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Henry Clay Sheldon: O professor de Boston que mudou a teologia metodista sem fazer barulho
Neste texto
- Vida
- Nova York, Yale e o chamado ao ministério
- Três anos de pastorado
- Leipzig
- Quarenta e seis anos de cátedra
- O System of Christian Doctrine
- O apologista das novas religiões
- O “tio Henry”
- Pensamento
- Armínio lido por um historiador
- A oportunidade universal da salvação
- Pecado de origem, liberdade e graça
- Santificação e perseverança
- A expiação e a Bíblia
- Obras principais
- Para aprofundar
Em 1897, as aulas de teologia sistemática de Henry Clay Sheldon já circulavam entre os alunos da Universidade de Boston em cópias datilografadas. Um deles, Albert Knudson, insistiu para que o professor as publicasse. Sheldon respondeu que a Igreja Metodista Episcopal levaria uns cinquenta anos para aceitar o seu ponto de vista. Errou por muito. O livro saiu em 1903 com o título System of Christian Doctrine, e onze anos depois daquela conversa as mesmas aulas eram o manual oficial de teologia dos futuros pastores metodistas. Quando lembraram a ele a profecia frustrada, o professor brincou com o próprio erro. Esse homem discreto, que quase nunca aparecia nas conferências da igreja, ensinou teologia por 46 anos seguidos e fez a ponte entre a teologia metodista do século XIX e a do século XX.
Vida
Nova York, Yale e o chamado ao ministério
Henry Clay Sheldon nasceu em 12 de março de 1845 em Martinsburg, no condado de Lewis, no norte do estado de Nova York. Formou-se bacharel pela Universidade Yale em 1867 e recebeu dela o título de mestre em 1870. Depois de Yale, estudou para o ministério metodista na Escola de Teologia da Universidade de Boston, onde se formou em 1871.
Ali William Fairfield Warren, deão da escola e mais tarde presidente da universidade, lhe deu a primeira introdução à teologia sistemática, um curso que Knudson chamaria de exemplo de “liberalidade sensata” e que pôs o aluno no caminho que seguiria a vida toda.
Três anos de pastorado
Sheldon passou só três anos no pastorado. Em 1871 e 1872 atendeu como suplente a igreja metodista de Saint Johnsbury, em Vermont. De 1872 a 1874 foi pastor em Brunswick, no Maine. Entrou em experiência na Conferência do Maine e foi ordenado diácono em 1873; em 1876, já professor, recebeu a ordenação de presbítero e a filiação plena na conferência.
Leipzig
Em 1874 Sheldon passou um ano na Universidade de Leipzig. Leu de primeira mão os teólogos da escola da mediação, como Isaak Dorner e Richard Rothe, que tentavam conciliar a fé histórica com o pensamento moderno, e por eles chegou a Schleiermacher e a Ritschl, que puseram a experiência religiosa no centro da teologia. Não virou discípulo de nenhum deles, mas tirou dali o hábito de começar pela experiência cristã, e não por provas externas.
Quarenta e seis anos de cátedra
Ao voltar, em 1875, Sheldon foi eleito professor da Escola de Teologia de Boston. No mesmo ano casou-se com Mary Louise McLellan, com quem teve dois filhos. Durante vinte anos, de 1875 a 1895, ocupou a cadeira de teologia histórica. Em 1895 passou para a teologia sistemática e ficou nela até receber o título de emérito, em 1921. Nenhum outro professor metodista de teologia, a não ser Warren, ensinou por tanto tempo.
Os anos de teologia histórica deram fruto primeiro: a History of Christian Doctrine, em dois volumes (1886), e os cinco volumes da History of the Christian Church (1894), usados por décadas como livros-texto nos seminários.
Na mesma universidade ele conviveu por mais de trinta anos com o filósofo Borden Parker Bowne, o criador do personalismo de Boston. Numa carta a Knudson, Sheldon contou que de Bowne recebeu “sugestões muito valiosas” e confiança para tratar das questões fundamentais. Foi Sheldon quem primeiro levou para a teologia sistemática metodista o ponto de vista idealista de Bowne, que vê o mundo como obra contínua de um Deus presente nele, e não como uma máquina que roda sozinha.
O System of Christian Doctrine
No prefácio do livro, de 1903, Sheldon escreveu que não tinha escrito “para a satisfação de nenhum partido, conservador ou radical”: recusava a ideia de que todo afastamento da tradição ameaça a fé inteira e também o desprezo dos radicais pela fé das gerações passadas. Em 1908 o livro entrou no Curso de Estudos da Igreja Metodista Episcopal, o currículo obrigatório dos pastores em formação, e a igreja do Sul já o tinha adotado antes. Ficou no currículo da igreja do Norte até 1932 e no da igreja do Sul até 1939.
