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Gordon Wong: O professor de Isaías que se tornou bispo metodista em Singapura
Neste texto
Na noite de 4 de dezembro de 2020, a Wesley Methodist Church, a mais antiga igreja metodista de Singapura, recebeu cerca de cem pessoas para a consagração do novo bispo. Outras oitocentas acompanharam pela internet, por causa da pandemia. Entre os presentes estava Cecil Wong, de 98 anos. O filho dele, Gordon Wong, pregou o primeiro sermão como bispo com o título “Gemer, gemer, gemer” e avisou que o título não descrevia o que sentia ao ser consagrado. O texto era Romanos 8:22-28, onde gemem a criação, os crentes e o Espírito. Ele mostrou que Paulo usa a palavra “gemer” três vezes e a palavra “esperança” seis, e concluiu que a igreja geme, mas não como quem não tem esperança. No fim do culto, o antigo professor de Hebraico e de Antigo Testamento pronunciou a bênção em grego bíblico.
Vida
Uma família metodista
Gordon C. I. Wong é o caçula dos quatro filhos de Cecil Wong, contador respeitado em Singapura. O avô, Evan Wong, foi um dos primeiros contadores formados da cidade e fundou a firma Evan Wong & Co. Cecil, metodista a vida inteira, frequentou a Kampong Kapor e a Wesley Methodist Church e jogou hóquei na seleção de Singapura. A mãe de Gordon morreu quando ele era bebê, e o pai criou sozinho os quatro filhos: David, Norman, seis anos mais velho que Gordon e também pastor metodista, Elizabeth e Gordon. Numa conversa publicada em 2022, Gordon descreveu o pai como “paciente, bondoso, nada exigente”, alguém que deixava os filhos explorar e errar.
Como o pai e os irmãos, Gordon estudou nas escolas anglo-chinesas, fundadas por missionários metodistas. Ele diz que não tem testemunho de conversão dramático: cresceu num ambiente cristão, e a fé pessoal veio como continuação natural. Aos 12 anos já dava aula na escola dominical da Wesley Methodist Church, e no Anglo-Chinese Junior College liderou um pequeno grupo semanal. Ainda na escola percebeu que gostava mais das matérias de teologia do que das outras. O pastor Tony Chi o animou a estudar teologia, e durante o serviço militar Gordon o acompanhava em viagens missionárias para dirigir o louvor. Ele admirava também o irmão Norman, que já estava no ministério.
Londres, Wesley e Barker Road
Ainda no serviço militar, Gordon conseguiu vaga no London Bible College, hoje London School of Theology, onde concluiu o bacharelado com honras. De volta a Singapura, trabalhou como obreiro leigo na Wesley Methodist Church, e foi ali que conheceu Lai Foon, com quem se casou em 1988. Ela é regente do Methodist Festival Choir. O casal tem dois filhos, Deborah e Jeremy.
Em 1986 entrou no ministério da Conferência Anual Trinity (TRAC), a conferência de língua inglesa da Igreja Metodista em Singapura, e passou quatro anos na Barker Road Methodist Church. Pastoreou também a Fairfield Methodist Church.
Cambridge e o Trinity Theological College
Em 1991 a TRAC lhe deu uma bolsa para se preparar para ensinar no Trinity Theological College (TTC), o seminário interdenominacional em que se formam os pastores metodistas do país. Ele fez o doutorado em Cambridge, orientado pelos hebraístas Hugh Williamson e John Emerton, com a tese The Nature of Faith in Isaiah of Jerusalem (1995).
De 1995 a 2013 ensinou Antigo Testamento, Hebraico e Homilética no TTC. Publicou artigos na revista Vetus Testamentum sobre a fé em Isaías 30:15 (1997) e em Isaías 7 (2001) e escreveu comentários pastorais sobre Daniel, Habacuque e Rute.
