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Günther H. Juncker: O professor de grego que leu o Anjo do Senhor e respondeu ao determinismo
Neste texto
- Vida
- Formação na Califórnia e em Deerfield
- A tese sobre Jesus e o Anjo do Senhor
- Professor em Toccoa Falls
- Os artigos sobre Paulo e o calvinismo
- Pensamento
- Onde ele fica no arminianismo
- Romanos 9 e 11: quem é Israel e quem são “os demais”
- O dilema do determinismo teísta
- O amor de Deus
- Diferenças com a declaração de fé do site
- Obras principais
- Para aprofundar
No outono de 1994, a Trinity Journal, revista da Trinity Evangelical Divinity School, em Deerfield, no estado de Illinois, publicou um artigo de trinta páginas assinado por um aluno do mestrado em Divindade. O título era “Christ As Angel: The Reclamation of a Primitive Title” (Cristo como Anjo: a recuperação de um título primitivo). O autor, Günther Juncker, lembrava aos leitores algo que muitos evangélicos desconheciam: os pais da igreja chamaram Jesus de “Anjo” com frequência, e fizeram isso muito antes de Constantino, dos concílios e dos credos. Aquele estudante seria depois professor de Novo Testamento e grego na Geórgia e crítico direto do determinismo calvinista.
Vida
Formação na Califórnia e em Deerfield
Günther H. Juncker fez a graduação (Bachelor of Arts) na Universidade da Califórnia. Depois foi para a Trinity Evangelical Divinity School, o seminário da Igreja Evangélica Livre da América, em Deerfield, perto de Chicago, onde cursou o mestrado em Divindade (Master of Divinity), o curso que forma pastores, e mais tarde o doutorado.
O artigo de 1994 saiu enquanto ele ainda era aluno do mestrado. O ponto de partida era uma palavra: no mundo antigo, “anjo” (angelos, em grego; mal’ak, em hebraico) queria dizer “mensageiro”. Era uma descrição da função, e não da natureza, e podia se referir a mensageiros humanos, angélicos ou divinos. No Novo Testamento, angelos se refere a pessoas humanas em pelo menos seis passagens, como João Batista em Marcos 1:2 e os espias recebidos por Raabe em Tiago 2:25.
Com esse sentido em mente, o artigo examinou os pais da igreja, a começar por Justino Mártir, o apologista do século II que ensinou em Éfeso e em Roma. Juncker mostrou que Justino usa o título “Anjo” para Cristo trinta e sete vezes, trinta e uma delas em passagens do Antigo Testamento em que aparece o Anjo do Senhor: a Abraão, a Jacó, a Moisés na sarça e a Josué diante de Jericó. A fonte principal do título, para Justino e para os outros pais, era Isaías 9:6 na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento, que chama o Messias de “Anjo do grande conselho”. No Diálogo com Trifão, Justino e o judeu Trifão concordavam que o texto falava do Messias; discordavam sobre se Jesus, o crucificado, podia ser esse Anjo.
O artigo também tratou de Tertuliano e defendeu que, pela antiguidade, pela longa duração e pela variedade de teólogos gregos e latinos que o usam, o título tem boa razão para ser considerado primitivo, talvez apostólico. Para Juncker, essa tradição é um dos antecedentes esquecidos da doutrina da Trindade definida em Niceia: ela mostra como os primeiros cristãos leram o Antigo Testamento para afirmar, ao mesmo tempo, que Cristo é Deus e que ele é distinto do Pai.
A tese sobre Jesus e o Anjo do Senhor
O doutorado foi concluído em 2001, com a tese Jesus and the Angel of the Lord: An Old Testament Paradigm for New Testament Christology (Jesus e o Anjo do Senhor: um paradigma do Antigo Testamento para a cristologia do Novo Testamento). São 974 páginas, que seguem o Anjo do Senhor pelo Antigo Testamento, pela Septuaginta, pela literatura judaica do período entre os testamentos e, por fim, pelo Novo Testamento.
No Antigo Testamento, Juncker sustenta que o Anjo do Senhor é divino. Um dos seus argumentos vem de Êxodo 23:21, em que Deus diz do Anjo que vai à frente de Israel: “o meu nome está nele”. Na Bíblia hebraica, observa Juncker, o “nome” de Javé indica a pessoa, a presença e a divindade de Deus. Se o texto quisesse dizer apenas que o Anjo tinha autoridade delegada, usaria a expressão comum para isso, “em nome de” Javé, e diria que o povo devia ouvi-lo porque ele falava em nome do Senhor.
Na Septuaginta e nos escritos judaicos posteriores, a tese mostra o movimento contrário. Ali, quando se pode falar de um “Anjo do Senhor” como figura distinta, ele é um anjo entre muitos, e os anjos principais dessa literatura não passam da condição de agentes. A última parte do trabalho estuda os textos do Novo Testamento que retomam passagens do Antigo Testamento sobre o Anjo, e mostra como elas servem para afirmar a identidade divina de Jesus. Mart-Jan Paul (2007) e Michael R. Burgos (2021), entre outros, citam a tese em estudos sobre o Anjo do Senhor.
