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Henry C. Thiessen: O professor de Wheaton que ensinou a eleição pela presciência
Neste texto
- Vida
- Do Nebraska a Fort Wayne
- Os estudos e o grego
- Dallas
- Wheaton
- O caso Gordon Clark
- Los Angeles e a morte
- O livro póstumo
- Pensamento
- Um batista de quatro pontos
- A eleição pela presciência
- A graça que vem antes
- Onde ele se afasta: a segurança eterna
- Dispensacionalismo e outras diferenças
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 1935, o presidente do Wheaton College, J. Oliver Buswell, convidou um professor de grego do Novo Testamento que lecionava em Dallas para vir ao norte dos Estados Unidos. Na resposta, Henry Clarence Thiessen descreveu o próprio preparo e confessou um sonho: erguer no norte do país “uma escola teológica de primeira classe, do tipo fundamentalista e pré-milenista”, e talvez houvesse “um jeito de realizar esse ideal” em Wheaton. Dois anos depois, ele chefiava os primeiros cursos de pós-graduação da faculdade. O livro que deixou inacabado, as Lectures in Systematic Theology, está em catálogo desde 1949 e chegou aos seminários brasileiros como uma das exposições mais conhecidas da eleição condicional entre os batistas.
Vida
Do Nebraska a Fort Wayne
Henry Clarence Thiessen nasceu em 20 de outubro de 1883, numa área rural do condado de York, no Nebraska. Dois irmãos aparecem na história do seu livro: John Caldwell Thiessen, que o editou, e Kate I. Thiessen, professora de ensino médio em Oklahoma, que datilografou o manuscrito inteiro. Aos 17 anos ele se converteu a Cristo e começou a falar do evangelho aos amigos.
O desejo de conhecer melhor as Escrituras o levou à Bible Training School de Fort Wayne, em Indiana, aberta em 1904 por líderes da Missionary Church Association, uma associação de igrejas de raízes anabatistas, pietistas e do movimento de santidade fundada em 1898. Depois de formado, Thiessen pastoreou em Ohio por sete anos e voltou à escola para lecionar em tempo integral, chegando a dirigi-la. Entre 1919 e 1922 também editou o periódico da associação.
Os estudos e o grego
Thiessen cursou o Northern Baptist Theological Seminary, em Chicago, dando aulas em meio período para pagar as despesas, passou pela Northwestern University, em Evanston, e fez estudos de pós-graduação no Southern Baptist Theological Seminary, em Louisville, com concentração em grego do Novo Testamento. Foi depois decano da faculdade de teologia do Evangel College, em Nova Jersey.
O grego ficou como uma das suas causas. Em 1934 ele defendeu na Bibliotheca Sacra que o grego do Novo Testamento fosse obrigatório na formação de pastores: uma disciplina eletiva mostra que, oficialmente, a escola não a considera indispensável. A quem abandonava a tradição só porque outros a abandonavam, lembrou que “nem tudo o que é novo é bom, e nem tudo o que é antigo é mau”.
Dallas
De 1931 a 1935, Thiessen foi professor de Literatura e Exegese do Novo Testamento no Dallas Theological Seminary. Nesse período escreveu na Bibliotheca Sacra uma série em três partes, “Will the Church Pass Through the Tribulation?” (1935), em que parte da inerrância, porque “o Espírito que inspirou a Bíblia não se contradiz”, e sustenta que a Igreja inteira será arrebatada antes da Tribulação, o juízo de Deus sobre um mundo que rejeitou a Cristo. Quando ele saiu, os colegas de Dallas lamentaram a perda.
Wheaton
Thiessen chegou a Wheaton em 1935 como professor de Bíblia e Filosofia e, cerca de um ano depois, Buswell o pôs na chefia do Departamento de Bíblia e Teologia. Em seguida veio uma oportunidade inesperada: o testamento de John Dickey deixou recursos para Wheaton com a condição de que um programa avançado de teologia começasse até seis meses depois da morte dele. Assim, em 1937, a faculdade ofereceu os seus primeiros cursos de pós-graduação, sob a direção de Thiessen, que escolheu Merrill C. Tenney como associado. No elogio fúnebre de Thiessen, o registrador de Wheaton, Enock Dyrness, o chamou de primeiro decano da escola de pós-graduação e aplicou a ele a frase de que uma instituição é “a sombra alongada de um homem”.
