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H. Wheeler Robinson: O hebraísta batista da personalidade corporativa
Em 1935, especialistas em Antigo Testamento de quase toda a Europa e dos Estados Unidos se reuniram em Göttingen, na Alemanha, a convite dos colegas alemães. Os anfitriões escolheram um estudioso de cada um dos países principais para apresentar uma conferência longa, e da Grã-Bretanha chamaram um pastor batista inglês de barba preta e olhos penetrantes. Ele leu um estudo sobre o que chamava de “personalidade corporativa” no antigo Israel. Quando terminou, um dos maiores estudiosos alemães cochichou a um britânico que a Alemanha não tinha ninguém para comparar com aquele homem no seu campo. Era Henry Wheeler Robinson, criado pela mãe e por parentes dela, que tinha deixado a escola aos 15 anos para trabalhar num escritório de comércio de couro.
Vida
Northampton
Henry Robinson nasceu em Northampton, na Inglaterra, em 7 de fevereiro de 1872. O pai não fez parte da vida dele: Robinson o viu uma única vez, já adulto. Hail Mawby, tio da mãe, Helen Robinson, e a esposa dele, Dinah, acolheram mãe e filho em casa, e foi nessa família ampliada que o menino cresceu. Era uma casa batista convicta: Hail foi diácono da capela de College Street e trabalhava numa fábrica de velas de sebo fundada pelo sogro, John Wheeler, que também servia como pastor de uma pequena comunidade batista. Dinah, que não tinha filhos, deu ao menino o sobrenome do pai dela, e ele passou a ser conhecido como Wheeler Robinson.
Havia pouco dinheiro e poucos livros, e Robinson atribuía a essa falta o apego que teve aos livros a vida inteira. Aos 15 anos saiu da escola para trabalhar no escritório de um atacadista de couro. Estudou à noite e frequentou os cursos de extensão da Universidade de Cambridge. Na capela de College Street, o jovem pastor Henry Pollard, a escola dominical e a sociedade de moços o levaram ao chamado para o ministério.
Formação
Em 1890 Robinson passou um ano na Regent’s Park College, a faculdade batista então em Londres, e seguiu para a Universidade de Edimburgo, onde se formou em letras clássicas e filosofia em 1895. Dali foi para o Mansfield College, em Oxford, atraído pelo diretor, o teólogo congregacional Andrew Fairbairn. Especializou-se em línguas semíticas com George Buchanan Gray, a quem descreveu como “uma consciência exteriorizada” para os alunos.
Nos exames finais de 1898 não recebeu a nota máxima, mas nos anos seguintes, parte deles passados nas universidades de Marburg e Estrasburgo, onde ouviu Karl Budde, Wilhelm Nowack e Theodor Nöldeke, ganhou os principais prêmios de Oxford no seu campo: os da Septuaginta, o de siríaco Hall-Houghton e as bolsas Kennicott de hebraico.
Pastor e professor
Em 1900 casou-se com Alice Ashford, com quem teve três filhos, Bernard, Monica e Ursula. Foi pastor da igreja batista de Pitlochry, na Escócia, e, a partir de 1903, da igreja de St Michael’s, em Coventry. Ali escreveu o comentário a Deuteronômio e Josué da coleção Century Bible (1907).
Em 1906 tornou-se professor na Rawdon Baptist College, perto de Leeds. Como o Antigo Testamento já tinha professor, ensinou história da igreja, filosofia da religião, doutrina cristã, Novo Testamento e um curso sobre religião e literatura. Nesses anos publicou The Christian Doctrine of Man (1911) e The Religious Ideas of the Old Testament (1913). Em 1913 sofreu um colapso físico grave e ficou seis meses sem trabalhar. A experiência de fraqueza, somada à morte de um amigo de juventude num hospital psiquiátrico, na miséria, marcou a teologia dele: o primeiro livro depois da doença foi The Cross of Job (1916), sobre o sofrimento do justo, e as palestras que deu a pastores em 1916 e 1917 deram origem a The Christian Experience of the Holy Spirit (1928).
Regent’s Park e Oxford
Em 1920 Robinson foi chamado para dirigir a Regent’s Park College, em Londres. Hesitou no começo, aceitou e ficou até 1942. A obra que o definiu como diretor foi levar a faculdade de Londres para Oxford. Ele mesmo passou a dirigi-la de Oxford a partir de 1927, levantou o dinheiro, conseguiu um terreno em St Giles, no centro da cidade, e viu concluída a primeira etapa dos prédios. Em 1926 recebeu da Universidade de Edimburgo o doutorado honoris causa em teologia.
Robinson presidiu a Society for Old Testament Study em 1929 e de novo, interinamente, de 1941 a 1945, e editou o volume da sociedade Record and Revelation (1938). Em 1934 Oxford o fez Reader em crítica bíblica, sem que ele ocupasse cargo na universidade, e também o convidou para as Speaker’s Lectures, publicadas depois da morte dele como Inspiration and Revelation in the Old Testament (1946). A Academia Britânica lhe deu a medalha Burkitt de estudos bíblicos.