Professor em Toccoa Falls
Juncker se tornou professor de Novo Testamento e grego no Toccoa Falls College, em Toccoa Falls, no norte da Geórgia, hoje Universidade de Toccoa Falls. A escola existe desde 1907 e é afiliada à Aliança Cristã e Missionária (Christian and Missionary Alliance), a denominação fundada por A. B. Simpson. Juncker é membro da Evangelical Theological Society e da Society of Biblical Literature.
Ele ensina hermenêutica, introdução ao Novo Testamento, João, Atos, as cartas de Paulo, 1 Pedro e Tiago, e literatura apocalíptica. Entre as leituras estão Gordon Fee, em hermenêutica, e C. S. Lewis, sobre a pessoa de Cristo. No curso sobre 1 Pedro e Tiago, os alunos leem The Fourfold Gospel (O evangelho quádruplo, 1890), de Simpson, a obra que resume a mensagem da Aliança: Cristo Salvador, Santificador, Curador e Rei que vem. No curso de Romanos, leem um trecho da análise de Romanos 9 escrita por Jacó Armínio.
Juncker baniu celulares e outros aparelhos eletrônicos das suas aulas, por entender que isso é melhor para o aluno, para os colegas e para o professor. No perfil da universidade, ele escolhe João 14:6 como versículo preferido e diz que toda verdade é verdade de Deus e aponta, no fim, para Jesus Cristo.
Os artigos sobre Paulo e o calvinismo
Em 2007, já como professor em Toccoa Falls, Juncker publicou no Bulletin for Biblical Research o artigo “‘Children of Promise’: Paternity and Patriarch Typology in Galatians and Romans” (Filhos da promessa: paternidade e tipologia dos patriarcas em Gálatas e Romanos). Em 2014, a Society of Evangelical Arminians publicou o seu texto “How Romans 11 Refutes Calvinism” (Como Romanos 11 refuta o calvinismo). Em 2015, saiu “The Dilemma of Theistic Determinism” (O dilema do determinismo teísta) no Journal for Baptist Theology and Ministry, do Seminário Teológico Batista de Nova Orleans, editado por Adam Harwood. Em 2025, a mesma sociedade arminiana divulgou “The Love of God: A Conundrum for Calvinists” (O amor de Deus: um enigma para os calvinistas).
Pensamento
Onde ele fica no arminianismo
Juncker é um arminiano evangélico do nosso tempo, ligado a uma escola da Aliança Cristã e Missionária. A Society of Evangelical Arminians o inclui entre os seus autores arminianos, e ele mesmo, no texto de 2025, chama de “solução arminiana” a resposta que defende: o ser humano, criado à imagem de Deus, pode resistir ao amor de Deus e recusá-lo, porque um amor forçado é uma contradição. Ele rejeita a eleição incondicional, a reprovação e o determinismo, e afirma que Deus ama de verdade todas as pessoas. Os seus textos sobre o tema combinam exegese de Paulo e argumento moral.
Romanos 9 e 11: quem é Israel e quem são “os demais”
No artigo de 2007, Juncker pergunta o que Paulo quer dizer em Romanos 9:6, quando afirma que “nem todos os que são de Israel são israelitas”. O segundo “Israel” seria o remanescente fiel dos judeus ou o povo de Deus dos últimos tempos, formado por judeus e gentios que creem? Ele examina Gálatas 3, a alegoria de Sara e Agar em Gálatas 4:21-31, Romanos 4 e Romanos 9:7-13, e mostra que, em todas essas passagens, Abraão, Isaque, Ismael, Jacó e Esaú têm um papel sobretudo tipológico: representam modelos de quem pertence ao povo da promessa. A conclusão é que o “Israel” de Romanos 9:6 é o Israel espiritual, a igreja.
O texto sobre Romanos 11 segue a mesma linha. Na leitura calvinista, Romanos 11:5-7 separa o remanescente eleito e “os demais”, reprovados sem volta. Juncker propõe um método simples: seguir os pronomes do capítulo e ver o que Paulo diz desses “demais”. Eles tropeçaram, mas não para cair de vez (Romanos 11:11); serão enxertados de novo se não permanecerem na incredulidade (Romanos 11:23); são amados por causa dos patriarcas (Romanos 11:28); e Deus quer ter misericórdia de todos (Romanos 11:32). Se “os demais” podem ser salvos, eles não são os reprovados da dupla predestinação. O mesmo vale para os “vasos de ira” de Romanos 9:22: para Paulo, são pessoas que estão sob a ira de Deus e podem sair dela pela fé no evangelho. Juncker lembra que, nesse sentido, para Paulo todos os crentes já foram vasos de ira.
O dilema do determinismo teísta
O artigo de 2015 toma o título de um ensaio clássico de William James e começa por uma tese: se Deus determina tudo, inclusive o mal, então ou Deus é mau e autor do mal, ou as palavras “bom” e “justo” ficam sem sentido quando aplicadas a ele. Quando um homem leva outro a fazer o mal, o primeiro é culpado e o segundo não; quando Deus faz o mesmo, diz o determinismo, Deus é inocente e o outro merece o inferno.
