
HistóriaTeólogos arminianos8 de 210
H. V. Miller: o ex-pastor batista que pregou a santidade como superintendente dos nazarenos
Na Assembleia Geral da Igreja do Nazareno de 1940, reunida no auditório municipal de Oklahoma City, cerca de seis mil pessoas ouviram o superintendente geral recém-eleito ler o Salmo 4:7, o versículo sobre a alegria que Deus põe no coração, maior que a do tempo em que o trigo e o vinho se multiplicam. O pregador era alto, de voz grave, e tinha feito 46 anos durante aquela mesma assembleia. Dezoito anos antes, Howard Vassar Miller era pastor batista. Agora era um dos quatro superintendentes gerais da Igreja do Nazareno.
Vida
De Brooktondale aos nazarenos
Miller nasceu em 1894 em Brooktondale, um vilarejo perto de Ithaca, no interior do estado de Nova York. A mãe era uma grande imitadora de vozes e de jeitos, e o filho herdou o dom: anos depois, os ouvintes diziam que, quando ele pregava sobre Naamã, descia com o general sírio às águas barrentas do Jordão.
Formou-se pela Universidade Colgate, escola de origem batista no interior de Nova York, e começou o ministério como pastor batista. Ele mesmo lembrou, em The Sin Problem, que entre aquele povo “grande e gracioso” onde trabalhou primeiro, o relaxamento teológico quase não encontrava resistência, mas quem anunciasse a morte do pecado no coração nesta vida carregava a acusação de heresia. Em 1922 Miller recebeu a experiência da inteira santificação e entrou para a Igreja do Nazareno.
Casou-se com Rhea F. Miller (1894-1966), também ligada a Brooktondale. Foi numa reunião da igreja do vilarejo que o pai dela, Martin James Ross, homem que tinha passado anos preso à bebida, deu o testemunho que a levou a escrever o poema “I’d Rather Have Jesus” (“Prefiro ter Jesus”), registrado em 1922. Em 1932 o jovem cantor George Beverly Shea encontrou uma cópia do poema sobre o piano da família, escrita pela mãe dele, e compôs a melodia com que o hino ficou conhecido.
Pastor, superintendente e professor
Antes de 1940, Miller foi pastor de uma igreja em Hartford, em Connecticut, por seis anos; superintendente distrital por nove; pastor da Primeira Igreja do Nazareno de Chicago por nove; e, por um ano, professor no Northwest Nazarene College, em Nampa, no Idaho. Em janeiro de 1932, o Herald of Holiness o listava como superintendente do Distrito de Nova York, com endereço em Brooktondale.
Em Chicago, ele e George J. Franklin, pastor em Gary, conduziram em 1935 uma campanha de sete semanas da “Cruzada pelas Almas”, com reuniões de oração três vezes por dia. Miller resumiu a campanha assim: “comemos avivamento, dormimos (um pouco) avivamento, falamos avivamento”. Em janeiro de 1940 a Primeira Igreja de Chicago era a sexta maior congregação da denominação, com 611 membros.
Na Assembleia Geral de 1936 ele já tinha sido o segundo nome mais votado para a quarta vaga de superintendente geral, que ficou com J. G. Morrison. Em janeiro de 1940 ele ensinava literatura bíblica e teologia em Nampa, e o Herald of Holiness publicou dele uma série em duas partes sobre o novo nascimento.
Superintendente geral (1940-1948)
Miller foi eleito em 1940, no quinto escrutínio. Em 1942, junto com R. T. Williams e J. B. Chapman, censurou o colega Orval J. Nease pelo modo como tratou um caso de disciplina que envolvia um filho dele, e os três pediram por carta a sua renúncia. Na assembleia de 1944, em Minneapolis, Miller foi reeleito com 77,6% dos votos, e Nease não voltou ao cargo. Numa carta a Williams naquele ano, Miller descreveu uma “inquietação tácita” na igreja com a liderança conjunta, agravada pelo fato de os superintendentes se reunirem como corpo uma vez por ano. Em parte por insistência dele, os superintendentes gerais passaram a trabalhar de fato como uma junta.
O cargo o levou para fora dos Estados Unidos. Em 1943 ele e a esposa foram a Porto Rico, onde algumas congregações independentes se uniram aos nazarenos. Os colegas o encarregaram da obra nascente na Austrália: ele providenciou, por meio do Distrito de Pittsburgh, a licença ministerial do pastor A. A. E. Berg, de Brisbane. Supervisionou missões na Índia e no Oriente Próximo e, na volta, visitou na Itália o pastor Del Rosso, cuja obra recomendou receber; em 1948 as quatro missões dele passaram à Igreja do Nazareno. Em 17 de junho de 1945, Miller foi o pregador do primeiro programa de rádio “Showers of Blessing”, transmitido por 37 emissoras.