Na denominação, presidiu a Sociedade Histórica Batista de 1921 até morrer e escreveu Baptist Principles (1925), traduzido para o alemão e o dinamarquês, e The Life and Faith of the Baptists (1927), que batistas de todas as tendências usaram como manual. Em Oxford foi membro e diácono da igreja batista de New Road e escreveu um hino de culto.
Os alunos lembravam dele com respeito e algum medo. Um colega de faculdade disse que ele exercia influência sobretudo como disciplinador moral, e outro falou de uma “devoção kantiana ao dever”. Fumava cachimbo e gostava de romances policiais, mas a disciplina vinha antes de tudo. Ao aluno David Russell, quando este deixou a faculdade, recomendou que não deixasse o trabalho da igreja atrapalhar os estudos. O retrato pintado por James Gunn, no salão da faculdade, guarda essa severidade.
Robinson se aposentou em 1942. Nos últimos meses voltou a sofrer um colapso, e morreu na casa de saúde Acland, em Oxford, em 12 de maio de 1945, o sábado seguinte ao fim da guerra na Europa. O historiador batista Ernest Payne, seu colega na faculdade, estava ao lado dele. A placa em sua memória, na entrada da capela da faculdade, traz as palavras de Atos 11:24: “era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé”.
Pensamento
Onde ele fica
Classe: simpatizante. Robinson nunca se chamou arminiano. Em The Christian Doctrine of Man (1911) chegou a descrever o arminianismo como um “semipelagianismo”, e em The Christian Experience of the Holy Spirit (1928) escreveu que as controvérsias entre calvinistas e arminianos sobre a graça e a liberdade “não foram tanto resolvidas quanto superadas” por uma visão mais profunda da experiência cristã. Nos pontos centrais, porém, ficou contra o calvinismo. Ensinou que há expiação “para o pecado de cada indivíduo” e que a graça não é imposta: “Nem Deus pode coagir uma vontade má a aceitar de bom grado a sua graça” (1911). O teólogo escocês Norman Porteous o pôs ao lado de John Oman, que defendia que a graça não deve ser pensada como irresistível porque respeita a liberdade humana e nunca trata a pessoa como coisa.
O rótulo de semipelagiano não faz justiça a Jacó Armínio, e o próprio Robinson, no mesmo livro, resumiu corretamente a Remonstrância de 1610: o ser humano não tem a fé salvadora de si mesmo, todo bem nele vem da graça, e essa graça não é irresistível. Essa é a doutrina que os arminianos chamam de graça preveniente, a graça que vem antes da fé e liberta a vontade para crer. Robinson concordava com a primazia da graça: ao percorrer a história da igreja, escreveu que ela sempre esteve convicta de que “não havia salvação para o homem sem a graça”. A ênfase dele, porém, caía sobre a liberdade humana, que entendia como fruto da autolimitação de Deus ao criar pessoas livres. Por isso discordou de Karl Barth, que, segundo ele, punha todo o peso na parte de Deus e nenhum na resposta humana.
O corpo animado e a personalidade corporativa
A contribuição mais conhecida de Robinson veio do estudo da psicologia hebraica. Ele mostrou que o Antigo Testamento não divide o ser humano em corpo e alma como a filosofia grega. Para os hebreus a pessoa é um corpo animado: o coração, a mão, o olho e a boca sentem, querem e agem, e o organismo humano seria, na imagem dele, mais uns “Estados Unidos” que uma monarquia. A pessoa assim descrita tem fronteiras abertas e é sensível a influências de fora, e é por aí que o Espírito de Deus alcança o profeta e o crente.
Dessa abertura nasceu a ideia de personalidade corporativa. Em The Religious Ideas of the Old Testament (1913) ele escreveu que, no Israel antigo, “a unidade para a moral e a religião não é tanto o indivíduo quanto o grupo” a que ele pertence: a família, o clã, a nação. Robinson usou a ideia para explicar o “eu” dos Salmos, o Servo de Isaías, que é ao mesmo tempo Israel e uma pessoa, e o paralelo de Paulo entre Adão e Cristo como cabeças de duas humanidades. Estudiosos posteriores criticaram a dependência da teoria em relação à antropologia do começo do século XX, mas a recusa do dualismo entre corpo e alma continua aceita por muitos.
O Espírito que se esvazia
Em The Christian Experience of the Holy Spirit (1928), Robinson aplicou ao Espírito Santo o que Paulo diz do Filho em Filipenses 2:7, que “esvaziou-se a si mesmo”. Assim como o Filho se humilhou na encarnação, o Espírito se humilha ao habitar em pessoas pecadoras e numa igreja imperfeita, que nunca está à altura do seu propósito. Ele chamou isso de kenosis (esvaziamento) do Espírito e disse que, se cremos na presença do Espírito na igreja, vemos a história dela como a “Via Dolorosa do Espírito”. A paciência de Deus com a igreja, concluía, repreende a nossa impaciência uns com os outros.