O apologista das novas religiões
Terminadas as grandes obras, Sheldon escreveu histórias críticas da incredulidade (1907) e do sacerdotalismo (1909) no século XIX e examinou os grupos que cresciam nos Estados Unidos: a Ciência Cristã, o mormonismo, o adventismo, a teosofia e o Novo Pensamento. No livro sobre o mormonismo (1914), explica que um sistema mantido por uma grande força de missionários merecia exame cuidadoso, e aplica a ele quatro testes: o histórico, o crítico, o racional e o prático. Já aposentado, publicou The Essentials of Christianity (1922), dedicado aos jovens e nascido de aulas a estudantes universitários.
O “tio Henry”
Sheldon tinha temperamento reservado. Não disputou cargos, quase não aparecia nas conferências e nunca foi acusado de heresia. Os alunos o procuravam, e ele os recebia com simplicidade e franqueza. Chamavam-no de “Uncle Henry”, o tio Henry. Knudson, que o sucedeu na cátedra de teologia sistemática, o chamou de “o teólogo mais erudito e mais influente do metodismo” num artigo escrito para os oitenta anos do mestre, em 1925. Sheldon morreu em 4 de agosto de 1928, aos 83 anos.
Pensamento
Sheldon é um teólogo wesleyano: metodista episcopal, autor do manual oficial da sua igreja por três décadas e defensor explícito da graça oferecida a todos contra a eleição incondicional. Também abriu a porta da teologia metodista ao liberalismo do século XX, e por isso a distância entre ele e o arminianismo clássico precisa ser vista ponto por ponto.
Armínio lido por um historiador
Na History of Christian Doctrine (1886), Sheldon descreve a teologia de Jacó Armínio como o sistema calvinista com uma única mudança, a rejeição da predestinação absoluta, e defende o holandês das acusações de sempre: uma acusação de afinidade pelagiana contra Armínio, escreve, só se sustenta a partir do “calvinismo mais extremo” ou de um conhecimento “totalmente inadequado” dos seus escritos (vol. 2, p. 35). Os sucessores, a começar por Simão Episcópio, se afastaram mais do calvinismo, mas o arminianismo do metodismo, diz ele, deve ser medido pelo fundador, e não pelos remonstrantes tardios. O metodismo quis escapar das asperezas do calvinismo “mantendo uma forte doutrina da graça” e evitou tanto o extremo pelagiano quanto o calvinista.
A oportunidade universal da salvação
No System, a seção sobre a apropriação da salvação começa com uma tese: Deus dá a todos uma oportunidade real de receber a salvação providenciada em Cristo, contra a escolha incondicional e exclusiva de alguns. Sheldon reconhece que a Escritura dá grande destaque à escolha de Deus e que Deus escolhe e prepara os portadores da sua mensagem, como fez com Israel. A pergunta é se Deus conduz essa escolha para o maior avanço possível do reino num mundo de pessoas livres ou para salvar um número fixo e deixar os outros de fora.
Diante de Romanos 9 a 11, ele observa que Paulo argumenta contra um grupo que reivindicava privilégio exclusivo por ser descendente de Abraão, e por isso deixa de lado as qualificações e reúne os exemplos mais duros de escolha divina. Contra a predestinação incondicional ele usa dois argumentos, a justiça e o amor de Deus. Se alguém nasce inclinado ao pecado, precisa da graça para crer e essa graça lhe é negada, condená-lo pela incredulidade é arbítrio. E o amor que escolhe os seus objetos por decreto deixa de ser amor. Para ilustrar, imagina um pai no convés de um navio que vê os quatro filhos se afogando, tem boias para todos e joga boias só para dois. Ninguém chamaria isso de amor paterno.
Pecado de origem, liberdade e graça
Sheldon afirma que o pecado de Adão começou a corrupção da raça e que essa corrupção passa de geração em geração. Nega, porém, que a culpa de Adão seja imputada aos descendentes: ninguém pode ser responsável por um ato cometido antes de nascer, e Paulo nunca descreve as crianças como debaixo da ira de Deus. Também define a liberdade como “poder de escolha contrária”, a capacidade de escolher de modo diferente nas mesmas condições, e a considera condição indispensável da responsabilidade moral.
Ao mesmo tempo, diz que na recuperação de uma alma caída “a graça precisa tomar a iniciativa” (System, p. 186), e descreve a vontade humana como capaz, no máximo, de dar um primeiro passo na direção da confiança, que só chega ao alvo com auxílios especiais da graça. A fé é a condição principal da salvação, e a justificação é dom gratuito de Deus, recebido pela fé e sem mérito.
Aqui está a maior distância em relação ao arminianismo clássico. Armínio e Wesley ensinaram que a vontade caída está morta para o bem e que só a graça preveniente, dada a todos por causa de Cristo, a liberta para crer. Sheldon afirma a iniciativa da graça, mas não desenvolve a graça preveniente e trata a liberdade sobretudo como dote natural. Também a declaração de fé deste site, como a tradição de Armínio, afirma que todos nascemos sob condenação (pecado original e depravação total), o que Sheldon nega.