Na Assembleia Geral de 1948, em St. Louis, ele escreveu e leu a mensagem quadrienal dos superintendentes, uma das mais longas já apresentadas. Falou dos pioneiros e dos “herdeiros”, lembrou o desejo de Wesley de que os metodistas fossem “cristãos bíblicos” e pregassem “o velho e simples cristianismo bíblico”, e advertiu que a igreja nunca deveria confundir realização eclesiástica com realidade espiritual. Propôs metas de 50 mil novos membros e mil novas congregações, e disse que não era motivo de honra para uma igreja com tanta paixão pelas almas ter deixado de evangelizar por tanto tempo os negros americanos. Encerrou com palavras de H. Orton Wiley sobre a grandeza da igreja de Cristo. Foi reeleito no primeiro escrutínio.
O pregador
James McGraw, professor do Seminário Teológico Nazareno, deixou em 1954 um retrato da pregação de Miller. O estilo ia da persuasão mansa ao humor das imitações. O vocabulário era tão amplo que ouvintes iam para casa procurar palavras no dicionário. No pastorado, começava a preparar os sermões na segunda-feira. Era um pregador da Bíblia: no sermão “The Silence of God”, sobre Deuteronômio 29:29, há quinze citações das Escrituras em vinte parágrafos. Diante de gente descuidada com o mundo, parecia “radical”; diante de gente legalista, parecia “liberal”. Rhea contou que ele orava em voz alta, mesmo a sós, e chamava pelo nome as pessoas por quem intercedia.
Morte
No fim de 1948 Miller esteve no Haiti, de onde recomendou comprar em Porto Príncipe um prédio para a obra e para uma pequena escola bíblica. No outono daquele ano viajou com E. E. Zachary à Austrália, onde presidiu a segunda assembleia distrital e ordenou cinco presbíteros, entre eles Berg. Na volta passou pelo Havaí, onde teve um mal-estar que pareceu indigestão. Chegou exausto no começo de dezembro e foi passar o Natal em casa, em Brooktondale. Ali sofreu uma trombose coronária e morreu às 16h30 de terça-feira, 28 de dezembro de 1948, aos 54 anos, o superintendente geral mais jovem a morrer no cargo. Quando lhe pediam que diminuísse a agenda, respondia: “quero fazer o que posso enquanto posso”.
G. B. Williamson, seu colega na junta, o descreveu como um homem livre de qualquer ambição pessoal, de visão aguda e juízo equilibrado. Em janeiro de 1949 os superintendentes distritais elegeram Daniel I. Vanderpool para a vaga. No mesmo ano saiu o último livro de Miller, His Will for Us. O Miller Business Center da Olivet Nazarene University leva o nome dele, e em 1955 Bill J. Prince comparou no Seminário Teológico Nazareno a vida e a pregação de Miller com as de Charles Finney.
Pensamento
Miller pertence à tradição wesleyana de santidade. A Igreja do Nazareno nasceu do movimento de santidade metodista, e os livros dele defendem, com as palavras de John Wesley, a “segunda bênção propriamente dita”: a inteira santificação, obra da graça posterior ao novo nascimento.
O novo nascimento e a graça que vem antes
Na série “The New Birth” (1940), Miller parte da incapacidade humana. Citando 1 Coríntios 2:14, diz que o homem natural está incapacitado para as coisas do Espírito porque o pecado o separou de Deus, a única fonte de luz espiritual. Quem dá o primeiro passo é o Espírito, que vem em amor e mexe naquela escuridão. Em The Sin Problem ele descreve a mesma coisa em primeira pessoa: muito antes que surgisse nele qualquer desejo de Deus, Deus já conduzia as circunstâncias da sua vida para a salvação. É o que a teologia arminiana chama de graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana.
Essa graça pode ser recusada. Miller escreve que, se a pessoa resiste à convicção, o Espírito nada mais pode fazer por ela; deixa de insistir, e ela afunda numa escuridão maior. Quem cede é levado ao arrependimento, que ele define como mudança sincera de atitude para com o pecado e para com Deus, à restituição do que for preciso e à fé, que brota “sob a urgência do Espírito”. Tudo isso, insiste, acontece guiado pelo Espírito Santo, “quase sem que eu perceba”. Ao falar do “lado humano” do novo nascimento, Miller às vezes usa a linguagem de a pessoa se “preparar” para recebê-lo. A declaração de fé deste site prefere dizer que a fé nada acrescenta e apenas recebe, mas o próprio Miller põe cada passo sob a ação do Espírito.
No “lado divino” vêm juntas três obras. A justificação é gratuita, pelo sacrifício do Filho. Miller a ilustra com um juiz que condena o próprio filho, depois desce da tribuna, tira a toga e assume a pena no lugar dele. Depois vem a adoção na família de Deus e, por fim, a regeneração, em que o Espírito põe Cristo no centro dos afetos.