O sofrimento e a cruz
O sofrimento ocupou Robinson desde a doença de 1913. Em The Cross of Job (1916) ele lê o prólogo de Jó como a chave do livro: o sofrimento do justo serve para provar “que a religião desinteressada é real” e que o ser humano pode se apegar a Deus pelo que ele é, e não pelo que ele dá. Contra o barão von Hügel, defendeu que Deus sofre por causa do pecado humano, porque um Deus que não sofresse com isso seria, nesse ponto, menor que um homem bom. A cruz, para ele, mostra o amor que reconcilia e também o realiza na história.
Aqui aparece uma diferença com a declaração de fé deste site. Robinson rejeitava as leituras “meramente transacionais” da morte de Cristo e via verdade parcial nas várias teorias da expiação, inclusive na da satisfação penal dos reformadores. O arminianismo clássico, com Armínio e Wesley, afirma que Cristo levou sobre si a pena do pecado, como explicamos em Expiação: satisfação penal e alcance universal.
Experiência, Escritura e a esperança universal
Robinson pertencia à geração liberal-evangélica que fundava a teologia na experiência religiosa. Para ele, a autoridade da igreja e da Bíblia vem depois da experiência e a serve, porque media a autoridade do próprio Deus. Isso o separa da declaração deste site, que tem a Bíblia como autoridade final em matéria de fé e prática.
Ele também não aceitava com tranquilidade a ideia de rebelião eterna, porque “Deus não é vitorioso enquanto houver uma vontade recalcitrante”. No fim de The Christian Doctrine of Man escreveu que podemos ao menos ter esperança de que a liberdade humana chegue, pela graça divina, à “universalidade da salvação”, embora a natureza da liberdade proíba qualquer dogmatismo. É uma esperança, e não uma doutrina afirmada, mas fica distante do arminianismo clássico e da declaração de fé do site, que ensinam o juízo final e o castigo eterno dos que rejeitam a graça.
O batista
Como batista, Robinson ligava o batismo dos crentes ao dom do Espírito Santo e dizia que os batistas precisavam de um “Movimento de Oxford” próprio, isto é, de uma renovação da vida de culto e dos sacramentos. Como historiador, contou a história das duas correntes batistas inglesas, os batistas gerais, de teologia arminiana, e os particulares, de teologia calvinista. Escreveu que a “casca mole” do arminianismo não protegeu os batistas gerais da decadência doutrinária no século XVIII, enquanto a “casca dura” do calvinismo protegeu os particulares, mas trouxe outros perigos, como o hipercalvinismo que Andrew Fuller precisou vencer para pregar a todos o dever de crer, e lembrou que o calvinismo de Whitefield e o arminianismo de John Wesley caminharam juntos no Avivamento Evangélico. As diferenças entre as duas tradições aparecem em Batistas vs Metodistas.
Obras principais
- Deuteronomy and Joshua, The Century Bible (1907)
- The Christian Doctrine of Man (1911)
- The Religious Ideas of the Old Testament (1913)
- The Cross of Job (1916)
- Baptist Principles (1925)
- The Cross of Jeremiah (1925)
- The Cross of the Servant: A Study in Deutero-Isaiah (1926)
- The Life and Faith of the Baptists (1927)
- The Christian Experience of the Holy Spirit (1928)
- The Veil of God (1936)
- The Old Testament: Its Making and Meaning (1937)
- The History of Israel: Its Facts and Factors (1938)
- Suffering Human and Divine (1939)
- Redemption and Revelation in the Actuality of History (1942)
- Inspiration and Revelation in the Old Testament (1946, póstumo)
- Two Hebrew Prophets: Studies in Hosea and Ezekiel (1948, póstumo)
Para aprofundar
- Rex Mason, H. Wheeler Robinson Revisited, The Baptist Quarterly, 37.5 (1998), p. 213-226.
- Norman W. Porteous, Henry Wheeler Robinson, Biblical Scholar and Theologian, The Baptist Quarterly, 24.6 (1972), p. 284-295.
- A. J. Grieve e Theodore H. Robinson, H. Wheeler Robinson, The Baptist Quarterly, 11 (1945), p. 373-378.
- Max E. Polley, The Place of Henry Wheeler Robinson among Old Testament Scholars, The Baptist Quarterly, 24.6 (1972), p. 271-283.
- Max E. Polley, Bibliography of H. Wheeler Robinson’s Writings, The Baptist Quarterly, 24.6 (1972), p. 296-322.
- R. L. Child e Edgar W. Wright, His Authority and Spiritual Impact, The Baptist Quarterly, 24.6 (1972).
- Ernest A. Payne e H. J. White, Church Member and Deacon, The Baptist Quarterly, 24.6 (1972).
- Regent’s Park College, Henry Wheeler Robinson (1872-1945), retratos do Helwys Hall.
- H. Wheeler Robinson, The Christian Doctrine of Man (2ª ed., 1913), Internet Archive.
- H. Wheeler Robinson, The Christian Experience of the Holy Spirit (1928).
- H. Wheeler Robinson, The Life and Faith of the Baptists (1927).
- H. Wheeler Robinson, The Cross of Job (1916) e The Religious Ideas of the Old Testament, Internet Archive.
- Wikipédia, H. Wheeler Robinson.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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