Ele examina as três saídas mais comuns. A primeira é o mistério. Juncker responde que mistério e contradição são coisas diferentes, e que um Deus cuja bondade não tem analogia com a nossa seria um Deus que não podemos conhecer, quando a própria Escritura funda a bondade e a justiça humanas no caráter de Deus. A segunda são as causas segundas, pelas quais Deus agiria indiretamente. Juncker observa que uma causa segunda inteiramente determinada é só um instrumento: por mais longa que seja a cadeia, num mundo totalmente determinado “só pode haver um pecador”. A terceira saída é a do compatibilismo: a pessoa é culpada porque fez o que queria, sem coação externa. A resposta é que, no determinismo, os próprios desejos também foram determinados por Deus.
Para mostrar isso, Juncker conta uma história. O senhor Hatfield odeia o senhor McCoy e deseja a morte dele. Durante uma cirurgia, o doutor Strangegood implanta no cérebro de Hatfield um chip que, setenta e duas horas depois, o leva a estrangular McCoy. Hatfield é preso, condenado, e quem aplica a injeção letal é o mesmo médico. A pergunta é quem é o culpado pelas duas mortes. Para Juncker, a resposta é evidente, e o desejo de Hatfield não muda nada.
A conclusão apresenta três opções: o determinismo é verdadeiro e Deus é mau; o determinismo é verdadeiro e a bondade de Deus é incompreensível para nós; ou o determinismo é falso e Deus é bom, como Jesus disse em Mateus 19:17. Juncker fica com a terceira.
O amor de Deus
O texto de 2025 parte de quatro afirmações, tomadas de Jerry L. Walls em Does God Love Everyone? (2016): Deus ama todas as pessoas com amor ágape; amar alguém assim é querer e promover o verdadeiro bem dessa pessoa; o verdadeiro bem de todo ser humano está na comunhão com Deus, o Sumo Bem; e nem todos são salvos. A solução arminiana para a tensão é a liberdade dada por Deus, que permite ao ser humano recusar o amor. A calvinista, diz Juncker, é negar que Deus ame todos dessa forma.
Ao argumento de que Deus ama os não eleitos com o sol e a chuva da graça comum, Juncker responde que poucos dias de bênção não pesam diante de uma eternidade de perdição decretada. Ao argumento de que Deus apenas deixa de escolher alguns, responde com uma imagem: se cem pessoas estão se afogando e alguém pode salvar todas, mas escolhe salvar vinte, rejeitou as outras oitenta.
Diferenças com a declaração de fé do site
Juncker concorda com a declaração de fé deste site no amor de Deus por todos, na graça resistível e na rejeição de um Deus autor do mal. A diferença está na ênfase. Ele fundamenta a liberdade humana na imagem de Deus, como parte da criação. O arminianismo clássico e a declaração do site, que afirmam a depravação total, fundamentam a capacidade de crer na graça preveniente, que alcança todas as pessoas e liberta a vontade caída. As duas ideias podem andar juntas, mas no arminianismo clássico a resposta à pergunta “por que alguém pode crer?” é sempre a graça, antes da liberdade. O que ele escreve sobre o Anjo do Senhor e a divindade de Cristo está de acordo com a fé trinitária que o site professa. Para a eleição, ver também a eleição condicional em Cristo e por que Armínio rejeitou o calvinismo.
Obras principais
- “Christ As Angel: The Reclamation of a Primitive Title”, Trinity Journal 15.2 (1994): 221-250.
- Jesus and the Angel of the Lord: An Old Testament Paradigm for New Testament Christology (tese de doutorado, Trinity Evangelical Divinity School, 2001).
- “‘Children of Promise’: Paternity and Patriarch Typology in Galatians and Romans”, Bulletin for Biblical Research 17.1 (2007).
- “How Romans 11 Refutes Calvinism” (Society of Evangelical Arminians, 2014).
- “The Dilemma of Theistic Determinism”, Journal for Baptist Theology and Ministry 12.2 (2015): 15-22.
- “The Love of God: A Conundrum for Calvinists” (Society of Evangelical Arminians, 2025).
Para aprofundar
- Perfil de Günther H. Juncker, Universidade de Toccoa Falls.
- Página das disciplinas de Günther Juncker, Toccoa Falls College.
- Günther Juncker, “Christ As Angel: The Reclamation of a Primitive Title”, Trinity Journal 15.2 (1994).
- Registro da tese Jesus and the Angel of the Lord, ProQuest Dissertations & Theses.
- Artigos de Günther H. Juncker, Galaxie Software (resumo do artigo do Bulletin for Biblical Research).
- Journal for Baptist Theology and Ministry 12.2 (2015), com a introdução editorial de Adam Harwood e o artigo de Juncker.
- Autor: Günther Juncker, Society of Evangelical Arminians.
- Mart-Jan Paul, “The Identity of the Angel of the LORD”, Hiphil 4 (2007).
- Michael R. Burgos, “The Angel of Yahweh: A Biblical Appellation for the Second Person of the Holy Trinity”, American Journal of Biblical Theology 22 (2021).
- Ben Henshaw, “Calvinist Election Refuted in Romans 11”, Arminian Perspectives (2014).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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