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Guy P. Duffield: o professor quadrangular que escreveu os Fundamentos da Teologia Pentecostal
Neste texto
- Vida
- Da geração da Irmã Aimee
- Pastor
- Professor de pregadores
- Os Fundamentos
- Pensamento
- Onde Duffield fica no arminianismo
- A eleição em Cristo
- Cristo morreu por todos
- Guardados pelo poder de Deus
- O batismo no Espírito e a cura
- Pregar melhor do que se sabe
- Diferenças com a declaração de fé do site
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 10 de agosto de 1983, Jack Hayford, pastor da Church On The Way, em Van Nuys, sentou-se para escrever a introdução de um livro que ele mesmo tinha encomendado. Anos antes, como presidente do L.I.F.E. Bible College, a escola bíblica fundada por Aimee Semple McPherson em Los Angeles, ele pedira a dois professores veteranos um manual de doutrina para os alunos. Agora tinha nas mãos o “manuscrito volumoso” e dizia que ali estava reunida a riqueza de “duas vidas inteiras de estudo”. Os dois professores eram Nathaniel M. Van Cleave e Guy P. Duffield. Seis dias depois, os autores assinaram o prefácio, e o livro saiu com o título Foundations of Pentecostal Theology. Ele se tornaria o livro mais vendido da história da Igreja do Evangelho Quadrangular e chegaria ao Brasil como Fundamentos da Teologia Pentecostal.
Vida
Da geração da Irmã Aimee
Guy P. Duffield nasceu em 1909. Pertenceu à geração de pastores quadrangulares que se converteram e foram formados no ministério de Aimee Semple McPherson, a evangelista que abriu o Angelus Temple em Los Angeles, em 1923, e dali organizou a Igreja do Evangelho Quadrangular. Um aluno dos anos 1970 lembra que Duffield fazia parte do grupo de professores mais velhos do colégio que tinham sido “salvos e cuidados” pela Irmã Aimee.
Ele guardou a memória desse começo por toda a vida. Em 1985, ao falar no funeral de Esther Fricke, a organista que tocou no Angelus Temple desde a Páscoa de 1923, Duffield disse que ela tivera parte no que ele considerava “o maior avivamento de igreja de toda a história”.
Pastor
Duffield passou mais de cinquenta anos no ministério como pastor e professor. Pastoreou a Igreja Quadrangular de Pomona, na Califórnia, e o próprio Angelus Temple, a igreja-mãe da denominação. Também pastoreou no Oregon. Kenneth Hagin, o evangelista do movimento da fé, contou numa entrevista em janeiro de 2000 que passou um mês pregando na igreja do “doutor Duffield, o ministro quadrangular do Oregon”, em reuniões de dois cultos por dia. O pastor tinha uma sala inteira cheia de livros, e Hagin pediu para lê-los. “Fique à vontade”, respondeu Duffield. Hagin aproveitou o mês para ler o que não tinha na própria biblioteca.
O pastor também era cuidadoso com o próprio testemunho. Ele gostava de contar aos alunos que, certa vez, comprou com a esposa ingressos para um espetáculo de patinação no gelo. A caminho da entrada, perguntou-se o que pensaria um membro da igreja que os visse ali. Os dois rasgaram os ingressos, jogaram-nos no lixo e voltaram para casa cantando louvores. A história servia para ensinar que o pastor não deve ser pedra de tropeço para o rebanho.
Professor de pregadores
No L.I.F.E. Bible College, Duffield ensinou homilética, a arte de preparar e pregar sermões, e às vezes também teologia. Um aluno daqueles anos o lembra como um orador cordial e de voz serena, que passava à sala a experiência de uma vida inteira de púlpito. Já perto dos setenta anos, no fim da década de 1970, ele continuava dando aulas. A escola lhe deu o título de doutor em Divindade. Ele lecionou também no colégio bíblico da Calvary Chapel Golden Springs, igreja ligada ao movimento de Chuck Smith, que o mantém na lista de professores eméritos. Entre os pastores que o contam como mentor está Cliff Hanes, que começou o ministério na igreja de Hayford.