Em 2008 a Barker Road Methodist Church doou um milhão de dólares de Singapura para criar no TTC uma cátedra de Antigo Testamento com o nome de William F. Oldham, o missionário que fundou o metodismo em Singapura em 1885. Wong foi o primeiro titular, empossado em 4 de fevereiro de 2009 pelo bispo Robert Solomon, com a aula inaugural “Por que professar o Antigo Testamento?”. Na mesma noite lançou The Road to Peace, reflexões pastorais sobre Isaías 1 a 12. Também em 2009 saiu a monografia Foolish Leaders and the Will of YHWH, sobre a redação de Isaías 19.
Presidente da conferência e pastor
Em 2012 a TRAC o elegeu presidente, e ele foi reeleito para um segundo mandato, servindo até 2020. Nesse período foi pastor responsável pela Cairnhill Methodist Church, pela Christ Methodist Church e pela Covenant Community Methodist Church. No discurso à 43ª sessão da conferência, em novembro de 2018, disse estar “muito feliz por ser metodista” e citou a frase de John Wesley sobre pregar o “cristianismo simples e antigo”, sem nenhuma outra marca de distinção.
Bispo
Em 7 de setembro de 2020, no primeiro dia da 12ª sessão da Conferência Geral, a primeira feita pela internet, Gordon Wong foi eleito bispo da Igreja Metodista em Singapura no segundo escrutínio, entre 46 candidatos. Diante da conferência, repetiu a oração do publicano: “Senhor, tem misericórdia de mim, pecador”. Como bispo, respondeu por cerca de 44 mil metodistas em 46 igrejas, 15 escolas e as agências sociais e missionárias da igreja.
O tema que marcou o seu mandato foi o grande mandamento. Nas celebrações anuais do Aldersgate, que lembram o dia de 1738 em que Wesley sentiu o coração “estranhamente aquecido”, ele pregou sobre amar a Deus amando o próximo (2021), amando o inimigo (2022) e amando o próximo de outra religião (2023), este último a partir do encontro de Pedro com Cornélio em Atos 10. Numa conferência sobre saúde mental, em 2023, admitiu que muitas vezes se sentiu cansado no pastorado e leu Isaías 40:31 como uma troca: quem espera no Senhor troca a sua força pela de Deus.
Em setembro de 2024, a 13ª Conferência Geral, aberta com o hino de Charles Wesley “And are we yet alive”, lhe deu o título de bispo emérito. Philip Lim o sucedeu no quadriênio 2025-2028. Desde então Wong voltou a ensinar Isaías em cursos noturnos do TTC: os capítulos 56 a 66 em 2025 e os capítulos 40 a 55 no começo de 2026.
Pensamento
Um wesleyano de Singapura
Gordon Wong é wesleyano. Foi ordenado, pastoreou e presidiu igrejas da Igreja Metodista em Singapura, que mantém intactos no seu Livro de Disciplina os Artigos de Religião metodistas de 1784, incluindo o artigo VIII, segundo o qual ninguém pode se voltar para Deus sem a graça que o precede. Quando explica o que é ser metodista, ele volta ao Caráter de um metodista, de Wesley: o metodista é quem ama a Deus de todo o coração e ama o próximo como a si mesmo, e as suas únicas marcas são os princípios comuns e fundamentais do cristianismo. Por isso, escreveu em 2023, Wesley não pregava “metodismo”, e sim o cristianismo básico. A santidade, para ele, é amor e se vive em comunidade: “poucos de nós, sozinhos, conseguem manter a busca desse amor santo”, disse à conferência em 2018.
O que Wong pensa sobre graça e arrependimento aparece no trabalho de exegeta, sobretudo num artigo sobre Isaías 6 que a Society of Evangelical Arminians republicou em 2013.
Isaías 6: Deus impede o arrependimento?