Em Wheaton ele ensinou teologia sistemática a partir de uma apostila mimeografada, An Outline of Lectures in Systematic Theology, que passou por três edições. Em 1941 publicou um estudo sobre o lugar de Israel em Romanos 9 a 11, em que defende que a rejeição de Israel é apenas parcial, e em 1943 a Eerdmans lançou a sua Introduction to the New Testament, que a Bibliotheca Sacra elogiou pela familiaridade do autor com a literatura antiga e moderna sobre o assunto e que foi reimpressa por décadas.
O caso Gordon Clark
Gordon H. Clark, professor de filosofia contratado por Buswell em 1936, era presbiteriano, calvinista convicto e defensor da teologia da aliança. Thiessen era dispensacionalista e se opunha à doutrina reformada da predestinação. Ele advertiu Buswell de que o “determinismo” de Clark faria “um mal grande, talvez permanente, a muitos dos jovens”.
Quando os curadores afastaram Buswell, em 1940, o novo presidente, V. Raymond Edman, seguiu a orientação de Thiessen: eliminou o curso de filosofia e proibiu Clark de ensinar a doutrina reformada. Clark negociou a sua saída em 1942 e deixou Wheaton no ano seguinte, rumo à Butler University. Um aluno da época descreveu o departamento de Bíblia sob Thiessen como “amargamente dogmático e autoritário”.
Los Angeles e a morte
A asma obrigou Thiessen a reduzir as aulas, e os médicos o aconselharam a procurar um clima mais quente. Em 1946 ele aceitou o convite para ser presidente e decano do Los Angeles Baptist Theological Seminary, e Tenney assumiu o departamento de Bíblia em Wheaton. O sermão de despedida, na Wheaton Bible Church, teve o título “Facing the Future with Christ” (“Encarando o futuro com Cristo”). Depois de várias cirurgias nasais, deixou o seminário no verão de 1947 e morreu em Los Angeles em 25 de julho daquele ano, aos 63 anos. O editorial da Bibliotheca Sacra o lembrou como um estudante e erudito “dos mais esmerados” e defensor da sã doutrina.
O livro póstumo
Quando morreu, Thiessen estava transformando as apostilas num livro de pelo menos seiscentas páginas. A viúva, Anna, pediu ao irmão dele, John Caldwell Thiessen, que concluísse o trabalho. Segundo o prefácio de John, o primeiro terço está exatamente como Henry o escreveu; o restante ele montou a partir das apostilas, seguindo o plano de capítulos deixado pelo irmão. A Eerdmans publicou a obra em 1949 com o título Introductory Lectures in Systematic Theology.
O livro virou texto de referência em institutos bíblicos e seminários. Em 1979, Vernon D. Doerksen, do Talbot Theological Seminary, preparou uma edição revista, Lectures in Systematic Theology, que reescreveu, entre outras, as seções sobre eleição e presciência: o capítulo da eleição passou a expor duas posições lado a lado e marcou numa nota a eleição pela presciência como “a posição sustentada por Thiessen”. A obra saiu em francês em 1987 e em português pela Imprensa Batista Regular, de São Paulo.
Pensamento
Um batista de quatro pontos
Thiessen pertence à classe dos batistas de livre-arbítrio de “quatro pontos”. Ele ensina a eleição condicional, a expiação universal, a incapacidade do pecador sem a graça e uma graça anterior à fé que pode ser resistida, mas mantém a segurança eterna do crente. Na prática, ele concorda com os quatro primeiros artigos da Remonstrância de 1610 e se afasta de Wesley e dos remonstrantes posteriores no quinto. O teólogo Bobby Grow, cujo pai usava o livro na Southwestern Bible College, chama esse arminianismo de “forma híbrida”, com uma doutrina forte da segurança eterna. Guy Duffield e Nathaniel Van Cleave se apoiam nele nos Fundamentos da Teologia Pentecostal (ver a biografia de Guy Duffield), e no Brasil Zacarias de Aguiar Severa recorre a ele para explicar a eleição no seu Manual de Teologia Sistemática.