O problema do pecado
The Sin Problem é a obra doutrinária mais completa dele. A disputa, diz Miller, não é sobre o perdão dos pecados cometidos, mas sobre o que Deus faz com o pecado como princípio no coração do crente. Descreve três respostas. A supressão, comum entre os calvinistas, diz que o pecado interior só será removido na morte ou na volta de Cristo; até lá, o crente o mantém sob controle. A contra-ação, da escola de Keswick e da “vida vitoriosa”, diz que o Espírito põe mais peso de graça na balança do que o pecado que continua lá dentro. A erradicação, dos grupos de santidade, afirma que Deus purifica o coração dos restos do pecado por uma segunda obra da graça, recebida pela fé e pela consagração completa. Os textos centrais para ele são Romanos 6:6, onde “o velho homem” é crucificado, e Colossenses 2:11, a circuncisão “não feita por mãos”.
Na segunda edição (1947), Miller acrescentou o capítulo “Necessary Cautions”. Ali explica que o pecado “não é uma substância”, e sim uma qualidade moral. Por isso Deus pode removê-lo, e por isso também ele pode voltar pela desobediência, assim como a doença volta ao corpo exposto a ela. Com um argumento de John Fletcher, separa pecado de enfermidade: a Escritura manda repreender o pecado (1 Timóteo 5:20) e suportar as fraquezas (Romanos 15:1), o que não faria sentido se fossem a mesma coisa. Rejeita a expressão “santo que peca”, usada nas notas da Bíblia de Scofield.
Dois traços equilibram o livro. Com G. Campbell Morgan, Miller diz que a experiência cristã é feita de processos e de crises: há duas crises, o novo nascimento e a inteira santificação, e entre elas e depois delas há crescimento na graça, que a purificação do coração não encerra. E, com A. M. Hills, admite que muitos crentes de outras tradições tiveram “uma experiência do coração melhor do que a cabeça deles permitiria reconhecer”. O ponto bate com a declaração de fé do site, que fala de um coração purificado do pecado original e cheio de amor perfeito, sem ausência de erros ou de crescimento. Para a doutrina em si, ver o capítulo sobre a santificação.
O Espírito, a alegria e o caminho
Em When He Is Come (1941), Miller chama a inteira santificação de batismo com o Espírito Santo. Explica o verbo grego pelo tingimento de tecidos: o pano batizado fica saturado da nova cor em cada fio, e assim a personalidade do crente toma “um tom divino”. Distingue a unção do Espírito, dada uma vez, dos enchimentos, que se repetem sempre que o serviço esgota as forças, como em Atos 4:31.
The Gladness of God (1944) reúne sermões sobre a vida cristã. No capítulo “My Philosophy of Life”, sobre Romanos 8:28, ele compara a providência a um farmacêutico que mistura frascos com rótulo de veneno: isolados, matariam; combinados pela receita do médico, curam. A promessa, avisa, vale para os que amam a Deus, e não para todos indistintamente. Já The Path We Take é um folheto sobre as Regras Gerais do Manual nazareno. Miller defende que a conduta do cristão importa e que cada crente tem convicções pessoais que o obrigam. Stephen S. White, na introdução, acrescentou que essas convicções não podem ser impostas a todos os membros e resumiu o caminho do livro como o meio da estrada, longe do mundanismo e do legalismo.
Obras principais
- When He Is Come (Nazarene Publishing House, 1941).
- The Gladness of God (Beacon Hill Press, 1944).
- The Sin Problem (Nazarene Publishing House, s.d.; edição revista e ampliada, Beacon Hill Press, 1947).
- The Path We Take (Nazarene Publishing House, s.d.).
- His Will for Us (Beacon Hill Press, 1949).
- “The New Birth”, em duas partes, Herald of Holiness, 6 e 13 de janeiro de 1940.
Para aprofundar
- W. T. Purkiser, Called unto Holiness, vol. 2: The Second Twenty-five Years, 1933-58 (Nazarene Publishing House, 1983), caps. 4 a 7. Internet Archive.
- James McGraw, “The Preaching of Howard V. Miller”, The Preacher’s Magazine, vol. 29, n.º 12, dezembro de 1954, p. 3-5. Wesleyan-Holiness Digital Library.
- H. V. Miller, “The New Birth”, Herald of Holiness, 6 e 13 de janeiro de 1940. Parte 1 · Parte 2.
- Herald of Holiness, 20 de janeiro de 1932 (lista dos superintendentes distritais). Wesleyan-Holiness Digital Library.
- Obras de H. V. Miller digitalizadas: The Sin Problem, When He Is Come, The Gladness of God, The Path We Take e His Will for Us; página do autor na Wesleyan-Holiness Digital Library.
- “Rhea F. Miller”, Hymnary.org.
- “Howard Miller (minister)”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Metodismo