Em Isaías 6:9-10, logo depois da visão do trono e do perdão do profeta (ver Isaías 6: a santidade de Deus e a visão do trono), Deus parece mandar Isaías endurecer o coração do povo, “para que não se converta e seja sarado”. Lido ao pé da letra, o texto mostra um Deus que impede o arrependimento de quem ainda poderia se arrepender. Em “Make Their Ears Dull: Irony in Isaiah 6:9-10” (Trinity Theological Journal, 2008), Wong propõe que as ordens são ironia retórica, feita para levar o povo ao arrependimento e não para impedi-lo.
O exemplo dele é doméstico. O pai cansado de insistir diz ao filho que não estuda que ele pode ficar à toa, porque estudando corre o risco de entrar em Cambridge ou Oxford e fazer sucesso. As palavras dizem uma coisa e a intenção é a oposta. Assim, Isaías recebe uma mensagem dura e confrontadora, que expõe as consequências trágicas da rebeldia, e o alvo dela é a volta do povo para Deus. Wong apoia a leitura no próprio livro: o capítulo 6 começa com um Deus que perdoa, no capítulo 7 Isaías chama o rei Acaz a crer, e o livro inteiro chama ao arrependimento (Isaías 1:16-20; 30:15; 55:6). A frase que resume o artigo: “a comissão de Isaías era chamar ao arrependimento, e não impedi-lo”.
Ele recusa três leituras literais. A primeira apela à soberania de Deus, o oleiro que não deve explicações ao barro; Wong diz partilhar a convicção de que Deus é soberano, mas pergunta se é correto descrevê-lo aqui como alguém que deseja impedir as pessoas de voltar para ele. A segunda apela à presciência, e Wong responde que “para que não se converta e seja sarado” supõe um arrependimento verdadeiro e possível. A terceira divide o ministério de Isaías numa fase de apelo e outra de juízo sem volta, e esbarra no fato de que, depois do capítulo 6, Isaías continua chamando Acaz à fé.
A leitura não suaviza o juízo. Wong afirma que o juízo de Deus não é ameaça vazia e que pode chegar, na vida de um povo ou de uma pessoa, a hora em que é tarde para evitá-lo. O que ele recusa é a ideia de que Deus escolha impedir o arrependimento enquanto ainda não é tarde. É o ponto em que o arminianismo clássico se separa do calvinismo: Deus quer que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4), o chamado ao arrependimento é sincero e já é obra da graça que vem antes de qualquer resposta, e quem se perde se perde porque resiste a ela. O artigo ainda adverte que é incoerente o cristão tomar para si o consolo de Isaías 40 e mandar para os outros, judeus ou não, as palavras duras de Isaías 6.
Fé que confia e obedece
A tese de Cambridge pergunta o que Isaías esperava da fé. Wong recusa a leitura de Gerhard von Rad, que via nela a renúncia a todo recurso humano, e a que separa a fé que crê da fé que faz. Para ele, confiar em Javé, voltar para ele, crer nele e praticar a justiça e o direito andam juntos no profeta, e a fé é manter uma relação correta com Deus, “marcada pela confiança e pela obediência” (Tyndale Bulletin, 1996). Por isso a fé, em Isaías, está ligada à justiça na sociedade, e a cidade fiel de Isaías 1:21-26 é a que cuida do pobre. O artigo sobre Isaías 7 aplica a mesma ideia a Acaz: a fé é a segurança de quem descansa na proteção de Deus em vez de ceder ao medo, e a recusa piedosa de pedir um sinal é incredulidade disfarçada.
Essa fé que confia e obedece tem o mesmo desenho da “fé que opera pelo amor” de Gálatas 5:6, que Wesley citava com frequência. Wong evita, porém, transformar a obediência em mérito: em God Makes Sense ele insiste que Deus não exige perfeição como condição para amar, e acolhe a confissão honesta de quem se reconhece fraco. Ao mesmo tempo, adverte que “o poder do perdão de Deus não transforma o errado em certo”, porque Deus perdoa o pecado sem tolerá-lo.