O primeiro livro dele nasceu da sala de aula. Pentecostal Preaching (Nova York: Vantage Press, 1957) reúne a série de palestras inaugurais sobre pregação pentecostal que ele deu no L.I.F.E. Em 1969 publicou Handbook of Bible Lands (Regal Books; reeditado pela Baker em 1985), um guia das terras bíblicas para quem viaja ao Oriente Médio ou quer entender a geografia das Escrituras, com mais de quinhentos lugares indexados. Escreveu ainda artigos, apostilas para o colégio e folhetos doutrinários: A Christocentric Pentecost, The Security of the Believer (1968), Salvation and the Seventh Day, sobre a questão do sábado, e The Inerrance and Authority of the Bible.
Os Fundamentos
O trabalho maior veio no fim da carreira. Hayford, presidente do L.I.F.E., pediu a Duffield e Van Cleave um livro-texto que servisse de introdução à fé cristã a partir de uma perspectiva pentecostal. Pastores e professores da casa, como Leslie Eno e Clarence Hall, revisaram os capítulos. O resultado, publicado em 1983 pelo próprio colégio, tem mais de seiscentas páginas e dez capítulos: as Escrituras, Deus, o ser humano, o pecado, a salvação, o Espírito Santo, a cura divina, a Igreja, os anjos e as últimas coisas.
No prefácio, os autores escrevem que o movimento pentecostal, já com mais de cinquenta milhões de fiéis em 1980, “não se baseia só numa experiência inspiradora”, mas na Bíblia inteira como Palavra de Deus.
O livro ganhou edições pela Creation House e pela própria Igreja Quadrangular. A partir de 2011, a comissão de doutrina da denominação, com Hayford entre os membros, revisou o texto frase por frase, trocou a versão King James pela New King James e acrescentou notas, com o objetivo declarado de não alterar as doutrinas. Em 2023, no centenário da igreja, saiu uma nova edição com guia de estudo. A obra está traduzida para o espanhol, o francês, o árabe, o português e o mandarim, e acompanha o material que a Igreja Quadrangular entrega a quem se prepara para receber credencial de ministro.
Duffield morreu em 2000. Van Cleave, o parceiro de escrita, morreu dois anos depois.
Pensamento
Onde Duffield fica no arminianismo
Duffield é um pentecostal arminiano. Os Fundamentos rejeitam a eleição incondicional e a expiação limitada, ensinam a eleição em Cristo segundo a presciência de Deus e afirmam que o crente pode abandonar a fé. É o mesmo lugar de Myer Pearlman e de Stanley Horton nas Assembleias de Deus. As citações abaixo seguem a edição revista pela Igreja Quadrangular (2016), que manteve as posições do texto original.
O capítulo sobre a salvação começa pela iniciativa divina: “A obra da salvação começa e termina com Deus”. O ser humano caído, segundo o capítulo sobre o pecado, não tem a justiça original nem afeição santa por Deus e carrega uma “inclinação contínua para o mal” (Gênesis 6:5). Por isso ninguém pode salvar a si mesmo nem conquistar a condição de filho de Deus. O livro não desenvolve uma doutrina da graça preveniente com esse nome, mas põe toda a obra que leva à fé nas mãos do Espírito: ele convence o mundo do pecado da incredulidade (João 16:8-9), e “só o Espírito Santo” vence a cegueira do coração humano para que a pessoa enxergue a própria culpa. A fé que recebe a salvação é dom: “pela graça sois salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós” (Efésios 2:8).