Santificação e perseverança
Sobre a santificação, Sheldon segue a linha de Wesley com cautela. A regeneração é o primeiro passo decisivo da santificação, e a inteira santificação é a filiação levada à perfeição, o estado de quem não tem mais nada de contrário a Deus no coração, descrito em João como o amor perfeito que lança fora o medo. Nem a razão nem a Escritura provam que esse alvo seja inalcançável nesta vida: 1 João 1:8 precisa ser lido com o versículo seguinte, que promete purificar “de toda injustiça”, e as ordens e orações do Novo Testamento indicam que a inteira santificação é possível. Acrescenta que se trata de um ideal altíssimo, que só não desespera quem tem “uma fé grande e intensa no poder maravilhoso da graça divina”. Ao tratar da certeza da inteira santificação, cita Love Enthroned, de Daniel Steele, seu colega na Universidade de Boston, a quem chama de um dos expositores mais edificantes da perfeição cristã.
Na perseverança, Sheldon defende a posição arminiana. O pecado que não endurece o coração não desfaz a filiação: o filho que cai se arrepende e é perdoado. A apostasia final é possível, e Hebreus 6:4-6 é difícil de ler de outro modo. A promessa de João 10 mostra a fidelidade do pastor, que guarda as ovelhas até o limite que a liberdade humana permite (perseverança e apostasia).
A expiação e a Bíblia
Em dois pontos Sheldon mudou o rumo da teologia metodista. Sobre a expiação, considerou a satisfação penal um exagero e criticou também a teoria governamental de John Miley, por separar demais Deus como pessoa e Deus como governante. Para ele, a obra de Cristo tem um lado voltado para Deus: mostra que o amor oferecido aos pecadores é amor santo, que leva a sério a justiça e a lei. Knudson observou que essa posição pouco se distingue da teoria moral de Bowne. A declaração de fé do site, com Armínio e Wesley, afirma a satisfação penal substitutiva.
Sobre a Escritura, Sheldon deixou de lado o método de Richard Watson e de William Burt Pope, que provavam a autoridade da Bíblia primeiro pelos milagres e pelas profecias. Escreveu que a prova da Bíblia “está no seu conteúdo”, na riqueza espiritual do que ela contém e na harmonia entre as suas partes (System, p. 118). O milagre passa a ser parte da revelação, e não a sua credencial. Com isso Sheldon abandonou a inerrância, que a declaração de fé do site afirma para os autógrafos.
Randy Maddox, historiador da teologia metodista, nota no System uma ênfase no indivíduo que deixa pouco lugar para a igreja na formação da santidade, ao contrário de Wesley, que confiava à comunidade cristã boa parte dessa formação.
Para Knudson, ninguém acusaria Sheldon de radical, mas foi ele quem deu à teologia metodista o selo da modernidade. Ele foi ao mesmo tempo um defensor lúcido da graça oferecida a todos e o começo de um caminho que levou boa parte do metodismo americano para longe de Wesley.
Obras principais
- History of Christian Doctrine, 2 volumes (Nova York: Harper & Brothers, 1886)
- History of the Christian Church, 5 volumes (Nova York: T. Y. Crowell, 1894)
- System of Christian Doctrine (Cincinnati: Jennings and Pye; Nova York: Eaton and Mains, 1903)
- Unbelief in the Nineteenth Century: A Critical History (Nova York: Eaton & Mains, 1907)
- Sacerdotalism in the Nineteenth Century: A Critical History (Nova York: Eaton & Mains, 1909)
- New Testament Theology (Nova York: Macmillan, 1911)
- Theological Encyclopaedia (Cincinnati: Jennings and Graham, 1911)
- Christian Science So-Called (Nova York: Eaton & Mains, 1913)
- Rudolf Eucken’s Message to Our Age (Nova York: Eaton & Mains, 1913)
- A Fourfold Test of Mormonism (Nova York: Abingdon Press, 1914)
- Studies in Recent Adventism (Nova York: Abingdon Press, 1915)
- Theosophy and New Thought (Nova York: Abingdon Press, 1916)
- The Mystery Religions and the New Testament (Nova York: Abingdon Press, 1918)
- Pantheistic Dilemmas and Other Essays in Philosophy and Religion (Nova York: Methodist Book Concern, 1920)
- The Essentials of Christianity (Nova York: George H. Doran, 1922)
Para aprofundar
- Albert C. Knudson, “Henry Clay Sheldon: Theologian”, Methodist Review 108 (março de 1925), p. 175-192, Internet Archive (biografia, carreira, a recepção do System e as influências de Warren, Bowne e da teologia alemã).
- Boston University School of Theology, “Henry C. Sheldon (1871)”, página de história da escola (formação, pastorados e lista de obras).
- Randy L. Maddox, “An Untapped Inheritance: American Methodism and Wesley’s Practical Theology”, em Dennis Campbell et al. (orgs.), Doctrines and Disciplines: Methodist Theology and Practice (Abingdon, 1999), p. 19-52 e 292-309.
- Henry C. Sheldon, System of Christian Doctrine (1903), Internet Archive.
- Henry C. Sheldon, History of Christian Doctrine, vol. 2 (1886), Internet Archive.
- Henry C. Sheldon, A Fourfold Test of Mormonism (1914), Internet Archive.
- Henry C. Sheldon, The Essentials of Christianity (1922), Internet Archive.
- Henry C. Sheldon, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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