir de 1948, Luccock passou a escrever toda semana na The Christian Century uma coluna assinada por “Simeon Stylites”, nome do monge sírio do século V que viveu décadas no alto de uma coluna. Do alto do seu poste, o falso Simeão comentava a vida das igrejas e do país com humor e crítica moral, sob um lema antigo do jornalismo americano: “consolar os aflitos e afligir os acomodados”. Parte das colunas foi reunida em Living Without Gloves (Vivendo sem luvas, 1957).
Os últimos anos
Luccock se aposentou em 1953. Na conferência de despedida, em abril, a revista Time registrou a sua crítica à “pregação confortável”. Ele descreveu alguns tipos de sermão que os alunos deviam evitar: o “sermão cavalo de balanço”, que se mexe sem sair do lugar; o “sermão imitador”, que só repete as ideias dos outros; o “sermão de confeiteiro”, doce e cheio de ar; e o “sermão de Jericó”, que dá voltas no assunto fazendo barulho e quase nunca derruba nada. Advertiu contra apresentar a mensagem cristã como um “comprimido de aspirina glorificado” e contra os pregadores que trocaram “lutar”, “seguir” e “sacrificar” por “relaxar”. O pregador, disse, tem o dever moral de ser interessante, e o alvo do sermão é transformar pessoas, e não só explicar um assunto.
Halford Luccock morreu em 5 de novembro de 1960. Depois da morte saíram Never Forget to Live (1961), 365 meditações diárias com um texto bíblico e uma oração, e a antologia Halford Luccock Treasury (1963). Em 1963 ex-alunos e amigos criaram em Yale a Luccock Visitorship, que a cada dois anos traz à Escola de Divindade um pastor de igreja local para passar alguns dias com os estudantes.
Pensamento
Classe: wesleyano, da ala liberal do metodismo americano. Luccock foi ministro da Igreja Metodista Episcopal por toda a vida adulta e escreveu duas histórias do metodismo. Em The Story of Methodism (1926) ele toma partido de Wesley contra a predestinação de George Whitefield, cita a frase de Wesley no sermão A graça livre, “nenhuma Escritura pode provar a predestinação”, e diz que os escritos de John Fletcher “varreram” das preocupações da igreja “aquele calvinismo antigo, duro e implacável”. O historiador Christopher H. Evans o descreve como um “pastor liberal bem conhecido” e lê o livro como uma tentativa de ligar o evangelho social à herança social de Wesley.
Essa mesma obra mostra a distância entre ele e o arminianismo clássico. Ao explicar o sucesso dos pregadores metodistas na fronteira americana, o livro diz que eles pregavam que “todo homem era senhor do seu destino espiritual” e anunciavam uma salvação oferecida a quem “exercesse a vontade para aceitá-la”. Armínio e Wesley não falavam assim. Para eles a vontade humana caída está presa e só pode crer porque a graça preveniente, que vem antes de qualquer resposta, a liberta (Artigos de Religião metodistas, art. VIII). Luccock também relativizou a inspiração da Bíblia: no mesmo livro elogia Wesley por ter deixado de lado a teoria da inspiração verbal quando ela entrava em choque com a experiência do amor de Deus, e observa que entre os sermões doutrinários de Wesley não há nenhum sobre o nascimento virginal, a inspiração ou a segunda vinda. A declaração de fé deste site afirma que os escritos originais das Escrituras foram preservados de erro; nesse ponto o liberalismo de Luccock e a fé do site seguem caminhos diferentes.
Um evangelho vertical
O evangelho social de Luccock nunca dispensou Deus. Em The Story of Methodism ele define o evangelho social como a aplicação do ensino de Jesus e de “toda a mensagem cristã” à vida econômica, política e social, e o apresenta como a recuperação do centro da pregação de Jesus, o Reino de Deus, perdido durante séculos. Mas, em Jesus and the American Mind (1930), adverte os militantes sociais da própria igreja: “um prospecto de serviço social nunca pode tomar o lugar de uma religião”. Uma religião sem Deus, diz ele, seria como o casamento que os três filhos de um pastor inglês encenavam numa brincadeira, um casamento “muito discreto”, porque não tinha noivo.
Em Christian Faith and Economic Change (1936), escrito no meio da Grande Depressão, a imagem é geométrica. O mundo moderno é “horizontal” em dois sentidos: está prostrado, ferido, e tira os seus alvos apenas do plano da civilização secular. A essa visão corresponde uma religião igualmente horizontal: “um humanismo de um metro e oitenta presta o seu culto mais alto olhando com adoração para o rosto do homem”. O cristianismo, ao contrário, é uma fé vertical, que vê a vida apoiada num Deus de amor e medida por padrões que vêm da natureza dele. Daí a conclusão do capítulo: a primeira necessidade da redenção social “não é um punhado de programas econômicos, mas uma fé” que encontra a sua força na natureza de Deus revelada em Cristo. Luccock também recusa o outro extremo, a religião que só olha para o céu e foge do mundo; esta, diz, deixou de ser o sal da terra (Mateus 5:13).