A eleição em Cristo
Para a eleição, Duffield e Van Cleave partem de uma distinção. Conhecer de antemão é diferente de determinar de antemão. A presciência de Deus, escrevem eles, “não é causativa”: Deus olha os acontecimentos futuros como nós olhamos o passado, e saber de um fato não o produz, assim como lembrar um fato histórico não o muda. Com Henry Thiessen, eles argumentam que, se Deus pôde prever a entrada do pecado no mundo sem decretá-la, também pode prever como as pessoas agirão sem decretar como agirão.
O centro do argumento é Efésios 1:4: Deus “nos escolheu nele”. Cristo é o Escolhido, “o sujeito e o objeto da eleição”, e os eleitos são os que estão nele pela fé. Deus não olhou para as pessoas em si mesmas para separar umas das outras; ele as viu em Cristo. A frase com que os autores resumem a doutrina é curta: “A Bíblia não ensina seleção, mas eleição”. Ninguém é predestinado à condenação, e a perdição vem do pecado e da recusa de Cristo. Essa é, em substância, a eleição condicional de Jacó Armínio, que na Declaração de Sentimentos fundou a predestinação na designação de Cristo como Mediador e na presciência de quem creria.
Cristo morreu por todos
A morte de Cristo, nos Fundamentos, é substitutiva: Jesus levou sobre si o pecado dos outros e entregou a vida por vontade própria (João 10:17-18). Essa substituição alcança “cada um e todos”. O texto mais forte contra a expiação limitada, para eles, é 2 Pedro 2:1, que fala de falsos mestres que negam “o Senhor que os resgatou”. Se Cristo comprou até quem o rejeita e caminha para a destruição, ninguém ficou de fora da oferta.
Por que, então, nem todos são salvos? Os autores respondem com a Páscoa de Êxodo 12. Cada família israelita tinha de matar o cordeiro e passar o sangue nos batentes da porta, e o anjo passava por cima da casa onde via o sangue. O cordeiro tinha sido providenciado para todos, mas o sangue precisava estar na porta. Do mesmo modo, a morte de Cristo é suficiente para todos e é recebida pela fé.
Guardados pelo poder de Deus
Duffield tratou da segurança do crente num folheto de 1968, e o tema volta no fim do capítulo sobre a salvação. A resposta segue as duas pontas da Escritura. De um lado estão as promessas: ninguém arrebata as ovelhas da mão do Pai (João 10:28-30), e nada nos separa do amor de Deus (Romanos 8:38-39). Do outro estão as advertências de Hebreus 3:12-15, 6:4-6 e 10:26-27 e de Tiago 5:19-20. Lidas juntas, mostram que o crente pode rejeitar a salvação e abandonar a fé.
O argumento central é este: Deus “não salva as pessoas contra a vontade delas, nem as guarda contra a vontade delas”. Assim como a fé e o arrependimento são necessários para receber a salvação, são necessários para permanecer nela. Os verbos de João 3:36 estão no presente contínuo: quem continua crendo tem a vida eterna. Isso não transforma a perseverança em esforço humano. O crente é guardado “pelo poder de Deus, mediante a fé” (1 Pedro 1:5), e a divisão de papéis é clara: cabe ao crente crer, e cabe a Cristo guardá-lo. Quem continua confiando em Jesus “nunca perderá a salvação”. Mesmo Hebreus 6, dizem os autores, não deve ser usado para negar esperança a quem caiu e se humilha. É a mesma perseverança condicional da declaração de fé do site.
O batismo no Espírito e a cura
Na parte propriamente pentecostal, o batismo no Espírito Santo é uma experiência distinta da salvação e posterior a ela, em que o Espírito vem sobre o crente para lhe dar poder para o serviço e para a vida santa. É dom, recebido de graça, e não recompensa por horas de oração: “não é um distintivo de prestígio espiritual”. A evidência imediata é falar em outras línguas conforme o Espírito concede (Atos 2:4). Duffield e Van Cleave usavam a expressão “evidência inicial”, e a edição revista anota que a Declaração de Fé escrita por Aimee em 1923 não usa esse termo, mas diz que o crente pode esperar receber o Espírito “da mesma maneira” que em Atos 2:4.