A eleição pela presciência
Na edição de 1949, Thiessen define a eleição como o ato soberano de Deus, na graça, pelo qual ele “escolheu em Cristo Jesus para a salvação todos aqueles que ele previu que o aceitariam”. A eleição é soberana porque Deus “não tinha obrigação de eleger ninguém”, e é graça porque Deus escolheu pessoas que mereciam o contrário, e as escolheu “em Cristo” (Efésios 1:4), nos méritos de outro. Thiessen reconhece que a Bíblia não diz o que, na presciência de Deus, determina a escolha, mas, como ela insiste em que o ser humano é responsável por aceitar ou rejeitar a salvação, ele conclui que os eleitos são aqueles que Deus previu que responderiam ao evangelho.
O argumento central vem da doutrina dos decretos. Deus previu que o pecado entraria no universo sem decretá-lo de modo eficaz; da mesma forma, pode prever como as pessoas vão agir sem decretar como vão agir. A presciência não causa o que conhece. É a ordem da Declaração de Sentimentos de Jacó Armínio, que põe primeiro a designação de Cristo como Redentor e só depois a eleição de pessoas determinadas, segundo a presciência de quem creria (ver Os decretos de Deus e a predestinação).
Thiessen acrescenta o argumento da justiça: se Deus escolhesse alguns do meio da multidão culpada sem nada que os distinguisse dos outros, seria difícil não chamá-lo de parcial; ele só é verdadeiramente justo se faz a mesma provisão e a mesma oferta a todos. Aos textos preferidos dos calvinistas ele responde lendo a atração do Pai em João 6:44 junto com João 12:32: da cruz sai um poder que alcança todos, embora muitos continuem a resistir a ele. A escolha de Jacó em lugar de Esaú, em Romanos 9, trata de privilégio nacional, e não diretamente de salvação. Ver também A eleição condicional em Cristo e Presciência, eleição e predestinação.
A graça que vem antes
A eleição pela presciência não faz de Thiessen um otimista sobre a natureza humana. O pecador está “morto em delitos e pecados” e não pode fazer nada para obter a salvação. Pela graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana (Tito 2:11), Deus restaurou a todos uma capacidade suficiente para escolher submeter-se a ele. Essa graça age sobre a vontade antes que a pessoa se volte para Deus, e Thiessen insiste: “Não há mérito nessa transação; tudo vem de Deus”. Sem ela ninguém poderia ser salvo, mas ela não salva por si: torna a pessoa capaz de escolher a quem vai servir, e quem responde recebe de Deus o arrependimento e a fé (Atos 5:31; 2 Timóteo 2:25).
Até aqui ele está perto do arminianismo clássico, que afirma a incapacidade do pecador e a primazia da graça. A diferença é de acento: Thiessen põe a graça preveniente entre os benefícios da graça comum, ao lado da saúde e das estações, enquanto Armínio e Wesley a descrevem como graça sobrenatural, obra pessoal do Espírito Santo que vem de Cristo e liberta a vontade perdida. É assim que a declaração de fé deste site a apresenta.
Onde ele se afasta: a segurança eterna
No capítulo sobre a perseverança, Thiessen ensina que os que, pela fé, estão unidos a Cristo, justificados e regenerados, “nunca cairão total nem finalmente do estado de graça”. O crente pode se desviar, mas voltará antes do fim. As provas são o propósito de Deus (Romanos 8:29-39), a intercessão de Cristo (Hebreus 7:25), o poder de Deus para guardar (1 Pedro 1:5) e a regeneração, que dá vida eterna. Para ele, Judas nunca foi salvo, e Hebreus 6 e 10 descrevem pessoas envolvidas com a fé sem terem se convertido.