Resistência à venda
O capítulo mais lembrado de Jesus and the American Mind se chama “O evangelho do vendedor”. Luccock descreve a economia da produção em massa como um carrossel: produzir mais, ganhar mais, gastar mais, e de novo. Para girar, ela precisa criar desejos novos e vencer o grande vilão da peça, a “resistência à venda”. Ele cita o publicitário Bruce Barton, que num editorial de Natal usou o versículo “mais bem-aventurado é dar que receber” (Atos 20:35) como incentivo às compras, e nota que até os religiosos falavam em “vender a religião”. A resposta dele virou programa: já havia cursos demais sobre como quebrar a resistência à venda, e a educação cristã precisava ensinar “como aumentar a resistência à venda”. A pergunta que ele fazia à economia do seu tempo não era o que ela fazia pelo comércio, mas “o que ela está fazendo pela vida”.
A conversão como criação de uma personagem
Ao lado do crítico social estava o pregador da conversão. No sermão “Personagens à procura de um autor”, de The East Window (1925), ele diz que “a personagem principal” da vida de todo homem é “a nova criatura” que Jesus Cristo pode trazer à vida. Sem Cristo, a história de uma vida é uma peça em que o protagonista nunca entra em cena. Por isso ele recusa ver a conversão como “mágica” ou cerimônia e a descreve como um processo vivo, a comunicação da própria vida de Cristo, citando Paulo: “se alguém está em Cristo, nova criatura é” (2 Coríntios 5:17). O exemplo é Pedro, o pescador a quem Jesus deu um nome novo (João 1:42).
A pregação como ofício
Para Luccock a pregação era um ofício, com ferramentas, oficina e aprendizado. Preaching Values in New Translations of the New Testament (1928) abre com uma frase de Miles Coverdale, de 1535: há mais conhecimento da Escritura nas “diversas traduções” do que em todas as glosas dos doutores. O livro não oferece esboços de sermão, mas “pontos de partida” para o pensamento, mostrando como a palavra nova de uma tradução abre uma janela para uma paisagem antiga. O primeiro texto é o sal “insípido” de Moffatt em Mateus 5:13, aplicado à igreja que perdeu o gosto.
Ele também levou a literatura moderna para a sala de aula de homilética: em Contemporary American Literature and Religion (1934) e American Mirror (1940), leu os romancistas e poetas da sua época como espelhos das perguntas morais e religiosas do país. Os capítulos de Communicating the Gospel (1954) mostram o mesmo cuidado com o ouvinte: “Uma Babel de línguas”, “Servir à geração presente”, verso de um hino de Charles Wesley, “O pregador como artesão” e “Pregando durante um terremoto”.
Obras principais
- Fares, Please! and Other Essays on Practical Themes (1916)
- Studies in the Parables of Jesus (1917)
- The Christian Crusade for World Democracy (1918), com S. Earl Taylor
- Skylines (1923)
- The East Window and Other Sermons (1925)
- The Story of Methodism (1926), com Paul Hutchinson
- Preaching Values in New Translations of the New Testament (1928)
- Jesus and the American Mind (1930)
- Preaching Values in the Old Testament in the Modern Translations (1933)
- Contemporary American Literature and Religion (1934)
- Christian Faith and Economic Change (1936)
- Christianity and the Individual in a World of Crowds (1937)
- The Acts of the Apostles in Present-Day Preaching (1938-1942)
- American Mirror: Social, Ethical and Religious Aspects of American Literature, 1930-1940 (1940)
- In the Minister’s Workshop (1944)
- Endless Line of Splendor (1950)
- Exposição do Evangelho de Marcos, em The Interpreter’s Bible, vol. 7 (1951)
- Marching Off the Map (1952)
- Communicating the Gospel (1954), Lyman Beecher Lectures de 1952
- Living Without Gloves: More Letters of Simeon Stylites (1957)
- Preaching Values in the Epistles of Paul (1959; vol. 2, 1961)
- Never Forget to Live (1961)
Para aprofundar
- “Halford E. Luccock”, Wikipédia (em inglês).
- Yale Divinity School Library, “The Practice of Ministry at Yale Divinity School” (exposição sobre o ensino de homilética em Yale).
- “Religion: Go Ye and Relax?”, Time, 20 de abril de 1953.
- Christopher H. Evans, “From militant Methodism to secular Christianity: the social gospel in American Methodist historical narratives”, Methodist History, vol. 38, n. 3, abril de 2000.
- Quote Investigator, “When Fascism Comes To America, It Will Be Wrapped in the Flag” (com a citação do New York Times de 12 de setembro de 1938).
- Kirkus Reviews, resenha de Marching Off the Map, 15 de junho de 1952.
- Yale Divinity Library, “Lyman Beecher Lectureship on Preaching” e “Luccock Visitorship”.
- “Feast of Halford E. Luccock”, blog Neatnik (dados biográficos e cargos).
- Obras de Luccock no Internet Archive: The Story of Methodism (1926), Jesus and the American Mind (1930), Christian Faith and Economic Change (1936), The East Window (1925), Preaching Values in New Translations of the New Testament (1928), Through the Eyes of Youth (1924) e Fares, Please! (1916).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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