O capítulo sobre a cura divina ensina que a cura foi providenciada na expiação de Cristo e proíbe pôr a culpa em quem busca a cura e não a recebe.
Pregar melhor do que se sabe
Nas palestras de 1957, Duffield definiu o traço próprio da pregação pentecostal como “pregar melhor do que se sabe”: com a iluminação imediata do Espírito, o pregador diz verdades que nunca lhe viriam à mente sozinho. O exemplo é Pedro no Pentecostes, que, segundo ele, ficou tão surpreso quanto os ouvintes ao anunciar a ressurreição. Mas o professor de homilética logo corrigia os pregadores que usavam a unção como desculpa para não estudar: “Que não haja nenhuma ideia de conflito entre a unção do Espírito e a preparação cuidadosa do ministro. Precisamos das duas” (Pentecostal Preaching, 1957, p. 66).
Diferenças com a declaração de fé do site
Duas diferenças merecem nota. Na santificação, os Fundamentos falam de uma santificação posicional, recebida no novo nascimento, e de uma santificação progressiva ao longo da vida, e leem os textos sobre perfeição como amadurecimento; a declaração de fé do site, na linha de John Wesley, afirma também a inteira santificação como obra da graça recebida pela fé. Nas últimas coisas, o livro defende o arrebatamento antes da grande tribulação e o milênio futuro, “sem dogmatismo radical”, enquanto o site é amilenista. Na eleição, na expiação e na perseverança, o acordo é completo.
Obras principais
- Pentecostal Preaching (Nova York: Vantage Press, 1957).
- The Security of the Believer (folheto, 1968).
- Handbook of Bible Lands (Regal Books, 1969; Grand Rapids: Baker, 1985).
- Foundations of Pentecostal Theology, com Nathaniel M. Van Cleave (Los Angeles: L.I.F.E. Bible College, 1983; edição revista pela Foursquare Media, 2016; edição do centenário, 2023).
- Folhetos: A Christocentric Pentecost, Salvation and the Seventh Day, The Inerrance and Authority of the Bible.
Livros em português
- Guy P. Duffield e Nathaniel M. Van Cleave, Fundamentos da Teologia Pentecostal, 2 volumes (Publicadora Quadrangular). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Guy P. Duffield e Nathaniel M. Van Cleave, Foundations of Pentecostal Theology, edição revista (Los Angeles: Foursquare Media, 2016), com a introdução de Jack W. Hayford (1983), o prefácio dos autores (1983) e a nota “About the Authors”.
- “‘Foundations of Pentecostal Theology’ gets major update”, Foursquare News + Resources (2023).
- Calvary Chapel Golden Springs Bible College, Catalog, Spring 2025, verbete “Dr. Guy P. Duffield” entre os professores eméritos.
- Aaron Friesen, “Aimee Semple McPherson and the ‘This Is That’ Character of Pentecostal Preaching”, Center for Pastor Theologians Journal 12, n. 1 (2025), p. 15-29 (sobre Pentecostal Preaching, p. 18).
- Tony Cooke, “Brother Hagin’s Reading Habits”, entrevista com Kenneth E. Hagin (18 de janeiro de 2000).
- “The Convoluted Path, Part Twenty”, memórias de um aluno do L.I.F.E. Bible College (1976-1978).
- Homenagem a Esther Fricke, Foursquare World Advance, maio de 1985, p. 8, Consortium of Pentecostal Archives.
- Life Pacific University, “2025 Lifetime of Service Award: Honoring Dr. Cliff Hanes and Rev. Mari Hanes”.
- Registros bibliográficos: Pentecostal Preaching, Handbook of Bible Lands e Foundations of Pentecostal Theology no Internet Archive; The Security of the Believer e Fundamentos da Teologia Pentecostal I no Google Livros.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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