Aqui está a maior distância entre Thiessen e o arminianismo clássico. A Remonstrância deixou a questão em aberto, e Wesley e os remonstrantes posteriores afirmaram que o crente pode abandonar a fé. A declaração de fé deste site segue essa linha: a perseverança é condicional, e a Escritura exorta o crente a permanecer em Cristo como o ramo permanece na videira (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14). Ver A perseverança dos santos.
Dispensacionalismo e outras diferenças
Thiessen foi dispensacionalista e pré-tribulacionista, e o revisor de 1979 atribui em parte a essa abordagem a aceitação do livro. O site é amilenista e lê os mil anos de Apocalipse 20 como o tempo atual entre as duas vindas de Cristo. O manual também limita os meios de graça à Palavra e à oração, enquanto a declaração do site inclui a Ceia, o jejum e a conferência cristã. Na expiação, as Lectures defendem a substituição penal e rejeitam a teoria governamental, e nisso estão com Armínio, com Wesley e com o site.
O traço constante de Thiessen é manter juntas a soberania de Deus e a responsabilidade humana: Deus toma a iniciativa, o pecador não pode nada sem a graça, e o chamado do evangelho é sincero para todos.
Obras principais
- “Should New Testament Greek Be ‘Required’ in Our Ministerial Training Courses?”, Bibliotheca Sacra 91 (1934)
- “The Parable of the Nobleman and the Earthly Kingdom: Luke 19:11-27”, Bibliotheca Sacra 91 (1934)
- “Will the Church Pass Through the Tribulation?”, Bibliotheca Sacra 92 (1935), em três partes
- “The Place of Israel in the Scheme of Redemption as Set Forth in Romans 9-11”, Bibliotheca Sacra 98 (1941), em duas partes
- An Outline of Lectures in Systematic Theology (apostila mimeografada de Wheaton, três edições)
- Introduction to the New Testament (Eerdmans, 1943)
- Introductory Lectures in Systematic Theology (Eerdmans, 1949, póstuma, editada por John Caldwell Thiessen)
- Lectures in Systematic Theology (Eerdmans, 1979, edição revista por Vernon D. Doerksen)
Livros em português
- Palestras em Teologia Sistemática (Imprensa Batista Regular; edição de 2014 com o título Palestras introdutórias à teologia sistemática). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Wheaton College Archives & Special Collections, “Thiessen and Determinism’s cold and chilling effects”, Recollections, 23 nov. 2009, com base em Michael S. Hamilton, The Fundamentalist Harvard, e John W. Robbins, Clark: Personal Recollections.
- “Editorials”, Bibliotheca Sacra 104, n. 415 (jul. 1947), nota sobre a morte de Thiessen.
- “Thiessen, Henry C. (1884-1947)”, obituário da Mennonite Weekly Review (7 ago. 1947), MLA Biograph Wiki, Bethel College.
- Memorial de Henry Clarence Thiessen, Find a Grave.
- Douglas J. Douma, “An Introduction to the Life and Work of Gordon H. Clark”, 2018, sobre a saída de Clark de Wheaton.
- Henry Clarence Thiessen, artigos na Bibliotheca Sacra (1934-1941), Galaxie.
- Henry Clarence Thiessen, Introductory Lectures in Systematic Theology (Eerdmans, 1949) e Introduction to the New Testament (Eerdmans, 1943), Internet Archive.
- Henry Clarence Thiessen, Lectures in Systematic Theology, edição revista por Vernon D. Doerksen (Eerdmans, 1979), com os prefácios das duas edições e os capítulos sobre eleição e perseverança.
- Henry Clarence Thiessen, Esquisse de théologie biblique (Farel/Béthel, 1987), Internet Archive.
- Bobby Grow, “My Arminian Upbringing…”, 21 jun. 2011, com citações da edição de 1949 sobre a eleição.
- Editora Batista Regular, Palestras introdutórias à teologia sistemática.
- Missionary Church, Wikipédia, e Missionary Church, Global Anabaptist Mennonite Encyclopedia Online.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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