O pastor diante do sofrimento
God, Why? acompanha Habacuque, o profeta que questiona Deus num mundo fora de controle e termina em louvor. God Makes Sense sustenta que crer em Deus continua razoável quando a vida não faz sentido: a existência do bem no mundo é argumento a favor de Deus tanto quanto o mal parece argumento contra ele, e o Deus que foi executado injustamente em forma humana e ressuscitou é a garantia de que as coisas serão postas no lugar. Ele conta a história de um pregador escocês que perdeu a esposa de repente e, no sermão depois do enterro, disse não entender por que Deus permitira a dor, mas não ver motivo para abandonar a fé: abandoná-la para ficar com o quê?
Sobre a liderança, numa entrevista de 2021, disse que o modelo de Jesus é o líder que abre mão de si mesmo em vez de se agarrar ao cargo e que o sucesso de uma igreja não se mede pela frequência nem pelo número de inscritos.
Obras principais
- “The Nature of Faith in Isaiah of Jerusalem”, tese de doutorado, Universidade de Cambridge (1995); resumo no Tyndale Bulletin 47.1 (1996).
- “Faith and Works in Isaiah XXX 15”, Vetus Testamentum 47 (1997).
- “Faith in the Present Form of Isaiah VII 1-17”, Vetus Testamentum 51.4 (2001).
- Faithful to the End: The Message of Daniel for Life in the Real World, edição revista e ampliada (Armour, 2006).
- God, Why? Habakkuk’s Struggle with Faith in a World Out of Control (Armour, 2007).
- “Make Their Ears Dull: Irony in Isaiah 6:9-10”, Trinity Theological Journal 16 (2008).
- The Road to Peace: Pastoral Reflections on Isaiah 1-12 (Armour, 2009).
- Foolish Leaders and the Will of YHWH: Editorial Effects in Isaiah 19 (Armour, 2009).
- God Makes Sense (Even When Life Doesn’t) (Armour, 2010).
Para aprofundar
- Gordon C. I. Wong, “Make Their Ears Dull: Irony in Isaiah 6:9-10”, Trinity Theological Journal 16 (2008), republicado pela Society of Evangelical Arminians.
- G. C. I. Wong, “The Nature of Faith in Isaiah of Jerusalem”, Tyndale Bulletin 47.1 (1996).
- Jason Woo, “Bishop Dr Gordon Wong: The Lord’s gentle leading”, Methodist Message, 6 jun. 2021.
- “Cecil Wong and Bishop Dr Gordon Wong: a conversation”, Methodist Message, 6 fev. 2022.
- “Gordon Wong appointed Professor of Old Testament”, Methodist Message, 9 mar. 2009.
- “The Rev Dr Gordon Wong consecrated as Bishop”, Methodist Message, dez. 2020.
- “TRAC 43rd Session: Love God by loving our neighbours”, Methodist Message, 2 jan. 2019.
- Gordon Wong, “Common principles of all Christianity”, Methodist Message, 1 fev. 2023, e “And are we yet alive?”, 1 set. 2024.
- “Rev Dr Gordon Wong elected new Bishop of the Methodist Church” e “Let us be a Church that intercedes with groans, but hopes in God”, Salt&Light, 2020.
- Christine Leow, “There is hope for weary souls”, Salt&Light, 18 jul. 2023.
- Edmond Chua, “God Makes Sense Even Amid Pain, Says Author”, The Christian Post, 15 jun. 2010.
- Peter J. Leithart, “Faith in Isaiah”, First Things, 5 maio 2007 (sobre o artigo de Wong a respeito de Isaías 7).
- Armour Publishing, páginas de The Road to Peace, Foolish Leaders and the Will of YHWH e God Makes Sense.
- Trinity Theological College, curso “God’s Enduring Word in Isaiah 40-55” (2026).
- Igreja Metodista em Singapura, “Methodist Doctrine”.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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